O meu irmão contou-me que a nossa mãe bateu na esposa dele, e nesse instante percebi logo que havia algo estranho.

Quando estava de férias, a minha mãe ligou-me. Estava aos prantos, completamente descontrolada. Não conseguia parar de chorar e tremia de tanta aflição. Desliguei e telefonei logo ao meu irmão, para perceber o que se passava. Só que ele respondeu-me com uma rispidez de meter medo, insistindo que perguntasse eu à mãe parecia que já sabia bem a origem da choradeira. Ainda rematou com um teve o que merecia, como quem se delicia com a própria justiça.
Eu fiquei num virote, claro! O meu marido e eu, mesmo sabendo o preço absurdo dos bilhetes, resolvemos pôr fim às férias e voltar a correr para Lisboa.
Ao chegarmos a casa, parecia que a tragédia ainda estava instalada: a minha mãe continuava desfeita, sem se acalmar. Lá lhe demos um chazinho de cidreira (uma espécie de “wodka” das nossas mães) para ver se apaziguava, e ela lá nos contou o episódio infeliz. Afinal, quando voltara do trabalho, deparou-se em casa com a nora cheia de nódoas negras. E, sabendo que ela estava grávida, o pânico foi a dobrar. Correu para ela, abraçou-a, fez aquela pergunta clássica de mãe portuguesa, O que te aconteceu, minha filha? Mal teve tempo de ouvir resposta: o meu irmão entrou, a esposa levantou-se num pulo e desatou aos berros, dizendo que a mãe dele a minha mãe! lhe batia e fazia a vida negra.
A mãe ficou ali, como quem leva com uma travessa de bacalhau à lagareiro em cima dos joelhos, sem perceber a mínima da cena. O meu irmão, a achar que a santa esposa só podia dizer a verdade, ficou num estado, expulsou a minha mãe de casa à velocidade com que alguém foge ao IMI. Mesmo depois, levou a mulher ao hospital, onde infelizmente perdeu o bebé. Tornou-se impossível uma conversa decente: ele bloqueou contactos, e ficou à bulha com a minha mãe, sem ouvir nem as explicações nem as tentativas de reconciliação. Mas eu, no fundo, sentia que a história tinha água no bico. Não larguei a mão à minha mãe, confiei nela como só as filhas Judite confiam nas Íneses.
Por sorte, a reviravolta veio de onde menos se espera: uma amiga da minha cunhada por sinal, pessoa decente, graças a Deus! veio contar-me a verdade. A cena tinha sido toda combinada pela minha cunhada, só para manipular o meu irmão e pôr a sogra no olho da rua. Pior: foi a própria cunhada que deu cabo da gravidez. Quando o meu irmão finalmente soube da tramóia, ficou fulminado, e lançou a esposa, malas e tudo, porta fora.
Depois, fez aquilo que só um filho português consegue: pediu desculpa à mãe até não ter mais palavras, de joelhos, com todo o repertório de remorsos.
E, claro, o coração de mãe tem sempre um compartimento secreto para perdoar tudo. No fim desta novela digna das tardes da RTP, a minha mãe recebeu-o de braços abertos porque, na verdade, amor de mãe é à prova de noras, plot-twists e até daqueles natais em Abril.

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O meu irmão contou-me que a nossa mãe bateu na esposa dele, e nesse instante percebi logo que havia algo estranho.
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