Sou filha única, dizem que muito esperada, mas sinto que nunca fui verdadeiramente acarinhada. Aos 23 anos, estando no quinto mês de gravidez, comecei a duvidar se seria mesmo filha biológica dos meus pais. Eles já têm mais de setenta anos, e a nossa situação financeira é desesperante. Vivemos num apartamento arrendado em Lisboa, a custo, sempre a fazer contas à vida. O meu marido e eu estudamos e trabalhamos, mas nem assim chega para todas as despesas. Já por duas vezes estivemos à beira de sermos despejados por falta de pagamento da renda e tivemos de pedir dinheiro emprestado a amigos. Com isto, estamos afogados em dívidas, mal temos para comer e nunca conseguimos respirar em paz. Por vezes, são mesmo os meus pais que nos ajudam com comida.
Os meus pais sempre insistiram muito para que casássemos, e, há um ano, sem pensar muito, fomos ao registo civil e casámo-nos. Logo depois, começaram a falar em netos. A minha mãe repetia vezes sem conta que tinha de ter um bebé, senão acabaria como ela, uma mãe já de idade. Mas nós sentíamos que não era a altura certa, ainda menos pela pressão financeira que um filho acarreta. Porém, os meus pais fizeram-nos uma proposta tentadora: se eu engravidasse, dariam uma quantia generosa em euros para comprarmos uma casa no interior. Eles mudavam-se para uma aldeia e nós ficaríamos com o nosso apartamento em Lisboa. Pensámos seriamente no assunto e achámos que poderia ser a nossa salvação. Acabaríamos com o problema da renda e, com o resto do dinheiro, poderíamos equilibrar as nossas contas. A minha mãe disse que tomaria conta do bebé enquanto eu continuasse os estudos.
Além disso, prometeram-nos apoio financeiro e ajuda nas despesas do enxoval e do bebé. Mas nenhuma promessa foi cumprida. Não compraram sequer uma fralda. A minha mãe ligava-me várias vezes durante a gravidez a perguntar se já tinha tudo pronto para o hospital, quando na verdade eu nem tinha dinheiro para bodies ou mantinhas. Sugeriu até que o meu marido arranjasse um terceiro emprego para conseguirmos pagar tudo. Quando lhe lembrava o apoio que tinham prometido, negava sempre já o ter dito e criticava-nos, acusando-nos de irresponsáveis.
Quando a minha filha nasceu, enfim, os meus pais lá mencionaram de novo o dinheiro, mas aí o meu marido e eu percebemos que só podíamos contar connosco. Decidimos comprar casa sozinhos, sem esperar mais promessas vãs. No fundo, acho que esta experiência tornou-me mais consciente do que realmente posso esperar dos outros e de mim própria.






