O meu vizinho desejou a minha mulher, e eu, ingénuo, achei que podia defender o amor e a honra com os punhos. Depois da prisão, das armadilhas, das traições, pensei que a vida me tinha destruído por completo, deixando só cinzas nos bolsos. Mas quando bati à porta do passado, atendeu-me um rapaz de dez anos com os meus olhos.
A história começou com um acontecimento discreto, quase impercetível, daqueles que parecem insignificantes mas acabam por espalhar fissuras profundas no destino. O jovem casal Duarte e Beatriz tinha finalmente conseguido comprar o seu apartamento num prédio novo em Coimbra. O entusiasmo era tão grande, afinal Beatriz estava grávida e sonhavam com um futuro sem nuvens. A casa, vazia, passou a ganhar vida com as mãos esforçadas de Duarte. Por ironia, foi então que precisou de uma berbequim e bateu à porta do vizinho.
O vizinho apresentou-se como Ricardo. Era um homem falador, expansivo, com aquele à-vontade meio descarado típico de alguns portugueses. Rapidamente se meteu à conversa, como se andasse há meses à espera daquele convite informal. O seu olhar, demorado e perscrutador sobre Beatriz, não me escapou.
Sempre pensei quem teria a sorte de conquistar tamanha beleza comentou ele, sem um pingo de vergonha, à minha frente. Do meu lado do prédio, vê-se bem o vosso terraço. Não havia de faltar pretendentes melhores.
Se Beatriz tivesse reagido com mal-estar, eu teria cortado logo aquele excesso de intimidade. Mas limitou-se a sorrir, algo atrapalhada, como se fosse apenas um elogio desastrado. Decidi não dar importância: Beatriz estava grávida, não precisava de mais preocupações. Talvez Ricardo fosse só daqueles que não têm noção do que dizem.
Porém, logo vi que estava enganado. Ricardo tornou-se visita frequente, trazendo sempre ramos de flores caros e chocolates importados que, para nós, eram luxo inalcançável. As visitas, que começaram espaçadas, tornaram-se rotina, cada vez mais intrusivas. A certo momento, durante um jantar, ultrapassou todos os limites:
Duarte, sê sensato, deixa-me ficar com a Beatriz. O que lhe podes oferecer tu? Poupanças, monotonia, preocupações? Ela nasceu para o brilho e o luxo. Comigo, será verdadeira joia.
A minha paciência rebentou de vez. Dominado por fúria cega, desfiz-lhe o sorriso vaidoso com um soco no rosto.
Depois disto, as visitas cessaram abruptamente. Beatriz, sem perceber o motivo, ficou indignada e magoada com a minha atitude. Não lhe contei as palavras nojentas de Ricardo por que a inquietar, estando tão próxima do parto? Fechei-me sobre mim mesmo, calando o peso do segredo. Talvez tenha sido a minha tristeza e isolamento que despertaram a atenção daquela desconhecida na Praça da República.
Desculpe, sabe indicar o caminho para a estação de comboios? perguntou ela, com um murmúrio nervoso e olhos ansiosos.
Criado por uma mãe que me ensinou a nunca negar ajuda, não consegui recusar. O percurso era complicado e, vendo-a perdida, decidi acompanhá-la. A rapariga, chamada Patrícia, entrou num tom de brincadeira, e na minha alma, seca de afeto, acendeu-se de novo aquele lampejo de importância. Conversámos, contei-lhe sobre o meu emprego, e nem reparei quando um tipo robusto saltou do beco.
A cena mudou num instante. O homem começou a agarrar Patrícia e a insultá-la. Interpus-me de imediato. Lembrei-me do despudor de Ricardo, e, sem pensar, dei-lhe um murro que o atirou contra a parede. Mal tive tempo de reagir e já dois polícias me apertavam os braços. Patrícia, a chorar, acusou-me de agressão. E, já na cela da esquadra, percebi que fora uma armadilha. E não restavam dúvidas de quem a teria montado.
Já não havia a quem explicar. A notícia da minha prisão arrasou a Beatriz, que entrou em trabalho de parto prematuro. Nasceu um rapaz. Mas eu nunca o vi: só me chegou à cela a carta formal do tribunal com o pedido de divórcio e o requerimento a ceder os direitos parentais ao novo marido de Beatriz o tal Ricardo. Numa noite perdi tudo, restando-me apenas vazio gelado.
Quando recuperei a liberdade, fiquei de frente ao portão da prisão sem saber para onde ir. Pensei em vingança, em recuperar o filho, em fazer Ricardo pagar. Mas o vento frio da rua apagou fantasias sombrias. Restava-me só um sopro de vontade de viver, nem sabia porquê.
Sem opções, comprei um bilhete de comboio para a vila natal, perto de Viseu, para casa da minha mãe. Aquele lugar era um depósito de dores antigas: ali, o meu pai pôs fim à vida, ali a mãe casou de novo e o padrasto dava pancada sem misericórdia. Mas não tinha outro rumo. O apartamento ficou para Beatriz, e a minha ficha criminal fechava-me todas as portas.
Ao chegar, a mãe recebeu-me em lágrimas. O padrasto, envelhecido e cansado, já não tinha a força de antes. Por momentos, acreditei que podia refazer-me ali. Mas a paz desapareceu assim que o velho se embebedou. Vieram insultos antigos, acusações, até que me revoltei. Em resposta, atacou a minha mãe. Chocado, pedi-lhe que o deixasse.
Não posso, meu filho soluçava ele, no fundo, é bom só não se sabe controlar quando bebe
As palavras dela soaram como sentença. Percebi que já não havia lugar para mim ali. A mãe, lavada em lágrimas, enfiou-me na mão o endereço da prima Maria do Porto, recém-casada e sempre a convidar-me. Mas nunca me senti próximo dela nem quis pesar na sua vida.
E os anos que se seguiram perderam-se num nevoeiro de estações de comboio, trabalhos miseráveis e noites frias. Senti o mundo como uma máquina indiferente a esmagar almas como a minha. E foi no auge do desespero que surgiu a Esperança.
No escritório onde fui a uma entrevista, não esperava nada. O meu ar extenuado falava por si. Mas Esperança uma mulher de olhar firme e mãos fortes analisou os meus papéis com curiosidade.
Vejo que és um homem de fibra, Duarte disse ela com convicção. A vida testou-te, mas encontras o caminho.
Aquilo soube a milagre. Ofereceram-me emprego e um quarto na residência da empresa. Na primeira semana, agradeci-lhe com uma caixa de bombons finos e um modesto ramo de flores. Ela interpretou o gesto como algo mais e, sem dar por isso, vi-me diante do altar.
Esperança não era uma beleza como Beatriz, mas via nisso uma vantagem: não atraía olhares, não acarretaria desgostos. Tinha um filho de outra relação, um miúdo de cinco anos. Apeguei-me ao pequeno Martim com toda a alma, decidido a ser o pai que nunca fui. Queria construir, finalmente, um porto seguro.
Só que esse porto revelou-se tempestuoso: Esperança era autoritária, intransigente, sempre a gritar, a insultar, exigindo trabalho sem tréguas. Só havia paz quando tudo lhe corria de feição. Era dura também com Martim, e eu, de cada vez, defendia o miúdo.
Martim foi o meu raio de sol. Pescávamos juntos, arranjávamos a bicicleta, passeávamos nos jardins da cidade. Mas Esperança via nisto apenas uma distração do dever ganhar dinheiro.
Num turno noturno no armazém conheci Helena. O rosto, o olhar, lembravam tanto Beatriz, mas nesta não havia vaidade ou ar de cálculo, só serenidade e bondade. Fui puxado para o seu carinho sem planeamento. Trair nunca foi ideia, mas o meu coração rendido não resistiu por mais tempo. Quis ser honesto, mas como largar Martim? E como enfrentar Esperança e os seus berros?
Helena ficou grávida. Atormentado pela culpa, contei tudo. Ao invés de fúria, Esperança lançou-se em choros e ameaças, jurando acabar consigo se saísse. Fiquei. Devia-lhe muito foi ela quem me deu mão.
Helena, com gentileza, entendeu tudo e não me recriminou. Prometi apoiar, mas assim que Esperança soube, obrigou-me a mudar de cidade. Nunca conheci também esse meu segundo filho. Primeiro trocámos uma ou outra carta, depois nem isso. O destino parecia estar sempre do lado dos outros: criava o filho de outro homem, mas os meus filhos tinham outros pais.
Vieram anos tristes e cinzentos. Trabalhei até à exaustão, arruinando a saúde. O hospital tornou-se quase casa. Esperança revoltava-se com a minha debilidade. O alívio veio quando a minha mãe telefonou: o padrasto morrera, ela estava no fim da vida. Desta vez, Esperança não pôde travar-me. Fui, fiquei a cuidar da mãe, que faleceu semanas depois. Pouco depois, papéis do divórcio chegaram por correio. Assinei-os com o sentimento de fechar mais um longo ciclo de abnegação.
Não suportava viver naquele lugar assombrado por tanto sofrimento. Decidi vender tudo e recomeçar. Então a prima Maria ligou: sabendo dos meus planos, sugeriu investir tudo numa casa para a família, na ideia de um lar grande. Cedendo à esperança, entreguei-lhe o valor da venda. Mas, ao chegar, percebi que tudo estava no nome dela e do marido, e pediram-me para sair. Nem forças tinha para discutir. Como favor, comprou-me um bilhete só de ida. Escolhi regressar a Coimbra, onde outrora fora feliz.
Esperei só saudade amarga. Hospedarias, filas para a sopa dos pobres, a saúde de rastos. Um médico do hospital olhou-me de cima a baixo e disse:
Ó homem, ainda é novo! Tem muito para dar! Porquê baixar os braços?
Mas para quê? Então, como um relâmpago, entendi: pelos meus filhos. Não podia mudar o passado, mas ainda podia tentar remediar algo.
Decidi procurar o meu filho mais velho. Sozinho não seria possível. O médico sugeriu um conhecido programa de televisão de procura de pessoas. Telefonei. Uma semana depois, ligaram-me: tinham encontrado o meu filho e ele aceitava encontrar-se comigo.
O nervosismo quase me sufocava. Preparei-me como pude, mas os anos tinham deixado marca. O filho, chamado Francisco, chegou num carro estrangeiro luxuoso. Era a imagem de Ricardo: o mesmo olhar altivo.
O que queres, dinheiro? foram as primeiras palavras, frias.
Quase perdi as palavras.
Não só queria ver-te, saber como estás.
Não temos nada para conversar. Tenho um pai, o único. Foi ele quem me criou e é meu exemplo. Não preciso de outro. A mãe contou-me tudo quando precisei de dar autorização para uma operação. Por favor, deixa-me em paz.
No fim, tentou enfiar-me umas notas na mão. Rejeitei. Aquela dor no peito era física. O que esperava? Éramos de facto estranhos, separados por anos de silêncio. Então lembrei-me de Martim. O rapaz devia já estar na universidade. Esperança, em tempos, proibiu-me qualquer contacto, mas agora não havia mais barreiras.
A chamada foi ainda mais dura. Do outro lado, ouvi um tom frio e magoado.
Abandonaste-nos. Foste embora e apagaste-nos da tua vida. A mãe contou-nos. És um estranho. Não voltes a ligar.
Só me restava Helena. Tinha receio de a maçar, mas precisava de saber algo do segundo filho. Decidi apenas saber se ainda viviam no mesmo sítio. Se não encontrasse ninguém, resignava-me.
Aproximando-me do prédio onde, em tempos, entrei de fininho, as pernas fraquejavam. Medo, vergonha, ténue esperança, tudo junto. A porta foi aberta por um rapaz de dez anos, com um olhar cinzento e sério.
Está alguém? perguntou, olhando para a cozinha, de onde vinha o barulho da loiça.
Helena, quem é? ouvi uma voz querida e familiar.
Paralisei. Era a voz dela.
Está aqui um senhor respondeu o rapaz.
Mas não conseguia desviar os olhos dele reconhecia traços meus e de Helena naquele rosto de criança.
Apareceu ela à porta da cozinha. Mudada, com cabelos já grisalhos, simples e serena. Nas mãos, trazia um frasco de doce. Ao ver-me, ficou petrificada. O frasco caiu no chão, espalhando o vermelho-vivo de doce de cereja pelos azulejos.
Duarte murmurou.
Sem pensar, ela avançou por cima dos cacos e abraçou-me forte, sem ligar ao meu casaco gasto nem ao cheiro do pó dos caminhos.
Procurei-te tantos anos Onde estiveste tu? Não digas nada agora, depois contas-me. Tens fome? Olha, este é o teu filho. Duarte. Sempre lhe mostrei a tua fotografia, sabes? Não é, filho?
O rapaz, de olhos muito abertos, assentiu, sem tirar os olhos de mim. Ainda entrelaçado nos braços de Helena, estendi a mão ao meu filho. A minha voz tremia, cheia de emoção e, finalmente, de verdadeira alegria.
Olá, filho. Perdoa-me por não ter vindo antes.
E naquele instante, entre os cacos e as poças doces sobre os azulejos, encontrei o que procurei durante uma vida inteira marcada pelo infortúnio. Não justificações, não perdão apenas um lar. Um lar que me esperava. Um lugar para regressar.





