- Espere, – disse ele.

Espere, disse ele. Saí da minha carruagem um instante na sua estação e, ao voltar, as minhas coisas já tinham desaparecido. Olhei pela janela e vi um homem a caminhar com a minha mala. Saltei atrás dele, mas desapareceu numa rua E por que não entrou de volta no vagão para resolver? perguntou Madalena. Enquanto procurava o ladrão, o comboio já partiu

Madalena regressava cansada do trabalho. Era empregada numa pequena floricultura no coração da cidade de Lisboa. Os clientes eram sempre muitos, sobretudo antes do Natal

O frio era intenso, a neve caía todos os dias. Madalena avançava pela calçada, enrolada no seu casaco de plumão quente.

Nem sequer conseguiu sentar um momento. Enquanto caminhava, sonhava em chegar a casa e deitar-se imediatamente.

Absorvida nos pensamentos, nem reparou quando um desconhecido aproximouse. Parou e fitouo.

Era um homem de quarenta anos, vestido de forma curiosa. Madalena deu um passo para o lado, tentando evitálo.

Desculpe, pode ajudarme? interrompeu o estranho.

Ela ficou surpresa.

Eu o homem balançou a cabeça e fechou os olhos por um instante. Viajava de comboio para a minha filha. E então isto aconteceu

O homem fez uma pausa e lançou um olhar triste a Madalena. Ela tentou contornálo outra vez.

Espere, disse ele. Saí da minha carruagem na sua estação e, quando voltei, as minhas coisas tinham desaparecido. Olhei pela janela e vi um homem a levar a minha mala. Corri atrás, mas ele já se tinha perdido

E por que não voltou ao vagão para resolver? indagou Madalena.

Enquanto procurava o ladrão, o comboio já partiu

Então devia ter pedido ajuda a alguém, Madalena começou a ficar impaciente.

Eu procurei por todos os lados. Disseramme esperar. O próximo comboio só chega dentro de algumas horas. Não queria ficar à espera na estação. Na minha mala havia tudo roupa, documentos, dinheiro precisava de me lavar e aquecer Eu devolvo tudo, prometo implorou o homem, fitandoa com esperança.

E os números da sua casa? contestou Madalena, irritada.

Também preciso de um sítio para ficar. Todos me evitam. Por que ninguém acredita em mim? ele ergueu o olhar ao céu, e Madalena sentiu pena.

Ela avaliou o homem atentamente. O vestuário era esparso, mas talvez os pertences realmente estivessem na mala. Falava e comportavase de forma coerente.

Muito bem. Venha comigo, senão vai ficar ainda mais frio. Vou arranjar algo com as roupas.

Obrigado. É muito bom da sua parte. Ninguém mais se deu ao trabalho de me escutar respondeu ele, seguindoa.

Entraram no pequeno apartamento que Madalena dividia com a mãe. Ela sentouse numa cadeira no corredor, exausta e ansiosa por repousar.

Vá ao banheiro apontou Madalena, indicando a porta estreita do corredor. Enquanto isso, procuro a sua roupa. Qual o seu nome, aliás?

Miguel respondeu ele, fechando a porta do banheiro e procurando o interruptor.

Logo ouviuse a água a correr. Madalena suspirou, percebendo que teria de adiar o seu descanso.

Não tem problema, ainda não estou sem recursos murmurou, lembrandose de que o irmão morava em Braga e ainda guardava algumas roupas.

Ela recolheu o que precisava, bateu à porta e, quando o barulho cessou, informou Miguel de que a roupa estava no aparador do corredor.

Serviu uma sopa no prato, colocou no microondas para aquecer e sentouse na cadeira, a mente a vaguear. Se a mãe chegasse agora, poderia entender tudo errado. E se alguém a visse a aquecer a comida enquanto Miguel se lavava?

Senhor, espero que a mãe esteja ocupada no mercado ou com as amigas rezou silenciosamente.

Mas o destino não lhe respondeu. O cadeado da porta estalou.

Tiago, já chegaste? chamou a mãe, e Madalena apareceu na cozinha. Pensei que eras tu, na casa de banho. Quem está lá dentro então? a mãe franziu o olhar, examinando a filha.

Mãe, não grites. O homem chegou atrasado do comboio. Vai limparse e partirse tentou Madalena suavizar a situação.

Já lhe preparaste a roupa do teu filho? O que se passou? indagou a mãe, perplexa.

Disselhe que o comboio já tinha partido. As coisas desapareceram.

Por Deus. E ainda o levaste para casa? Nem o conheces! Por que não esperaste? Cheguei a tempo de ainda poder ligar para alguém? a mãe se agitou.

Mãe, não faça perguntas inúteis. Ele já esteve em todos os lugares. Ainda há tempo de esperar o comboio. Vai limparse e vaise repetiu Madalena, mais baixa.

O som da água desapareceu. As portas abriram e fecharam novamente.

Levou a roupa concluiu Madalena.

A mãe sentouse de frente para a porta, aguardando.

Logo, Miguel entrou na cozinha, cumprimentouse com timidez e culpabilidade. Madalena percebeu que ele tinha ouvido a conversa.

Diga lá. Como é que um homem forte e saudável pode ficar nesta situação? perguntou a mãe, encarandoo nos olhos.

Peço perdão por me intrometer. Iba ao casamento da minha filha em Lisboa e, de repente, fiquei sem telefone, documentos, nem dinheiro explicou Miguel, gesticulando.

E como é que chegou a nós? Não vivemos perto da estação questionou a mãe.

Mãe! Deixeo comer. Por que tanto interrogatório? exclamou Madalena, irritada. Sentemse à mesa, Miguel, a sopa está quente.

Quando eu era menina, recolhia gatinhos e cachorrinhos nas ruas. Agora trago homens para casa recuou, abrindo espaço na mesa.

Coma, Miguel. Mas tenha cuidado. Se a minha mãe gostar de si, talvez não queira ir embora disse Madalena, com um leve tom de sarcasmo.

Passas o dia todo no trabalho, sem vida pessoal. Já tens quase trinta; está na hora de casar. Como não me preocupo se não estás comprometida comigo? respondeu a mãe, provocando.

Mãe, calese. Miguel talvez pense que o vamos arranjar brincou Madalena.

Não se preocupe, acalmouo a filha.

Ah, deixemnos a mãe abanou a mão e foi para o quarto.

Tens uma mãe séria, comentou Miguel, colocando o prato na mesa.

Ela criounos sozinha, eu também me preocupo em ficar sozinha com a criança, como ela fez explicou Madalena.

Entendo. E onde trabalha?

Na floricultura. E como vai comprar um bilhete sem passaporte e sem dinheiro? perguntou Madalena, curiosa.

Prometeramme ajuda. Posso usar o telefone? Quero chamar a filha e dizer que não chegarei ao casamento, e também o amigo

Agora, respondeu Madalena, indo ao quarto.

Mãe, o que fazes? a mãe, naquele instante, tirou da caixa um anel de ouro e bijuterias.

Calate repreendeu a mãe. Se ele Não sei quem Levoa à tia Marta e saiu para o corredor.

Madalena não tentou impedir; seria inútil.

Deu o telemóvel a Miguel, sentandose junto à janela.

Miguel ligou para a filha; o rosto da menina mostrava desânimo ao saber que o pai não viria ao casamento.

Depois ligou para outra pessoa e pediu o endereço da casa.

Agora, um motorista vem buscarme. Não devia ter vindo de todo. A esposa não quis que eu encontrasse o novo marido, então a filha convidoume. Foi tudo em vão desabafou Miguel.

E quem é você, se o motorista está a chegar? perguntou Madalena, surpresa.

Miguel começava a agradara. Vestido com a roupa do irmão, parecia decente, ainda que pequeno.

Eu e um amigo temos uma pequena empresa de reparação de eletrodomésticos. É um negócio conjunto. O amigo desencorajounos a viajar de carro; dizia que não conhecemos Lisboa e que no casamento não seria adequado.

Então tomou o comboio. Melhor teria sido o avião. «Tenha paciência, ainda faltam algumas horas e eu parto», persuadiuse a si mesmo e a Madalena.

Madalena observava Miguel e pensava que a mãe tinha razão. Se ela chegasse a casa do trabalho e fosse recebida por um homem, as crianças o esperariam. A vida teria sentido. Ela quase completava trinta, ainda vivia com a mãe e não via futuro.

Já houve Leonor, um amor de juventude que terminou antes do casamento. Uma vez, ela chegou à casa dele e encontrouo com a amiga; perdeu o noivo e a amiga.

Você é boa. Vai ficar tudo bem disse Miguel de repente, interrompendo as reflexões dela.

E você? Por que está sozinho, se tem tudo? perguntou ela. Até empresa tem.

Ah, percebi que fui ao casamento sozinho. E ainda é inteligente. Não correu bem. Divorciado. Não tive sorte como a sua. As mulheres de hoje são cautelosas, os homens iguais. Você chegou cansada do trabalho, e eu não lhe dei descanso. Desculpeme por incomodar.

Conversaram ainda por muito tempo. Fora, escurecia quando o telemóvel soou.

Sou eu. O Sónho deve ter chegado desculpouse Miguel, a segurar o telefone de Madalena.

Vai partir e nunca mais o verei. Os dias monótonos voltarão pensou ela.

Aqui está o carro, está na rua. Muito obrigada Miguel pousou o telemóvel na mesa e levantouse.

Anotei o meu número. Para que não me procure, já me anotaram como Miguel do comboio. Acho que não me vai ligar disse, encarandoa.

E se precisar de ajuda, pode sempre contar comigo. Mais uma vez, muito obrigado. Devolverei a roupa, não se preocupe. Peçame desculpa à sua mãe. Ela pensou que eu fosse alguém perigoso Miguel falou com olhos tristes, e Madalena quase chorou.

Um estranho apareceu na sua porta, mas ela não queria que ele fosse embora. Quem era ela? Quem era ele? Madalena sorriu.

Não se meta em situações assim novamente.

Não. Daqui para a frente, só viajo de carro ou avião. Nunca mais comboio brincou Miguel.

Madalena observou, nas sombras geladas do inverno, Miguel sair do prédio, parar ao carro, acenar pela janela.

É isso. Amanhã talvez nem se lembrem de mim

Libertouse? perguntou a mãe ao voltar.

Então, por que trouxeo para casa e depois pergunta se devo libertálo? Madalena tentou não mostrar a mágoa.

Ele é um bom homem, dá para ver.

E por que correu a esconder a bijuteria?

Porque fui insensata suspirou a mãe.

Três semanas depois, na véspera de Ano Novo, Madalena achava que Miguel era apenas um sonho.

Trabalhava no dia 31 de dezembro. O proprietário pedia desculpas, mas prometia ajudar pessoalmente, pois os clientes seriam poucos.

Madalena olhou pela janela e viu, perto da loja, um autêntico Pai Natal.

Ele gritava para os transeuntes, distribuía doces e caminhava direto para a loja.

As portas abriram e apareceu o homem, vestindo um casaco vermelho bordado, gorro, barba branca e um grande saco no ombro.

Conversava com o dono da loja, e a voz lhe pareceu familiar.

Finalmente, o Pai Natal aproximouse.

Sabia que trabalha aqui, decidi surpreenderse e animarse. Gostou? Miguel, cheio de esperança, olhoua.

Gostei riu Madalena.

Vejo que hoje terei que trabalhar sozinho resmungou o dono, exagerando. Vá, Madalena, vá para casa com o Pai Natal. Eu dou conta do que resta. Aproveite a vida.

Madalena não precisou de persuadirse.

Um mês depois, deixou o emprego e mudouse para Braga, para ficar perto de Miguel

A mãe ficou feliz.

Arranjaste uma vida para a filha, agora pode descansar. Um dia os filhos também virão. Quem mais pode ajudar senão a avó?

Costumase chamar de destino tudo o que é mau, e de sorte tudo o que é bom. Na verdade, um não vem sem o outro.

**Lição:** Na vida, a solidariedade inesperada pode surgir nos momentos mais duros; basta abrirse para recebêla e aprender que a ajuda mútua é o que realmente nos faz seguir em frente.

Оцініть статтю
Додати коментар

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

seven + 11 =