No divórcio, a esposa disse: «Leva tudo contigo!» — e um ano depois o marido arrependeu-se de ter acreditado Quando Natália deu os papéis na tranquilidade do cartório, ninguém esperava. “Fica com tudo: o apartamento, a casa de praia na Costa da Caparica, o carro, as contas — não quero nada”, disse firme ao Vladimir. Ele pensou ter ganho a sorte grande. Um ano e muitos problemas depois, descobria que quem ficou realmente livre — e feliz — foi ela.

Margarida olhava para os papéis de divórcio com um ar sereno. Estranhamente, não sentia rancor algum.

Então é isto, decidiste mesmo? Rui fitava a esposa com irritação mal disfarçada. E agora? Como é, vamos dividir tudo?

Margarida ergueu o olhar. Não havia lágrimas, nem súplicas, apenas uma determinação calma que viera depois de mais uma noite em claro, a pensar na vida que nunca chegara a ser dela.

Fica com tudo, disse baixinho, mas com firmeza.

Tudo como assim? Rui franziu o sobrolho, desconfiado.

A casa, o apartamento na Figueira da Foz, o carro, as contas bancárias. Tudo. ela fez um gesto indicando tudo à volta. Não quero nada.

Estás a brincar? ele torceu um sorriso. Isto é algum truque de mulher?

Não, Rui. Nem brincadeira, nem truque. Trinta anos pus a minha vida em pausa. Foram três décadas a lavar, a cozinhar, a limpar, a esperar. Trinta anos a ouvir que viajar era desperdício de dinheiro, que os meus passatempos eram tolices, que os meus sonhos eram inúteis. Sabes quantas vezes quis ir ao Algarve? Vinte e uma. E fomos quantas? Três. E até nessas apenas ouvi que era caro e desnecessário.

Rui encolheu os ombros com desdém.

Lá estás tu outra vez. Tivemos um tecto, comida na mesa

É verdade, assentiu Margarida. Agora, vais ter tudo o resto. Parabéns, ganhaste.

O advogado observava tudo, atónito. Tanta vez assistira a choro, discussões, exigências raivosas. E aquela mulher abdicava de tudo, sem luta.

Tem a certeza do que está a fazer? perguntou-lhe baixinho. Por lei tem direito a metade dos bens.

Sei disso, sorriu Margarida, leve, como se se livrasse de um peso invisível. Também percebo que metade duma vida vazia é só uma vida vazia mais pequena.

Rui mal escondia o júbilo. Não esperava tamanha reviravolta. Tinha-se preparado para negociar, para ameaçar, manipular. Mas isto era um presente dos deuses!

Assim é que se fala! bateu com a mão na mesa. Finalmente usaste o bom senso.

Não confundas bom senso com liberdade, disse-lhe Margarida, assinando os papéis.

No regresso, iam no mesmo carro, mas cada um no seu mundo.

Rui murmurava baixinho, talvez o hino do Benfica ou uma canção antiga. O carro rolava suave pelas lombas e, com isso, o seu assobio subia e desaparecia no ar.

Margarida não o ouvia. Estava longe, absorta na janela, vendo os pinheiros e eucaliptos passarem, com o peito leve, como uma ave antes do primeiro voo.

Estranho, pensou: uma estrada banal, um fim de dia cansado e de repente aquele espaço novo dentro de si. Como se todo o peso de anos tivesse evaporado. Sorriu, tocando na face, e percebeu: é isto, é liberdade.

Basta um instante, um relance pela janela e as cores da vida esquecida voltam a surgir.

Três semanas depois, Margarida estava num pequeno quarto arrendado em Setúbal.

A casa era modesta: cama, roupeiro, uma mesa e um pequeno televisor. No parapeito, duas violetas que fora comprar para celebrar a liberdade.

Perdestes o juízo, mãe dizia à distância Artur, o seu filho, ao telefone, irritado. Abandonaste tudo para vires para essa terra?

Não abandonei, filho, deixei para trás. Não é a mesma coisa.

O pai diz que lhe deste tudo de livre vontade. Agora até pensa vender o apartamento da praia, diz que só dá trabalho.

Margarida sorriu ao espelho. Ia há dias com um novo corte de cabelo, atrevido, que nunca teria feito com Rui: Tão moderno, tão pouco sério, o que vão pensar? recordava-se.

Que venda, disse tranquilamente. O teu pai sempre soube gerir os bens à maneira dele.

Mas e tu? Ficaste sem nada!

Guardei o mais importante, Artur: tenho a minha vida, e espanta-me perceber que aos cinquenta e nove se pode começar tudo de novo.

Arranjou emprego como recepcionista num lar pequeno de idosos. A rotina era exigente, mas interessante. Sobretudo, conhecera novas pessoas e, pela primeira vez, geria o próprio tempo.

Entretanto, Rui embriagava-se com a vitória.

As duas primeiras semanas passeava-se pela casa como dono de uma mansão, saboreando o sentimento de conquista total. Ninguém a reclamar das meias espalhadas, da loiça por lavar.

És um sortudo, Rui, dizia-lhe o amigo Celestino, entre goles de bagaço na cozinha. Outros homens perdem metade, alguns até mais. Tu ficaste com tudo! Casa, praia, carro, tudo!

Pois é, respondia Rui, inchado de orgulho. Finalmente a Margarida teve juízo. Viu-se logo que sem mim não ia aguentar.

Mas passado um mês, a euforia deu lugar aos primeiros dissabores.

As camisas limpas deixaram de aparecer sozinhas no armário. O frigorífico ficou vazio e cozinhar um almoço decente revelou-se bem mais difícil que parecia. No emprego, os colegas notavam que Rui já não vinha tão asseado como antes.

Andas abatido, Rui, comentou o chefe. Está tudo bem lá por casa?

Melhor que nunca, respondia, forçado. Só estou a reorganizar a rotina doméstica.

Numa dessas noites, ao abrir o frigorífico, encontrou apenas um pacote de manteiga, umas fatias de fiambre e uma garrafa de água. O estômago rugiu, apenas lembrando a sandes básica do pequeno-almoço.

Raios partam isto murmurou, batendo a porta do frigorífico, irritado. Assim não dá. Tenho que fazer algo.

Encomendou comida, claro. Enquanto esperava pelo estafeta, analisava a pilha de contas atrasadas. E ali, as cifras caíram-lhe como um balde de água fria: luz, água, gás, internet

Antes tudo lhe parecia longe, quase automático. Quando há alguém ao lado, a vida doméstica corre, nem notas os gastos. Só vives.

Tocou o campainha, interrompendo os pensamentos. O estafeta aproximou o terminal.

São dez euros e cinquenta, disse sem emoção.

Quanto?! Rui sobressaltou-se, quase deixando cair as moedas. Por um prato e uma água?

É o preço normal agora, senhor, encolheu os ombros o mensageiro, habituado àquela surpresa.

Pagou em silêncio, voltou à cozinha vazia. Só se ouvia o zumbido do frigorífico, quase triste. A casa era grande, cheia das coisas sonhadas Mas agora parecia só uma sala fria e vazia, pronta para o eco do vento ou da alma de Rui.

Margarida, por sua vez, estava de pés no areal dourado da Nazaré, rosto ao vento de maresia e sol.

Ao redor, um grupo animado de reformados portugueses uma semana organizada pelo clube sénior local. Por primeira vez viajava sem ouvir que desperdício de dinheiro, sem reclamações, sem contas de cabeça.

Margarida, vem aqui para a foto! chamou Zita, viúva energética, conhecida na aula de pintura.

Margarida correu, rindo, para se juntar ao grupo. Quem diria, pensou, que sentia tão leve num vestido florido, de cabelos soltos e um sorriso aceso?

Agora selfies! ordenou Zita, pegando no bastão do telemóvel. Vai já para o Facebook!

Nessa noite, Margarida contemplou as fotos tiradas. Nelas via uma mulher de olhos vivos, sorriso verdadeiro quase não se reconhecia. Onde tinha ido parar aquela ruga teimosa? E os ombros direitos, a leveza dos movimentos?

Vou publicar, pensou ela, postando as imagens no perfil quase esquecido.

Em Lisboa, Rui combatia uma fuga de água na cozinha. O chão alagado, os armários estragados e o canalizador informado: precisava trocar todo o cano.

Mas que raio resmungou Rui, limpando a água com panos velhos. Margarida sempre sabia a quem ligar.

Percebeu então, frustrado, que ela memorizara dezenas de contactos: canalizador, cabeleireira, merceeiro, sapateiro O delicado equilíbrio da casa desabou de repente, deixando-o só com problemas que antes se resolviam por magia.

Maldita canalização! praguejou, atirando o pano. Tudo por arranjar, cozinhar, lavar, e ainda o trabalho!

No fim daquele dia, com o chão enfim seco, Rui lembrou-se de espreitar as redes sociais. Por tédio, começou a passar no ecrã e congelou ao ver o rosto de Margarida, radiante, junto ao mar. De vestido alegre, cabelo curto, um ar de felicidade inquestionável.

Que história é esta resmungou, ampliando a imagem. Ela saiu daqui sem nada!

Os comentários confundiam-no ainda mais:

Estás giríssima, Margarida!

A praia faz-te bem, amiga!

Continuou a ver o perfil. Mais fotos: tertúlias na biblioteca, grupo de pintura no jardim; Margarida num banco de jardim, flores silvestres ao colo.

Isto não faz sentido largou o telemóvel, fitando a cozinha deserta. Ela ela devia

Não concluiu a frase. Percebeu, finalmente, que sempre assumira que Margarida sofreria sem ele, sem as posses materiais. Mas aquelas fotos mostravam outra mulher rejuvenescida, leve, inteira.

Poucos dias depois, a casa na Figueira teve um problema na cobertura. Uma tempestade aproximava-se e Rui, aflito, queria proteger o sótão.

Celestino, ajuda-me! implorou ao telefone. Traz pelo menos pregos, sozinho não dou conta.

Não posso, Rui, respondeu o amigo. A minha sogra está doente. E porque não chamas a Margarida? Ela sempre te ajudava antes.

Ela hesitou Rui. Ela foi-se embora.

Como assim, foi-se embora? Para onde?

Foi só, sumiu. cortou Rui. Olha, desenrasco-me.

Mas desenrascar era difícil. Debaixo de chuva, tentava segurar a lona, mas escorregou e caiu, sentindo uma dor aguda no tornozelo.

Entorse, tem sorte, disse o médico jovem nas urgências. Descanso uma semana, perna em cima.

Uma semana? E quem trata do telhado? Tenho tudo a gotejar!

São problemas seus respondeu o médico com indiferença. Chame a esposa, aproveite para descansar.

Rui quis responder mas calou-se.

Três dias, ficou só, mancando pela casa. A comida acabara, e pedir refeições era caro. Cozinhar de muletas era missão impossível.

O quarto dia sucumbiu e ligou ao filho.

Artur, tudo bem? tentou soar bem disposto. Como vai isso?

Vai bem, pai, o tom do filho era cauteloso. Passa-se algo?

Não, só uma lesão, perna Não podias cá passar, ajudar o teu velho?

Silêncio do outro lado.

Desculpa, pai, estou em Braga em trabalho. Volto só dentro de uns dias.

Ah, está bem engoliu em seco. Hei de me arranjar.

E já ligaste à mãe? Podia ajudar.

Não! cortou Rui. Para quê? Eu desenrasco-me, sempre desenrasquei.

Desligou. Um orgulho parvo não o deixava admitir que sentia falta de Margarida, do cuidado, da presença. Percebeu quanto ela fazia, tão invisível e sem cobrança.

Quase duas semanas depois, conseguiu andar sem canadianas. Foi logo ver os estragos na casa de praia. O cenário era desolador manchas de bolor no sótão, sofá arruinado, cheiro a humidade.

Que desgraça murmura, sentando-se no jardim.

As macieiras, que Margarida sempre cuidou, estavam fechadas em ervas altas. Os caminhos de pedra quase desaparecidos. Todo o jardim parecia órfão.

No regresso, parou numa tasca à beira da estrada. Cansado, pediu sopa e sumo. A primeira colher bateu-lhe forte: aquela sopa não era como a de Margarida, era ácida e sem sabor.

Está tudo bem, senhor? perguntou a empregada.

Está, está não encontrou palavras. Como explicar que uma simples sopa fazia doer tanto?

Em casa, ficou sentado horas, a olhar fotografias antigas. Ali estavam, ele e Margarida, jovens no miradouro da Sé. No meio, Artur pequeno. O dia das bodas de prata

Que parvoíce a minha sussurrou, olhando o sorriso da mulher.

Ganhou coragem e mandou uma mensagem. Mas a resposta jamais foi a imaginada.

Margarida vivia agora numa vila à beira-mar. O riso de novos amigos, música e a verdadeira vida, por fim, eram sua.

Quase aos sessenta, Margarida começou realmente a viver.

Оцініть статтю
Додати коментар

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

fifteen + twenty =

No divórcio, a esposa disse: «Leva tudo contigo!» — e um ano depois o marido arrependeu-se de ter acreditado Quando Natália deu os papéis na tranquilidade do cartório, ninguém esperava. “Fica com tudo: o apartamento, a casa de praia na Costa da Caparica, o carro, as contas — não quero nada”, disse firme ao Vladimir. Ele pensou ter ganho a sorte grande. Um ano e muitos problemas depois, descobria que quem ficou realmente livre — e feliz — foi ela.
Вълци в гората