“À medida que envelhecemos, ficamos cada vez mais preguiçosos para tomar banho.” – sobre a minha conversa com uma senhora portuguesa de 70 anos

À medida que a idade chega, a preguiça para tomar banho parece crescer junto com as rugas…

Esta é uma história que escuto frequentemente enquanto espero na pastelaria pelo meu café e bola de Berlim.

Não costumo discordar, apenas conto com um sorriso maroto.

De facto, envelhecer exige esforço extra até para coisas básicas: sair da cama sem barulho de ossos, atacar mais uma ronda de escovadela de dentes, preparar um pequeno-almoço digno e pôr as meias certas. E, claro, lavar a roupa. Somos mestres da preguiça, mas não é por falta de talento é mesmo porque não apetece.

Contudo, existem normas e regras que não desaparecem mesmo se fingirmos que não as vemos. Não podemos simplesmente ignorar o banho, a escovagem dos dentes, a lavagem da cara ou das roupas. Porquê? Porque vivemos numa sociedade que não aprecia aromas naturais de três semanas de maratona.

Não é preciso ter a última tendência da moda em cima. Importa é que a roupa esteja limpa, sem cheirinho a festival do suor, sem aquela aura suspeita de quem não larga o casaco há duas luas. Podemos ter cabelos brancos, que afinal gastar a reforma em tintas é um exagero. Só que um shampoo barato resolve muito. Por isso, sim, o cabelo merece ser lavado. O mesmo vale para a cara. No fundo, maquilhagem não é recomendada depois dos setenta mas uma lavadela é sempre bem-vinda, não é?

Nas mãos, um creme hidratante do supermercado resolve. Debaixo dos braços, o desodorizante mais económico faz milagres. Nos sapatos, bicabornato e fé: é o santo que tira maus cheiros, incomparável. E, se o corpo decidir mandar aromas desagradáveis, há sempre essa maravilha da cozinha: é a solução das tias.

Pensando bem, não tem muito segredo. Adoramos justificar a preguiça e os aromas exóticos com os dramas da idade, da reforma ou da carteira vazia. Mas, para ser limpo, não é preciso um subsídio milionário em euros.

Por isso, seja qual for a idade, há que manter o mínimo de dignidade e respeito por nós próprios. É o conselho da Alzira, minha vizinha e, confesso, também meu.

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“À medida que envelhecemos, ficamos cada vez mais preguiçosos para tomar banho.” – sobre a minha conversa com uma senhora portuguesa de 70 anos
Ainda hoje, às vezes acordo no meio da noite e me pergunto quando foi que o meu pai conseguiu tirar-nos tudo. Eu tinha 15 anos quando aconteceu. Vivíamos numa casa pequena, mas cuidada – com móveis, o frigorífico cheio nos dias de compras e as contas quase sempre pagas a tempo. Andava no 10.º ano e a minha única preocupação era passar a Matemática e juntar dinheiro para uns ténis que tanto queria. Tudo começou a mudar quando o meu pai começou a chegar cada vez mais tarde a casa. Entrava sem cumprimentar, atirava as chaves para cima da mesa e ia direto para o quarto com o telemóvel na mão. A minha mãe dizia-lhe: — Outra vez atrasado? Achas que esta casa se aguenta sozinha? E ele respondia seco: — Deixa-me, estou cansado. Eu ouvia tudo do meu quarto, com auscultadores nos ouvidos, fingindo que nada se passava. Uma noite vi-o falar ao telemóvel no quintal. Ria-se baixinho, dizia coisas como “está quase pronto” e “calma, eu trato do assunto”. Quando me viu, desligou logo. Senti algo estranho no estômago, mas não disse nada. O dia em que ele saiu foi uma sexta-feira. Cheguei da escola e vi a mala aberta na cama. A minha mãe estava à porta do quarto com os olhos vermelhos. Perguntei: — Para onde vai? Ele nem me olhou e disse: — Vou estar fora durante algum tempo. A minha mãe gritou: — Algum tempo com quem? Diz a verdade! Então ele explodiu: — Vou-me embora com outra mulher. Cansei-me desta vida! Desatei a chorar e disse: — E eu? E a minha escola? E a casa? Ele só respondeu: — Vocês desenrascam-se. Fechou a mala, levou os documentos da gaveta, pegou na carteira e saiu sem se despedir. Nessa noite a minha mãe tentou levantar dinheiro no multibanco e o cartão bloqueou. No dia seguinte, foi ao banco e disseram-lhe que a conta estava vazia. Ele tinha levantado todo o dinheiro que os dois tinham poupado. Descobrimos também que deixou dois meses de contas por pagar e que pediu um empréstimo sem avisar, pondo a minha mãe como fiadora. Lembro-me da minha mãe sentada à mesa, a conferir papéis com uma calculadora velha, a chorar e a repetir: — Não chega para nada… não chega… Tentava ajudá-la a juntar as contas, mas nem percebia metade do que estava a acontecer. Passada uma semana cortaram-nos a internet e, pouco depois, quase cortaram a luz. A minha mãe começou a procurar trabalho – ia limpar casas. Eu comecei a vender rebuçados na escola. Tinha vergonha de andar nos intervalos com o saco de chocolates, mas fazia-o porque em casa não chegava nem para o essencial. Houve um dia em que abri o frigorífico e só havia uma jarra de água e meio tomate. Sentei-me na cozinha a chorar sozinha. Nessa noite jantámos arroz branco, sem mais nada. A minha mãe pedia desculpa por não me poder dar o que me dava antes. Muito mais tarde, vi no Facebook uma foto do meu pai com aquela mulher num restaurante – faziam um brinde com vinho. Tremia das mãos. Escrevi-lhe: “Pai, preciso para materiais da escola.” Ele respondeu: “Não posso sustentar duas famílias.” Essa foi a nossa última conversa. Depois disso, nunca mais telefonou. Nunca perguntou se acabei o secundário, se estava doente, se precisava de alguma coisa. Desapareceu. Hoje trabalho, pago as minhas contas e ajudo a minha mãe. Mas esta ferida continua aberta. Não só pelo dinheiro, mas por nos ter abandonado, pela frieza, pela maneira como nos deixou afundadas e seguiu com a vida dele como se nada fosse. E ainda assim, muitas noites acordo com a mesma pergunta presa no peito: Como se sobrevive quando o próprio pai te tira tudo e te deixa aprender a sobreviver, ainda em criança?