André Vital, meu querido, por favor! Imploro-lhe! Ajude-nos! – a mulher ajoelhou-se diante do médico…

Doutor António Vitalino, meu querido, por favor! Peço-lhe, imploro! Ajude-nos! a mulher atirou-se de joelhos, agarrando-se à bata branca do alto médico, e desatou a chorar convulsivamente.
Atrás das portas gastas dos consultórios, no cheiro adocicado a medicamentos do pequeno hospital de aldeia, o seu filho estava a morrer.
Não compreende? Não posso! Não consigo! Foi por isso mesmo que vim para cá! Já não opero há dois anos! A mão e as condições…
Suplico-lhe! Por favor! a mulher não largava o médico, tentando arrastá-lo consigo pelo corredor.
Ele tem de ceder. Tem de tentar. Porque, se não o fizer…
Faltam só alguns metros. Uma porta de madeira, pintada de branco. E lá está ele, o seu Dioguinho. O seu menino. O único. Atado a fios, com uma máscara de oxigénio a esconder as sardas esmaecidas do rosto. Respira. Ainda respira. O sangue a escorrer por baixo da ligadura na cabeça parece compota de cereja, escura e densa. E o traço verde do monitor sobe e desce ao ritmo irregular da respiração.
Não vão conseguir chegar ao hospital da cidade. Cem quilómetros de distância. Helicóptero? Mas a tempestade lá fora apagou qualquer esperança que restava. A tensão cai. O coração mal pulsa. Os paramédicos desviam o olhar.
Covas! exclama, agarrando-lhe o braço, a enfermeira já idosa junto à maca, com o menino pálido António Vitalino!
Do bolso tira um jornal velho, onde naquela fotografia, o António, de bata branca, está rodeado por crianças sorridentes como tordos nas bagas. Entre lágrimas tropeça nas linhas sobre o acidente, a mão ferida, a operação falhada. Mas ali, era ele o prodígio da neurocirurgia! Médico de mão cheia! No interior… Que Deus interceda! Se ao menos aceitasse!
Eu não posso arriscar tamanha responsabilidade! Compreenda! resiste ele desesperado. Na última cirurgia… o pulso… Falhei! Não opero mais! Não posso!
O rapazinho na maca está cada vez mais pálido. O sangue como compota. Os colegas de trabalho apinhados à porta, aqueles com quem não chegou a criar laços em um ano. A mãe em pranto. E o tempo. O tempo contra todos. E o cão…
O cão?!
Que faz aqui um cão?
Em resposta apenas um choramingar. Um labrador. Quer saltar para a maca. As garras arranham o chão, alguém puxa a trela. Mas ele insiste, não tira os olhos de Diogo. Já nem chora, respira ofegante, mas não desiste…
É o Fiel. Do Diogo soluça a mulher, parando de respirar quando, de súbito, as palavras do médico caem na sala como uma pedra:
Preparem o bloco operatório.
Ele fecha os olhos por um instante. Lembra-se de outro cão. Esperança chamava-se. E o pai ainda vivo. E ele próprio, apenas Toninho, a estudar no sétimo ano. A estrada no Ano Novo, gelada. O carro despistado, aninhado na neve, como uma bola de árvore quebrada. A mãe a chorar. O médico sem coragem para encarar. Cirurgia muito difícil, sem experiência. Lisboa tão longe
E Esperança mais tarde já não chorava junto à campa. Só era o silêncio rouco. Nem comida tocava há seis dias. Só olhava… e depois seguiu o dono também. Apagou-se.
Vou ser neurocirurgião, mãe. Prometi à Esperança sussurra o miúdo desgrenhado junto à terra solta O melhor de todos. Acredita?
Como pôde esquecer-se? Porquê?
*****
As luzes do bloco operatório brilham como o sol. Os instrumentos reluzem. O pulso dói-lhe novamente. Aguenta. Será que devia arranjar um cão? que disparates para pensar agora! Os dedos estão quase dormentes. Mas consegue. É uma lesão muito feia. Complicada. A tensão continua a cair. Se conseguir evitar o inchaço… O tecido está afectado, e o osso temporal precisa ser reconstruído aos bocadinhos. Os vasos…
Mesmo de helicóptero não chegariam a tempo. Nos olhos dos assistentes locais vê-se o brilho do milagre. Para eles, uma operação assim é coisa de outro mundo. E para ele? Quantas já não fez? Porque se rendeu ao primeiro fracasso? Porque fugiu para este recanto? Cortou relações. O pulso dói. E quase imagina que é a Esperança no canto. Ou talvez aquele labrador, pronto para ir atrás do seu menino… O Fiel.
Dificilmente segura a pinça. Os grampos. Os dedos rigidez total. Só falta um pouco. Respira, Diogo, respira. Não desistas. Não te vamos deixar ir.
O tempo. Agora está do lado do Diogo. Oiça-se lá fora um helicóptero? Chegou mesmo…
*****
Doutor António Vitalino, andam à sua procura a enfermeira abre a porta do gabinete, sorrindo largamente.
Todos sorriem. Afinal o doutor Covas está de volta. Não se fala de outra coisa no hospital. As crianças graves chegam de todos os pontos do país. Agora já não têm medo. António tem mãos de ouro. Pelos corredores da neurocirurgia volta a ouvir-se o riso das crianças. Os pequeninos recuperam. E os pais, esses, quase não o largam
Cinco minutos. Vou só ver o Mateus.
A enfermaria do pequeno Mateus, de seis anos, fica logo ali. Um miúdo traquinas, ruivo. Chama-lhe “tio António”. Tinha ido numa visita à Lisboa, há uma semana, caiu do segundo andar a olhar distraído. Igualzinho ao Diogo daquela aldeia. António reconstruiu-lhe o crânio, peça a peça, durante oito horas. Conseguiu. E o pulso já pouco dói. Talvez curado pelo riso solto das crianças…
Ainda bem que regressou. Foi o melhor. Devia ter voltado antes, mas faltava-lhe o motivo certo. Esqueceu tanto, perdeu-se. E a vida, como sempre, ensinou-o. Só cão não há tempo de ter. Pergunta-se às vezes como estará o Fiel e o Diogo. Recorda-os frequentemente.
Doutor António Vitalino, querido!
Antes sequer de abrir a porta para ir embora, já o chamavam.
Ora viva, Diogo, Dona Beatriz sorri E tu, Fiel, também.
A mão vai ao pescoço macio do cão. Um focinho húmido empurra-lhe a palma. Olhos castanhos e atentos, que o fitam tão profundamente.
O que vos traz cá? O Diogo está bem? Veio a consultas?
O Diogo está óptimo, doutor! responde apressadamente Beatriz, com um brilho especial no olhar. O casaco parece fazer volume, os olhos denunciam emoção. Não pergunta, por delicadeza. O Fiel circula alegre, baralha-lhe o pensamento.
Vejam!
O Diogo mais crescido rompe finalmente o silêncio. Esconde-se detrás da mãe e entrega ao espantado António algo preto, choramingas e de orelhas enormes.
Aaah…? António mal encontra palavras, surpreendido, ao segurar o inesperado presente junto ao rosto.
Não leve a mal, doutor apressa-se o Diogo foi o Fiel que o achou. A mãe deixou ficar. E ontem, quando o seu rosto apareceu na televisão, o Fiel puxou-o pelo cachaço até ao ecrã, assim que ouviu a sua voz. Então achámos por bem
Fizeram muito bem. Já era tempo António piscou ao cão sorridente Vai chamar-se Estímulo. Ou Timóteo, mais carinhosamente.

A vida, afinal, sempre encontra maneira de nos lembrar o caminho quando esquecemos porque seguimos em frente.

Оцініть статтю
Додати коментар

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

5 × 5 =

André Vital, meu querido, por favor! Imploro-lhe! Ajude-nos! – a mulher ajoelhou-se diante do médico…
Pedro deixou a esposa e os filhos para viver com outra mulher. Um mês depois, regressou, esperando retomar a relação…