No segundo dia após o casamento, Alisa sentiu-se muito mal. Chamaram uma ambulância e ela foi examinada. Roberto ficou abalado durante muito tempo depois de conversar com o médico.

Rui flutuava pelas ruelas sinuosas de Lisboa, quando num fado estranho e enevoado, Leonor, sua esposa, sussurrou-lhe ao ouvido confissões de traição, olhos marejados de implorar perdão. O mundo de Rui afundava-se num copo de vinho tinto, enquanto a guitarra portuguesa dedilhava notas ao acaso, como a própria mente dele: Como conseguiste, Leonor? Nem ele sabia se a pergunta era real ou apenas um eco sonâmbulo duma antiga saudade, pois Leonor sempre fora inesperada, às vezes até imprudente.

Na segunda manhã após o casamento, entre pastéis de nata e a vista do Tejo, Leonor contou-lhe que tinha feito um empréstimo do Banco Santander Totta agora era responsabilidade dos dois devolverem cada cêntimo desses dez mil euros. E depois, a surdez do tempo: Leonor adoeceu sem aviso, uma ambulância brilhou pelo Bairro Alto levando-a para longe. Só então surgiu o segredo, perdido no corredor de um hospital: ela perdera um bebé que Rui nunca soube que existia; complicações, disseram as senhoras de bata branca.

Rui, agora que trabalhamos tanto, temos dinheiro suficiente, não quero estragar o nosso retrato fiscal com um filho, murmurou Leonor, desmaiando as palavras no ar pesado de tinto. E agora esta traição… Para se redimir num sonho que não era dela, Leonor teve uma ideia descabida: pediu a Rui que a traísse também, para que pudessem equilibrar a balança da culpa. Ela própria tratou de tudo arranjou-lhe uma amiga loira, alta como um pinheiro de Leiria, com curvas dançantes de ondas da Nazaré.

Mas Rui tropeçou nos próprios passos não conseguia seguir aquele enredo. Tudo fazia menos sentido do que um elétrico circular pelo Rossio às avessas.

Então não és homem?, perguntou-lhe a loira, olhos de azeviche e sotaque de Cascais.
Sou só um Zé normal, não consigo trair Leonor de propósito, respondeu Rui, sentindo que o chão se dissolvia como neblina.

Voltou para casa nua de sentido, recusando-se a falar ou a olhar Leonor. Juntou as roupas numa mala suja de azulejos partidos e foi dormir ao sofá do amigo Manel, nas avenidas novas.

Semanas depois, o telefone tocou com a voz esbatida de Leonor:
Estou grávida, tens de voltar a família precisa de ti.

Mas Rui já não queria nem saber dela, nem do filho-fantasma, nem desse conceito esburacado de família. Como num sonho espiralado, encontrou de novo a amiga loira nas prateleiras de um supermercado Pingo Doce:
O que fazes por aqui? Achei que o plano mirabolante da Leonor para engravidar tinha tido sucesso.

Foi aí que o sol se pôs a leste Rui percebeu que algo estava errado. Exigiu ver uma ecografia, um papel carimbado pelo serviço de saúde, qualquer coisa palpável. Leonor apenas murmurou:
Não confias em mim?
Depois do que fizeste? Já não.

Não havia exames, papéis, nem sinais de verdade. Nada além do fumo confuso dos sonhos e de pequenas mentiras empilhadas como sardinhas na banca da Ribeira. Então Rui pediu o divórcio, deixando para trás o D. Sebastião deles, sempre prometido, nunca regressado.

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No segundo dia após o casamento, Alisa sentiu-se muito mal. Chamaram uma ambulância e ela foi examinada. Roberto ficou abalado durante muito tempo depois de conversar com o médico.
Rozhodla som sa, že vezmem svoju svokru k nám domov, pretože bola veľmi chorá.