Espigas Douradas: Tradição e Sabores do Campo Português

ESPIGAS

Há cerca de vinte e cinco anos, quando ainda me considerava jovem e inexperiente, o médico de família, apesar dos meus protestos, decidiu internar-me no serviço de medicina interna.
Naquela altura, eu tinha vinte e três anos e o meu marido, Álvaro, vinte e seis. Álvaro era engenheiro num gabinete de projetos, e eu estava prestes a terminar a universidade. Estávamos casados havia dois anos e, para já, ainda não pensávamos em filhos os babygrows e fraldas eram planos para o futuro distante.

Eu acreditava ser a esposa exemplar e quase perfeita, mas em Álvaro, como num espelho, via cada vez mais defeitos. Achava que ele dava demasiado atenção à sua mota e pouco a mim. Convencida de que conseguiria mudá-lo, não percebi que talvez fosse eu a precisar de mudar.

Depois de um semestre exaustivo, o meu corpo não aguentou. Dores no estômago, enjoos não conseguia comer nem beber nada.
Filha disse-me o doutor Augusto Lourenço, ajeitando os óculos de aros grossos , cuida da saúde quando és nova, e do vestido, se for novo. E nada de me contrariar, Margarida. Vais fazer exames a sério e tratar-te como deve ser. Pronto, não tentes comover-me, entrego-te à competência dos meus colegas, minha querida.
Com o olhar embaciado de lágrimas, lá fui, a suspirar, tratar do internamento.

No quarto éramos quatro: duas senhoras de cerca de cinquenta anos, uma velhota magra de idade indefinida, com um lenço branco de bolas na cabeça, e eu. A anciã chamava-se Amélia Antunes; dos nomes das outras já me esqueci.

Não tinha vontade de falar com ninguém sentia o mundo contra mim, sobretudo o meu marido, de quem achava que só queria ver-se livre de mim, já que não insistira em que ficasse a tratar-me em casa.

Encolhi-me de lado, de costas para a parede, na cama de ferro estreita, alimentando o meu próprio sofrimento, culpando todos pelos meus males.
Leva as tuas caixas e marmitas, não vou comer nada disto gritava eu com o Álvaro, quando ele voltava com comida caseira.
Margarida, o doutor disse que peixe grelhado era o melhor para ti agora dizia ele, com ternura. E trouxe um pouco de batata, por favor, tenta. Esforcei-me mesmo!
Nem penses respondia-lhe, amarga. Não quero. Dá o peixe a algum gato da rua, duvido que até eles o queiram.

Álvaro suspirava e ia-se embora, triste, e eu fazia questão de o magoar ainda mais, atirando-lhe palavras cruéis ao sair.
Não me venhas mais ver repetia-lhe todos os dias.

Ele, porém, continuava a visitar-me antes e depois do trabalho, indiferente às minhas lamúrias. De manhã, deixava sempre a comida ainda quente no armário da cama, cuidadosamente embalada num cobertor para não arrefecer. Nem a sua paciência, nem o seu carinho eram, na altura, valorizados por mim. Só hoje vejo como lhe era difícil contentar-me, mas então isso não me preocupava.

Os medicamentos, as injecções, as infusões não tinham efeito. Definhava a olhos vistos: emagreci, as maças do rosto afundaram, enormes olheiras. Fizeram-me exames, diagnosticaram-me gastrite crónica. Parece um mal menor? Mas, para mim, foi uma prova de fogo.

Cumpria as ordens, tomava os medicamentos e voltava à minha cama, a olhar para o vazio. Nem queria saber do resto das pacientes exalava tristeza e mágoa e ninguém se aproximava. Percebia, mas não conseguia mudar.

Uma noite, as duas outras senhoras pediram para passar em casa, e ficámos só eu e a Dona Amélia.

Não dormes, Margarida? perguntou-me baixinho.

Não. Dói-me a barriga resmunguei, virando-me.

Sabes, menina continuou ela com voz doce também eu venho a este hospital três vezes por ano, para prevenir. Tenho, como tu, uma gastrite banal, controlável em casa.

Vai começar a dar-me lições de dieta? Poupe-me, por favor, já sei tudo isso respondi, impaciente.

Não me entendas mal, Margarida murmurou, humilde. Não quero ferir-te. Na verdade, vejo muito de mim em ti. Também fui assim, áspera e orgulhosa, há mais de cinquenta anos.

Intrigou-me. Olhei-a verdadeiramente pela primeira vez: baixa, curvada, frágil como um passarinho, mas de quem emanava um calor contagiante. Os olhos, de um azul suave, brilhavam, como se viesse dela uma luz interior.

Todos lhe vinham falar: homens, mulheres, pessoal do hospital. Conversavam, confidenciavam-lhe os seus dramas, e ela escutava, compreendendo, sem interromper. Depois, dizia algumas palavras baixinho, e eles saíam mais leves uns chorando, outros sorrindo.

Como agradecimento, traziam-lhe coisas simples: um pacote de bolachas, um litro de iogurte, um pouco do raro pão-de-ló ou marmelada. Ela agradecia e abraçava cada um. Depois, enxugava os olhos com o lenço de bolinhas.

Sabes, Margarida, se estiveres disposta a ouvir-me, conto-te uma história da minha vida disse ela, sorrindo de leve, embora com uns olhos onde morava uma tristeza infinita.
Por instantes, as rugas alisaram-se e ela pareceu uma menina assustada e indefesa.

Perdoe-me, Dona Amélia. Quero mesmo ouvir o seu relato murmurei.

Toma a sopa de almôndegas. Está ali embrulhada sugeriu, apontando o frasco coberto no cobertor.

Obedeci. Levei a colher de sopa à boca, quase a torcer o nariz, mas controlei-me. Ao primeiro gole, o estômago acalmou o protesto. Comi metade da sopa e gostei!

Ora, a esquisita até gostou? sorriu a Dona Amélia.

Sim, estava ótima admiti.

Agora, nada de exageros. Vais comer pouco e muitas vezes trataste mal o teu corpo durante demasiado tempo. E, acima de tudo, aprende a respeitar os outros, principalmente o teu marido. Álvaro ama-te de verdade. Não o afastes. Mas adiante, prometi contar-te algo que nunca contei a ninguém.

Fez uma pausa, bebeu chá numa caneca de alumínio, mergulhou nela um pedacinho de broa.

Cresci numa família de sete irmãos. O meu irmão mais velho, António, morreu novo, de tuberculose; a mais nova, Mariana, foi-se com o tifo quando eu era pequenina começou ela, com voz embargada. O meu pai era operário da fábrica, a mãe, costureira de mão cheia. Vestia meio povo da aldeia.

Gostava de estudar e fui boa aluna. Com sacrifício, formei-me como professora primária e, orgulhosa, voltei à terra natal, pronta a ensinar a criançada. Rapazes da aldeia tentaram cortejar-me, mas nenhum me cativava.

O Pedro? O moço do estábulo? Nem pensar, mãe! Não serei mulher de um moço do mato. As mãos sujas de estrume! O Joaquim, nosso vizinho, bêbado. O Simão, tocador só quer festa. O Tiago, pastor, coitado, mal sabe ler resmungava eu, recusando qualquer proposta.

Os pais não conseguiram dobrar-me.

Um dia, veio para a nossa aldeia de Valongo um jovem diretor de escola, vindo da cidade. Alto, elegante, olhos azuis, cativou o meu coração. As crianças adoravam-no calmo, justo, disponível depois das aulas para apoiar quem precisava, tudo sem receber nada em troca.

Casámo-nos pouco depois.

A Dona Amélia levantou-se, ajeitou-me a almofada e prosseguiu:

A minha mãe sempre me dizia: Olha, filha, não mostres o teu feitio mau ao marido. Sê doce, tira as maniazinhas da cabeça. Ele é um bom homem, segura a tua vaidade. Só que eu nunca segui conselho. Fazia tudo à minha maneira.

Trabalhei com o meu Jaime, assim se chamava, na escola. Três anos depois veio a nossa primeira filha. A Catarina nasceu fraca e adoeceu sempre. Tinha uma malformação cardíaca e morreu antes da guerra, com onze anos. A segunda filha, Beatriz, era o retrato do pai, inteligente e bonita, habilidosa a costurar.

Jaime ia muito à cidade em reuniões e trazia-me sempre tecidos para fazer roupas. Era eu a mais bem-vestida da aldeia! Mas nada me agradava: ora a cor, ora o padrão, ou achava o tecido demasiado escuro ou fino. Nada estava bem.

Em 1933 instalou-se uma fome terrível. Passávamos os escassos mantimentos em trinta porções, para durar o mês inteiro. Até hoje não deito fora sementes de melão ou melancia.

Cada dia, uma ou duas batatas pequenas, um punhado de cevada, uma cebola, uma cenoura, algumas sementes de abóbora ou girassol, uma colher de banha e um copo de farinha escura. Escondia tudo em saquinhos, bem guardados. Muitos vizinhos, impacientes, comiam tudo de uma vez e passavam fome o resto do mês.

Atrás da aldeia ficava um campo de trigo vigiado dia e noite. O desejo de apanhar umas espigas era insuportável, mas o medo de ser apanhado e ir preso gelava-nos até à alma.

Uma noite, desesperados, eu e Jaime arriscámos ir ao campo apanhar espigas. Faltava-nos forças para ver os filhos sempre famintos Sonhava com batata assada, pão com azeite, acordava da fome nauseada.

Aproveitámos que os miúdos dormiam e fomos, rastejando entre os campos.

De repente, ouvimos cascos de cavalo! O guarda vinha em ronda! Fugimos para um arbusto de alfazema do outro lado do campo; ele não nos viu, graças a Deus.

Voltámos para casa de mãos vazias. Só aí reparei: tinha perdido a saia! De tão magra, escorregou, provavelmente enquanto sacudia as espigas do fundo.

A Dona Amélia tirou o pedaço de broa do chá e mastigou devagar.

Desesperada, desatei num pranto agudo. Se alguém encontrasse o meu vestido, que toda a aldeia conhecia, seria a minha desgraça!
As meninas, assustadas, acordaram, e chorámos juntas.
Quietas! disse Jaime, firme. Camas já. Nada de histerismos, que não acordem os vizinhos. Ao amanhecer vou procurar a saia, fico descansada.

Não preguei olho, sentia-me já presa, com os filhos órfãos.

De manhã, Jaime trouxe-me a saia, encontrou-a entre as espigas. Livrou-me da prisão.

Ela guardou a caneca vazia, cobriu-me com o cobertor que tinha caído.

Desde então, passei a respeitar o meu marido como merecia. Nunca mais lhe levantei a voz.

E depois? perguntei.

Depois? Sobrevivemos por milagre. Lentamente houve mais comida. Em 1941, veio a guerra. O meu Jaime foi voluntário, fiquei sozinha com a Beatriz. Os alemães ocuparam Valongo; queimaram-nos a casa, porque me recusei a colaborar.
A minha filha
A voz tremeu.
Eles
Não aguentou os tormentos e morreu. Eu estava grávida e perdi também o bebé. Ia nascer um rapaz

A Dona Amélia chorava. Abracei-a.
Assim abraçadas ficámos até ao amanhecer.

Do que falámos? Não sei.

Ao primeiro raio de sol, disse-me:
Em 43 veio a carta do exército: o Jaime desapareceu, presumivelmente morto. Nunca soube o local do seu descanso.

Depois da guerra, vagueei aldeias e escolas de todo o distrito com os poucos pertences que me restavam. Trabalhava e dormia nas escolas. Já reformada, a minha sobrinha trouxe-me para Lisboa, para o seu pequeno apartamento. Venho cá ao hospital, também para não incomodá-la, e ainda poupo uns euros. A Tamara adora guloseimas, sempre lhe compro um chocolate com a pensão, ela alegra-se como se lhe desse joias! E pede que não gaste dinheiro com ela.

Fiquei ali a olhar para a Dona Amélia, espantada com a força desta mulher frágil tanta coragem, bondade e generosidade! De tudo o que sofreu, não guardou rancor e ajuda sempre os outros. E eu, sempre insatisfeita, tendo tudo: marido, família viva.

Recuperei a saúde devagarinho, voltei a comer, as dores passaram.

Um ano depois, nasceu o nosso primeiro filho, Miguel, e quatro anos depois, a nossa tão desejada menina a quem demos o nome de Amélia.

Desde então, foi como se me tirassem uma venda dos olhos. Enfim percebi as qualidades do Álvaro: dedicado, habilidoso, paciente. Mudei muito, baixei as expectativas.

Sempre que me zango com ele, lembro-me da história das espigas da Dona Amélia, e de quando Álvaro cuidou de mim nos piores dias. Quando comecei também eu a ajudar outros, descobri o verdadeiro significado da felicidade.

E cá fico a matutar: a minha doença não teria sido também fruto do meu mau feitio? O que acha?

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Espigas Douradas: Tradição e Sabores do Campo Português
— Eu sei das tuas andanças, — disse a mulher. Victor gelou por dentro. Não, ele não estremeceu. Nem ficou pálido — apesar de sentir tudo apertar-se no peito, como uma folha amassada prestes a ser atirada ao lixo. Apenas ficou imóvel. A Larissa estava à volta dos tachos, mexendo algo na panela. Um gesto tão habitual — costas voltadas para o marido, avental às bolinhas, cheiro a cebola dourada. Um quadro caseiro. Aconchegante. Só a voz, essa parecia saída de um noticiário. Victor até pensou: será que ouviu mal? Talvez ela estivesse a falar dos pepinos — tipo “sei onde encontrar bons no mercado”? Ou do vizinho do terceiro andar, aquele que anda a vender o carro? Mas não. — Sei de todas as tuas andanças — repetiu Larissa, sem se virar. E aí sim, Victor sentiu o sangue gelar a sério. Porque no tom dela não havia histeria, nem indignação. Não havia o que sempre receara: lágrimas, lamúrias, pratos partidos. Apenas uma certeza fria, um facto consumado. Como quem diz que acabou o leite. Há cinquenta e dois anos Victor andava por este mundo. Vinte e oito deles com aquela mulher. Conhecia-lhe cada pinta: o sinal no ombro esquerdo, o jeito de franzir o nariz quando provava a sopa, o suspiro das manhãs. Mas nunca lhe ouvira aquela voz. — Lara… — começou ele, mas engasgou-se. Tossiu. Tentou de novo. — Larissa, do que é que estás a falar? Ela virou-se. Olhou-o — durante muito tempo, serena, como quem observa uma fotografia antiga onde já nada se distingue. — Da Marina, por exemplo — disse ela. — Aquela da Contabilidade. Dois mil e dezoito, se não me engano. Victor sentiu o chão fugir-lhe dos pés. Não era força de expressão — sentiu-se mesmo suspenso no ar, sem terra firme. Meu Deus. Marina?! Mal se lembrava do rosto dela. Houve qualquer coisa — no jantar da empresa, talvez? Ou depois? História curta, sem importância. Jurara a si mesmo: nunca mais. — E da Sílvia — continuou Larissa, imperturbável — aquela que te abordou no ginásio. Foi há dois anos. Ele abriu a boca. Fechou-a logo. Como é que ela sabia da Sílvia?! Larissa desligou o fogão. Tirou o avental, cuidadosamente, dobrando-o em dois. Sentou-se à mesa. — Queres saber como descobri? — perguntou. — Ou preferes saber porque é que calei? Victor ficou calado. Não porque não quisesse falar — simplesmente não conseguia. — A primeira vez — começou Larissa — desconfiei há uns dez anos. Começaste a chegar tarde ao trabalho. Sobretudo à sexta-feira. Vias-te mais alegre, olhar vivo, cheiro a perfume feminino. Ela esboçou um sorriso — amargo, sem alegria. — Na altura pensei: devo estar a imaginar coisas? Talvez alguma colega tua tenha mudado de perfume. Convenci-me disso durante um mês. Até encontrar, no bolso do teu casaco, um talão de restaurante. Jantar para dois. Vinho. Sobremesa. Nós nunca lá fomos. Victor quis dizer qualquer coisa — justificar-se, inventar, como sempre. Mas as palavras ficaram atravessadas. — E sabes o que fiz? — Larissa olhou-o nos olhos. — Chorei fechada na casa de banho. Depois lavei o rosto, preparei o jantar. Recebi-te com um sorriso. À nossa filha não contei nada — tinha quinze anos, era época de exames, o primeiro namorado. Para quê saber que o pai… Ela calou-se. Passou a mão na mesa, como quem varre pó invisível. — Pensei: isto passa. Todos os homens têm destas fases — crise da meia-idade, tolices, hormonas. O importante é a família ficar inteira. — Lar… — murmurou ele. — Deixa-me acabar — cortou ela. Ele aquietou-se. — Depois veio a segunda. A terceira. A quarta. Perdi a conta. O teu telemóvel… Nunca usaste código. Achavas que não via? Li mensagens. Aqueles SMS ridículos: “Que saudades, princesa”, “És o melhor”. Vi fotografias — tu com elas abraçado, a sorrir. — A voz vacilou, pela primeira vez. Mas logo se recompôs, inspirando fundo. — E sempre me perguntei: para quê isto? Porque viver com quem já não me ama? — Eu amo-te! — explodiu Victor. — Larissa, eu… — Não amas, — ripostou ela, seca. — Amas a facilidade. A casa limpa. O jantar quente. Camisas passadas a ferro. Uma mulher que nunca faz perguntas. Levantou-se. Foi até à janela. Ficou ali, a olhar para o escuro. — Sabes quando decidi? — disse, sem se virar. — Há um mês. A nossa filha veio cá passar o fim de semana. Conversávamos na cozinha. Ela saiu-se com isto: “Mamã, andas tão diferente. Calada. Parece que nem és tu”. E eu pensei: meu Deus, ela tem razão. Já não sou eu. Já há anos que não sou. Victor olhava-lhe as costas — direitas, tensas — e percebeu: estava a perdê-la. Não “podia perder” — estava mesmo a perder. — Eu não quero divorciar-me — suplicou. — Por favor, Larissa. — Mas eu quero. Já dei entrada dos papéis. O julgamento é daqui a um mês. — Mas porquê agora?! Larissa virou-se. Olhou-o demoradamente. E sorriu. Tristemente. — Porque percebi: tu nunca me traíste, Victor. Só se trai quem é importante. Para ti, eu fui sempre apenas uma certeza. Como o ar. E era a verdade. Ele ficou sentado no sofá — encolhido, de repente dez anos mais velho. Larissa perto da porta. Entre eles, vinte e oito anos de casamento, uma filha, um apartamento onde cada canto os conhecia. E um abismo. Intransponível. — Sabes — disse ele baixo — que sem ti não sei viver. — Vais saber. De algum modo — cortou ela. — Não! — Ele levantou-se num salto. — Larissa, eu juro! Mudo, prometo! Nunca mais… — Victor, — ela levantou a mão, travando-o. — Não é por causa delas. Nunca foi. — Então porquê?! Ela demorou-se. Procurava as palavras que nunca dissera, há anos presa entre o medo, a insegurança. Ou o hábito de não pedir espaço nem querer ser ouvida. — Sabes como me sentia? Cada vez que voltavas de mais uma dessas, eu deitava-me ao teu lado e sentia-me um zero. Tu já nem disfarçavas — o telemóvel à vista, camisas com batom para lavar. Achavas-me tola. Cega. Victor estremeceu, como se levasse um murro. — Não quis… — Não quiseste? — Aproximou-se dele de frente. Os olhos brilhavam — mas não de lágrimas. De raiva, acumulada, contida, finalmente à solta. — Nunca pensaste em mim. O que te passava na cabeça ao beijar outra? “A mulher nunca vai saber”? Ou “Que importa”? Ele calou-se. Porque a verdade era pior. Ele nunca pensava nela. Nunca. Larissa existia como uma certeza. Ele acreditava: não iria a lado nenhum. Estaria sempre lá. — Vinhas para casa depois dessas tuas e ficavas bem. Porque para ti nada mudava. Esposa no lugar, família certinha. Ela desviou o rosto. — Nessa imagem tua… eu não existia. Victor deu um passo. Estendeu a mão — querendo segurar-lhe o ombro, abraçá-la, impedir-lhe a partida. Larissa afastou-se. — Não vale a pena — disse, vencida pelo cansaço. — Agora é tarde. Ele agarrou-lhe as mãos. — Larissa, suplico! Dá-me uma chance! Eu mudo! Viro outro homem! Ela olhou para os dedos entrelaçados. Para a cara dele — desfeita, assustada. E, subitamente, percebeu: ele estava mesmo com medo. Mas não de perdê-la. Tinha medo de ficar sozinho. — Sabes — murmurou, soltando-se — eu também tive medo. Medo de ficar só, sem ti, sem família. Mas sabes o que descobri? Pegou na mala da mesa. Nas chaves. — Já estou sozinha. Há muito. Mesmo contigo aqui. E saiu. Passaram três semanas. Victor ficou num apartamento vazio — Larissa foi viver com a filha mal acabou o diálogo — e andava a vasculhar o telemóvel. Marina da contabilidade. Sílvia do ginásio. Mais dois ou três nomes nos contactos, que já tinham significado. Ligou à Sílvia. Rejeitou. Escreveu à Marina. Leu, não respondeu. As outras nem abriram a mensagem. Estranho: quando era um homem casado, todas queriam vê-lo. Agora, “livre”… Ninguém queria saber. Sentou-se no sofá, naquela casa de repente enorme e estranha — e, pela primeira vez em cinquenta e dois anos, sentiu-se verdadeiramente sozinho. Voltando ao telemóvel, encontrou “Larissa”. Olhou tempo infinito para o ecrã. Os dedos tremiam. Escreveu uma mensagem. Apagou. Tentou outra vez. Apagou. Depois escreveu só: “Posso ver-te?” A resposta chegou uma hora depois: “Para quê?” Victor pensou. O que dizer? “Desculpa”? Tarde. “Volta”? Ridículo. “Mudei”? Mentira. Escreveu a verdade: “Quero recomeçar tudo. Podemos tentar?” Três pontinhos acenderam-se. Desapareceram. Voltaram. E lá veio a resposta: “Vem sábado. A casa da filha. Duas da tarde. Falamos.” Victor respirou fundo. Não sabia o que ia acontecer. Se ela perdoava. Se voltava. Se ainda tinha direito a uma última hipótese. Olhou para a aliança no dedo. E, pela primeira vez em muitos anos, sentiu-se preparado para recomeçar tudo de novo. Se ela deixasse. Valerá a pena para Larissa ter tapado os olhos às traições do marido? Teria sido melhor fazer logo um escândalo e pôr tudo em pratos limpos na primeira traição? O que acha?