A minha cunhada foi de férias para o Algarve enquanto nós comíamos pó e tinta a fazer obras, e agora quer viver em condições de realeza.
Até lhe sugeri, toda simpática, que eu e ela podíamos juntar uns trocos para remodelar a casa da família, mas respondeu logo com o habitual encanto: não preciso do vosso dinheiro, obrigada. Pois agora está a bater à nossa porta porque do lado dela já nem ratos querem morar. A culpa, claro, é nossa!
A casa era da avó do meu marido, aquela casa típica num recinto de aldeia, com duas portas separadas ideal para duas famílias viverem cada uma no seu sossego, partilhando só o quintal e o cheiro a sardinha assada de vez em quando. Cada lado tinha o mesmo número de divisões; até nisso a avó foi justa.
A divisão da herança foi sem dramas, até porque já estávamos casados e a minha sogra, citadina de gema, mal ouviu falar em enxadas e galinhas, disse logo: Façam o que quiserem, mas eu quero lá saber disso. A decisão, portanto, ficou com o meu marido e a irmã.
O meu marido e o cunhado ainda juntaram uns euros e meteram-se a arranjar o telhado e reforçar as fundações, porque um bocadinho de cimento nunca fez mal a ninguém. Queríamos avançar com as obras no resto da casa, mas a minha cunhada, Beatriz, bateu o pezinho. Não vou meter um cêntimo nesta barraca de fadas ruins, disse ela, enquanto o marido, Fernando, só baixava os olhos nunca teve estômago para discutir com ela.
Eu e o meu marido tínhamos o sonho de deixar de viver apertados num T1 em Lisboa e mudar-nos de vez para a aldeia. Não era assim tão longe da cidade e, com o nosso Corsa já ferrugento mas fiel, podíamos ir e vir sem grandes dramas. Construir outra casa? No meio do preço das terras só para quem anda a nadar em euros. Por isso, esta era a solução.
A Beatriz via a casa mais como refúgio de verão: vinha passar uns fins de semana, fazer churrascadas e dar uns mergulhos de mangueira às crianças. E ainda dizia para não contarmos com ela para obras.
Durante quatro anos, suámos as estopinhas a transformar a nossa metade da casa. Claro, tivemos de recorrer ao banco abençoado crédito habitação mas isso era o menos. Fizemos casa de banho, montámos aquecimento, mudámos toda a eletricidade e até pusemos janelas com vidro duplo. A obra era contínua, manhã, noite e às vezes também à hora da sesta, mas seguimos firmes no sonho do lar, doce lar.
Nessa altura, Beatriz estava sempre por aí a viajar. O que fazíamos, o que acontecia com a casa eram assuntos para os outros. Isso até ter um filho e meter-se em licença de maternidade. Adeus cruzeiros no Douro, olá esticar salários até ao fim do mês. De repente, lembrou-se que tinha meia casa na aldeia uma com terra para o miúdo correr e apanhar ar puro.
Nessa altura, já estávamos instalados no nosso lado e o velho apartamento alugado a um casal amigo. Não mexemos uma palha no lado da Beatriz, mas com o tempo aquilo ficou ao abandono parecia casa de fantasmas. Nem imagino como queria sobreviver ali sem aquecimento, mas apareceu de malas feitas e bebé ao colo, só para passar uma semaninha. Tive de ceder.
O filho dela parece uma orquestra desafinada, e ela ainda consegue ser pior: faz barulho, come o que apanha, põe a TV a dar festival todo o dia e não respeita ninguém. Como trabalho de casa, fugiu-me a paciência e fui-me abrigar em casa de uma amiga, aproveitando que ela estava fora e sempre dava para regar as plantas.
O destino, esses tubarões, fez-me regressar quase um mês depois. Fiquei uma semana na casa da amiga e depois tive de tomar conta da minha mãe, que ficou doente. Com tanto para fazer, nem me lembrei da Beatriz achava eu que tinha voltado para Lisboa.
Mal abro a porta de casa, encontro a minha cunhada instalada, como se nada fosse. Perguntei-lhe quando pensava ir embora.
E vou para onde? Tenho um filho pequeno, estou tão bem aqui respondeu, com aquela lata característica.
Amanhã levo-te a Lisboa avisei.
Não quero ir para Lisboa responde com um olhar dramático.
Se nem limpaste nada, volta para o teu lado, porque isto não é nenhum hotel de cinco estrelas.
Com que direito me pões na rua? Esta casa também é minha!
A tua casa é do outro lado da parede, força.
Ela ainda tentou meter o marido na conversa, mas até ele lhe disse que já estava na hora de desamparar a loja. Ficou danada e foi-se embora. Horas depois, a sogra ligou furiosa:
Não tinhas o direito de correr a tua cunhada! Ela é dona da casa.
Pode ficar na parte dela. Ali é rainha e senhora, não há problema respondeu logo o meu marido.
Mas como é que ela vai viver lá com o miúdo? Não tem aquecimento, a casa de banho é lá fora! Podias ter dado uma mãozinha à tua irmã.
O meu marido quase explodiu a explicar à mãe como nos oferecemos para fazer as obras em conjunto e até ficava mais em conta para todos. Como ninguém quis, agora era tarde para virem reclamar.
Mesmo assim tentámos negociar: sugerimos à minha cunhada que vendesse a parte dela à minha mãe. Ela aceitou, mas pediu tanto dinheiro que, pelo preço, mais valia comprarmos um palacete no centro do Porto.
Agora andamos às turras. A sogra está sempre magoada, a Beatriz é uma verdadeira praga: vêm cá cada vez menos, mas quando vêm fazem logo festas de arromba, estragam o jardim e ainda tiram do sério os gatos do vizinho.
Começámos a construir uma vedação alta a separar os terrenos. Acabou-se a palhaçada: cada um com a sua vida e a sua casa, que foi isso que a Beatriz sempre quis agora não há cá mais confusões!







