Olha, tenho uma história para te contar, é daqueles episódios que só o tempo e a vida em Portugal nos fazem perceber como tudo se encaixa ou desencaixa às vezes.
Quando tinha 18 anos, fiquei grávida. Os meus pais não me apoiaram, achavam que era cedo demais para ter um filho. O meu marido, o João, tinha acabado de ser chamado para cumprir serviço militar, sabes como é cá, naquela altura era obrigatório. As avós, tanto do lado dele como do meu, foram diretas:
O bebé é tua responsabilidade. Não quero tomar conta do teu filho agora, disse-me a minha mãe sem rodeios.
A minha sogra então, nem queria falar comigo. Acabei por ir viver com a minha tia paterna, a tia Rosa.
Ela tinha 38 anos, não tinha filhos e dedicava-se totalmente ao trabalho. Nunca julgou os meus pais:
Compreendo-os, filha. Não foi nada fácil quando nasceste. Foi preciso muito esforço. Houve dias em que não havia comida na mesa. O teu pai descarregava contentores à noite para trazer uns euros para casa.
Mas agora até estão bem. O teu pai recebe um bom salário, têm um T2 em Lisboa e a tua mãe trabalha. E tu, prestes a ter um filho.
Achas mesmo que não se vão preocupar? perguntei à tia Rosa.
Só querem viver uma vida mais tranquila, para eles. Não os julgues, todos acabam por perceber as coisas com o tempo.
Não recebi qualquer apoio deles. Juntei as minhas coisas e fui mesmo viver com a tia Rosa.
Quando o João voltou do quartel, o nosso filho Pedro já tinha um ano e meio. Durante o tempo em que ele esteve fora, a sogra nunca apareceu para ver o neto. Os meus pais só me vieram visitar duas vezes.
O João arranjou trabalho numa oficina, queria acabar o curso mas nunca conseguiu. Continuámos na casa da tia Rosa. Quando o Pedro começou a ir ao jardim de infância e eu arranjei um trabalho, a tia Rosa mudou-se para outra cidade. E lá fomos nós para um apartamento arrendado. Uns tempos depois, a avó do João faleceu.
A minha sogra vendeu o apartamento da velha e só pensou nela fez obras, comprou tudo o que quis. O João ainda tentou convencê-la a não vender, ofereceu-se para pagar a renda e comprar o apartamento de volta, mas foi tudo em vão.
Porquê sacrificar-me? Há anos que quero fazer estas obras. Vocês queriam fazer isso por mim? respondeu ela, ignorando o pedido do filho.
Cinco anos depois, nasceu a nossa filha Mariana. Sentíamos mesmo que precisávamos de uma casa nossa. O João começou a trabalhar fora, em França. Mas juntar dinheiro para comprar um apartamento era complicado. Eu fiquei com os miúdos num arrendamento.
A minha mãe, por outro lado, estava sozinha num T3, o meu pai tinha-se divorciado dela dois anos antes, mas infelizmente não havia espaço para mim nem para os netos imagina o absurdo. Na casa da sogra era impossível. Estava sempre a fazer obras e nunca nos ajudou muito.
O João ficou uns anos lá fora. Conseguimos finalmente comprar o nosso próprio apartamento, tudo com o esforço dos dois, sem ajuda de ninguém.
Hoje o Pedro está a acabar o 8.º ano e a Mariana vai para o 2.º. Sabem que o dinheiro não cai do céu contamos cada euro, virámos cada cêntimo. Agora não tenho aqueles problemas. Cada um tem o seu carro, vamos de férias todos os anos ao Algarve.
A única pessoa a quem somos realmente gratos é a tia Rosa. Ela pode ligar-nos a qualquer hora e pedir ajuda, nunca hesitamos.
Os nossos pais passaram por maus bocados. A minha mãe foi despedida e ligou-nos há pouco a pedir ajuda, mas eu disse que não. A sogra está igual reformou-se e não quer viver com pouco. Gastou tudo o que recebeu quando vendeu o apartamento antigo. O João também recusou ajudar, sugeriu vender o apartamento grande e comprar um mais pequeno.
Eu e o João não devemos nada a ninguém. Tratamos os nossos filhos de outra forma, muito diferente dos nossos pais para connosco. Vamos ajudá-los sempre que precisarem. Sei que, quando chegarmos à velhice, vamos poder contar com eles, porque ensinaram-nos o valor da família, mesmo que tenha sido à força.







