Beleza de Aparências
Não acredito! A sério, vocês acabaram mesmo? Não pode ser verdade, Miguel! Filipa arregala tanto os olhos para o amigo que Miguel se sente um pouco desconfortável. As sobrancelhas dela elevam-se, a boca entreabre-se. Parece-lhe impossível aquela notícia. Andavas sempre a dizer maravilhas da Inês! Falava de vocês a toda a gente. Eu própria sonhava ter uma relação assim!
É verdade, Filipa. Por mais incrível que pareça… Miguel olha pelo vidro. Lá fora, chove forte no Porto. As pingas caem no vidro rapidamente, escorrendo em fios incessantes, quebrando-se em gotículas. O céu acinzentado reflete bem o estado de espírito de Miguel, absorvido numa tristeza imensa. São cinco anos de relacionamento que agora parecem dissolver-se, deixando só vazio onde antes reinavam sonhos e carinhos. Fecha tanto a mão que os nós dos dedos ficam brancos, e a voz treme-lhe: Acabou, percebes? Acabou mesmo…
Mas porquê, Miguel? A Inês esperou meio ano por ti enquanto estavas em Lisboa! Nunca lhe ouvi uma palavra fora do lugar, sempre fiel, sempre dedicada!
E tu como é que sabes disso tudo, Filipa? Nem sequer vives cá… Miguel força um sorriso, amargo.
Vivo longe, mas não sou ceguinha! diz Filipa, de braços cruzados, com um toque de cumplicidade na voz mas preocupação autêntica no olhar. Tenho amigas aqui que conhecem a Inês e têm-na acompanhado. Sei que ela se começou a cuidar, mudou o penteado, começou a ir ao ginásio, comprou roupas novas e tudo isso, logo depois de partires. Esteve a esforçar-se bastante, Miguel.
Pois, e foi exatamente aí que tudo desandou! Desaparece pela casa fora até ao hall, onde deixou o telemóvel dentro da gabardine. Mexe nervoso nos bolsos até encontrar o aparelho. Volta para a sala, os passos rápidos, o rosto fechado. Lembras-te bem de como era a Inês, antes de eu ir para Lisboa, não é?
Claro que sim! Filipa revira os olhos, tentando lembrar a imagem da amiga. Era mesmo querida. Cabelo liso, comprido, quase loiro do sol, olhos imensos, azulados, nariz delicado Corpo elegante, talvez o peito não fosse noventa como na revista, mas isso nunca te incomodou, pois não?
Nada disso! O tom de Miguel sobe quase a gritar, mas logo baixa, abafado pelo desabafo. Aperta o telemóvel. Para mim era perfeita assim. Mas foi o tempo de eu sair daqui, e aquelas amigas meteram-lhe na cabeça que eu só ia querer outra se ela não mudasse. E ela acreditou. Acreditou mesmo nessa baboseira. Começou a mudar não por vontade própria, mas por medo que eu a deixasse.
Mas mudou assim tanto? Filipa sente um arrepio de preocupação, as mãos apertam o braço do sofá, as sobrancelhas franziem, tentando perceber até onde aquela obsessão pela mudança ia.
Olha com os teus próprios olhos! diz Miguel, esticando-lhe o telemóvel com uma fotografia da nova Inês.
No ecrã, a Inês de antes está irreconhecível. Os cabelos, antes motivos de orgulho, agora estão cortados à Joãozinho e tingidos num loiro prateado gritante. O corte expõe pescoço e orelhas, mas a doçura deu lugar a uma dureza estranha. Nos lábios vê-se trabalho de esteticista, só que exagerado: estão inchados e artificiais, fora de proporção. Inês perdeu, no mínimo, dez quilos mas, ao contrário do que pretendia, ficou demasiado magra. As clavículas sobressaem, o rosto perdeu cor, há olheiras profundas por baixo dos olhos, como se não dormisse há noites. E ainda, de forma chocante para Miguel, há um novo peito, artificial, que nunca antes pertenceria ao corpo dela. Ele, que sempre defendia o natural! Sempre elogiara o que ela era e nunca compreendeu tal necessidade de mudança radical.
E foi assim que ela apareceu no aeroporto para me receber… Apetecia-me passar ao largo, fazer de conta que não a via, confessa Miguel, quase a perder o controlo. Dá um murro na parede, mas logo recua, a sentir as dores nos dedos. Como é que uma pessoa se pode destruir desta maneira em só meio ano? Não percebeu que eu gostava de tudo nela? Que não queria alteração nenhuma?
Anda de um lado para o outro pela sala, agitado. Às vezes para, olha o chão, passa as mãos pela cara, suspirando, sem saber como digerir tudo.
Filipa conhece como ninguém a angústia de Miguel. Ela foi a confidente das reclamações dele sobre o chefe inflexível que o mandara para Lisboa por seis meses. Miguel não queria deixar Inês, mas não pôde levá-la: o último ano da faculdade dela, exames, e trabalho dele exigiam que ficassem separados. Mas telefonava-lhe sempre, diariamente, dizendo que morria de saudades. E agora encontra uma mulher nova, mas não pela positiva.
Miguel… Às vezes as pessoas só querem agradar. Talvez alguém lhe tenha dito que assim tu ias gostar ainda mais dela, arrisca Filipa, levantando-se, aproximando-se do amigo.
Agradar? Mas perdeu-se deixou de ser ela mesma. Como posso amar quem já não reconheço? Miguel abana a cabeça, triste.
No fundo, o que mais o incomoda foi o afastamento que começou durante os meses separados. Inês fugia às videochamadas, dizia sempre que preparava uma surpresa, que ele ia adorar. Isso inquietava-o. Suspeitou de tudo: talvez já tivesse alguém novo? Será que não queria terminar pelo telefone? Pediu a um amigo, que mora em Vila Nova de Gaia, para tentar perceber o que se passava.
Dois dias depois, veio resposta.
Está a preparar uma surpresa, sim, mas não tenho a certeza que vás gostar… Vais ficar em choque. Só sei que ela não anda com ninguém, pergunta por ti, está ansiosa por rever-te.
Miguel suspirou de alívio. Recusou fotografias, preferiu guardar a surpresa. Se as visse tinha largado o trabalho e corrido atrás dela. Agora, percebe que foi erro.
No dia do regresso, Miguel mal se aguenta na cadeira do avião para o Porto. Suor nas mãos, coração acelerado, ideias misturadas na cabeça: imaginava o reencontro, os abraços, as noites passadas a conversar, as manhãs com café e torradas a rir das saudades.
Mas a realidade foi cruel. À saída do aeroporto, Miguel para, sem reconhecer quem espera. Uma mulher loira artificial, rosto transformado, corpo estranho. Por momentos acha até que é engano.
Miguel! Que saudades, amor! Inês corre a abraçá-lo, mas ele recua. O sorriso dela vacila. Mãos paradas no ar, o olhar ameaçado por lágrimas. Ela força um ar bem disposto: Não me digas que o meu look novo te deixou sem palavras! Estou mesmo diferente ou o quê?
Sinceramente, não sei para onde desapareceu a minha namorada… responde Miguel, triste. Que aconteceu contigo, Inês? Que fizeste ao teu cabelo? Porque te mudaste tanto? Tu tinhas tanta graça…
Agora vens dizer que era feia? o tom dela vacila, cheia de tristeza, olhos a brilhar com lágrimas suspensas.
Nem penses nisso, foste sempre linda… Mas agora… És outra pessoa. Por que não falaste comigo antes? Sempre conversámos tudo.
Uma amiga de Inês, que estava por perto, mete-se na conversa:
Ó Miguel, olha bem para ela! Agora tanto rapaz lá do ginásio lhe tira torresmos! Ela só quis agradar-te, ficar igual às capas de revista! Pisca o olho para o decote exagerado de Inês e ri-se.
Ela mudou por ela mesma, não foi por mim… Miguel fala baixo, quase em surdina, apesar da revolta. Não me culpem disso.
Sempre frisaste que gostavas de naturalidade… diz Filipa, o coração apertado, aproximando-se e tocando-lhe no ombro.
Pois, comprava-lhe até o anel… Ia pedir-lhe em casamento, Filipa. Miguel suspira, um peso enorme. Mas assim… Não quero namorar uma boneca de plástico.
Inês empalidece, as lágrimas caem-lhe pelas faces, tenta dizer algo mas não consegue. Dá um passo, tenta tocar-lhe, mas ele vira-lhe as costas e vai-se embora, incapaz de esconder a mágoa. Só ouve Inês gritar pelo seu nome, mas são as amigas que a agarram e consolam:
Deixa-o! Vai dar valor quando perceber o que perdeu. Vens encontrar alguém melhor ainda! conforta uma.
Inês, porém, não ouve. Os olhos perdem-se na figura desaparecida, as lágrimas a borrar a maquilhagem. No peito, um vazio imenso percebe que perdeu, tentando agradar, o que mais importava.
Eu queria casar com ela, Filipa… Miguel enterra a cara nas mãos, voz presa na garganta. Planeava-lhe o pedido, sonhava com ela. Agora, vejo-a… e tudo morreu.
Filipa, sentada a seu lado, segura-lhe a mão, apertando-a com ternura. Não tenta dar palavras feitas ou promessas falsas, está só ali, para que Miguel saiba que não está sozinho.
Miguel reprime as lágrimas, mas não aguenta. Chora baixinho, como uma criança perdida num mundo repentinamente duro e frio. O corpo treme-lhe, a respiração falha.
Sabes, Filipa, nunca entendi porque é que as mulheres nunca estão satisfeitas consigo mesmas… Eu dizia-lhe todos os dias que era linda, que a amava como é, com todos os seus jeitinhos únicos. Mas ela quis apagar tudo isso, ser outra pessoa qualquer.
Fica um momento em silêncio. De repente, desabafa:
E sabes o pior? Isto foi tudo por causa de uma amiga dela! Disse-me na cara: que era bem melhor, que era ela que eu devia escolher… Achei nojento.
Filipa aperta-lhe mais um pouco o braço.
E agora? Vais falar com a Inês? Ainda pode voltar atrás… pergunta com cuidado.
Não quer mudar, Filipa. Diz que agora gosta mais dela assim. Chamou-me até insensível por não valorizar o esforço dela enquanto eu estava fora… Ele encolhe-se no sofá, derrotado. Eu amo-a, amo tanto… Mas ela foi embora, deixou de existir. Ficou só esta imagem de revista. Não consigo…
Filipa, serena, não diz nada. Segura-lhe a mão, deseja convencê-lo de que não carrega culpa, que não falhou.
Lembras-te daquela tarde em Sintra, Miguel, quando ela disse que queria que fosse “assim para sempre”? sussurra Filipa.
Lembro… Miguel deixou cair as palavras num tom amargurado. E eu prometi-lhe. Acreditava mesmo que ia ser para sempre. Nunca pensei…
Fez-se silêncio. Lá fora, o sol tenta furar as nuvens. Miguel fica a olhar o céu, perdido em pensamentos.
Agora? Ela olha-se ao espelho e vê uma mulher bonita; eu olho para ela e não reconheço a pessoa do meu lado. Como é que mudámos tanto em tão pouco tempo?
As lágrimas voltam a correr-lhe pela cara. Filipa abraça-o, tentando passar-lhe alguma força.
Não é culpa tua, Miguel. Tu amaste. Deste tudo de ti. Às vezes as pessoas deixam-se convencer pelos medos e inseguranças dos outros… Só isso. Não és tu que tens de carregar esse peso, diz, calma, sem falsas promessas.
Miguel, esgotado pelas emoções, olha-a, perdido.
E se fui eu que falhei? A culpa é minha por não ser mais compreensivo? Talvez ela só tivesse medo… talvez achasse que não era suficiente.
Sentires o que sentes é só teu direito, Miguel. Mas se ainda sentes que podes tentar recuperar, dá-lhe esse espaço para te explicar. Conversa. Só saberás se ainda há possibilidade se não ficares calado.
Miguel limpa a cara, observa o céu. O fim do dia traz consigo um pouco de cor, como se anunciasse esperança. Suspira, reconfortado, e deixa-se estar em silêncio, a pensar no futuro sem respostas, mas com a intenção de, pelo menos, tentar entender.
A vida, no Porto, continua. E ambos ficam ali, na sala, mergulhados no som distante da cidade, agarrados à verdade que se esconde entre a dor e o amor: só a conversa e o tempo dirão o que realmente ficou por trás daquela beleza fingida.







