O meu filho e a sua jovem esposa, Leonor, vivem num apartamento alugado, não muito longe de mim, ali na rua do Miradouro. Pedi ao meu filho, Tomás, uma chave suplente da casa deles. Nunca se sabe, achei melhor guardar comigo, pode vir a ser útil em algum acaso. Agora estou de férias, e os jovens trabalham todos os dias.
Vou lá quando eles saem para o trabalho. Preparo caldo verde e feijoada, faço bolinhos de bacalhau. Afinal, o meu filho adora estes pratos típicos, simples e saborosos, que alimentam bem. Quando tudo está pronto, começo a arrumar. A Leonor nunca ligou muito à limpeza.
As coisas deles espalhadas pela sala, loiça suja na banca. Penso que devia mostrar à minha nora como se mantém uma casa lusitana. Quando eles chegam, a comida está pronta, tudo impecável, é só sentar e comer, viver em paz. Mas não. A Leonor parece sempre distante. Quase não toca no que faço, diz que a comida é pesada demais, que faz mal. Ela só se alimenta de papas de aveia e saladas estranhas, carregadas de rúcula e agrião.
E tenta sempre apressar-me a voltar para minha casa, como se eu fosse apenas uma sombra no sonho deles.







