A minha irmã sempre viveu rodeada de tudo feito à medida, os pais mimavam-na imenso, e agora liga-me cheia de pedidos…

Querido diário,

A minha irmã Leonor e eu sempre tivemos uma relação marcada pela competição, e ela fazia questão de ser sempre a primeira em tudo. Casou-se antes de mim, e os nossos pais não olharam a despesas: organizaram para ela um casamento cheio de luxos, brindes sofisticados e muita ostentação. Já eu, tive de me contentar com uma cerimónia bastante mais simples, quase intimista, porque os meus pais garantiram que tinham esgotado as economias todas na boda da Leonor e não podiam apoiar-me da mesma forma.

A Leonor gozou uma vida confortável, cercada dos seus dois filhos e com tempo para tratamentos de beleza nos melhores salões de Lisboa; o marido dela garantia-lhe tudo o que precisasse. No meu caso, eu e o meu marido tivemos de ir viver com a avó dele, lá em Setúbal, só para evitar o peso de um empréstimo bancário e umas contas mensais cheias de juros. Em vez disso, arregaçámos as mangas e apostámos tudo na construção do nosso negócio próprio. Abrimos uma loja e dedicámos quase todo o nosso tempo a fazer crescer o projeto.

Aos poucos, a nossa persistência deu frutos e a loja cresceu de forma estável. Ironia do destino, algum tempo depois, a Leonor e o marido acabaram por se divorciar. A minha mãe veio pedir-me, com aquele jeitinho dela, que desse trabalho à Leonor. Dizendo que ela, agora mãe solteira, precisava de um recomeço. Mas no fundo eu sabia muito bem que a separação tinha acontecido por causa das infidelidades da Leonor.

Quando ela finalmente me telefonou, nem hesitou em negociar: queria um trabalho, sim, mas com condições especiais. Sugeriu que a contratasse mesmo sem experiência, a ganhar um bom ordenado, e sem grandes responsabilidades. Fiquei incrédula com o descaramento e rejeitei o pedido sem pestanejar. Não queria tornar-me refém das exigências e mudanças de humor da Leonor, como o ex-marido acabara por ser. Disse-lhe claramente que teria de procurar outra oportunidade, porque não estava disposta a ser usada mais uma vez.

Sinto-me em paz com a decisão, mesmo se isso significar mais distanciamento entre nós. Afinal, demorei demasiado tempo a perceber que, por vezes, precisamos de fechar portas para proteger a nossa própria paz.

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