Sete de julho! Não pode ser Só coincidência? Mas o nome André. O patronímio e o apelido são diferentes. Será que os adotantes podem mudar tudo, até o próprio nome? pensou, fitando o retrato do homem como se esperasse reconhecer alguém da família.
Inês Andréia, funcionária do departamento de recursos humanos da Câmara Municipal de Lisboa, assinava os papéis da nova colaboradora. Em seguida ligou:
Lurdes, passe aqui, por favor! A sua nova colega já está à espera.
Lurdes entrou na sala de inspeções e, sem perder tempo, dirigiuse à mulher que já carregava os anos da experiência:
É a nova limpaescritórios?
Sim.
Eu sou a chefe de limpeza, chamome Inês Andréia apresentouse a superior, logo em seguida: E você?
Lurdes corrigiu, ao ler a dúvida silenciosa nos olhos da chefe Lurdes Silva.
Venha, vou mostrarlhe o seu posto avançaram, continuando a conversa. O terceiro andar ficará sob a sua responsabilidade
***
Lurdes sentiu o coração aquecer ao perceber a oportunidade. Com um sorriso estampado no rosto, percorria o edifício como quem desbrava um novo mundo:
«Faltam dois anos para a reforma da aposentadoria. Ainda assim dá para trabalhar depois. O salário é de oito mil euros, e ainda há bónus. Com o Dinis vamos conseguir viver bem. Os filhos já saíram de casa. Ah, nem me lembro como se chama o nosso presidente da Câmara! Seria um sacrilégio se eu perguntasse Já passou da hora do almoço. No primeiro piso há um mural com todas as fotos dos presidentes. Como é que não reparei antes?»
***
Ao sair da cantina, cruzou o painel de avisos e leu o nome do dirigente da cidade: «André Bóris, nascido em mil novecentos e oitentatrês».
Ele ainda é muito jovem. Nem tem quarenta sussurrou Lurdes, lembrandose subitamente. André? 1983?
Lurdes voltou ao painel, fitou a data:
«Sete de julho! Não pode ser Só coincidência? Mas o nome André. O patronímio e o apelido são diferentes. Será que os adotantes podem mudar tudo, até o próprio nome? »
O olhar permaneceu preso ao retrato, como se esperasse ver um traço familiar.
***
O novo emprego empurrava as suspeitas para o fundo da consciência. Em casa, Lurdes conversou a noite inteira com o marido. Depois ele foi assistir ao futebol no quarto, ela foi para o seu. A casa, espaçosa, tinha três quartos. Os filhos já tinham partido, deixando o ambiente vazio. O marido ainda se juntava a Lurdes na cama, mas cada vez menos.
Agora, deitada, a mente dela girava em volta da juventude. Recordava um segredo que nunca revelara ao marido.
Ela teve um filho quando ainda era adolescente, chamado André. Na altura tinha dezenove anos, sem dinheiro e sem emprego. Dormia num quarto de estudante, impossível para criar um bebé. Aguentou seis meses e entregou o menino ao lar infantil.
Três anos depois casouse com Dinis. O que aconteceu antes do casamento ficou entre eles. Logo nasceram duas filhas. A maior foi para a universidade no interior, onde acabou por casarse. Os netos já frequentam a escola. A segunda filha casouse e mudouse para Porto.
Lurdes nunca conseguiu uma profissão fixa. Durante duas décadas trabalhou como supervisora de limpeza numa fábrica. Quando a fábrica faliu, ficou desempregada. Foi então que a filha de uma amiga lhe ofereceu o posto de limpaescritórios na Câmara. Aceitou.
E agora o presidente André Bóris nasceu em 1983. Lurdes não se queixa da vida, mas nunca deixa de pensar no filho que teve. Aparecia-lhe às vezes nos sonhos. Quer confirmar que aquele homem é realmente o seu filho e que está bem.
***
Alguns dias depois, Lurdes varria o seu andar. Ouviu vozes e viu André Bóris a conversar animadamente com alguns colegas. Quando ele a percebeu, acenou com a cabeça e passou ao lado, sem parar a conversa.
Na mente de Lurdes surgiu então Vítor, o rapaz de quem se apaixonara quarenta anos antes. Naqueles tempos ele era belo e alegre; ela queria vêlo sério, responsável. Agora, ao observar André, percebeu que era exatamente como imaginava Vítor na juventude.
Vítor tivera que partir logo depois de descobrir que Lurdes ia ter um filho, alegando que iria buscar trabalho no estrangeiro. Ela esperou, esperançosa, até compreender que ele simplesmente fugira.
Será que André Bóris é o meu filho?
Se não o tivesse entregue ao lar, talvez fosse outro. Mas as minhas duas filhas são bemsucedidas: a maior tem casa própria e carro; a mais nova também tem tudo. Ainda assim, falta o filho.
Se eu não tivesse casado com Dinis, a história teria sido outra para mim, para ele e para o André. Quem sabe o presidente não seja o mesmo menino que deixei no lar? O mundo tem coincidências inimagináveis.
De qualquer forma, ele tem pais que o criaram, mesmo que ele não saiba quem foi a sua mãe biológica. Eles lhe deram uma infância feliz, e olha só: de menino simples a presidente da Câmara.
***
Depois do almoço, a jovem colega Olívia aproximouse:
Olá, tia Lurdes!
Olá!
Na sextafeira celebramos o aniversário da Lúcia. Ela limpa o sexto andar e vai fazer quarenta e cinco anos. Vai juntarse a nós?
Claro! Lurdes sorriu.
Então, dáme duzentos euros. E traz um aperitivo original, se quiseres.
Tudo bem entregou Lurdes a quantia.
É sempre bom celebrar.
Olívia, chamame apenas Lurdes, somos colegas.
Combinado!
***
Na sextafeira, depois do expediente, encontraramse no sétimo andar. Um gabinete vazio tornouse a mesa da festa. Entre risos e brindes, cada um recitou o seu brinde, erguendo copos de vinho tinto.
De repente, a porta abriuse e entrou André Bóris. Sorriu largamente:
Lúcia, parabéns! entregou uma pequena caixa. Um presente modestinho.
Obrigada, senhor presidente! as lágrimas escorreram pelos olhos da aniversariante.
André, sentese à mesa convidou a chefe de limpeza.
Só um bocadinho respondeu ele, sentandose ao lado de Lurdes.
Lurdes serviu a salada, fatias de enchidos, encheu as taças. O presidente brindou. Ela o observava, o coração a bater mais forte. Naquele instante, soube que era o seu filho; já não havia dúvidas.
André ficou cerca de vinte minutos, despediuse e saiu.
Que pessoa incrível! exclamou Catarina, a mais antiga da Câmara, que sabia de tudo. O antigo presidente nunca teria imaginado sentarse aqui.
André está aqui há quanto tempo? perguntou Lurdes.
Um ano. Lembraste de ele ter sido eleito no ano passado?
Lurdes, que deixava as decisões ao marido, não recordava.
Sabes que ele vem de família rica, influente continuou Catarina. Mas não são os seus pais biológicos.
Como assim? ficou surpresa Lúcia.
Descobriram há dois anos, quando ele se preparava para as eleições. Dizem que nem ele sabia. Curioso que não reagiu.
De onde tiras tudo isto? indagou Lurdes.
A exvicepresidente, Olga Pavlina, reunia tudo sobre André, querendo que o seu chefe permanecesse no cargo. Mas o antigo presidente não foi reeleito.
Ele não sabe quem são os pais? Lurdes insistiu.
Parece que não. Ele ama quem o criou. O nosso presidente é um homem íntegro em todas as relações.
Lurdes fixouse na porta do gabinete onde André ainda permanecia sentado. Sentiase ao mesmo tempo feliz e melancólica. Feliz por saber que o seu filho estava bem, triste por nunca poder abraçálo. Aceitou a culpa por tudo e, num sussurro, pensou:
«Não te preocuparei, meu filho. Estarei sempre aqui, de alguma forma.»
A cena termina, mas a história continua, carregada de memórias e de um futuro ainda por escrever.







