Eu e Dona Lurdes sentámo-nos na velha cama do quarto pequeno. Ambas estávamos bem agasalhadaso frio do inverno já se fazia sentir, e a lareira só agora começava a lançar algum calor pela casa.
Não se preocupe, minha senhora. Há de correr tudo bem. Não nos vamos perder, prometo. Agora tome estes comprimidos.
Fazia o meu melhor para acalmar Dona Lurdes, apesar de ela não ser verdadeiramente minha mãe, nem sequer sogra legalmente falando Antes fosse.
Foi assim: morávamos ali as trêsDona Lurdes, o filho dela e eu, Leonor. O meu casamento não veio cedo, já beirava os trinta quando aceitei casar com o Ricardo. Eu era a segunda mulher dele, mas não me envolvi no fim do primeiro casamento. Quando começámos a namorar, a separação já era irreversível.
Dona Lurdes gostou logo de mim. E a verdade é que eu também me afeiçoei a ela. Era uma mulher calorosa, genuína, sabia escutar e aconselhar. Tendo perdido os meus pais muito cedo, ela foi a pessoa mais chegada que tive nos últimos anos.
O Ricardo costumava brincar: Vocês parecem combinadas! E esses cinco anos de casamento passaram num sopro. Depois disso tudo mudouele começou a mostrar-se áspero, impaciente e até agressivo, tanto comigo, como com Dona Lurdes.
Descobri o motivo: outra mulher. Ele chegava cada vez mais tarde, muitas vezes emborrachado.
Num daqueles serões gelados, informou que me queria fora dali. Deu-me dois dias para arrumar tudo. Nem tempo tive para digerir, já a tal amante chegava, toda apressada com a mala em punho.
Quis mostrar-se poderosa, mas nem para isso teve jeito. Era uma loira muito alta, de lábios artificiais e pestanas tão longas que mal conseguia piscar os olhos. Não aguentei e ri-me.
Trocaste-me por este espantalho de pestanas de vaca? Boa sorte, não vais ouvir queixas da minha parte.
Ao menos ela é divertida, ao contrário de vocês, duas velhas tristonhas retorquiu o Ricardo. Duas galinhas, só falta cacarejarem!
Podes insultar-me a mim, mas não faltares ao respeito à tua mãe! atirei-lhe, cansada.
Amor, mas a tua mãe vai ficar por aqui? guinchou a loira, pestanejando desesperada. Porque não levam-na consigo? Não precisamos dela, pois não querido?
Pois, é altura de te ires embora, mãe. Fizeste a tua parte por cá.
E agora, para onde é que vou? Dei-te o dinheiro todo da venda do meu apartamento para construíres esta casa suspirou Dona Lurdes, apertando o peito.
Chega de dramatismos! Podes ficar, mas sem sair do quarto. Agora quem manda aqui é a Albina.
Meu fofo, manda estas duas embora instigava aquela criatura, já impaciente.
Já não tinha paciência para aquela cena. Voltei-me para Dona Lurdes:
Quer vir comigo para a aldeia, mãe?
Mais vale ir, Leonor. Melhor do que continuar aqui, perto deste filho e daquela
Sente-se um pouco, eu vou arrumar as suas coisas.
Não esqueças os remédios, a caixinha das joias e a mala.
Enfiei tudo à pressa numa mala extra, desde os documentos e medicamentos até à roupa interior e ao vestido de lã.
Levem tudo, não precisamos de tralha dos outros atirou Albina, olhando para Ricardo à espera da aprovação.
Ele nada disse, limitando-se a observar-nos. Sabia que a mãe não lhe perdoaria facilmente. Ou talvez simuma mãe perdoa quase tudo.
Pouco depois já estávamos junto ao carro. Dona Lurdes sentou-se no banco de trás, a chorar baixinho. Nem olhou para o filho quando partimos.
Dói perceber que alguém a quem entregou tudo, agora a ignora.
O que será de nós agora, Leonor?
Vai correr tudo bem. Tenho umas poupanças, até encontrar trabalho aguentamo-nos bem. Tem a sua reforma. Não nos vai faltar pão.
Quando chegámos à aldeia, onde passei parte da infância, respirei fundoali, pelo menos, estávamos a salvo. Atravessámos a casa gélida. Tratei logo de pôr lenha na lareira, trouxe água, pus o chá a ferver.
Que jeito tens para isto tudo, parece que sempre cá viveste.
O meu avô ensinou-me tudo. Sorte a nossa termos comida, não preciso ir ao mercado já. Não suporto mexericos de aldeia.
A casa foi aquecendo. No dia seguinte, comecei a limpar tudo.
Alguém bateu à porta. Era o vizinho, o Sr. Manuel.
Ah, voltaste finalmente. Não estava à espera de te ver no inverno, Leonor. Algum problema?
Está tudo bem, Sr. Manuel. Venha beber um chá connosco.
Vim convidar-te, mas não sabia que tinhas companhia. Só ali reparou em Dona Lurdes, à mesa. Muito prazer, Dona Lurdes. Eu sou Manuel.
Conte connosco, qualquer coisa.
E assim passaram os dias. Ao fim de uma semana, a casa estava limpa, quente e de novo acolhedora.
Dona Lurdes confidenciou-me:
Sabes, também sou de aldeia. Casei com um homem da cidade, e ele faleceu cedo. O Ricardo prometeu que ficaria sempre comigo Vê lá como as coisas acabam.
Não chore mais. Sei que custa, mas a vida continua e nunca se sabe se terá netos.
Daquela loira? Deus me livre! Quem é que vive com o Manuel?
Ninguém. A mulher afogou-se a salvar uma criança do rio, há muitos anos. Nunca mais casou. Não tem filhos. Era amigo do meu avô, ainda que mais novo que ele. Até tem sua idade.
Pouco depois de um mês, nem sinal do Ricardo. Nem ligou à mãe. Um dia, porém, recebi uma chamada de um número estranho.
É a Leonor?
Sim, sou eu.
É do hospital. O seu marido O Ricardo faleceu num acidente de viação. Estava bêbado. Ia com uma moça, ela sobreviveu ilesa. Desculpe, mas tem de vir fazer o reconhecimento do corpo.
Meu Deus, como hei de contar isto a Dona Lurdes? Lembrei-me logo do Sr. Manuel, que sempre nos apoiou.
Leonor, estás tão pálida, filha!
Mãe, acalme-se e sente-se. O Ricardo já não está entre nós.
Ai, meu Deus Fui eu que causei isto! Abandonei-o!
Ele é que a expulsou, mãe!
Fui. Mas era mãe dele. Que tragédia!
Eu vou ao reconhecimento. O Sr. Manuel fica aqui consigo.
Vou contigo insistiu Dona Lurdes.
Vamos todos decretou o Sr. Manuel. Vou no meu carro, e está decidido.
O funeral foi simples. Decidimos ir à casa que, agora, por direito, passava para mim e Dona Lurdes. O Ricardo nunca assinou o divórcio, entre festas e distrações esqueceu-se de tal.
Manuel acompanhou-nos em todo o momento.
Se precisarem de qualquer coisa, estou aqui. Não confio muito nesta gente da cidade.
A casa, em ruínas, cheirava a álcool e lixo. Roupa suja e pratos pelos cantos. Pareciam ter passado ali vultos, sem qualquer respeito pelo espaço.
O meu filho acabou assim Como pôde isto acontecer? soluçou Dona Lurdes.
Quem são vocês? Esta casa é minha, rua daqui! apareceu Albina, a tal, acompanhada de um homem desgrenhado.
Quero ver os papéis da casa! disse logo o Sr. Manuel, impondo respeito.
Que papéis? Era meu marido! Até casámos!
Ele nunca chegou a divorciar-se. E casamento só se for de brincadeira! respondi eu.
Divirtam-se. Agora vão-se Manuel cortou o contacto, vigiando para que nada desaparecesse.
Foram-se embora. Mudámos as fechaduras. Os documentos estavam em ordem.
Muita coisa teve que ir para o lixo. Manuel não nos largou.
Dói-me que regressem para aqui, já sentia a vossa falta desabafou.
Vamos visitar muitas vezes, Manuel. Você também venha dar notícias.
Sinto-me jovem convosco. A Dona Lurdes lembra-me tanto a minha mulher Tem um brilho especial.
Nem me fale, Manuel! Até os seus olhos brilham quando olha para ela Não querem contar-me se o que sinto é verdade?
Ele corou, envergonhado. Dona Lurdes riu. Talvez tivesse razão.
Um ano depois, Manuel e Dona Lurdes trocaram alianças. Verdade seja dita, eram felizes juntos. E eu, para eles, era quase como uma filha. A nossa família cresceuadotei dois irmãos, não consegui separar os miúdos. Sonhara com um filho, vieram dois. Nunca cheguei a casar de novo, mas pela primeira vez, sentia-me mãe.
Hoje sei que família e gente nossa não é apenas quem nos dá a vida. É quem a partilha connosco, mesmo quando chega tarde, ou por acasoàs vezes, as circunstâncias juntam quem tem de se encontrar.
A vida ensinou-me que, no fim, sempre se encontra calor onde menos se espera e que tudo pode recomeçar, desde que haja amor e coragem.






