Ao contar ao namorado que estava grávida, Mariana viu tudo refletido no rosto de Rui. Era claro como água que ele não esperava por um filho, e dificilmente queria casar-se tão cedo…
Marianinha apaixonou-se ainda antes de fazer dezoito anos. O rapaz da sua aldeia já lhe chamara a atenção há tempos, e passaram juntos toda a primavera, passeando pelos campos, indo até ao rio, encantando-se com o pôr-do-sol.
Ela tencionava ingressar na Escola Profissional da cidade, mas um dia percebeu que estava à espera de bebé. Sentiu-se perdida. O que irá dizer a mãe, a irmã, e as pessoas da aldeia?… Pensamentos inquietos dominavam-na.
Determinada, Mariana decidiu que não teria o filho. Contou tudo à mãe, e de olhos marejados de lágrimas, seguiu de autocarro para Lisboa. A mãe não a impediu…
A irmã de Mariana crescia numa família monoparental. A mãe mal se aguentava a trabalhar, e agora a filha mais velha ainda lhe trazia um “presente” destes.
Na cidade, tudo correu como planeado. Depois disso, cortou qualquer contacto com Rui. E ele, verdade seja dita, também não insistiu.
Um travo amargo de desilusão ficou-lhe na alma, e na verdade, um vazio enorme. Já não conseguia estudar: não podia contar com o apoio da mãe, que continuava a amuar com ela.
Mariana precisava de trabalho em Lisboa, e de um pequeno quarto, para poder sobreviver. Voltar à aldeia estava fora de questão; sentia os olhares e cochichos à sua volta.
Talvez tivesse sido o destino que a levou até aquele quadro de ofertas de emprego na avenida. Com letra direitinha, viu um anúncio recente: procurava-se ama para um menino de três anos, com direito a quarto e comida em casa de família. Perfeito!
Foi aceite por uma simpática família de professores universitários. O pequenote, Tomás, a única criança tardia do casal, afeiçoou-se logo a Mariana, e quando, de vez em quando, ia à terra visitar a mãe e a irmã, o menino quase chorava de saudades.
Os anos passaram, e Mariana tornou-se parte da casa dos professores. O professor Manuel e a dona Isabel trabalhavam ambos na Faculdade. Mariana foi assumindo cada vez mais tarefas em casa; passava a ferro e lavava a roupa, organizava tudo, ajudava o Tomás com os trabalhos de casa, fazia compras e era boa a cozinhar.
Quando o Tomás cresceu e já não necessitava de ama, mantiveram-na para as lides domésticas.
O salário era modesto, mas considerando a casa e alimentação, estava satisfeita. Naquela casa, Mariana encontrou paz, abrigo e carinho verdadeiro.
Só uma coisa a entristecia. Meses antes, conhecera o Ricardo, que morava no prédio ao lado. Os encontros tímidos à porta deram lugar a uma relação mais próxima. Namoravam há quase três anos, mas Mariana sabia que, por causa daquela decisão de juventude, não poderia ter filhos…
Não quis esconder o segredo de Ricardo. Outra vez foi deixada, outra vez sentiu o desgosto, outra vez ficou sozinha.
A casa dos professores era agora o seu único refúgio. Dedicava-se à dona Isabel e ao professor Manuel como se fossem família sua. Tornou-se, de facto, mais um membro daquela família. Lá sossegou a alma depois do desgosto do amor. Deixou de sonhar com casamento.
Mais uns anos tranquilos se seguiram. Tomás concluiu o curso, falava inglês fluentemente e recebeu boas propostas de trabalho escolheu uma empresa em Inglaterra.
Entretanto, dona Isabel adoeceu. Mariana cuidou dela durante anos, enquanto o professor Manuel trabalhava até tarde para ajudar o filho e garantir o sustento da casa.
Porém, essa situação não durou muito. Nos últimos instantes, dona Isabel sussurrou: “Não deixes o Manuel sozinho, não o deixes…”
Depois da partida de dona Isabel, a casa tornou-se mais fria. O professor Manuel, calado, fitava a sopa ao jantar. Mariana agora sentia-se uma estranha, sozinha. Precisava mudar algo encontrar outro emprego, o que era difícil sem qualquer curso, ou teria de regressar à aldeia, e também não havia trabalho lá…
Numa noite, após o jantar, Mariona aproximou-se do professor e, baixinho, disse: Vou-me embora, professor. Agora já não sou precisa. Obrigada por tudo.
O professor acordou como de um sonho. Levantou a cabeça, olhou-a admirado. O quê? Vais embora? Mas porquê?… Todos me querem deixar? Ficar aqui sozinho? Assim, de repente?
Mariana suspirou. Manuel levantou-se, acercou-se dela, segurou-lhe a mão e, pela primeira vez, beijou-lha.
Ouve, Marianinha. Tu não és só funcionária aqui; és parte da família. Eu não te vou deixar sair. Sim? Ela acenou que sim, emocionada.
Ele continuou: A Isabel sempre quis que ficasses connosco. Acostumámo-nos uns aos outros nestes anos todos. Mariana, vive aqui, cuida de mim e eu cuido de ti.
Entre lágrimas e abraços na cozinha, uma sensação de serenidade envolveu-os.
Vieram dias calmos e cheios de partilha. Mariana esperava o professor regressar, mantinha as rotinas da casa, e de vez em quando recebiam telefonemas do Tomás
Passou-se um ano, depois outro. Na véspera de um aniversário de Mariana, Manuel trouxe à conversa o quanto ela significava para ele e pediu-a em casamento. Embora não fossem propriamente um casal em tudo, sentia que legalmente precisava de cuidar dela, que era mais nova e que, agora idoso, também precisava do seu apoio.
Ela agradeceu ao professor, mas quis esperar pelo Tomás para decidir. Quando ele regressou, o pai voltou ao assunto. O filho concordou, como se Mariana fosse família quase uma mãe. Já estava casado, tinha um bom emprego e casa em Inglaterra.
Assim, Mariana tornou-se a esposa do professor Manuel. Amavam-se com tanta verdade quanto qualquer outro casal.
Ela mantinha a formalidade do costume, tratando-o sempre por Manuel, e ele carinhosamente continuava a chamá-la de Marianinha. Nunca, Mariana, tivera tanta felicidade.
Rezava diariamente pela saúde do marido, desejando-lhe muitos mais anos de vida.
E ninguém, ao vê-los passear juntos no Jardim da Estrela, imaginaria quanto tempo partilhavam ou a profundidade dos laços que os uniam.
No fim de contas, Mariana aprendeu que a vida, por mais inesperados e duros que sejam os caminhos, acaba sempre por recompensar o coração generoso, fiel e capaz de cuidar dos outros.







