Uma idosa pobre alimentou duas crianças famintas durante meses… depois, elas desapareceram sem se despedir. Vinte anos depois, a verdade veio à tona.

Diário de D. Gracinda Ramos, Lisboa

Durante meses ajudei dois meninos famintos no meu pequeno bairro do Intendente, em Lisboa… Depois, desapareceram sem dizer adeus. Só vinte anos depois é que a verdade veio à tona.

No mercado das Flores, onde tinha uma banca modesta, vendia batatas cozidas polvilhadas de sal e regadas com sumo de limão. O que ganhava era pouco, mas suficiente para me manter em paz no meu velho T2 de Arroios.

Certa manhã, enquanto arrumava o cesto de batatas, uma bateu no chão.

Caiu-lhe uma batata, senhora.

Voltei-me num susto. Havia à minha frente dois rapazes, iguais como duas gotas de água. Magros, de faces fundas, as camisolas demasiado largas para os ossos. Um deles apanhou a batata, limpou-a nas calças e devolveu-ma. O outro mantinha o olhar na panela fumegante.

Obrigada sussurrei. E vocês, que fazem aqui? Já vos vi mais do que uma vez hoje.

O mais velho encolheu os ombros.

Nada só a passar.

Conheci bem aquele só a passar. Era o modo dos meninos com fome esconderem a sua vergonha.

Sem mais palavras, servi-lhes duas batatas quentes, embrulhei-as num jornal velho e juntei um pepino em conserva.

Amanhã voltem disse. Ajudam-me a levar umas caixas, pode ser?

Pegaram no embrulho à pressa. Não agradeceram apenas assentiram e foram-se.

Ainda nessa tarde voltaram. Estava eu a lutar com um garrafão de água de vinte litros. Antes sequer de pedir ajuda, os dois seguraram nele e meteram-no atrás da banca.

O mais velho puxou então duas moedas antigas do bolso.

Eram do nosso pai disse baixo. Ele era padeiro até que deixou de ser.

Estendeu-me as moedas.

Não as podemos dar mas pode ver.

Percebi logo: era tudo quanto tinham.

Guardem-nas respondi com um sorriso. Os padeiros dão sempre sorte.

A partir daí voltavam todos os dias.

Chamavam-se Tomás e Lúcio Ferreira.

Partilhava com eles o que levava de casa: feijão, pão de milho, às vezes um naco de queijo. Em troca ajudavam-me a carregar sacos, arrumar caixas, limpar a banca.

Comiam depressa, sempre calados, como se alguém pudesse roubar-lhes a comida.

Um dia perguntei:

Onde dormem?

Num cave velha ali na Rua dos Anjos respondeu Lúcio. Está seca Não se preocupe.

Claro que me preocupo ripostei. Por isso pergunto.

Tomás ergueu o olhar.

Não somos mendigos disse com orgulho. Havemos de abrir uma padaria. Como o nosso pai.

Assenti, percebendo aquela força.

Nunca mais voltei ao assunto.

Havia ali algo naquela disciplina feita de silêncio.

Mas, como sempre, há quem não aprecie bondade alheia.

O guarda do mercado, Manuel Leite, tinha mulher a vender bacalhau seco, só que poucos compravam. Na minha banca, havia sempre fila.

Cada vez que passava, murmurava com desprezo:

Agora queres ser santa? A dar de comer a arrumados

Fingia não ouvir. Mas sabia bem que o sr. Leite podia arranjar-me chatices e que, se isso acontecesse, Tomás e Lúcio seriam prejudicados.

Resolvi tornar-me mais cautelosa.

Passava-lhes os restos dentro de um saco, como se fossem encomenda. Chamava-os atrás da banca de vez em quando.

Eles deram por isso.

Nunca fizeram perguntas.

Numa tarde gélida, com o mercado quase vazio, foi o Tomás que falou.

É por causa do guarda não é?

Hesitei antes de acenar que sim.

Não quero que vos aconteça nada. Nem todos entendem o que é ajudar.

Lúcio ajeitou o saco ao ombro.

Se ficar perigoso deixamos de vir.

Disse-o sem emoção.

Mas essas palavras custaram-me mais do que qualquer crítica.

“Desenrascamo-nos”.

Sabia o que isso queria dizer: frio, fome, noites na rua.

Nessa altura, o inverno chegou cedo.

O mercado ficou quase deserto. Pouca gente, quase sem dinheiro.

Tomás e Lúcio começaram a aparecer a espaços.

Às vezes vinha só um, todo encolhido do frio. Outras não aparecia nenhum.

Passava os dias à espera, olhando sem querer para o final da rua.

Até que deixei de os ver.

Não vieram nem nessa manhã, nem na seguinte.

Ao fim de uma semana, fui à Rua dos Anjos. Perguntei aqui, acolá. Alguém disse que a cave fora trancada depois de uma denúncia.

Saíram nessa noite.

Ninguém sabia para onde.

Sentei-me num banco de jardim e fiquei ali muito tempo de olhos no chão. Senti o peito pesado.

Depois fui para casa. A vida continuava, gostasse eu ou não.

Os anos passaram.

O mercado das Flores acabou por fechar. Reformei-me. Vivi sozinha no meu apartamento envelhecido.

Por vezes, enquanto descascava batatas para mim, lembrava-me dos rapazes.

Teriam sobrevivido?

Ficaram juntos?

Será que o sonho da padaria resistiu ao frio e à fome?

Nunca contei a ninguém.

Nunca os esqueci.

Numa manhã de outono, muitos anos depois, ouvi um barulho debaixo das janelas da sala.

Dois BMW pretos, polidos, estacionaram à porta.

Fronzi o sobrolho. Achava impossível.

Ao fim de minutos, tocaram à campainha.

Abri com cautela.

Dois homens altos, elegantes, parecidíssimos, estavam à porta.

É a D. Gracinda Ramos?

Sim sou eu.

O outro sorriu.

Somos o Tomás e o Lúcio.

No preciso momento, vinte anos devolveram-me o passado como um murro no peito.

Parte 2

Por alguns segundos não consegui falar.

Não os reconheci pelo rosto.

Foi o olhar.

O mesmo olhar sério dos meninos de outros tempos.

Procurámos por si anos a fio disse Lúcio. Não sabíamos se ainda vivia aqui.

As pernas tremeram-me e apoiei-me no batente.

Abrimos uma padaria continuou Tomás. Depois abrimos outra e mais uma ainda.

Entraram no meu apartamento.

Lúcio tirou de um saco um pão quente e colocou-o sobre a mesa da cozinha.

O cheiro espalhou-se pela casa.

Por momentos, o tempo recuou vinte anos.

Só vos dei umas batatas murmurei.

Tomás abanou a cabeça.

Não, D. Gracinda.

Deu-nos dignidade.

Lúcio disse:

Tratou-nos como gente, quando ninguém o fazia.

Sem isso nunca teríamos conseguido.

A conversa durou horas.

Recordámos aqueles tempos duros, os empregos onde pagavam mal, as noites nas marquises das pensões. Contaram-me como um velho pasteleiro lhes deu a primeira oportunidade e como nunca esqueceram a promessa feita em crianças.

Se algum dia tivessem sucesso

voltariam a procurar a mulher que um dia lhes matou a fome.

Na hora da despedida, fiquei muito tempo à porta.

Apertava o pão quente ao peito.

E, pela primeira vez em muitos anos, percebi algo tão simples quanto grandioso:

as batatas que dei naquele velho mercado mudaram o destino de duas vidas.

E a minha também.

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