Lurdes, e esses quilos a mais? Não será um problema? insistia a mãe de Diogo, não se cansando.
Para mim não há excesso, muito menos se o meu futuro marido os aceita. Nem todos podem ser formiguinhas e varetas replicou Lurdes, lançando um olhar sarcástico a Leonor e a Helena. O tom atrevido fez Helena ruborizarse.
Mãe! Compraste chá detox? Sementes de chia? Por que puseste tanto azeite no mingau? São quilos a mais! Diogo, compraste novamente pão de fermento? Faz mal! De manhã devo beber três copos de água, senão o peso não despenca Onde está a minha água? dizia a velha litania que Diogo ouvia desde pequeno.
A mãe e a irmã mais velha viviam obcecadas com a silhueta. Helena, já com trinta e oito anos, nunca se casara e parecia um cavalo magro, curvado, com olhos eternamente famintos. Leonor, por sua vez, era tão rígida quanto um bastão de tricotar.
Essas obsessões cansavam Diogo, que sempre buscou companhia em gente alegre, de apetite generoso. Sonhava que a esposa fosse diferente da mãe e da irmã. E encontroua.
Chamavase Maristela. O nome dela era suave, doce, como um pão de mel recémsaído do forno. Não era gorda, mas, com 1,73m de altura, pesava 85kg. Cada quilo irradiava saúde e bom humor: busto alto, cintura fina, curvas femininas e covinhas nas bochechas que se convidavam a um leve beliscão. O encanto foi imediato; ao vêla, Diogo ficou sem palavras.
Numa tarde, conduziu Helena ao banco do centro de Lisboa para tratar de assuntos. Ela recebeu o talão e sentouse numa cadeira apropriada, enquanto ele perambulava pelos corredores, à espera.
De repente, um riso plateado, como o de um sino, ecoou ao longe. Era suave, porém contagiante, e Diogo não pôde evitar um sorriso. Movido pela curiosidade, seguiu o som.
Ria uma jovem operadora que atendia a um cliente idoso. O senhor contou uma piada e ela gargalhou novamente. Diogo ficou hipnotizado: cabelos ondulados, lábios em forma de laço, e o corpo perfeitamente proporcionado tudo visível a olho nu.
Ele seguia no carro, ouvindo a monótona voz da irmã, mas a mente parecia já estar na fila do banco, ao lado daquela moça.
Diogo, me escutas? indagou Helena, com desdém.
Claro, Leonor, estou a ouvir respondeu ele, forçandose a concentrar no que a irmã dizia.
Estou a dizer ao meu pretendente que não como carne frita, só peito de frango grelhado desabafava Helena sobre o seu amor recémdescoberto. Diogo assentiu compreensivo, balançando a língua como quem diz: «Que desgracinha!».
No dia seguinte, ao entardecer, retornou ao banco. O objeto do seu desejo encontravase ali, e ele exalou aliviado. Depois do expediente, tirou do carro um ramalhete de rosas e dirigiuse à operadora.
Senhora, procurase marido ou um marido para a sua mãe? resmungou ele, num tom descontraído, entregando as flores.
O rosto de Maristela ficou ainda mais desengonçado, mas ela riu à gargalhada e aceitou as rosas.
Meu Deus Que perfume! exclamou, afundando o rosto nas flores, enquanto Diogo a admirava.
Desde então foram inseparáveis. É incrível como, ao encontrar alguém, sentese que já encontrou tudo o que precisava. Assim foi para Diogo e Maristela. Após um mês de namoro, fez-lhe a proposta e ela aceitou com alegria. Restava apenas conhecer as famílias.
Os pais de Lurdes receberamo com mesa farta, repleta de pastéis de nata, riso e conversa. A mãe de Lurdes, uma bela mulher de porte altivo, beijouo nas duas bochechas, deixandoo sem saber como reagir. O pai, Manuel, batucou-lhe o ombro como a um velho amigo e conduziuo à cozinha.
Fica longe das mulheres, senão vão te enlouquecer. Mas não te preocupes, Natália, mãe da Lurdes, é uma mulher tranquila! É por isso que a adoro há trinta anos. Lurdes é a nossa joia, um verdadeiro diamante. Cuida bem dela, filho. disse Manuel, fitandoo.
Sentaramse à mesa por longas horas, devorando tudo com apetite, rindo alto e recordando episódios engraçados. Depois, Joaquim, pai de Maristela, pegou a guitarra e todos cantaram em coro. Diogo sentiuse em casa, como se conhecesse aquela família há toda a vida.
Três dias depois, foram à casa dos pais de Diogo. No caminho, pararam numa pastelaria onde Lurdes comprou éclairs artesanais para as damas. À quintafeira à noite, chegaram.
Abriu a porta Maria, mãe de Diogo.
Oh Olá, meus queridos exclamou, surpresa ao ver Maristela, segurando a porta com a mão trêmula.
Mãe, eu também te adoro. Não vamos ficar à porta, vamos entrar? sussurrou Diogo, e ambos adentraram.
Claro, filho Entrem, entrem E tu, és a tal Lurdes, não? a mãe, ainda incrédula, examinou Maristela da cabeça aos pés.
Sim, sou Lurdes! Muito prazer. estendeu a mão a Maria, que ainda permanecia boquiaberta.
Pai, Helena, mãe esta é Lurdes, a minha noiva. Já fizemos o pedido e o casamento está próximo. Lurdes, esta é a minha família: irmã Helena, mãe Maria e pai Manuel. apresentou Diogo a todos.
A notícia do casamento surpreendeu a família de Diogo; ficaram em silêncio, apenas o tilintar dos talheres se ouvia.
Lurdes! Bemvinda à família! Têm algo reservado? Ah, uma garrafa de vinho, que ótimo! E umas guloseimas, só para as meninas. quebrou o gelo o pai, Manuel.
Não, não, não comemos doces à noite. respondeu Maria, afastando a caixa de sobremesas com certa repulsa.
Vocês não comem, mas nós sim! Tragam a caixa, vamos ver o que tem. Não vai ser nada de ruim, Lurdes. bradou o pai, rindo.
Finalmente, todos se acomodaram; a mesa tinha chocolate, petiscos leves e uma garrafa de espumante. Abriram o vinho, brindaram, tomaram um gole e a conversa ficou novamente silenciosa.
Mãe, encontrei os pais da Lurdes. São pessoas maravilhosas, vão gostar de vocês disse Diogo, querendo dizer algo. Lurdes observava o copo, enquanto Helena não tirava os olhos de Lurdes. O pai começou a contar uma piada, todos riram e a tensão aliviouse.
Lurdes, não se preocupe, tenho um excelente especialista. Vou apresentála a ele e resolverá o seu problema. exclamou a mãe repentinamente.
Problema? Não tenho problema nenhum respondeu Lurdes, surpresa.
Então, Lurdes, esses quilos a mais insistiu a mãe de Diogo. Não são vinte? É ruim para a saúde. Quando tiveres filhos, nem consigo imaginar
Quando eu der à luz, ficarei ainda mais bonita, com o meu marido e o nosso filho. E tu, Helena, casada? Uma mulher tão esguia como tu tem que ter um belo marido e, ao menos, dois filhos retrucou Lurdes, mordendo um pastel.
Helena engoliu o remorso e quase respondeu, mas Manuel interveio, encheu os copos e fez um brinde.
Às mulheres desta família, tão distintas, mas tão amadas!
Saíram à rua, depois de duas horas, olharamse, suspiraram ao uníssono e, sem planear, riram juntos.
Jamais imaginei ouvir da minha sogra que eu sou cheia
Lurdes, querida, és linda e sabes disso! Perdoa a mãe e a irmã, são da família consolou Diogo.
O casamento ficou marcado para 25 de agosto. Nesse dia, parentes e amigos reuniramse no civil, depois dirigiramse ao restaurante.
A noiva desfilava num vestido deslumbrante que realçava a figura feminina e encantadora. O noivo não desgrudava os olhos dela. A mãe da noiva, Natália, não se deixava ficar atrás, exibindo sua própria elegância; o vestido realçava sua silhueta como um raio de sol. Os homens não podiam deixar de admirar.
A música começou, o casal girou no primeiro baile, como se o mundo fosse só eles dois. Os convidados ficaram hipnotizados.
Acho que a noiva poderia perder uns quilos o vestido está apertado demais comentou a mãe de Diogo, numa voz crítica.
Palavras são como pássaros, voam e não voltam respondeu Natália, tentando conter a tensão.
Muitos homens preferem mulheres normais, não aquelas que se desmancham ao toque. O teu filho está entre eles, e tu, minha cara, tem cuidado ao falar, porque sou mulher, delicada, mas de nervos à flor da pele. insistiu Natália, pressionando a mãe de Diogo.
Por momentos as duas mulheres trocaram olhares de fogo. O pai de Diogo, Joaquim, interveio.
Ah, minhas meninas, já são amigas! Mas eu preciso roubar a minha esposa, cara Maria! Natália, convidote a dançar. O casal já terminou, agora é a nossa vez.
Ele segurou a esposa pela cintura, giroua num valsa enquanto a música ecoava. O salão vibrava, rostos felizes, o casamento cantava e dançava como na canção popular.
Resta a esperança de que vivam felizes, cultivem o bem e colham fartura Afinal, isso é o que realmente importa, não é?







