O meu filho trouxe a noiva para casa. Mal vi o rosto dela e ouvi o nome, liguei imediatamente para a polícia… Senti o chão desaparecer debaixo dos meus pés—eu conhecia-a. Ai, como eu a conhecia bem.

O meu filho trouxe a namorada para casa. Mal vi o seu rosto e ouvi o nome dela, liguei imediatamente para a polícia… Senti o chão a fugir-me dos pés. Eu conhecia-a. Oh, como eu a conhecia. Nunca pensei que seria capaz de tal coisa…

Bastaram-me três meses para perceber que o meu filho estava diferente. Saía mais vezes, chegava tarde a casa, sorria para pensamentos secretos. Mas, numa noite de jantar em família, tossiu embaraçado e confessou que tinha uma namorada. Quase deixei cair o garfo. Nunca tínhamos ouvido falar dela. Nem nomes, nem detalhes, nem sequer uma fotografia. Um mistério total.

Conheci-a num café perto da faculdade disse-me ele. Ela chama-se Madalena.

O nome dele saiu como um sussurro. Mas o meu filho pronunciava-o com orgulho. Segundo ele, a Madalena era muito tímida e fugia a reuniões de família. Isso alertou-me, mas contive-me. Os filhos crescem. No entanto, três meses depois, ele anunciou o pedido de casamento com as mãos suadas de nervoso.

Insistimos, eu e a minha mulher: ela tinha de vir jantar connosco. Queríamos conhecer a futura nora. Passei o dia todo a preparar o jantar, dobrei guardanapos com rigor, a minha esposa escolheu os melhores bifes. Receberíamos Madalena como merecia. Por dentro, no entanto, tinha um desconforto sem nome.

Quando a porta se abriu e eles entraram, senti o ar distorcer. O meu filho, radiante como uma criança no Natal. Ela… Madalena… Por um momento, esqueci como se respirava. Havia algo de familiar naquele rosto, como uma música esquecida que de repente volta ao ouvido. Quando ela se apresentou, todas as peças do puzzle encaixaram, como se alguém acendesse a luz de um só golpe.

Madalena, vem comigo à cave escolher o vinho para o jantar pedi com voz calma, demasiado calma.

Fui à frente, mas fiz sinal para que ela descesse primeiro. O frio habitual e o aroma da madeira receberam-nos. Assim que entrou, fechei a porta rapidamente e tranquei com a chave. Ouvi um murmúrio abafado do outro lado.

De volta ao rés-do-chão, olhei para a minha mulher e para o meu filho. Estavam pálidos.

Agora telefonamos à polícia disse eu. Tenho muito para contar.

Dez anos antes, a filha dos nossos vizinhos desaparecera. Chamava-se Madalena. Bonita e reservada, com uns grandes olhos. Passava muito tempo na nossa casa, ajudava-me no jardim, ria com o meu filho… Pensava que teria a vida pela frente. Mas um dia desapareceu. Encontraram-lhe as coisas junto ao rio; a polícia falou em acidente, mas nunca surgiu o corpo. Recordei foi no dia em que lhe permiti usar o nosso telefone na cave para chamar um táxi. A última vez que alguém a viu.

Durante anos, fui atormentado por questões. E agora estava ali, à minha frente, uma cópia. O mesmo rosto. Os mesmos olhos.

Pai, isto é absurdo! gritava o meu filho. Ela não sabe nada do que dizes!

Mas dentro de mim ecoava uma certeza teimosa, impossível de negar.

Chamámos a polícia.

Enquanto esperávamos, Madalena permaneceu em silêncio na cave. Nenhum grito, nenhum murro na porta. Um silêncio tão denso que gelava o sangue.

Quando os agentes chegaram, pediram-lhe para subir. Esperei protestos, histeria, mas Madalena saiu calma, como se soubesse o que vinha aí.

Parece-se com uma rapariga que desapareceu há dez anos disse o agente.

Madalena sorriu. Um sorriso frio.

Eu sei respondeu ela.

O interrogatório durou duas horas. Mandaram-nos para casa. No entanto, apenas uma hora após, a polícia voltou pálida, inquieta.

Ela desapareceu disse o agente. Sumiu literalmente do quarto. Nas câmaras, só vazio. Entrou, mas ninguém a viu sair. Como se tivesse evaporado.

Senti tudo desabar à minha volta.

Seguiram-se dias de caos. O meu filho evitava-nos, batia as portas, culpava-me por tudo. Amava-a. E via que nos seus olhos havia mais dor do que raiva.

Na terceira noite, desapareceu.

Revistámos a casa, a garagem, a rua nada. Depois, a minha mulher desceu à cave… e chamou-me num fio de voz.

Em cima da mesa de vinhos, estava um bilhete. Letras perfeitas, calmas:

“Não procurem por nós. Voltarei quando puder. Madalena.”

Ao bilhete vinha presa uma fotografia antiga: eu, o meu filho, e ao lado outra menina. Madalena. A verdadeira. Olhava-nos com o tipo de olhar que se dedica a uma casa, a uma família.

Percebi: a foto tinha estado escondida todos estes anos. Mas quem a encontraria?

Passou uma semana. Tocaram à porta cedo. O meu filho. Mas parecia mais velho as faces mirradas, olhos escuros.

Ela… não é humana, pai sussurrou ele.

Tremi por dentro.

Contou-me:

Depois do desaparecimento, afinal, o corpo de Madalena foi encontrado. Mas estava viva. O corpo, porém, já não funcionava. Cientistas um projeto secreto tentaram reconstituí-la. Não reanimação, nem medicina. Outra coisa. Guardaram-lhe a consciência… num corpo artificial. Mas a memória dela era fragmentada, ia e vinha.

Quando te viu, lembrou-se disse-me o meu filho. Foi demais.

Madalena voltou de propósito. Para fechar o ciclo aberto dez anos antes. Para relembrar o último instante esquecido vezes sem conta: a nossa cave. O derradeiro telefonema. As palavras que lhe disse antes de ir para o rio.

Senti o frio subir-me pela espinha.

O que é que ela recordou? sussurrei.

O meu filho estendeu-me outro bilhete.

“Disseste-me naquela noite: vai para casa sozinha. É importante. Confiei. Depois, só água.”

Tapei a boca. Recordava. Na altura, tinha a certeza de que o pai dela a esperava no carro. Foi um erro. Uma catástrofe que lhe custou a vida.

Ela perdoou-te disse o meu filho, baixinho. Mas esqueceu-se de se perdoar a ela mesma. Por isso voltou.

E onde está agora? perguntou o meu marido.

O meu filho abanou a cabeça.

Voltou à água. Ao sítio onde tudo começou. Para sempre.

Nessa noite, estávamos os três ao pé do rio. A água corria calma, opaca. O vento trazia frio. Pousei a mão no ombro do meu filho.

Foi então que a vimos uma figura ao longe, na ponte. Ficou imóvel, como uma estátua. Olhou-nos, levou a mão ao peito um gesto de agradecimento.

E evaporou-se. Como um reflexo apagado pela corrente.

O meu filho demorou a falar:

Era metade máquina, mas o coração… era genuíno.

Acenei, finalmente compreendi: a minha culpa não era para com a polícia ou com o meu marido, mas para com a memória. E Madalena não voltou para se vingar… mas para fechar o que estava por terminar.

Desde então, a cave ficou vazia. Mas, por vezes, ao passar, oiço um tilintar subtil de vidros como um sussurro:

“Lembro-me de tudo. Perdoo-te.”

E isso, percebo agora, é o medo e o alívio maiores que alguém pode conhecer.

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