A Sogra Monumental – Dona Iracema Silva era uma mulher imponente. Não caminhava, desfilava. Não olha…

Diário de 15 de junho

Dona Ermelinda Lopes era dessas mulheres que não passam despercebidas. O andar dela era mais um desfile. O olhar, penetrante, parecia atravessar paredes. Quando falava, era como se estivesse ditando normas para o país inteiro. Se pusessem Ermelinda numa praça, viraria monumento era mulher, mas podia muito bem ser estátua.

Ela sempre teve uma posição de destaque no mercado de alimentos ali da cidade, já foi presa duas vezes por brigas e uma vez por acidente grave, mas sempre saiu de cabeça erguida. Entre essas passagens, teve tempo para criar três filhas, cada uma com seu jeitinho, e, por consequência, três genros para aturar.

Quando um genro casava com uma das filhas, Dona Ermelinda fazia questão de ler para ele as regras e, claro, as consequências de não cumprir cada uma delas. Mas nunca se metia em brigas bobas de família guardava a energia para as coisas realmente sérias. Filhas tinham ordem de não incomodar a mãe à toa: resolva você mesma, só me ligue se perder algo importante ou precisar esconder o corpo de alguém.

Os genros adoravam essa política do não se mete, nunca batiam de frente, porque sabiam que desafiar Dona Ermelinda era pedir para ver o diabo. Afinal, dava para ver no rosto dela a ameaça: crime em defesa própria.

O mais novo dos genros, Rui, nunca teve tanto contato com a sogra. Morava em Almada, enquanto ela vivia em Setúbal, então achava que era homem livre, independente e sem medo. Até o dia em que resolveu aceitar o convite do chefe para uma sauna com alguns colegas, numa noite de sábado.

Contou à mulher, Lúcia, que ia ficar até tarde no trabalho, tinha uns relatórios para adiantar. Os colegas, mais experientes, foram além: um levou canas e tenda, disse que ia pescar com amigos, encomendou até um balde cheio de peixe fresco para agradar a esposa. Dois outros apareceram com portáteis, fingindo que seriam noites de jogos. O chefe foi o único que não escondeu a ida à sauna da esposa.

A noite foi rolando, e lá pela meia-noite, a cerveja e o vapor já não entretinham ninguém. Resolveram animar com companhia feminina, juntaram dinheiro e chamaram duas raparigas, mas vieram tão sem graça que o chefe sugeriu trocar por uma mais bonita; os outros preferiram gastar o dinheiro em mais vodka.

Enquanto isso, Lúcia, cada vez mais aflita pelo sumiço do Rui, decidiu ligar para a mãe.

Fala depressa, Lúcia, estou a descarregar uma carrinha toda de bacalhau, resmungou Dona Ermelinda.

Mãe, o Rui não apareceu em casa, o telefone não toca, nem o de trabalho, não consigo falar com ninguém da empresa, nem com o chefe! Só pode ter acontecido algo, mãe, por favor!

Calma, filha, vou resolver! E soltou uns palavrões que só ela sabia conjugar, já no modo resolver o assunto.

Em segundos, delegou o controlo do armazém e, enquanto guiava o Opel Astra, fez meia dúzia de chamadas. Em meia hora já sabia em que sauna estava o genro, com quem estava, e em quarenta minutos já entrava em Almada, acompanhada do empregado do balneário, que quase se mijava de medo. A entrada da Dona Ermelinda animou o grupo, e Rui ganhou um álibi perfeito uns belos hematomas e um dente partido.

O chefe até tentou reagir:

Você está a incomodar! Quem é você, afinal? Vou ligar à polícia!

Coitado, não sabia na mão de quem estava. Dona Ermelinda largou Rui, pegou num facalhão da mesa com uma mão e segurou o chefe pelo colarinho com a outra:

Tenta só! Corto-te o pescoço! Sou a sogra desse bandido!

As raparigas, vendo a faca, gritaram. Ermelinda só lhes disse:

Fiquem quietas, suas salamandras!

Girou o facalhão e foi ter com Rui:

Então, seu traste, estás a sentir-te apertado, não é?

Mãe, por favor, não faça isso! choramingava Rui, tentando esconder-se.

E quem é que me impede, hã?

Eu nunca traí a Lúcia, pode perguntar a qualquer um!

Ermelinda lançou o olhar para as raparigas. O chefe, com voz fraca, confirmou:

Ninguém traiu ninguém, Dona Ermelinda. As raparigas são feias demais para isso.

Até eu percebo, uma escolha desacertada… Ermelinda resmungou, servindo vodka para Rui: Bebe, anestesia.

Rui bateu o copo nos dentes, bebeu de uma vez.

Mas afinal, o que se passaia aqui? quis saber Dona Ermelinda.

Viemos relaxar, mas correu mal. As raparigas não eram grande coisa, explicou o chefe.

Ermelinda sentou-se e cortou uma fatia de chouriço:

Vocês não têm criatividade nenhuma, rapazes… O que são aquelas canas? Da loja de brinquedos adultos?

São meu álibi, respondeu o “pescador”.

E aquilo? O balde com peixe vivo?

Também.

Inteligente. Sem mim, vocês não se safavam! Mas podem agradecer à sorte.

Ermelinda despejou o balde de peixe no pequeno tanque da sauna os peixes dispararam para todos os lados.

Toma lá, entregou uma cana ao “pescador” e outra ao “gamer”. Vão pescar. E vocês, salamandras, para a água! Vão mostrar serviço!

As raparigas entraram no tanque devagarinho.

As regras são estas: homens pescam com cana, mulheres com as mãos. Quem apanhar peixe sai inteiro daqui.

Tu, apontou para outro “gamer”, registas o resultado. Eu e o chefe apostamos. Aposta no melhor: eu fico com a moça de bikini amarelo para ganhar.

Nem pensar! Aposto no Carlos. O nosso pescador nato!

Ó amarela! Se fores a primeira a apanhar peixe, levas o extra no pagamento.

E eu? reclamou a outra.

Ganhas extra se apanhares mais peixes do que ela!

Meia hora depois, o empregado do balneário apareceu à porta, sem saber se entrava. Só se ouvia barulho, gritos, risos… As raparigas agarrando peixe com a mão, Carlos pescando migalhas de pão, o gamer perseguindo uma das raparigas, Rui e o outro “gamer” com uma toalha grande, tentavam apanhar seja o que fosse. O chefe, vibrando, dava ordens no limite do tanque.

Dona Ermelinda enviou mensagem para a filha: O Rui foi atacado na rua, apanhou, mas está bem e a prestar declarações à polícia. Assim que terminar, levo-o para casa. Beijos, mãe. O segredo da mãe estava guardado: cuidar da filha era bem mais importante que um dente partido de genro ou noite sem dormir na sauna. Depois, transferiu ao Rui uns bons euros para o implante afinal, ele não era culpado, mas aprendeu a não ousar repetir a dose.

Aprendi hoje que nenhuma mentira dura diante da sogra portuguesa. E mais vale ser transparente, porque, cá entre nós, sogra é sogra, mas Dona Ermelinda é, acima de tudo, família e família é para proteger.

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A Sogra Monumental – Dona Iracema Silva era uma mulher imponente. Não caminhava, desfilava. Não olha…
Бях с него до последния му дъх. Но децата му ме изгониха като чужденка.