Estou partindo, Sofia. Deixo tudo a ti e à minha filha. Mas tenho um pedido.

28 de junho de 2026

Hoje acordei com o som da chuva batendo nas telhas do apartamento que dividimos em Alfama. O cheiro de pão quente ainda pairava na cozinha, mas o clima dentro de mim era de inverno. Sentei-me à mesa de madeira gasta, encostado na parede onde o azulejo azulbranco ainda lembra os antigos conventos. Preciso colocar no papel tudo o que se passou, porque a voz do silêncio já se fez pesada demais.

Já não te amo, Eurídice falei, firme, enquanto o vapor da chaleira subia e se perdia na janela. Pensei muito, pesei os prós e os contras, e cheguei à conclusão de que não há mais amor aqui.

Ela estava de pé, junto à janela que dava para a rua estreita de Alfama, onde as gaivotas ainda tentam encontrar refúgio entre as fachadas.

Eu já sabia disso há tempo, Leo respondeu Eurídice, soltando um suspiro que parecia carregar todo o peso da nossa história.

Há tempo? repeti, surpreso. Assim mesmo?

Acabou de te surpreender? ela abriu a janela, respirou o ar úmido das calçadas de paralelepípedos, sorriu levemente e a fechou novamente.

Não, mas achei que não estivesses ciente eu forcei um sorriso amargo. Então, Eurídice, tudo fica mais simples. Precisamos terminar.

Tens a certeza de que é isso que queres? indagou, os olhos ainda fixos no céu cinzento. Pensa bem, somos casados há tantos anos, temos uma filha.

Eu pagarei a pensão alimentícia, farei o que for preciso para vos ajudar. Não quero nada de ti, Eurídice.

O que queres dizer com não quero nada? ela ficou confusa.

Quero dizer que não pretendo reivindicar o apartamento nem os bens disse, apontando para a mesa vazia onde antes repousavam as contas.

Falas da casa em Alvalade e da vivenda em Cascais que comprei antes de nos casarmos? perguntou. Não vais dividir?

Não respondi, tentando manter a voz estável. Estou acima de tudo isso. Se eu fosse um homem menos nobre, teria aproveitado cada centímetro, mas a minha alma é de cristal, limpa como água de Fonte da Bica.

Até a última gota? recuou Eurídice.

Até a última gota, Eurídice. Não te deixarei sem nada. Leva tudo, eu não preciso de nada. É assim que sou.

Obrigada, Leo. És um verdadeiro homem disse ela, com um toque de ironia. Não como alguns

Como quem? perguntei, levantando os olhos para o frigorífico antigo que rangia ao abrir.

Como aqueles que não têm a alma tão limpa como a tua explicou.

Ah, esses percebi a que se referia e voltei o olhar para a pia cheia de pratos sujos. Na verdade, há muitos homens que mancham o título de cavalheiro. Alguns são tão escuros que nem a própria luz os alcança.

Eurídice sorriu de canto, ainda encarando a chuva que começava a cair mais forte.

Adoro quando chove, a casa fica quieta, quente, serena, pensei.

A terra, Leo, leva tudo. Os homens também são diferentes disse ela.

Eu sei, Eurídice, há gente de todo tipo exultei, fixando o olhar de novo na mesa. Deixa-me contar uma história do nosso escritório. Há um colega, um verdadeiro caso Quando a esposa dele partia, ele

Outra hora, Leo, fala-me disso interrompeu, ainda olhando pela janela. Agora não tenho tempo. Ainda tens algo a dizer sobre nós ou já terminaste?

Ainda não terminei assegurei, sentindo o coração bater mais forte. Há algo crucial.

Estou a ouvir ela permaneceu na janela, como quem observa o mundo lá fora.

Eurídice, vou embora, deixo tudo a ti e à nossa filha, mas tenho um pedido.

Um pedido?

Podes emprestarme quinhentos euros? implorei, com a voz quase a tremer. É um empréstimo, palavra de honra.

Quinhentos euros? exclamou ela, surpresa. Tens a certeza de que isso será suficiente?

Tenho a certeza, minha querida respondi, como se já tivesse calculado cada centavo.

Calculaste? riuse ela, um sorriso cínico. Nem parece real!

Rir é fácil, Eurídice, mas a situação não é grande. Oito anos de casamento não são muito. Não tenho nada a reclamar.

Não, disse ela, decidida. Isso é demasiado. Não te darei os quinhentos.

Como assim? perguntei, perplexo. Não vais dar?

Não, não dou.

Pensei: Que estranho como pode não dar? Não esperava isso. Lembreime de Nadinha, amiga que sempre dizia que quinhentos euros não eram nada se eu fosse abrir mão de tudo. Será que ela não percebia o risco?

Quanto darás então? perguntei, a esperança ainda acesa nos olhos.

Nada. Não dou nada respondeu, afastandose da janela e sentandose à mesa.

É assim a notícia, refleti, nada. Um ato de coração aberto, mas ela o que faço agora? Fico sem nada, nem a nadinha.

Trêscentos euros, talvez? arrisquei.

Nem um centavo.

Como assim? repeti, desanimado.

É assim, não dou, ponto final.

Eu pensava que não era essa a quantia… Mas se insistes, se trêscentos ainda é muito, então e cinquenta euros?

Estou cansada, Leo respondeu, exaurida.

Então fiz uma pausa curta. Se colocas essa condição, defenderei os meus direitos noutro lugar.

Como quiseres disse, com um tom de quem já não tem paciência. Defende, Leo. Direitos gostam de ser defendidos, sobretudo fora do tribunal.

Quem vai pedir o divórcio, eu ou tu? perguntei, a voz a perder a firmeza.

De que divórcio estás a falar? Já nos separaram há muito tempo.

Como assim? gritei, incompreensível. Por que não soube?

Leo, há três anos que saíste de casa, ligaste só três vezes: a primeira para me tranquilizar, a segunda para dizer que resolvias problemas graves, a terceira para dizer que não me amavas e pedir os quinhentos euros.

Precisei de tempo para refletir, Eurídice expliquei. Queria salvar a família. Como pudeste divorciarte sem mim?

Enviaramte notificações ao teu domicílio, mas não compareceste.

Evitei as audiências confessei. Achava que assim a corte não nos separaria. Mas o que aconteceu?

Divorciaramnos.

Como pôde ser? Tirar a esposa e a filha de alguém, sem estar presente!

Se não queres estar presente, quem culpas? respondeu ela, ainda calma. Só a ti próprio.

Não podia aparecer, sabes que não suporto processos, escândalos argumentei. Não gosto de disputas à vista de todos.

Ela percebeu isso e acabou por nos separar.

Quem é ela?

O juiz, Leo disse, com um leve tom de zombaria.

Ah, sim, o juiz…

Finalmente percebeste que já não somos marido e mulher?

Sim, percebi.

Então, acabou.

Acabou.

Bem, acabou, tudo acabou. O passado é passado, como dizem.

E o tribunal? Como foi?

Tudo tranquilo, sem forasteiros, só as partes.

Isso é bom. Eu nunca gostei que estranhos soubessem dos nossos problemas. Se todos são nossos, então tudo bem. E o juiz? Era severo?

Não, muito calma. Ela até falava de ti de vez em quando.

Falava? perguntei.

Perguntava onde estavas.

E eu?

Disseras que não sabes.

Ela?

Perguntou se estava zangada por não me ver.

Não, Leo, nada de zangada respondeu Eurídice, quase rindo. Ela simplesmente aceitou a situação.

A primeira vez que não compareci, foi calma. E nas vezes seguintes? Preocupada?

Não se zangou nem se preocupou. Não há motivo para zangarse comigo.

Então, ela disse que podíamos seguir sem ele?

Exatamente. E por que queres os quinhentos euros?

Quero fazer obra no nosso apartamento expliquei. Pensei que, depois de tudo, fosse hora de melhorar o lugar para a nossa menina.

Já tens duas meninas? perguntou.

Duas? fiquei confuso. Oh, então sim, duas. O apartamento é velho, precisamos de nova fiação, aquecimento, os três quartos e a cozinha precisam de renovação. É o típico apartamento dos anos 70.

Eu sei.

Nadinha sugeriu que pedisse à tua mãe o dinheiro. Caso contrário, perderemos mais.

Ela queria assustarme?

Sim, mas não pense que Nadinha é má, só que a situação é complicada e precisamos de recursos.

Não te precipites com a obra, Leo aconselhou Eurídice.

Por que não? perguntei.

Porque o apartamento na Rua Engenheiro Duarte Pacheco foi adquirido em conjunto. A metade é minha, de acordo com a decisão do juiz.

Não ousas, Eurídice respondi, um lampejo de raiva. Depois de dizer que deixo tudo a ti e à nossa filha, não podes me trair assim.

Posso comprar a tua parte. Posso vender a minha. Ou ofereçote um studio num prédio de cinco pisos, no primeiro andar, com boa reforma, na Avenida da República. propôs.

Isso é tudo? gritei. Só isso que podes oferecer? Temos uma filha! Pensaste nela?

Se fores grosseira, vendo a minha quota ao primeiro que aparecer advertiu. Ficarás numa habitação social com Nadinha e a criança.

Olhei a louça suja na pia, o frigorífico rangado, o teto fissurado, o chão empoeirado, as janelas antigas da época de Salazar. Lembreime do televisor quebrado, do banheiro a precisar de reparos, e senti uma lágrima escorrer pela face.

Concordo murmurei, quase sussurrando.

Assim termino este registo, como quem deixa uma parte de si escrita à luz da tempestade que nunca parece acabar.

*Escrito por Leonardo Silva, inspirado em Como Ser Feliz.* Não sei o que fazer disse Leo, a voz quase se perdendo entre o som da chuva que agora batia como dedos inquietos nas telhas.

A porta da cozinha rangeu ao abrir-se e, num instante, entrou a menina de oito anos, a pequena Sofia, com um copo de leite quente nas mãos e um sorriso tímido que iluminava o canto escuro da sala.

Papá, a vovó quernos dar aquele pano de prato que a gente fez na escola anunciou, entregando-lhe o objeto como se fosse um tesouro.

Leo segurou o pano de prato, sentiu a textura do linóleo ainda úmido e, de repente, compreendeu que o que ele buscava não era o dinheiro, mas a sensação de que ainda podia cuidar de alguém.

Sabe, Sofia começou, a voz mais firme, a casa está a precisar de reparos, é verdade, mas o que realmente importa são as coisas que fazemos juntos.

Eurídice, que observava do canto da mesa, viu nos olhos da filha um brilho que lhe lembrava os primeiros dias de casamento, antes das brigas, antes das sentenças.

Eu hesitou, mas a chuva parecia lavar a rigidez da sua postura, e ela deu um passo à frente, colocando a mão sobre a mesa, sobre aquele mesmo pano de prato que agora pendia da corda da cozinha.

Se ainda quiseres, Leo, podemos dividir o que for preciso. Não por dinheiro, mas por quem somos quando deixamos de ser inimigos.

Leo sentiu o peito apertar, como se o peso de anos de ressentimento começasse a se desfazer. Ele olhou para a filha, para a esposa, para o reflexo das luzes da rua que se misturavam com as gotas na janela.

Deixote a casa, Eurídice disse, com uma calma que não sentira há muito tempo. Mas prometo que, enquanto houver um telhado sobre a nossa menina, vou encontrar um jeito de consertar o que está quebrado. Podemos começar por pintar a cozinha juntos, como quando ainda éramos dois jovens sonhadores.

Eurídice suspirou aliviada, como se um livro antigo fosse finalmente fechado.

Está bem respondeu, a voz mais suave que o trovão que se aproximava. Vamos pedir ajuda à comunidade. O bairro tem um grupo de moradores que sempre ajuda a quem precisa.

Leo assentiu, sentindo a chuva transformarse em melodia. Levou o copo de leite para a filha, abraçoua apertado, e, ao mesmo tempo, apertou suavemente a mão de Eurídice.

Naquela noite, sob o clarão intermitente da rua de Alfama, a família começou a planejar não apenas a reforma das paredes, mas a reconstrução de algo que parecia perdido: a confiança.

E enquanto a água deslizava pelos vidros, Leo escreveu, ainda na mesma folha que já carregava tanto peso, uma frase que nunca havia ousado dizer:

Às vezes, a tempestade não vem para destruir, mas para nos lembrar que ainda há luz dentro de nós, basta abrir a janela e deixála entrar.

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Estou partindo, Sofia. Deixo tudo a ti e à minha filha. Mas tenho um pedido.
Som vaša vnučkaKeď som vošla do starého domu, našla som na stolíku tajomný list, ktorý odhalil dlhé roky skryté rodinné tajomstvá.