Estava a lavar a loiça quando o meu marido entrou em casa aos gritos. Mais uma vez, a sogra. Mais uma vez, a falta de confiança. Chega.

Estava eu a lavar a loiça, quando o Manel irrompeu pela cozinha a gritar. Mais uma vez a mãe dele. Mais uma vez a desconfiança. Bastava.

Então, por que disseste à minha mãe que mexeste no dinheiro?!

Maria de Fátima estava ao pé do lava-loiça, a passar a última travessa por água, quando o marido entrou de rompante. Não entrou: irrompeu mesmo, com o rosto tenso, punhos cerrados junto ao corpo. Ela sobressaltou-se e deixou cair a travessa na água ensaboada.

O que foi, Manel? O que é isso?

Não me faças de parvo! Explica-me já o que se passa!

O Manel parou no centro da cozinha. A camisa estava amarrotada, embora a Fátima a tivesse acabado de passar de manhã. Era sempre assim quando se enervava: começava a agitar-se, mexia-se secamente, sem estar verdadeiramente a fazer nada.

Estive agora ao telefone com a minha mãe. Foi logo direta: Manel, a tua mulher mexeu no dinheiro das poupanças para o carro. Explica-me isto. Explicas ou não?

A Fátima desligou a torneira devagar. Trazia as mãos tapadas por luvas amarelas de borracha; retirou-as, uma a uma, e pousou-as na beira do lava-loiça. O coração já lhe batia tão forte no pescoço que nem parecia estar no peito.

Manel, espera. Dinheiro, que dinheiro? Do que é que ela está a falar?

Não te faças de desentendida! A minha mãe disse que tiraste uma quantia grande. Que dinheiro era aquele e para onde foi?

De que conta?

Do nosso cartão!

Manel. Acalma-te e ouve-me.

Eu estou calmo!

Disse aquilo com tanta força que até a loiça do escorredor quase tinia. A Fátima olhou-o nos olhos. Estava encarnado, o olhar parado, nada bom. Ela conhecia esse olhar. Raro, mas conhecia-o e nunca lhe agradou.

Do nosso cartão não mexi em nada. Ponto.

Então a minha mãe mentiu?

Fátima apoiou-se no lava-loiça. Lá fora estava um domingo soalheiro, daqueles mesmo banais; de manhã pensara em comprar papel de parede novo ou talvez mudar a mesa para junto da janela. Mas, de repente…

Manel, acho que a tua mãe se enganou.

Minha mãe não se engana!

Todos se podem enganar, Manel.

Não venhas com coisas! Ela viu o extrato, viu lá os montantes e disse-me!

Que extrato? Deste-lhe o nosso extrato?

Mal disse isso, arrependeu-se. Assunto sensível, esse. A D. Eulália já há muito fazia questão de saber todos os pormenores da vida deles, e para o Manel isso era a coisa mais normal : É mãe, não é estranho.

Não, não dei respondeu ele, à defesa. Ela ligou, eu disse uma coisa ou outra.

Uma coisa ou outra.

Fátima, não te desvies do assunto! Porque é que as tuas transferências aparecem no telemóvel do meu pai?

Foi aí que a Fátima percebeu. De onde vinha a conversa. Soltou um suspiro e sentou-se à mesa.

Senta-te também, Manel. Vamos falar.

Prefiro ficar em pé.

Como quiseres. Manel, ouve: o meu pai comprou um carro em segunda-mão o mês passado. Sabes disso.

Que carro?

Oh, Manel! Estive-te a contar! Ele queria uma carrinha velha, para ir à quinta. Tu sabes bem, anda sempre sozinho, autocarro só há um por dia e, mesmo assim, às vezes nem passa. Estava sem transporte.

E então?

O pai não percebe nada destas modernidades. Tem medo dos cartões, acha que vai ser enganado. Disse: prefiro pagar em dinheiro. Expliquei-lhe que o vendedor só aceitava transferência. O que fiz? Ele entregou-me o dinheiro em mão, eu coloquei-o no nosso cartão e transferi ao vendedor. Só isso. Nada mais.

Manel ficou calado.

Dinheiro dele, Manel. Não tocámos nas nossas poupanças, foram as dele. Deu-me o dinheiro, fiz a transferência. E está contado o segredo.

Porque não me contaste?

Porque são os assuntos do meu pai. Preciso de te prestar contas de cada passo que ele dá?

Tens de me avisar se entram ou saem dinheiros de fora pela nossa conta!

De fora? É o meu pai, não é um estranho.

Para mim é à mesma. Sou ou não sou o marido aqui?

O quem sou eu aqui ficou suspenso. Ela olhou-o demoradamente. Ali estava ele, no centro da cozinha, já menos encarnado mas ainda tenso. E ela, de repente, sentiu aquela velha fadiga. Não era de agora, não era destes minutos. Era de sempre, desde há muito.

És o meu marido, Manel. Mas chegaste a correr e quase me acusaste, sem sequer perguntares nada antes. Já tinhas decidido tudo por palavras da tua mãe. E cá estou eu, a justificar-me.

Não acusei ninguém!

Manel.

Pronto, se calhar exagerei

Gritaste.

Caiu um silêncio. Ele desviou o olhar para o frigorífico, onde estava ainda uma fotografia deles tirada nas férias mais novos, os dois a rir. Depois olhou para fora.

Pronto. Gritei, talvez.

Talvez repetiu Fátima, sem ironia.

Fátima, tens de perceber. A minha mãe ligou-me cheia de histórias, fiquei logo preocupado…

E o que te disse ela, exatamente?

Olha, que pegaste no dinheiro e fizeste uma transferência grande.

Ela sabe quanto custou o carro ao meu pai?

Não faço ideia.

Pois, eu tampouco. Mas de algum lado tirou isso e contou-te. E tu vieste logo.

Não vim a correr, vim esclarecer.

Fátima levantou-se sem vontade. Olhou para a rua as árvores já mostravam folhas novas, o ar estava certamente fresco. A gata da vizinha espreitava de cima do muro.

Manel, vou dizer-te algo e não leves a mal.

Diz.

Não gosto que a tua mãe saiba sobre as nossas finanças o que não tem de saber. Sei que confias nela. É tua mãe. Mas isto de ela te ligar logo que vê um número, sem sequer saber do que fala Não é saudável, Manel.

Não gostas dela.

Não tem nada a ver com gostar ou não, Manel.

Tem, sim. Sempre que há problema, a culpa é dela para ti.

Fátima fechou os olhos por um segundo. Inspirou.

Olha, há três anos, ligou-te para dizer que eu gastava demasiado em comida. Lembras-te?

Foi assim assim…

Apanhou os papéis do Pingo Doce, fez contas, encontrou exageros. Chegaste a casa: Fátima, se calhar devias poupar na comida. Lembras-te?

Ela queria ajudar só.

Queria saber tudo, isso sim.

És injusta com ela.

Bem. E há um ano, fiquei mais tarde no trabalho estávamos a acabar um relatório. Cheguei às nove e meia. A tua mãe ligou-te logo a insinuar. Sobre com quem estaria eu a essa hora. Lembras-te do que me disseste?

O Manel torceu a cara.

Olha…

Disseste: Tens a certeza que foi por causa do trabalho? Da tua boca nunca tinha ouvido pergunta dessas.

Era só confirmar…

Antes confiavas. Como é que de repente não?

Ó Fátima…

E depois, há uns meses, ela viu-me a entrar em casa com o vizinho Joaquim. Ele ajudou-me com os sacos do supermercado, só isso moramos porta com porta há quinze anos. Sabes o que ela te disse?

Manel não respondeu.

Disse-te que me viu com um homem, assim, sublinhado. E tu, três dias sem me falares. Por causa disso.

Não pensei mal

Pensaste, só não disseste.

Ele virou-se para ela. O olhar, já sem fúria, tinha confusão, quase medo. Abriu a boca, tornou a fechar.

Fátima…

Não quero discussão, Manel. Mas o que houve hoje não foi a primeira nem a segunda vez. Sempre que escutas a tua mãe, vens ter comigo. Sem me perguntares nada antes. Só acreditas nela.

Ela não faz por mal.

Pode ser. Mas o resultado é sempre o mesmo: olhas para mim com desconfiança. E eu a justificar-me, a provar que sou inocente. Estou cansada, Manel. Sinceramente.

O que queres de mim? Que não fale com a minha mãe?

Só quero que, antes de acreditares nela, fales comigo.

Disse-o sem gritos nem lágrimas, simplesmente. E isso tornou tudo mais pesado, como se atirasse um calhau para cima da mesa.

O Manel olhou para ela, para o chão, depois de volta para ela.

Fátima, eu não sabia da história do teu pai…

Podias ter perguntado. Era só: Fátima, a minha mãe diz isto, sabes que se passa?. Só isso.

Pois…

Mas vieste já a gritar, como se eu fosse criminosa.

Silêncio. A cozinha estava quieta, só o som do frigorífico se ouvia. O sol continuava deitado no chão, laranja e tranquilo, alheio ao que ali passava.

A Fátima olhou para o marido e pensou que, pronto, ali estava ele, o seu Manel, companheiro de praticamente vinte e seis anos. Criaram um filho, acompanharam funerais, mudanças de casa, tempos difíceis. Sabia-o de cor, cada ruga, até o modo como pegava na chávena de chá com ambas as mãos. Sabia que era bom homem, trabalhador, que a amava. Tinha consciência disso tudo.

E, no entanto, aquilo.

Sai, Manel.

Ele estremeceu.

Como?

Peço-te para saíres da cozinha. Preciso de estar sozinha.

Oh Fátima…

Por favor.

Ele hesitou, mas saiu. Nada de portadas fechadas com violência, apenas saiu em silêncio. Fátima ouviu-lhe o andar pelo corredor, a porta da sala a chiar.

Voltou à loiça. Pegou noutra travessa, continuou a lavar. As mãos mexiam-se sozinhas; ela fitava a janela a pensar se devia ligar à Nazaré, a sua amiga de toda a vida, que ouvia bem sem dar conselhos indesejados.

Ou talvez não. Talhar um rumo, ir até ela, respirar outro ar. Porque ali já não dava.

A preparar-se, mexeu devagar. As mãos não obedeciam. Abriu o guarda-fatos, ficou ali a olhar, tirou um pulôver, pôs dentro do saco. Depois tirou, foi buscar outro: o cinzento, que a Nazaré sempre elogiava. Lembrou-se de que o carregador ficou na cozinha.

Entrar ali parecia estranho. O Manel estava na sala, a televisão murmurava e, logo a seguir, ficou tudo quieto nem sabia se devia falar ou calar.

Rapidinha, foi buscar o carregador.

Vais aonde? perguntou Manel da porta da sala.

Vou a casa da Nazaré.

Para quê?

Preciso.

Fátima, está descansada, agora estás emocional…

Estou sim. Mesmo.

Não podemos falar?

Manel, estivemos meia hora a falar agora mesmo. Disse-te o que havia a dizer.

Falar a sério.

Ela encarou-o. Trazia o saco ainda na mão, a casaca por vestir.

Só queres conversar a sério depois de me estares a gritar.

Eu não gritei…

Manel.

Ele fechou os olhos, coçou o nariz.

Pronto. Talvez gritei… Fátima, não vás assim. Parecemos dois miúdos.

Miúdos… O António, quando ralhávamos, metia-se na casa de banho duas horas. Não somos miúdos?

O António é diferente.

É claro. Eu não fico. Só quero ar.

Vais ficar ressentida, e eu aqui sem saber o que pensar?

Ou ligares a televisão, se quiseres.

Fátima!

Ela vestiu a casaca.

Não confias em mim, Manel. Vivemos juntos quase vinte e seis anos e não confias. E custa, Manel. Não é triste por me teres gritado, o que magoa é isso mesmo: não confiares.

Ele não respondeu.

Volto ao fim do dia, ou talvez amanhã. Depende.

Já com a mão na porta, olhou para ele, tão perdido como há muito não via, maior, envelhecido, grisalho nas têmporas, sem saber o que fazer às mãos.

Fátima disse ele, baixinho. Oh Fátima…

Saiu.

A porta fechou-se atrás dela. Manel ficou no corredor. Depois sentou-se no sofá da sala. Levantou-se. Sentou de novo.

O telemóvel estava em cima da mesa. Abriu o visor. Duas mensagens da mãe: Então, falaste com ela? e Manel, diz-me alguma coisa.

Pegou no telemóvel, ficou a olhar, sem clicar. De repente, foi à cozinha, ficou junto à janela. As tílias agitavam-se, já o dia declinava ainda havia luz e no quintal a cadela da vizinha, uma rafeira ruiva, corria às voltas.

Discou outro número.

Senhor António Moura? Sou eu, Manel. Boa tarde.

Ó Manel! o timbre do sogro, sempre animado, com um risinho surpreendido. Então, rapaz? Está tudo bem?

Queria só confirmar… o senhor comprou carro a semana passada?

Oh, comprei pois! Comprei uma Renault antiga, usada, mas parece nova. E a tua Fátima é que tratou das contas, que eu com cartões e telemóveis nem me meto nessas artes. Tu sabes como é.

O Manel permaneceu calado.

Manel? Não estás aí? Caiu a ligação?

Estou, estou aqui. Senhor António, era só para confirmar que era o seu dinheiro?

Claro! Então! Dei o dinheiro à miúda, ela fez uma transferência para o tipo, ficou tudo tratado. Uma maravilha. Fosse sempre assim. Aparece cá, pá! Ainda tenho bolinhos de maçã que fiz agora mesmo. Antes que ela os descubra, que se não ralha comigo por causa do açúcar. Riu-se do outro lado.

Passo por lá sim, senhor António. Obrigado.

De nada, rapaz.

Desligou. Ficou a olhar para o telemóvel, baixou-se, sentou-se lentamente, esfregou a cara com as mãos.

Que tolo.

Que perfeito tolo.

A mãe ligou, encenou, e ele correu logo. Falar torto à mulher, que não fez mais do que ajudar o pai. Como sempre fez, a ele, à família, a qualquer um. Era da natureza dela.

Ele, nem assim entendeu.

Lembrou-se dela de luvas amarelas: a maneira como as tirou, a voz serena, o olhar já cansado. Só agora percebia porque estava assim. Não era mágoa. Era um cansaço antigo.

E era verdade o que disse dos recibos, e do silêncio pesado de outras vezes. Ele, recordando, até pensou que eram birras, mas não: era desconfiança, a tal semente que a mãe sempre lançava com as suas insinuações.

A Fátima nunca lhe perguntou porquê: continuava a vida. Decerto percebeu tudo sem perguntas.

Pegou no telemóvel e ligou à mãe.

Manel! Finalmente! Então? Falaste com ela? Explicou-se?

Mãe, sim. Explicou tudo.

Então?

Mãe, era para comprar o carro ao pai dela. Era dinheiro dele. O senhor António contou-me agora. Não há problema nenhum.

Silêncio.

Pronto, mas isso não muda nada murmurou a mãe, voz arranhada. Tu devias saber sempre que entram ou saem dinheiros na tua conta.

Mãe.

Espera. Preocupo-me contigo, imagina se ela um dia…

Mãe, basta disse ele, baixo mas firme, surpreendendo-se até. Ouve-me, vou dizer algo importante. Escuta, sim?

Está bem…

Não agiste bem. Ligaste, disseste coisas, e eu fui discutir com a minha mulher. Agora ela foi-se embora de casa. Minha culpa, agi como tolo.

Não exagerei nada…

Mãe… desta vez, cortou firme. Costumas fazer sempre isto. Dizes algo sobre a Fátima, vou logo perguntar-lhe. E depois afinal está tudo errado. Estou farto desta dinâmica. Vou viver é com a minha mulher, percebes? É com ela.

É por ti…

Sei que é. Amo-te, mãe. Mas chega se achares algo estranho, liga e diz Manel, vê lá isso, só isso. Não venhas tirar conclusões e montar histórias.

Agora defendes ela.

Defendo o nosso casamento. É assim que tem de ser.

Longo silêncio. Ouviu-lhe a respiração ao telefone.

Pronto, está dito terminou. Amo-te, mãe. Falamos depois.

Desligou sem esperar resposta. Continuou a olhar para o telemóvel, agora mudo.

A mãe ainda iria telefonar. Ou não, talvez não naquele dia. Irá fazer aquela birra à moda antiga, dias ou semanas. Mas ele repetiria tudo, se preciso. di-lo mais cedo. O erro não era só dela; também era dele por nunca ter dito nada.

Ligou à Fátima.

Chamadas longas, voz automática. Não atendeu.

Pousou o telemóvel, sentou-se junto à janela. As folhas já pouco se mexiam, o céu azul e limpo, tranquilo.

Vestiu a casaca e saiu.

A Nazaré abriu-lhe a porta, ficou surpreendida mas logo percebeu tudo pelo ar da amiga.

Entra, vou pôr água para chá.

Sentaram-se na cozinha da Nazaré, sempre tão acolhedora, cortinas com flores, o gato Martinho estendido na janela, cheiro a bolos de baunilha. Fátima bebeu chá em silêncio; a Nazaré não interrompeu, sabia dar espaço.

Estou cansada, Nazaré disse Fátima, por fim.

Vê-se.

Não é só a discussão. Se fosse, passava. Isto é diferente.

Diferente como, Fátima?

Ficou um pouco calada, chávena entre as mãos.

Não confia em mim. Vinte seis anos e não confia. Basta a mãe dele dizer qualquer coisa e para ele já estou culpada.

Ele confia sim, disse Nazaré com cuidado. Só que a mãe… sabes como a D. Eulália é.

Sei. Mas é ele que decide a quem pergunta primeiro: à mãe ou à mulher. E escolhe sempre a mãe.

A Nazaré não respondeu.

Não lhe peço que vire costas à mãe prosseguiu Fátima. Não sou dessas. Que goste dela, que ajude, que visite, tudo bem. Só quero ordem nas coisas: eu devo saber das minhas coisas logo de início, não descobrir pelas discussões e suspeitas.

Disseste-lhe isso?

Disse.

E…?

Saí de casa.

A Nazaré suspirou. Encheu-lhe a chávena.

Fizeste bem. Deixa-o pensar um bocado.

Mas tenho medo, Nazaré.

Medo de quê?

Ficou pensativa.

Que nada mude. Que ele diga que sim, que entende, pede desculpa, mas amanhã liga a mãe e volta a mesma história. Não quero passar o resto da vida nisto.

As pessoas mudam, Fátima.

Mudam. Mas devagar. Ou não mudam mesmo. Como é que se descobre?

A Nazaré não respondeu. Sabia, como Fátima, que certas perguntas não têm resposta é só viver e esperar.

Martinho virou-se do outro lado. Lá fora, um carro desceu a rua.

Pronto disse Fátima, levantando a chávena. Vou andando.

Para onde? Para casa?

Para casa. Há coisas a fazer.

Ele ligou?

Fátima verificou o telemóvel. Uma chamada não atendida do Manel.

Ligou.

Vês? disse Nazaré.

Isso não quer dizer nada e foi buscar o casaco.

No eléctrico, ia a olhar pela janela. O Porto já começava a cheirar a Primavera, as ruas a sacudir o inverno. Gente com sacos, crianças de bicicleta, um velhote a dar pão aos pombos à porta do café.

Pensava no pai. Tinha de o visitar na próxima semana. Agora com carro novo já podia ir e vir como queria só esperava que a saúde não fraquejasse.

Pensava no filho, António, a viver em Lisboa, raramente ligava, mas quando ligava era sempre aquele conforto. Fez-se homem, a mulher dele era um doce, talvez viesse aí neto.

Pensava nas paredes da sala creme ou amarelinho claro? Talvez creme desse mais calor.

O eléctrico parou. Era a paragem dela.

Saiu.

A porta de casa não estava fechada à chave.

Ficou ali um instante. O Manel costumava ser cuidadoso, trancava sempre tudo. Entrou devagar, tirou o casaco.

Manel?

Aqui respondeu ele, voz baixa, vinda da sala.

Ela entrou. Ele estava sentado no sofá, sem televisão, só com duas chávenas na mesa de apoio. Não sabia bem se era chá ou café.

Olhou-a nos olhos.

Voltaste disse.

Voltei.

Ela ficou ainda à entrada. Ele levantou-se, depois sem saber o que fazer sentou-se outra vez.

Fátima, falei com o teu pai António.

Sei. Ele avisou-me logo por mensagem.

Homem do norte, bom.

É.

E sempre com bolos para dar.

É mesmo.

Teve-se ali uma estranha paz entre eles. Fátima sentou-se na outra ponta do sofá. Puxou a chávena à frente: café, afinal.

Ligaste à tua mãe? perguntou.

Ele hesitou.

Liguei.

E…?

Disse-lhe que assim não pode ser. Que tratamos nós das nossas coisas.

Ela olhou-o.

Disseste mesmo?

Disse. Ficou sentida, claro. Não desligou na cara, mas sentiu-se. Sabes como é.

Sei.

Vai passar. Disse-o sem convicção, mas também sem medo. Devia ter dito isto há muito tempo.

Ela segurou o café entre as mãos, olhando-o. Ele, ali ao seu lado, encostado, real, de camisa amarrotada, sem fugir.

Fátima, perdoa-me. Fui burro. Não pensei. Bastou a minha mãe e fui logo disparado. Não devia.

Foi errado.

Sei. (Silêncio.) Olha, queres mesmo fazer obras à sala? Disseste de manhã dos papéis de parede.

Manel…

Vamos renovar! Da cor que gostares. E podíamos ir ao Algarve na altura do verão, estavas sempre a pedir.

Não é o Algarve que eu preciso.

Eu sei suspirou ele. Só queria mostrar-te nem sei como. Já nem penso direito.

Ela pousou a chávena.

Não preciso de nada especial, Manel. Só quero que me confies. Não é tão difícil.

Eu confio.

Da última vez, acreditaste na tua mãe.

Ficou calado.

Hoje falhei, sim.

Uma vez não importa. O que me assusta são as vezes que foram mais e temo que venham mais.

Não vai voltar a acontecer.

Espera. Agora dizes não vai, mas podias ter pensado antes. Não quero promessas, quero uma regra.

Ele olhou-a.

Que regra?

Ela virou-se para ele.

Da próxima vez que a tua mãe diga o que quer que seja sobre mim, vens ter comigo, perguntas: Fátima, isto é verdade? E eu te digo. Só isso. Consegues?

Ficou quieto, pensativo.

Consigo respondeu.

Ficamos combinados?

Combinados.

Ficaram sentados lado a lado. Vinte centímetros entre os corpos, ou menos. Não se tocavam, mas também já não fugiam.

Já era noite lá fora. As tílias estavam imóveis, o céu escuro desenhado atrás.

Sabes que ela não vai acalmar, disse Fátima calmamente. D. Eulália. Vai passar um mês sem falar, depois volta ao mesmo.

Sei.

E assim vai ser sempre.

Pois é.

Como vais viver com isso?

Ele não respondeu logo. Pensou; ela respeitou-lhe o tempo, gostava que pensasse antes de falar.

Não sei. Ainda não sei. Ela é minha mãe, quero-lhe bem. Mas tens toda a razão: está sempre a meter-se onde não deve. Havemos de conversar a sério, cara a cara nada de telefonemas. Ir lá, sentar-me, expor-lhe tudo.

Vais ver que acaba a chorar.

Acaba assentiu. Mas não é por isso que deixa de estar errado.

Fátima olhou para ele, depois desviou os olhos.

Sabes que isto não se resolve de um dia para o outro?

Sei.

E que vai continuar a sentir que é culpa minha?

Pode pensar o que quiser respondeu Manel, já exausto mas decidido. Eu é que tenho de viver contigo, Fátima. Não é ela. E é convosco, em casa.

Ela acenou.

O café arrefecera. Mesmo assim bebeu. Detestava café frio, mas agora nem notava.

O papel de parede, disse de repente.

Sim?

Talvez creme, ou amarelo claro. Ainda não me decidi…

Ele olhou-a e sorriu, quase imperceptível.

Ambos são bons.

Devíamos ir ver amostras.

Quando quiseres.

Ela assentiu outra vez. Pôs a chávena de lado. Ficaram juntos, com a noite lá fora e a sala iluminada, aquecida por tudo o que ainda havia entre eles, em silêncio.

Nem tudo estava resolvido, ela sabia. Amanhã talvez a D. Eulália ligasse de novo e tudo começasse outra vez, os processos, as conversas, o esforço. Sabia que Manel estava ali mesmo, que dizia coisas certas, e sentia que não eram palavras falsas, mas sabia também que palavras e actos são mundos à parte.

Mas ali, naquele momento, estavam juntos no sofá. E isso era já alguma coisa.

Manel, disse ela.

Sim?

Enche aí a minha caneca. Mas desta vez, quero quente.

Ele levantou-se sem uma palavra, levou-lhe a chávena para a cozinha. Ela ouviu-lhe os movimentos, o som da cafeteira.

Sentou-se, ficou a olhar a noite. Pensou que a vida era isto mesmo: nem só festa nem só dores; estas cansaços, as palavras não ditas, os problemas pequenos e os grandes. E, apesar de tudo, juntos. Apesar do mundo.

Ele voltou com as chávenas a fumegar. Sentou-se ao lado dela e entregou-lhe uma.

Obrigada disse ela.

De nada.

Ficaram calados. Então o Manel, devagar, como com receio, cobriu-lhe a mão com a dele. Ela não a retirou.

Fátima, perguntou ele. Sobre o nosso acordo: é só perguntar assim, direto, se for preciso?

Só chegar e perguntar.

E respondes?

Respondo.

Ele anuiu.

Não custa nada sussurrou, quase para ele próprio.

Não, confirmou ela. Nada mesmo.

Cá fora passou um carro; as luzes entraram e saíram pela janela. O café quente soube-lhe bem. Amanhã devia ligar ao pai, saber do carro e do primeiro passeio.

E no domingo, com tempo, iriam juntos escolher papéis de parede.

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