Quando conheci o David pela primeira vez, não consegui evitar sentir-me incomodada com o seu comportamento. Parecia arrogante e ingrato, aproveitando-se dos irmãos e irmãs sem nunca retribuir o favor.

Desde o princípio, senti que o irmão mais novo do meu marido, Tomás, não era bem alguém com quem eu conseguisse criar laços. Agora, a minha intuição confirmou-se, mas é difícil explicar ao meu marido que seu irmão já não é um miúdo e precisa assumir as rédeas da própria vida. Tomás já tem 26 anos já devia ter amadurecido, devia querer ser independente.

Naquele estranho enredo do passado, a tragédia desenrolou-se num cenário enevoado e inquietante: o meu marido perdeu o pai quando tinha apenas 14 anos, enquanto Tomás era ainda mais pequeno, com 11. Três anos mais tarde, um avião feito de azulejos caiu dos céus e levou também a mãe deixando ao meu marido o papel de guardião do irmão. Abandonou a escola para se tornar o alicerce de um lar cheio de saudade, exibindo uma força quase mágica, tão jovem e já assombrado por responsabilidades. Mas Tomás parece ter ganhado um reflexo distorcido desta história: crê, com uma calma irreal, que pode confiar eternamente nos irmãos para lhe segurar as nuvens, sem mover uma folha.

No primeiro encontro que tive com Tomás, uma sensação inquietante invadiu o ambiente: o seu comportamento era como um eco constante, arrogante e quase ausente de gratidão, colhendo a ajuda dos irmãos sem nunca oferecer sequer uma sombra em troca. O facto de aparecer sempre na nossa vida como uma figura fantasmal e a sua ausência de vontade para procurar trabalho só aumentaram o meu desconforto. Apesar dos 26 anos, Tomás parece habitar um tempo que foge ao nosso, desinteressado em arranjar emprego fixo, saltando entre trabalhos com a leveza de quem salta entre poças nas pedras de Lisboa.

O meu marido defende sempre o irmão, assegurando-me, como numa melodia um pouco fora do tom, que Tomás está empenhado em procurar um caminho estável, e que tudo melhorará em breve. Mas é como se eu observasse uma peça de teatro de sombras, em que Tomás faz muito pouco esforço para transformar o seu destino. O peso desta situação paira sobre a nossa casa como um nevoeiro persistente; o meu marido divide o coração e o tempo entre o irmão mais novo e o nosso filho, a quem temos de dar alimento, histórias e cuidados.

Não quero atirar a nossa vida conjugal pelo Tejo fora por causa disto, mas a constante presença e irresponsabilidade de Tomás vão-se entranhando no nosso quotidiano como uma maré cinzenta. Resta-me esperar que o meu marido acorde deste feitiço e veja o quanto isto afeta o nosso laresperar que ele encontre uma solução, para que o nosso futuro possa, um dia, voltar a ter as cores de um céu limpo sobre Portugal.

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Quando conheci o David pela primeira vez, não consegui evitar sentir-me incomodada com o seu comportamento. Parecia arrogante e ingrato, aproveitando-se dos irmãos e irmãs sem nunca retribuir o favor.
Ryšavý Murko vyhlásil hladovku v byte syna. Slová lekára prinútili babičku vrátiť na dedinu.