Casei há seis meses e, desde então, algo não me deixa em paz.
O casamento aconteceu num jardim estranho, todo coberto de nevoeiro lilás, lúmens dourados a piscar como vaga-lumes e música forte a explodir de todos os lados, misturando-se a conversas que ecoavam como vozes debaixo dágua. Pessoas rodopiavam sem pés, copos de vinho do Porto flutuavam de mão em mão. Em certo momento, precisei sair do salão principalo ar parecia feito de algodão doce e não me entrava nos pulmões.
Distante, junto às palmeiras retorcidas e aos azulejos que escorriam pela parede do WC, vi o meu melhor amigo, Artur, e a minha mulher, Benedita, lado a lado. Não falavam como se falagritavam gestos com os dedos a cortar o ar. O maxilar de Artur, travado como uma caixa de madeira cheia de segredos, e Benedita a apertar o vestido de renda como se magoasse.
No meio da música aos saltos e do cheiro a sardinha grelhada, aproximei-me devagarinho, sentindo que as pernas fugiam para trás. Eles não me viram logo, perdidos naquela discussão que parecia não pertencer à festa. Quando fiquei suficientemente perto, as palavras de Artur soaram secas e frias como seixo:
Este assunto não se volta a falar.
O som atingiu-me como um vento de norte. Ambos gelaram quando me viram. Perguntei, num tom que o sonho me emprestou, o que se passava, que conversa era aquela. Ficaram, por segundos eternos, com as sombras nos olhos, antes de Benedita se adiantar e resmungar:
Não é nada, foram disparates, só isso.
Artur murmurou qualquer coisa sobre uma aposta parva, um jogo de cartas sem interesseele quis, ela não. Palavras atiradas à pressa, enroladas em confusão. Nenhum detalhe, tudo em névoa.
Depois, quase a tropeçar nos próprios pés, mudaram de assunto e voltaram ao salão. Como se nada. Como se aquilo fosse só um sopro de vento mau num jardim encantado.
O resto da noite tentei forçar o espírito de festa. Dançámos fado com passos de sonhos, erguemos copos de vinho e arroz-doce, demos abraços que cheiravam a terra molhada. Mas cada vez que Artur e Benedita se cruzavam, falavam baixinho, desviando os olhos, como se temessem acordar alguma coisa enterrada ali entre as flores. Dali em diante, nos meus olhos, nunca mais trocaram palavras.
Nessa noite calei tudo.
Os dias correram, e a vida de casado com Benedita deslizou como um barco pela neblina do Douro. Continuámos a conviver com Artur e a companheira dele, Leonoralmoços de bacalhau, aniversários, fins-de-semana em Sintra que pareciam cenas de quadros antigos. Jamais alguém mencionou aquele momento junto à casa de banho. Sem mensagens estranhas, sem chamadas misteriosas, nem provas a que me agarrarsó aquela sensação que me perseguia: aquele corte de conversa, aquela urgência, como se eu tivesse interrompido alguma coisa indecifrável.
Seis meses passaram-se assim, com dias a repetir-se e noites a cheirarem a alecrim e inquietação. Nenhuma acusação. Só aquela frase gelada, o silêncio suspenso, o olhar partido.
E pergunto-me:
O que faz um homem com este tipo de dúvida, quando não há provasapenas a sensação, tão portuguesa como a saudade, de que naquele dia aconteceu algo que nunca deveria ter entrado nos meus sonhos?






