Inês percebeu que o Tiago tinha tirado a sua melhor camisa aquela creme, a mesma que compraram juntos no aniversário dele no ano passado e ainda os sapatos novos. Até os punhos de camisa ele usou, embora aos domingos em casa ele fosse sempre de pantufas.
Inês, precisamos conversar disse ele, de costas para a janela.
Ela pousou a chávena de café na mesa com calma. O coração acelerou, mas curiosamente não de medo, e sim de curiosidade.
Tiago estava claramente preparado para aquele momento, como se fosse um grande evento.
De repente, surgiu-lhe a ideia: ele esperava lágrimas, pedidos de socorro, crises de nervos. Mas ela sentiu um sossego inesperado.
Acho que é melhor terminarmos continuou ele, sem se virar. Ambos sabemos disso.
Sabemos? repetiu ela, surpresa com a própria voz, serena, quase interessada.
Tiago finalmente se virou. No rosto tinha uma expressão de surpresa ela não reagiu como ele esperava.
Pois bem. Somos adultos. Os sentimentos já passaram, para que fingir?
Inês recostou-se na cadeira.
Vintedois anos de casamento. Criaram um filho. Passaram pela adolescência dele e pelos próprios quarenta. Agora, ao que parece, estavam a entrar nos verdadeiros cinquenta.
E para onde vou? perguntou, simples.
Bem Tiago hesitou. Podes ficar temporariamente na casa da Margarida. Ou arranjar um canto. Dou-te um empurrãozinho a princípio.
Margarida a irmã que sempre achou que Inês tinha perdido tempo por ele.
«Vou ajudar com dinheiro». Que generosidade.
E tu, o que vais fazer? perguntou Inês.
Eu? Tiago ficou sem saber como responder. Nada de especial ainda. Talvez venda o apartamento e compre algo mais simples.
O apartamento? Inês arqueou a sobrancelha. Qual?
Este mesmo.
Ela levantouse, aproximouse da janela. Tiago recuou instintivamente.
Lá em baixo, as crianças saíam da escola com as mochilas o ano letivo começava. A vida seguia o seu rumo.
Tiago, lembrate a quem está registado o apartamento? perguntou.
A mim, claro. Por quê? ele disse, confuso.
A ti? A voz de Inês misturou surpresa e sinceridade. Tens a certeza?
Era a primeira vez que ele parecia perdido.
Claro que tenho. Comprámos há muito tempo, com o dinheiro que a minha mãe me deu antes do casamento. Lembras?
Ela vendeu o quarto que tinha na habitação coletiva e disse: «Vai ser para o nosso futuro». E assim foi para o futuro deles.
Tiago ficou mudo.
O registo estava a meu nome porque não trabalhavas então, procuravas o teu rumo. E eu precisava dos comprovativos de rendimentos para o crédito bancário.
Lembras agora?
Mas nós combinámos
Combinámos que seria nosso. Até tu quereste dividir tudo.
Inês sentouse novamente, pegou a chávena. O café já estava frio, mas tomou um gole.
Sabes, Tiago, percebi que tens razão. É realmente melhor terminarmos.
A sério? Ele se animou, mas um leve nervosismo atravessou o olhar.
Sim. Se queres uma nova vida, façamos tudo à maneira.
Eu fico no apartamento ele é meu. Tu procuras um novo lar, por conta própria.
Inês, podíamos chegar a um acordo mais humano
E não é isso já humano? Sorriu. Queres liberdade tens. Totalmente.
Tiago sentouse à frente dela. A camisa elegante perdeu o sentido.
Mas agora não tenho dinheiro para um apartamento
Eu não pretendo garantirte nada. Dizeste que somos adultos.
Pensei que resolveríamos tudo em paz
Em paz. Sem gritos, sem escândalos. Cada um recebe o que quer. Tu querias que eu fosse embora, e acabou por ser o contrário. Injusto?
Inês levantouse, pegou a chávena e dirigiuse à pia.
O telemóvel piscava com a notificação de entrega de supermercado o pedido que fizera ontem para hoje.
Preciso de tempo para pensar murmurou Tiago.
Claro respondeu ela, a deixar a chávena no sítio. Mas não demores. As minhas amigas chegam às cinco e não quero que se tornem espectadores de um drama familiar.
Tiago foi para o quarto. Inês ouviuo ao telefone, a voz baixa mas excitada. Ela pegou os mantimentos e começou a picar legumes.
Os movimentos eram calmos, quase meditativos. Metade de hora depois, ele regressou à cozinha.
Inês, será que fomos precipitados? Vamos rever tudo.
O que rever? Ela não levantou os olhos da tábua. Decidiste tudo. Eu concordei. Foi honesto.
Mas o apartamento Investimos nele juntos. Fizemos obras, comprámos móveis
Obras? Inês finalmente fitouo. Aquela que o meu pai fez ao estilo «façavocêmesmo», de graça?
Ou os móveis que paguei com o meu salário enquanto tu ainda procuravas o teu caminho?
Eu sempre trabalhei!
Trabalhavas, mas a renda ficava contigo e eu sustentava a casa. Lembraste da frase «Um homem deve ter dinheiro próprio para a sua dignidade»?
Tiago ficou mudo.
Também lembrote a dizer que não estavas pronto para filhos. E quando o André nasceu, de repente o paiismo parecia assustador. Agora, porém, te proclamas o pai mais dedicado.
E isso tem a quê ver?
Tem a quê ver com o facto de que decidiste partir não ontem, nem na semana passada, mas agora.
Inês largou a faca, virouse para ele.
Dizme, Tiago, a Olívia gostou do apartamento? Ou planeiam comprar outra coisa?
Ele empalideceu.
Que Olívia?
Aquela com quem trocaste mensagens nos últimos seis meses. A que trabalha na tua empresa há oito anos, ainda sem filhos, mas muito ambiciosa. Lembras?
Estavas a espionáme?
Não espionava. Contastete tudo. Lembras daquela noite, há três semanas, quando chegaste em casa radiante a falar da colega? Inteligente, com futuro. No dia seguinte, compraste a camisa nova.
Inês pegou uma toalha e secouse as mãos.
E ainda começaste a tomar banho de manhã antes do trabalho. Antes era à noite. Compraste perfume. Inscrevestete num ginásio a primeira vez em dez anos.
Inês
E ainda levas o telemóvel até ao banho. Antes deixavaso a vaguear por aí. E está sempre a sorrir ao olhar para o ecrã.
O relógio inteligente de Tiago vibrou. Ele olhou rapidamente e cobriu o pulso.
Olívia escreveu? Inês perguntou, genuinamente curiosa.
Tiago sentouse.
Não planeava
Não planeava o quê? Apaixonarse ou ser apanhado?
Foi por acaso. Falámos no trabalho e depois
E depois decidiste que era melhor eu ir embora. Conveniente. O apartamento fica contigo, a reputação salvouse.
A esposa sai, então é culpa dela. Com a Olívia podes começar uma nova história do zero.
Inês sentouse à frente do marido.
Sabes o que é estranho? Não estou nem um pouco zangada. Pelo contrário, agradeço. Fizesteme perceber que sou muito mais forte do que pensava.
O que vais fazer agora?
Viver. Aqui, no meu apartamento. Talvez finalmente persiga aquele sonho que sempre adiei. Vou ter tempo para mim.
E o André?
O André tem vinteeum. É adulto. Vai descobrir por si mesmo como os pais se comportam.
Tiago levantouse e passeou pela cozinha.
Inês, talvez possamos chegar a um acordo? Posso pagarte uma indemnização
Por quê? Ela ficou realmente surpresa.
Bem Pelo apartamento. Pelos anos juntos.
Tiago, queres comprar o meu apartamento para levar a tua nova namorada?
Não é por isso
Como? Oferecesme dinheiro para que eu me torne semlar?
Inês riu, genuinamente, sem amargura.
Já, há pouco tempo, eu teria aceitado por pena. Pensava: «Coitadinho, não é por mal, apenas apaixonouse».
Iala à irmã e ainda pediria desculpa por não ter conseguido segurarte.
A mulher levantouse, foi até à janela.
Agora percebo: achavas que eu era uma tola fácil, pronta a aguentar tudo. Sabes que estás enganado.
Então não vais embora?
Não, tu vais. Hoje. Leva só as tuas coisas pessoais.
E se eu recusar?
Inês voltouse para ele, os olhos calmos, como os de quem acabou de descobrir a própria força.
Então amanhã a Olívia vai descobrir que o seu namorado não é um homem livre, mas ainda casado. E vai saber como planeava resolver a questão da casa. Achas que isso lhe vai agradar?
Tiago ficou sem palavras.
Tens uma hora acrescentou Inês. As minhas amigas chegam às cinco. Repito: não quero que elas assistam a um espetáculo familiar.
Pegou o pulverizador do peitoril e começou a regar as plantas.
O apartamento ficou silencioso só o som da água a chiar e o ranger das tábuas sob os passos de Tiago, a recolher as suas coisas.
Inês sorriu para a sua violeta favorita. A verdadeira vida estava apenas a começar.







