A Escolha «E afinal, o Fábio é mais casado do que eu pensava…» — suspirava a Sílvia, sentada num banco do jardim e apertando no bolso o encaminhamento para a cirurgia. As colegas de quarto no lar universitário invejavam-na quando a viam na companhia daquele moreno elegante, de olhos azuis e barba feita, achando que tinha sorte com tão cavalheiro pretendente. Mas, no fim de contas, não havia nada para invejar. Sílvia estremeceu ao recordar o primeiro e último encontro com a esposa do Fábio, que a esperava à porta da fábrica para lhe explicar como as coisas realmente eram. — Olá! És a Sílvia, certo? — começou ela. — Quem é a senhora? — assustou-se Sílvia, sentindo o olhar perfurante da mulher alta e elegante, de cabelos louros platinados. — Sou a Olívia, esposa do Fábio Menezes. — O quê? — Ouviste bem. — Mais uma ingénua — comentou a mulher com calma — e quantas como tu há por aí? Nunca acabam as caçadoras da felicidade alheia. — Olhe que se está a exceder! — Vá com calma — a loira segurou com firmeza o braço de Sílvia —, quem se excede és tu. Eu sou a legítima esposa. Vi-te com o meu marido, e ainda vens armar atrevida em vez de te ires embora cabisbaixa. Isso é para quem tem princípios, o que não parece ser o caso. Mulheres como tu — e lançou um olhar avaliador — já foram tantas que faltam dedos das mãos e dos pés para contar. Ficar com um homem casado… Que falta de vergonha! Ele é homem, é caçador. Percebeste? Para ele és só mais um capricho. Vai-se divertir e depois nem quererá lembrar o teu nome. Mantém distância. Aliás, temos duas filhas, posso mostrar-te a foto da família. — Olívia tirou uma fotografia e entregou à atónita Sílvia. — Aqui está! Prova do grande e puro amor. Foi tirada em Albufeira, há dois meses… Então, calaste-te porquê? — O que quer de mim? Resolva os seus problemas com o seu marido. — E vou resolver, não te preocupes! Ele entrou nesta fábrica há pouco tempo. O salário é bom e, de repente, apareces tu para estragar tudo. Sai por bem. Não ligues a promessas, o Fábio não pensa separar-se. Não percas tempo. Quantos anos tens? Já trinta? — Vinte e cinco! — respondeu Sílvia, sentida. — Mais razão ainda. Ainda vais a tempo de casar e ter filhos. Deixa lá o Fábio em paz. Sílvia já não quis ouvir mais nada. Saiu dali de pernas bambas, do mundo feliz que de repente aquela mulher destruíra, riscando todos os seus sonhos cor-de-rosa. — Traidor… — murmurou Sílvia, sentindo um nó na garganta, mas não podia mostrar emoções na rua. Não queria dar azo a mexericos no emprego. À noite, como se nada tivesse acontecido, o Fábio apareceu com flores. Sílvia, com os olhos inchados, expulsou-o de casa apesar das promessas de amor eterno e da suposta separação que nunca chegaria, alegando que ele e a esposa já eram completos estranhos. Duas semanas depois, Sílvia ainda tentava recuperar-se. O Fábio não voltou a procurá-la. Fazia de conta que não a conhecia, desviando o olhar no corredor da fábrica. Mas desgraça pouca é bobagem… As náuseas matinais e tonturas Sílvia pensava serem do desgosto, até que percebeu: o romance ingénuo e apaixonado com o Fábio dera fruto. «Seis semanas», soava quase como sentença. Sílvia não queria ser mãe solteira. Tinha medo. Achava que todos viam e a julgavam, por ter confiado num homem que não conhecia de verdade. O Fábio escondeu-lhe o casamento. Que podia fazer ela? Pedir o cartão de cidadão ao conhecer alguém? Ele não usava aliança… Nem todos os casados usam. E por que não desconfiou quando ele pediu para manterem a relação em segredo no trabalho? Ele enganou-a, mas saber isso não a consolava. E todos já cochichavam sobre a visita da esposa à porta da fábrica. — Estou grávida. — Sílvia, sem saber a quem recorrer, contou ao ex-amante no intervalo do almoço. — Dou-te dinheiro, mas resolve isso — murmurou ele em tom frio. No dia seguinte, o Fábio demitiu-se. Desapareceu da vida dela para sempre. Sílvia percebeu que não podia adiar mais a decisão. Apesar dos conselhos do médico, pegou no encaminhamento para a «intervenção». E agora estava ali sentada, apertando o papel, como se tivesse medo de o perder. — Tem pressa? — perguntou um rapaz de fato e gravata cor de vinho, sentando-se ao lado de Sílvia com um enorme ramo de crisântemos. — Perdão? — olhou ela, com os olhos vazios, para o desconhecido. — O relógio está adiantado — disse ele, apontando para o relógio dourado no pulso dela. — Está sempre dez minutos à frente… Já tentei acertar, mas não consigo, nunca bate certo — respondeu Sílvia, com indiferença, virando-se. — O tempo está espetacular hoje, não acha? Um verdadeiro verão de São Martinho! A minha mãe adora esta época. Diz que num dia de outono assim tomou a melhor decisão da vida dela, e nunca se arrependeu… Sabe, a minha mãe é fantástica! — e mostrou-lhe um polegar em riste. — Sou muito grato a ela. — E o seu pai? — escapou-se-lhe a pergunta a Sílvia. — Daí nunca fala, eu também não insisto… Vejo que não gosta de lembrar. Acabei agora uma entrevista de trabalho. Imagine, escolheram-me entre dez candidatos para uma vaga numa empresa prestigiada! Fui o único escolhido, mesmo sem experiência. Custa a acreditar… Foi a minha mãe que me deu confiança. Já sei o que vou fazer com o primeiro ordenado: levo a minha mãe à praia. Nunca viu o mar! E a Sílvia, já foi? — Não, nunca. — respondeu, fitando-o; os olhos prenderam-se na gravata cor de vinho. O rapaz irradiava felicidade. — Presente da mamã — disse orgulhoso, ao perceber o olhar da Sílvia. — Se calhar já a estou a maçar com tanta conversa, mas quis partilhar a alegria. Está tão abatida… Achei que precisava de conversar. Fui chato com a tagarelice? Sílvia abanou a cabeça. O jovem não a incomodava. Conseguira travar o turbilhão de pensamentos sombrios. E admirava-lhe a devoção à mãe. «Que amor tão leal! Que sorte dela… Quem me dera ter um filho assim…» — Mas pronto, vou-me embora. A minha mãe deve estar à minha espera… E olhe, não se apresse! — O quê? — Digo isso ao seu relógio — sorriu ele. — Ah — sorriu Sílvia. Pouco depois, ele foi-se embora. Sílvia tirou o papel do bolso — aquele que, minutos antes, tinha tanto medo de largar — e rasgou-o em pedacinhos. Depois ficou ali sentada, a respirar o ar de um dia de outono dourado, como enfeitiçada. Sentia agora no peito uma leveza nova, um calor bom, deixado pelo estranho que lhe falara como se a conhecesse de sempre. Ela não estava sozinha. Aquela mãe criou o filho sozinha, um filho tão especial. Pena só não lhe ter perguntado o nome… mas agora isso já não importava. A escolha estava feita. *** Vinte e três anos depois… — Mãe, estou atrasado — estava o Tiago de pé em frente ao espelho, enquanto a mãe lhe apertava cuidadosamente a gravata cor de vinho, comprada de propósito para a entrevista importante. — Queres saber? Se calhar é melhor desistires. — Não, mãe. Dá confiança. Vai correr bem, vais ver! Eles vão aceitar-me — disse ela, terminando de ajeitar a gravata e afastando-se, para admirar o filho. — Que nervos, e se não corre bem… — Esse lugar é teu. Só tens que responder com firmeza e sorrir. És irresistível. — Está bem, mãe — o Tiago deu-lhe um beijo na bochecha e saiu, apressado, para a entrevista. Sílvia ficou à janela, a ver o filho, a pessoa mais querida, caminhar decidido até à paragem. De repente, estremeceu — como um choque elétrico… Já tinha visto aquilo em algum lado… Aquele rapaz no jardim, mais de vinte anos atrás… Agora, ver o Tiago, de fato e gravata, era como reviver aquele momento. Tantos anos depois, recordava o episódio esquecido. Como era possível? Teria sido o destino a dar-lhe a oportunidade de ver com os próprios olhos de quem queria abdicar (palavra dura), e a guiara para o caminho certo? E porque não falou mais com ele aquele dia, se até tinham quase a mesma idade? Agora, já não importava… Tudo correu bem no fim. Mais tarde, ao almoço, Tiago chegou a casa com um grande ramo de crisântemos cor de vinho, a condizer com a gravata, e contou à mãe que conseguiu o emprego. E ainda prometeu que, finalmente, irão juntos ao mar — que a Sílvia nunca conheceu. Agora era a vez dele cuidar da mãe querida. Por ela, movia montanhas, desviava rios. Esse era o filho da Sílvia. Passaram juntos por todas as dificuldades e não se deixaram abater. Sílvia nunca se arrependeu de ter tido o filho. Fez a escolha certa para si. Assim tinha de ser!

Escolha

Afinal, o Afonso é mesmo casado até à raiz dos cabelos suspirei eu, sentada num banco do jardim, apertando no bolso o papel da consulta para o hospital.
As colegas do meu quarto na residência até me invejavam quando me viam acompanhada daquele moreno de olhos azul-claros, sempre impecavelmente barbeado, achando que tinha tido sorte num cavalheiro tão atencioso. No fim de contas, não havia nada digno de inveja.

Arrepiei-me ao recordar o nosso único encontro com a esposa do Afonso, que me esperou à porta da fábrica só para deixar tudo bem explicado.
Então és tu? Leonor, certo? começou ela.
Desculpe, quem é? vacilei, sentindo-me desconfortável perante aquela mulher alta e elegante de cabelo pintado em tom de cinza.
Sou a Teresa. Teresa Amaral, mulher do Afonso Amaral.
Como?
O que ouviste bem!
Mais uma ingênua, disse ela, calma. Quantas como tu andam por aí, a tentar viver do que não é delas, a sonhar com a felicidade alheia?
Olhe, não lhe admito
Escuta, a loira agarrou-me suavemente pelo braço, mas tu pensas o quê? Eu sou a esposa, vi-te com ele e ainda tens coragem de me enfrentar, em vez de pede desculpa e mergulhares no chão de vergonha. Isso seria o mínimo, se tivesses princípios.
Mais do mesmo, avaliou-me dos pés à cabeça, já perdi a conta às tuas antecessoras.
Tu para ele és só diversão, um capricho. Não passa disso. Mantém-te afastada.
Já agora, temos duas filhas. Queres ver? Teresa tirou uma fotografia da carteira e passou-ma para a mão, enquanto eu olhava, de pedra. Vê. Somos nós em Tavira, há dois meses.
Ficou algum comentário entalado na garganta.
O que é que pretende de mim? Fale é com o seu marido.
E vou tratar disso. Ele foi recentemente trabalhar para esta fábrica, ordenado decente, e aparece-me este problema.
Olha, vai à tua vida. Não te iludas. O Afonso não vai divorciar-se, não percas o teu tempo. Quantos anos tens? Trinta?
Vinte e cinco respondi, magoada.
Ainda bem. Tempo não te vai faltar para casar e ter os teus filhos. Deixa o Afonso em paz.

Não aguentei ouvir mais. Afastei-me, pernas bambas, com o mundo a desabar numa só tarde, todos os sonhos feitos pó.
Traidor murmurei, um nó na garganta, contendo as lágrimas para não me expor ali, à vista de todos. Não queria ser alvo de comentários no trabalho.

À noite, como se nada fosse, apareceu Afonso com flores. Com os olhos inchados, corri com ele dali, mesmo entre juras de amor eterno e promessas vãs de separar-se, dizendo que ele e a esposa eram só estranhos debaixo do mesmo teto.
Duas semanas no limbo. Ele deixou de aparecer. Fazia de conta que não me via quando nos cruzávamos.
Mas nunca se está preparada para tudo Os enjoos matinais e as tonturas atribuí inicialmente à ansiedade. Logo percebi: daquele amor ingénuo e fervoroso nasceu uma consequência inadiável.
Seis semanas, soava como uma sentença.

Estava apavorada com a ideia de ser mãe solteira, sentindo que todos me condenavam, por confiar nas palavras de quem mal conhecia.
A verdade é que Afonso me enganou: nunca demonstrou ser casado. Que podia eu fazer, pedir cartão de cidadão ao conhecê-lo? Nem aliança usava nem todos os casados usam.

Agora compreendo que devia ter desconfiado quando insistia que mantivéssemos segredo no trabalho.
Mas de nada vale perceber isso agora. Até as colegas cochichavam, recontando o episódio da visita de Teresa.
No intervalo do almoço, tomei coragem e abordei Afonso.
Estou grávida.
Dou-te dinheiro, trata do assunto disse, frio.
No dia seguinte despediu-se, desaparecendo para sempre.

Sabia que não podia adiar. Contra as advertências da médica, peguei no papel da operação.
Ali fiquei, sentada no banco, apertando o documento, como se tivesse medo de o largar, sem querer acreditar no que a vida me apresentava.
Vai com pressa? ouvi uma voz ao lado. Rapaz de fato, com um ramo enorme de crisântemos bordô, sentou-se de rompante.
Desculpe? olhei para ele, olhos vazios.
O seu relógio está adiantado sorriu, apontando para o mostrador dourado no meu pulso.
Os meus relógios vão sempre dez minutos à frente Tento acertá-los sempre, mas volta tudo ao mesmo disse, resignada, desviando-me dele.

Que tempo lindo, não acha? Verdadeiro verão de São Martinho! A minha mãe adora esta época. Diz que foi num dia assim que tomou a melhor decisão da vida dela. Nunca se arrependeu.
E sabe uma coisa? continuava ele, sem qualquer cerimónia Tenho o maior orgulho na minha mãe! e ergueu o polegar. Devo-lhe tudo.
E o seu pai? escapou-me.
Nunca falou dele, e eu também nunca insisti. Não lhe é agradável recordar
Venho de uma entrevista! Imagine, fui escolhido entre dez para um cargo de prestígio numa empresa, eu, sem experiência! Mal consigo acreditar
Tudo porque a minha mãe sempre me incentivou
Já sei para onde vai o meu primeiro ordenado: uma viagem ao mar para ela. Nunca foi ao mar.
E a menina, já foi?
Não olhei-o com mais atenção, reparando no laço bordô, a condizer com as flores.
Um miúdo tão simpático, tão cheio de vida.
Prenda da minha mãe disse, tocando no laço, com um brilho no olhar, ao perceber para onde eu olhava.
Desculpe lá a conversa, deve estar farta de me ouvir, mas senti que precisava de partilhar esta felicidade consigo. Tem um ar tão triste
Fui chato?
Abanei a cabeça. Ele, ao contrário do que seria de esperar, não me irritava. Conseguiu estancar aquele fluxo de tristeza que me invadia. E a devoção à mãe comoveu-me.
Que amor incondicional… Que sorte tem a mãe dele pensei, quase sorrindo Oxalá um dia tenha um filho assim

Pronto, vou andando. Ela está à minha espera em casa Mas não se apresse!
Outro quê?
Estava a dizer aos seus relógios e esboçou um sorriso largo.
Ahhhh. devolvi o sorriso.

Desapareceu ao virar a esquina. Peguei, então, na indicação para o hospital, que agora já não me parecia tão imponente, e desfiz o papel em mil pedacinhos.
Fiquei ali, a inspirar o ar limpo do outono, sentindo-me finalmente aquecida e leve, estranhamente amparada por aquele estranho tão próximo.
Não estou sozinha, pensei. Aquela mulher criou um filho maravilhoso sem ninguém ao seu lado. Só lamentei não lhe ter pedido o nome. Mas isso, naquele momento, de nada importava.

A escolha estava feita.

***

Vinte e três anos depois…

Mãe, já estou atrasado Stélio ajustava a gravata bordô ao espelho, enquanto eu lha ajeitava com todo o cuidado, recém-comprada para aquela entrevista importante.
Deixa lá isso
Dá-me confiança. Vais ver que vai correr bem, eles vão gostar de mim!
Perfeito terminei, afastando-me para admirar o meu menino crescido.
Que nervos e se não
É teu, aquele lugar. Tu responde sem medo, sorri e sê tu próprio, não há ninguém melhor.
Obrigado, mãe disse, dando-me um beijo antes de sair disparado para entrevista.

Fiquei à janela a vê-lo, cheio de esperança, seguir rua abaixo.
De repente, um arrepio atravessou-me
Já tinha visto aquilo antes.
Aquele rapaz no jardim, mais de vinte anos atrás
O Stélio, hoje, era igualzinho.
Como era possível?
A vida mostrou-me, naquele dia, o filho de quem eu quase abdiquei, deu-me a hipótese de escolher, encaminhando-me para o certo.
Porquê não lhe pedi o nome? Tínhamos quase a mesma idade O destino, por vezes, é mesmo misterioso.

Afinal, tudo correu bem.

Ao almoço, Stélio chegou a casa com um ramo gigante de crisântemos bordô, a condizer com a gravata, e contou-me que tinha ficado com o emprego.
Prometeu-me que, finalmente, iríamos juntos ao mar, porque eu nunca lá tinha ido.
Agora seria ele a cuidar de mim: moveria montanhas e viraria o Tejo ao contrário, se fosse preciso.
Por maiores que fossem as dificuldades, bastava enterrar o rosto no cabelo dele que tudo passava.
Aguentámos tudo, juntos, e nunca perdi a esperança.
Nunca lamentei a decisão que tomei.
Foi, sem dúvida, a escolha certa.

Assim tinha de ser.

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A Escolha «E afinal, o Fábio é mais casado do que eu pensava…» — suspirava a Sílvia, sentada num banco do jardim e apertando no bolso o encaminhamento para a cirurgia. As colegas de quarto no lar universitário invejavam-na quando a viam na companhia daquele moreno elegante, de olhos azuis e barba feita, achando que tinha sorte com tão cavalheiro pretendente. Mas, no fim de contas, não havia nada para invejar. Sílvia estremeceu ao recordar o primeiro e último encontro com a esposa do Fábio, que a esperava à porta da fábrica para lhe explicar como as coisas realmente eram. — Olá! És a Sílvia, certo? — começou ela. — Quem é a senhora? — assustou-se Sílvia, sentindo o olhar perfurante da mulher alta e elegante, de cabelos louros platinados. — Sou a Olívia, esposa do Fábio Menezes. — O quê? — Ouviste bem. — Mais uma ingénua — comentou a mulher com calma — e quantas como tu há por aí? Nunca acabam as caçadoras da felicidade alheia. — Olhe que se está a exceder! — Vá com calma — a loira segurou com firmeza o braço de Sílvia —, quem se excede és tu. Eu sou a legítima esposa. Vi-te com o meu marido, e ainda vens armar atrevida em vez de te ires embora cabisbaixa. Isso é para quem tem princípios, o que não parece ser o caso. Mulheres como tu — e lançou um olhar avaliador — já foram tantas que faltam dedos das mãos e dos pés para contar. Ficar com um homem casado… Que falta de vergonha! Ele é homem, é caçador. Percebeste? Para ele és só mais um capricho. Vai-se divertir e depois nem quererá lembrar o teu nome. Mantém distância. Aliás, temos duas filhas, posso mostrar-te a foto da família. — Olívia tirou uma fotografia e entregou à atónita Sílvia. — Aqui está! Prova do grande e puro amor. Foi tirada em Albufeira, há dois meses… Então, calaste-te porquê? — O que quer de mim? Resolva os seus problemas com o seu marido. — E vou resolver, não te preocupes! Ele entrou nesta fábrica há pouco tempo. O salário é bom e, de repente, apareces tu para estragar tudo. Sai por bem. Não ligues a promessas, o Fábio não pensa separar-se. Não percas tempo. Quantos anos tens? Já trinta? — Vinte e cinco! — respondeu Sílvia, sentida. — Mais razão ainda. Ainda vais a tempo de casar e ter filhos. Deixa lá o Fábio em paz. Sílvia já não quis ouvir mais nada. Saiu dali de pernas bambas, do mundo feliz que de repente aquela mulher destruíra, riscando todos os seus sonhos cor-de-rosa. — Traidor… — murmurou Sílvia, sentindo um nó na garganta, mas não podia mostrar emoções na rua. Não queria dar azo a mexericos no emprego. À noite, como se nada tivesse acontecido, o Fábio apareceu com flores. Sílvia, com os olhos inchados, expulsou-o de casa apesar das promessas de amor eterno e da suposta separação que nunca chegaria, alegando que ele e a esposa já eram completos estranhos. Duas semanas depois, Sílvia ainda tentava recuperar-se. O Fábio não voltou a procurá-la. Fazia de conta que não a conhecia, desviando o olhar no corredor da fábrica. Mas desgraça pouca é bobagem… As náuseas matinais e tonturas Sílvia pensava serem do desgosto, até que percebeu: o romance ingénuo e apaixonado com o Fábio dera fruto. «Seis semanas», soava quase como sentença. Sílvia não queria ser mãe solteira. Tinha medo. Achava que todos viam e a julgavam, por ter confiado num homem que não conhecia de verdade. O Fábio escondeu-lhe o casamento. Que podia fazer ela? Pedir o cartão de cidadão ao conhecer alguém? Ele não usava aliança… Nem todos os casados usam. E por que não desconfiou quando ele pediu para manterem a relação em segredo no trabalho? Ele enganou-a, mas saber isso não a consolava. E todos já cochichavam sobre a visita da esposa à porta da fábrica. — Estou grávida. — Sílvia, sem saber a quem recorrer, contou ao ex-amante no intervalo do almoço. — Dou-te dinheiro, mas resolve isso — murmurou ele em tom frio. No dia seguinte, o Fábio demitiu-se. Desapareceu da vida dela para sempre. Sílvia percebeu que não podia adiar mais a decisão. Apesar dos conselhos do médico, pegou no encaminhamento para a «intervenção». E agora estava ali sentada, apertando o papel, como se tivesse medo de o perder. — Tem pressa? — perguntou um rapaz de fato e gravata cor de vinho, sentando-se ao lado de Sílvia com um enorme ramo de crisântemos. — Perdão? — olhou ela, com os olhos vazios, para o desconhecido. — O relógio está adiantado — disse ele, apontando para o relógio dourado no pulso dela. — Está sempre dez minutos à frente… Já tentei acertar, mas não consigo, nunca bate certo — respondeu Sílvia, com indiferença, virando-se. — O tempo está espetacular hoje, não acha? Um verdadeiro verão de São Martinho! A minha mãe adora esta época. Diz que num dia de outono assim tomou a melhor decisão da vida dela, e nunca se arrependeu… Sabe, a minha mãe é fantástica! — e mostrou-lhe um polegar em riste. — Sou muito grato a ela. — E o seu pai? — escapou-se-lhe a pergunta a Sílvia. — Daí nunca fala, eu também não insisto… Vejo que não gosta de lembrar. Acabei agora uma entrevista de trabalho. Imagine, escolheram-me entre dez candidatos para uma vaga numa empresa prestigiada! Fui o único escolhido, mesmo sem experiência. Custa a acreditar… Foi a minha mãe que me deu confiança. Já sei o que vou fazer com o primeiro ordenado: levo a minha mãe à praia. Nunca viu o mar! E a Sílvia, já foi? — Não, nunca. — respondeu, fitando-o; os olhos prenderam-se na gravata cor de vinho. O rapaz irradiava felicidade. — Presente da mamã — disse orgulhoso, ao perceber o olhar da Sílvia. — Se calhar já a estou a maçar com tanta conversa, mas quis partilhar a alegria. Está tão abatida… Achei que precisava de conversar. Fui chato com a tagarelice? Sílvia abanou a cabeça. O jovem não a incomodava. Conseguira travar o turbilhão de pensamentos sombrios. E admirava-lhe a devoção à mãe. «Que amor tão leal! Que sorte dela… Quem me dera ter um filho assim…» — Mas pronto, vou-me embora. A minha mãe deve estar à minha espera… E olhe, não se apresse! — O quê? — Digo isso ao seu relógio — sorriu ele. — Ah — sorriu Sílvia. Pouco depois, ele foi-se embora. Sílvia tirou o papel do bolso — aquele que, minutos antes, tinha tanto medo de largar — e rasgou-o em pedacinhos. Depois ficou ali sentada, a respirar o ar de um dia de outono dourado, como enfeitiçada. Sentia agora no peito uma leveza nova, um calor bom, deixado pelo estranho que lhe falara como se a conhecesse de sempre. Ela não estava sozinha. Aquela mãe criou o filho sozinha, um filho tão especial. Pena só não lhe ter perguntado o nome… mas agora isso já não importava. A escolha estava feita. *** Vinte e três anos depois… — Mãe, estou atrasado — estava o Tiago de pé em frente ao espelho, enquanto a mãe lhe apertava cuidadosamente a gravata cor de vinho, comprada de propósito para a entrevista importante. — Queres saber? Se calhar é melhor desistires. — Não, mãe. Dá confiança. Vai correr bem, vais ver! Eles vão aceitar-me — disse ela, terminando de ajeitar a gravata e afastando-se, para admirar o filho. — Que nervos, e se não corre bem… — Esse lugar é teu. Só tens que responder com firmeza e sorrir. És irresistível. — Está bem, mãe — o Tiago deu-lhe um beijo na bochecha e saiu, apressado, para a entrevista. Sílvia ficou à janela, a ver o filho, a pessoa mais querida, caminhar decidido até à paragem. De repente, estremeceu — como um choque elétrico… Já tinha visto aquilo em algum lado… Aquele rapaz no jardim, mais de vinte anos atrás… Agora, ver o Tiago, de fato e gravata, era como reviver aquele momento. Tantos anos depois, recordava o episódio esquecido. Como era possível? Teria sido o destino a dar-lhe a oportunidade de ver com os próprios olhos de quem queria abdicar (palavra dura), e a guiara para o caminho certo? E porque não falou mais com ele aquele dia, se até tinham quase a mesma idade? Agora, já não importava… Tudo correu bem no fim. Mais tarde, ao almoço, Tiago chegou a casa com um grande ramo de crisântemos cor de vinho, a condizer com a gravata, e contou à mãe que conseguiu o emprego. E ainda prometeu que, finalmente, irão juntos ao mar — que a Sílvia nunca conheceu. Agora era a vez dele cuidar da mãe querida. Por ela, movia montanhas, desviava rios. Esse era o filho da Sílvia. Passaram juntos por todas as dificuldades e não se deixaram abater. Sílvia nunca se arrependeu de ter tido o filho. Fez a escolha certa para si. Assim tinha de ser!
O serviço de jantar da tia Rosa despedaçou-se para sempre: doze peças de porcelana alemã, um present…