Mandaram-me para um lar
Não me voltes a falar nisso, Lídia! Nem penses! protestou Dona Rosalina, empurrando para longe o prato de papas de aveia. Queres mesmo meter-me num lar?
Para me encherem de injecções, taparem-me com a almofada se eu gritar?
Nem sonhes!
Lídia respirou fundo, esforçando-se por não olhar para as mãos trémulas da avó.
Avó, mas que lar do Estado, qual quê? É um lar privado, ao pé do pinhal, com enfermeiras dia e noite.
Lá vais ter companhia, um televisor grande.
Aqui, passas os dias sozinha, enquanto o pai está a trabalhar.
Companhia? resmungou a velha, ajeitando-se nos almofadões. Lá só querem é levar-nos tudo, ficam com a casa, e depois atiram-me para o lixo.
Diz ao Rui: ainda saio daqui, mas só pela porta morta. Ele é que me trate. É filho ou não?
Fui eu que o criei, noites sem dormir quando teve sarampo. Agora é a vez dele.
O pai anda a fazer dois trabalhos para comprar os teus remédios! Tem cinquenta e três anos, a tensão sempre nas nuvens, há três anos que nem vai ao cinema, quanto mais de férias!
Não faz mal atalhou Rosalina, apertando os lábios finos Ele ainda é novo, aguenta.
E tu cala-te, os pintos não ensinam a galinha. Vai limpar essa papa, está tudo uma porcaria!
Lídia saiu para o corredor e soltou o ar. Como se fala com ela?!
O pai chegou a casa às sete da tarde. Não tirou logo os sapatos, sentou-se no banco do hall e ficou ali, a olhar para o chão.
Pai, estás bem? Lídia foi ao seu encontro e tirou-lhe o saco das compras.
Estou, Lídia. O armazém está uma confusão, o fecho do ano está aí. E a avó, como está?
Como sempre. Voltou a fazer uma cena por causa do lar. Diz que a queremos despachar.
Pai, isto assim não pode continuar. Vi as contas deste mês, sobram-nos trezentos euros para comer.
Ainda tenho de pagar a residência, e preciso de comprar livros.
Ainda conseguimos dar a volta Rui levantou-se penosamente, tirando os sapatos. Arranjei mais um bico. Turno de noite na portaria, dia sim, dia não.
Mas tu és maluco? Quando é que dormes? Qualquer dia cais para o lado!
Rui não respondeu. Foi até à cozinha, pôs água no tacho e ligou o fogão.
E ela, comeu?
Metade foi parar à cama. Tive de mudar os lençóis.
Pronto. Vais estudar, tens exames à porta. Eu trato agora dela e dou-lhe banho.
Lídia viu o pai a coxear para o quarto da mãe. Sentiu uma pena imensa. Aquele homem risonho e forte estava a desaparecer. Raramente fazia uma piada, já não parecia ter vontade de viver.
***
Na semana seguinte, tudo piorou ele chegou ainda mais tarde. Vacilava nas pernas, Lídia logo se alarmou.
Pai? Sentes-te mal?
Estou só tonto, Lídia. O metro estava abafado.
Senta. Vou medir-te a tensão.
O medidor deu 18 por 11. Lídia trouxe os comprimidos, em silêncio.
Amanhã ficas em casa. Chama o médico.
Não posso o pai fez uma careta. Amanhã há inspeção. Se falto, cortam-me o prémio. E o IMI da casa da mãe veio altíssimo.
Vende, pai! Lídia cochichou, para a avó não ouvir. Vende o T1 dela lá na margem sul.
Cem mil euros dá-nos folga para tudo. Pagamos as dívidas, arranjamos uma cuidadora a sério.
Ele suspirou:
Ela não quer assinar…
Pai, ela já não sai da cama há cinco anos! Para que lhe serve a casa?
Nem houve tempo para resposta ouviram-se pancadas do quarto: Rosalina estava a bater com a chávena na mesinha de cabeceira.
Rui! Rui, vem cá! Com quem estás tu nessa conversa? Estás a falar de mim, não é?
Rui engoliu o remédio e foi ao chamado da mãe.
***
Há seis anos o pai ainda esteve com uma mulher. Leonor, boa pessoa, vinha cá, trazia bolos, ele até queria levá-la a um resort no Alentejo.
Mas tudo acabou quando a avó ficou de cama. Leonor ainda tentou ajudar, mas Rosalina fez-lhe a vida negra.
Veio aproveitar-se, roubar-me o filho! gritava pela casa toda, fingindo ataques sempre que Rui saía para um encontro. Mandem-na embora, rua com ela!
Acabou tudo, Leonor foi-se. E o pai nem tentou chamá-la de volta.
O telefone tocou numa noite em que Lídia estudava. O pai ainda não tinha chegado.
Estou?
É da parte do senhor Rui Martins? disse uma voz masculina.
Fala a filha. O que se passa?
Fala do recursos humanos. O seu pai desmaiou na reunião, chamámos a ambulância. Foi para o Hospital de Santa Maria. Anote o endereço.
Lídia rabiscou o endereço nos apontamentos. Mal pousou o telefone, a avó chamou-a:
Lídia! Quem era? E o Rui? Que me traga chá, tenho sede!
Lídia entrou no quarto. A avó, rodeada de almofadas, olhava-a de lado.
O pai está no hospital disse secamente.
No hospital? Rosalina congelou um instante, depois embirrou: É o resultado do que me fazem! Ontem gritou-me, Deus castigou-o.
Agora quem é que me vai dar de comer? Anda lá, põe o bule ao lume.
Lídia saiu sem uma palavra.
***
Três dias entre hospital e casa. O pai, diagnosticado com crise hipertensiva e nervos em frangalhos.
Médicos disseram-lhe: nada de se levantar da cama.
Lídia, e a mãe, está bem? perguntou logo, mal ela entrou no quarto.
Está, pai. A vizinha ajuda. Pensa em ti agora. Tens de ficar de cama pelo menos duas semanas.
Duas semanas… Vão despedir-me… E o dinheiro…
Dorme, Lídia ajeitou-lhe o lençol. Eu trato de tudo. Prometo.
Ao quarto dia, quando chegou a casa, a avó recebeu-a com queixas.
Onde tens andado? Estou imunda, o Rui de papo ao ar, e eu aqui podre!
Lídia cerrou os punhos e, com voz calma, disse:
Assim é: escuta bem, avó. O pai está mal, pode ter um AVC se continuar a preocupar-se assim.
Disparates! Ele aguenta. Tem o sangue do pai dele. Anda daí, ajuda-me a virar, estou mal das costas.
Não Lídia sentou-se na cadeira. Não te viro, nem te vou dar de comer.
Os olhos da avó arregalaram-se.
Estás doida, rapariga?
Não há dinheiro, avó. Nenhum. O pai não trabalha, não vai ter prémio. A tua reforma não chega para as fraldas e para os comprimidos.
Mentes! O Rui deve ter algum de parte!
Não há nada, avó. Gastou-se tudo nos teus exames. Só há duas hipóteses: ou assinas já para vendermos a casa da margem sul, ou amanhã chamo a Segurança Social e vão buscar-te para um lar público. De graça.
Nem penses! gritou Rosalina. Sou mãe dele! Esta casa é minha!
Tens casa, mas vais matar o teu filho. Não te importa se o pai não volta do hospital. Só pensas na sopa e na mantinha.
Hoje falei com aquele lar. Abriram uma vaga, a venda da casa paga as mensalidades. O tratamento é muito bom lá.
Não vou! a velha tossiu.
Então ficas sem comer. Amanhã começo num trabalho novo, só venho à noite. Tens água na mesa de cabeceira. Pensa bem.
Lídia saiu e fechou a porta. Tremia. Nunca tinha sido dura, mas agora via: alguém tinha de quebrar aquilo ou perdia o pai.
E a avó… a avó sobrevivente, se a deixassem continuar a sugar a família.
A noite passou sossegada. Da porta, ora ouviu a avó chamar, ora chorar, ora praguejar. Só entrou de manhã.
Dá-me água… pediu a velha, rouca.
Lídia chegou-lhe a chávena aos lábios.
E então? Assinas? O notário vem ao meio-dia.
Estúpidos… murmurou Rosalina, mas sem raiva. Só querem o meu… Pronto. Faz as tuas papeladas.
Mas diz ao Rui… diz-lhe para não me esquecer, que venha visitar-me.
Vai, sim. Quando voltar a andar. Eu também vou. Prometo.
***
Rui estava sentado num banco do jardim do lar. Tinha outro semblante aspecto saudável, até ganhara cor.
Ao lado, na cadeira de rodas, a mãe limpa, com lenço novo e bonito, entretida a comer uma maçã.
Rui? Ó Rui, chamou ela.
Sim, mãe?
E a Leonor? Já falaram? Fizeram as pazes?
Rui olhou-a surpreendido.
Já. Vem cá sábado.
Ainda bem. Olha que aqui há uma enfermeira, a Helena, que me trata como se fosse bruta, sempre a mandar-me recados.
Que a Leonor veja como me tratam. Mas tu, Rui, respeita-a! Não se deve fazer uma mulher chorar, não presta.
Olha o teu pai
Rui sorriu e apertou a mão da mãe. Pela alameda vinha a Lídia, a correr e a sorrir cheia de vida.
Pai! Avó! gritou ela de longe. Ganhei a bolsa! E no trabalho subiram-me de posição!
Rui levantou-se, braços abertos. Rosalina, a avó, olhava-os de esguelha.
Ainda achava que a tinham corrido injustamente da própria casa, mas já nada dizia.
Quando a auxiliar veio chamá-la para a fisioterapia, a velha anuiu com importância.
Vamos, querida. Mas homem, daquela vez apertaram-me tanto o pé
Diz-lhes que sejam cuidadosos, menina. Parecem uns ursos, valha-me Deus
A enfermeira foi com a cadeira, Lídia abraçou o pai, e ficaram ali, a contemplar os pinheiros.
Pela primeira vez em muito tempo estavam, os três, sinceramente felizes.
***
Dona Rosalina viveu até conhecer o bisneto Lídia licenciou-se, casou-se com um homem bondoso e teve um filho.
Rui casou enfim com Leonor, a segunda nora foi aceite, e com o tempo fez-se amizade e até carinho Leonor esqueceu as amarguras do passado.
Dona Rosalina partiu em paz, dormindo, sem mágoas nem pela neta nem pelo filho.
***
A vida ensinou-lhes: às vezes, amar quem nos é próximo é saber libertar, dar espaço, reconhecer os limites. Só assim pode haver harmonia e felicidade para todos na família.







