Saída da senhora
Não vais com isso, disse o Vítor, sem sequer olhar para trás. Estava ao espelho do corredor, a ajeitar a gravata, azul-escura, de seda, comprada no mês passado por um preço que a Teresa só soube por acaso, quando procurava o talão da máquina de lavar na gaveta. Estou a falar a sério.
Vítor, isto é o aniversário da tua empresa. Dez anos. Eu sou tua mulher.
Precisamente. Finalmente olhou para ela, e aquele olhar fez-lhe prender a respiração. Não de ternura nada disso. De reconhecimento. Ela já conhecia aquele olhar, só não lhe tinha dado nome há uns anos atrás. És minha mulher. E por isso peço-te para ficares em casa.
Porquê?
Ele suspirou, devagar, com aquela paciência forçada de quem não tem tempo para perguntas óbvias.
Teresa. Vão lá estar parceiros de negócios, pessoas importantes. Pode até vir aí a comunicação social.
E então?
Tu Calou-se por um momento, à procura da palavra certa. Encontrou. És uma senhora como tantas outras. Entendes? Uma senhora normal. Com esse vestido azul com botões Lá vão estar mulheres com outro aspeto.
A Teresa estava encostada à porta da cozinha, ainda com o pano velho na mão, já sem cor, com que tinha acabado de se enxugar. Olhava para o marido a tentar perceber desde quando é que aquilo era normal. Quando é que palavras assim deixaram de ser inaceitáveis.
Vai a Leonor contigo?
Ele nem tremeu. Era isso o mais assustador. Nem zanga, nem surpresa. Só um olhar neutro.
A Leonor é minha assistente. Trata da organização do evento.
Vítor.
Teresa, não comeces.
Só perguntei.
Não só perguntaste. Tirou o casaco do cabide, abanou-o com aquele jeitinho de sempre. Estás sempre a insinuar. Estou farto das tuas insinuações.
A Teresa pousou o pano no braço da cadeira. Devagar. Sentiu as mãos a tremer um bocadinho, não queria que ele reparasse.
Está bem, disse ela. Está bem, Vítor.
Assim é que é. Voltou ao espelho, satisfeito consigo mesmo. Os miúdos estão em casa?
A Mariana está em casa da amiga. O João na faculdade. Deve chegar por volta das oito.
Diz-lhe que não faça barulho quando eu voltar. Vou chegar tarde.
A porta fechou-se. Faltava o cheiro do aftershave dele no corredor que antes adorava e agora sentia estranho e distante. Caro e distante.
Ela foi para a cozinha. Pôs água a ferver para o chá. Olhou para o fumo a sair do bico do bule, a pensar como, há vinte e três anos, se casou com um homem que a olhava de outra forma. Nessa altura, ele ria-se do riso dela e dizia-lhe que soava como um guizo. Ela, coradinha, ficava sem jeito com isso.
A água ferveu. Teresa deitou o chá na caneca e ficou a ver as espirais a dissolverem-se na água quente.
Uma senhora. Ele chamou-lhe senhora.
Tinha cinquenta e dois anos. Não era nenhuma velha, nem centenária… Tinha cinquenta e dois e até estava bem, para dizer a verdade. Não era capa de revista, claro, mas nem por sombras aquele nada em que ele a tentava transformar. Tinha bom cabelo, castanho escuro, quase sem brancos porque cuidava de si. Mãos que sabiam tudo: cozer um bolo, fazer uma bainha perfeita, acalmar um filho às três da manhã ou tratar da papelada da contabilidade quando ele, no início da Monolito, se perdia com os números e lhe pedia ajuda.
Quem lhe tratava disso tudo, na altura? Quem passava noites nas contas?
Uma senhora. Vê lá tu.
Não chorou. Sentia as lágrimas ali, quase, como um nó na garganta, mas não caíam. Talvez porque não era a primeira vez. Da primeira vez, há uns três anos, ele dissera-lhe: Já podias vestir-te melhor. Na altura ficou triste. Depois habituou-se. Depois passou a dar-lhe razão. E agora, de pé na cozinha, estava ali sozinha, o marido a caminho do jantar de gala da empresa, com a Leonor que tinha vinte e oito anos, não fazia bolos nem tinha panos desbotados nem vinte e três anos de vida partilhada.
Estava a anoitecer devagar. Noite morna de maio, com o cheiro das glicínias a vir do quintal. Teresa acabou o chá, lavou a caneca e foi ao armário.
No fundo do roupeiro, atrás dos casacos de inverno, estava o tal vestido. Vinho escuro, de veludo, comprado em saldos no Grandella há três anos só vestiu uma vez em casa. O Vítor viu, torceu o nariz: Vais com isso? Muito berrante para a tua idade. Demasiado Guardou-o num saco, quis dar a alguém, depois esqueceu. Não deu a ninguém.
Agora tirou-o dali. Sacudiu-o. O veludo estava macio, quente, sentia-se vivo ao toque. Teresa encostou o vestido ao corpo e olhou-se ao espelho.
Não. Não era só uma senhora.
Ouviu-se barulho de chaves no corredor. O João. Ouviu-o tirar os sapatos, largar o casaco na poltrona em vez do cabide e ir à cozinha.
Mãe, há comida?
Há restos de almôndegas no frigorífico. Aqueces.
Estás aí com um vestido?
Teresa virou-se. O João estava à porta, alto, com o rosto do pai mas os olhos dela, cinzentos e já um bocadinho cansados. O primeiro ano na universidade estava a ser duro para ele e notava-se na maneira como andava, curvado, a parecer que levava o mundo às costas.
Estava a experimentar, respondeu.
É giro. Foi à cozinha, fez barulho com as panelas. Vais a algum lado?
Teresa hesitou um segundo.
Não sei ainda. Talvez a lado nenhum.
O João voltou com o prato, sentou-se à mesa, olhou para ela com aquele olhar direto, meio adulto, que não era nada comum nos rapazes da idade dele.
O pai foi ao jantar, não foi?
Foi.
Sozinho?
Ela demorou a responder. Pendurou o vestido na cadeira.
João.
Oh mãe, eu sei. Disse em voz baixa, sem raiva, como um facto. E a Mariana também sabe. Já sabemos há bastante.
Aí as lágrimas, finalmente, subiram. Não um choro dramático só ficaram ali na garganta, e a Teresa ficou alguns segundos a olhar para a janela, onde já só havia noite.
Como soubeste? perguntou por fim.
Na primavera vi-os juntos. No café ali ao largo. Ele não me viu. O João mastigava, sem levantar os olhos. Pensei que era trabalho, mas percebe-se logo quando não é.
Não disseste nada.
Ias fazer o quê?
Boa questão. Fazer de conta que não sabe. Como fez nos últimos três anos, a notar coisas estranhas e a convencer-se de que era imaginação. Há uma psicologia própria nestas famílias em que a mulher, depois dos cinquenta, começa a ter medo da verdade.
Não sei, confessou ela.
Pois, eu também não. Ele olhou-a de frente. Mãe, ficas bem nesse vestido. A sério.
A Teresa olhou para ele. Para o rapaz a quem leu histórias em voz alta, ensinou a dar nós nos atacadores, que despachava para a escola com a lancheira na mochila. Dezanove anos. Já adulto, via mais do que ela queria.
Obrigada, disse.
Depois do jantar, Teresa ligou à Mariana. A miúda chegou por volta das dez, entrou esbaforida, mochila cor de rosa às costas e o cheiro a perfume alheio das abraçadas amigas.
Mãe, o que tens? parou logo no hall, a olhar para a mãe com aquela precisão das adolescentes de quinze anos. O pai disse-te alguma coisa?
Senta-te, disse a Teresa. Temos que conversar.
Sentaram-se à mesa, beberam chá. Teresa contou. Não tudo, mas o suficiente. O que o Vítor tinha dito. O vestido. O que pensava da Leonor, e os filhos, só pelo olhar, já sabiam.
A Mariana ouviu, mordendo o lábio de baixo fazia sempre isso quando estava triste ou a conter as lágrimas.
O pai disse-te senhora? perguntou, quando a mãe acabou.
Disse.
Isso abanar a cabeça, à procura da palavra é injusto.
É, concordou a Teresa.
Mãe, e tu… vais sair? Quero dizer, algum dia?
A Teresa olhou para o vestido ainda pendurado na cadeira.
Ainda não sei.
Aquela noite mal dormiu. Ficou deitada de lado, no lado dela da cama larga, a pensar. Pensava no passado. Vinte e três anos. A juventude que deu à casa, aos filhos, àquele homem. Largou o emprego quando o João nasceu. Trabalhava antes numa boa costureira no centro de Lisboa, das melhores, dona Emília dava-lhe imenso valor, dizia-lhe que tinha talento. Depois o Vítor: Não precisas de trabalhar, eu sustento-te. E ela acreditou. Fazia sentido na altura. E ele cumpria, ela achou: pronto, vida boa.
Vida boa. Virou-se para o lado a olhar o teto escuro.
O que é que sabia fazer agora? Costurar, cozinhar, gerir a casa Estar em casa e ser invisível. E nisso era mesmo craque.
Não. Não podia pensar assim. Sabia costurar, e era algo e não pouco. Tinha mãos, tinha cabeça, vinte anos de experiência, mesmo interrompida e não oficial, porque costurava para ela, para os filhos, para a vizinha D. Amélia, que dizia sempre o que a Teresa faz é melhor do que loja.
Os pensamentos andavam às voltas. Adormecia, acordava, e assim até às três, quando ouviu a porta da rua. Vítor chegou. Ouvia-o na casa de banho, o barulho da água. Deitou-se ao lado dela sem dizer nada e adormeceu logo.
Teresa ficou de olhos abertos muito tempo.
De manhã ele saiu cedo, quase não tomou pequeno-almoço. Atirou na pressa:
Vou andar ocupado esta semana, não me esperes à jantar.
Porta. Silêncio.
Teresa fez café, sentou-se à janela. Lá fora chovia miudinho, a glicínia do quintal estava escura, as folhas brilhavam. Bebia o café e pensava. Tranquila, quase fria, e estranhava isso. Quando a dor chega a certo ponto, transforma-se em outra coisa. Num chão sólido e limpo.
O jantar de gala era sexta. Agora era terça.
Três dias.
Pegou no telemóvel e escreveu à Tânia. Tânia Dantas fora a contabilista deles durante anos, agora trabalhava noutra empresa, mas continuaram amigas. Mulher prática, já cinquentona, via sempre as coisas como eram.
Tânia, podemos encontrar-nos hoje?
Ela respondeu depressa: Claro. Às três, no Café Central?
Teresa: Combinado.
Sentaram-se nesse café de esquina, duas ruas mais à frente. A Tânia chegou num tailleur cinzento, cabelo curto, olhos atentos. Ouviu tudo, sem interromper. Só alçou uma sobrancelha quando Teresa disse senhora.
Chamou-te isso na cara, foi?
Chamou.
E sobre a Leonor, já sabias?
Já desconfiava faz tempo. O João confirmou ontem.
Tânia enrolou a chávena nas mãos.
Teresa. Não leves a mal, digo-te isto porque gosto de ti.
Diz.
Eu sabia. Olhou-a de frente. Ainda quando trabalhava na Monolito. Há dois anos. Vi-os juntos. Pensei em avisar-te, mas não achei que fosse da minha conta. Agora acho que devia ter dito, desculpa.
Teresa demorou a responder.
Tudo bem, Tânia. Já passou.
Então? O que vais fazer?
Teresa olhou-a nos olhos.
Vou ao jantar.
A Tânia ficou a olhar para ela, depois fez que sim com a cabeça.
Com os miúdos?
Com os miúdos.
Percebes que vai ser constrangedor?
Percebo.
E ele vai passar-se.
Vai.
Tânia ficou em silêncio.
Pronto. Então diz lá: o que precisas?
E pela primeira vez em dois dias, a Teresa sorriu, até com piada.
Preciso que alguém me faça o cabelo. Sozinha não me safo.
Na quinta à noite, a Mariana sentou-se ao lado da mãe, em frente ao toucador, e penteou-lhe o cabelo, devagar, com todo o cuidado de quem faz algo importante. Os cabelos da Teresa eram fartos, até aos ombros, e ela até pintara um pouco no dia anterior, só para tirar o tom baço do inverno.
Mãe, não tens medo? perguntou a Mariana.
Um bocadinho.
O pai vai-te dizer das boas.
Talvez.
E tu?
Nada. Teresa olhava-se ao espelho. Vou só entrar.
A Mariana apanhou a última madeixa, afastou-se para avaliar.
Está lindo, mãe. És bonita, a sério. Só te esqueceste disso.
Teresa virou-se e abraçou a filha, apertado. Mariana surpreendeu-se, depois retribuiu o abraço.
O vestido estava em cima da cama. Vinho tinto, veludo, macio. Teresa vestiu-o devagar. Fechou o fecho atrás, com a ajuda da filha. Olhou-se no espelho.
Não era uma estranha. Ou melhor, era alguém que ela já tinha sido, antes de começar a ceder.
A maquilhagem foi pouca. Só para dar cor: rímel, baton terracota suave, que tinha guardado há anos. Uns brincos de ónix preto, prenda da mãe.
Mãe, chamou o João da entrada o táxi já está aí.
Já vou.
Pegou na mala pequena, preta e velha, mas de bom corte. Saiu para o corredor.
O João olhou para ela e disse:
Uau.
Uau, repetiu a Mariana, atrás dele.
Teresa vestiu o casaco. Ainda sentia as mãos a tremer. Notou e decidiu abrandar. Calma. Só calma.
Vamos, disse.
O Hotel Estrela do Norte era um sítio de respeito. Não era o melhor da cidade, mas estava ao nível. O Vítor tinha escolhido aquilo por estatuto: salão amplo, teto alto, catering próprio. Teresa só ali tinha ido uma vez, há oito anos, num casamento. Lembrava-se do chão em mármore no hall e do candeeiro enorme no topo das escadas.
O táxi parou à porta. Teresa saiu primeiro. Parou um instante nos degraus, respirou o ar da noite ainda quente, de maio, cheiro a plátano em flor vindo de algures.
Mãe, segredou o João, estamos contigo.
Eu sei. Pegou na mão da Mariana. Vamos.
Havia já alguns convidados no átrio, todos apressados, nomes pendurados nas lapelas. Teresa foi devagar. Um rapaz de uniforme veio à frente.
Boa noite. Vem para o evento da Monolito?
Sim, respondeu Teresa. Sou a esposa do Vítor Santos. Estes são os nossos filhos.
O rapaz hesitou só um segundo, depois acenou.
Por favor, segundo andar, salão Âmbar.
O salão Âmbar estava cheio. Gente elegante, copos na mão, cheiro a perfume caro e croquetes quentes, risos ruidosos perto do bar, música de fundo. Teresa parou na porta, sentiu olhares furtivos. Era uma estranha ali, sabia-o bem. Aqueles conheciam o Vítor Santos, o estilo de vida dele, alguns talvez até soubessem da Leonor. Mas ninguém das senhoras conhecia.
Vês o pai? perguntou a Mariana.
Ainda não. Scaneou a sala. Vamos encontrá-lo.
O Vítor estava junto à parede do fundo, ao pé de uma mesa redonda com salgados. Conversava com dois homens de fato escuro, um deles ela reconheceu o Dr. Jorge Melo, sócio antigo da Monolito, homem corpulento, cabelo branco, olhar pesado. O Vítor respeitava-o ou tinha medo. A Teresa nunca soube a diferença.
Ao lado do Vítor estava a Leonor.
Teresa viu-a ali, pela primeira vez, embora a imaginasse há muito. Nova, alta, vestido justo azul, cabelo arranjado. Bonita. Teresa pensou-o sem azedume, como quem realiza o estado do tempo. Miúda gira, vinte e oito anos. Mão pousada no antebraço do Vítor, com a intimidade das coisas habituais.
Está ali, disse a Mariana, surpreendentemente calma. Com aquela senhora de azul.
Teresa avançou.
Foi atravessando a sala sem pressa. Algumas pessoas voltaram-se. Outras abriram caminho. Ela não olhou à volta, só para o fundo, para aquela mesa, para ele.
O Vítor viu-a a uns três metros. A cara dele mudou. A boca entreabriu-se um segundo, depois fechou-se. Olhar de gelo.
Teresa, disse muito baixo o que estás aqui a fazer?
Vim ao aniversário da tua empresa, respondeu igual, baixo e calmo. Dez anos. Uma data importante.
O Dr. Jorge olhou de um para o outro, depois sorriu de lado.
Dona Teresa? disse, surpreendido, mas caloroso. Há quanto tempo. A senhora está muito bem.
Boa noite, doutor Jorge. O senhor também.
A Leonor deu um passo atrás. Tirou a mão do braço do Vítor discretamente.
A Mariana, que vinha um pouco mais atrás, avançou. Quinze anos, olhos escuros, costas direitas. Olhou para a Leonor com aquela franqueza das crianças que os adultos tanto detestam, porque não há ali encenação.
Pai, disse a Mariana, em tom de voz normal mas claro para que ouvissem por que estavas a abraçar aquela senhora? Não é a mãe.
O ambiente mudou. Como se alguém tivesse baixado o volume da música. Dois homens trocaram olhares. Uma senhora de pérolas virou-se.
O Vítor ficou branco. Visível mesmo com o solário.
Mariana, começou ele não é nada disso, era só por trabalho, eu depois explico…
Pai, não sou parva, respondeu a filha, tranquila. Eu e o João sabemos há imenso.
O João estava ao lado da irmã, calado, de mãos nos bolsos. Não disse nada. Só olhava o pai.
O Dr. Jorge pigarreou. Largou o copo na mesa.
Ó Vítor, disse ele, e nesse ó Vítor estava tudo depois falamos.
Acenou à Teresa com aquela cortesia antiga de outros tempos e foi-se juntar a outros convidados. Os outros homens seguiram-no.
A Leonor murmurou baixinho:
Vou só ver da comida.
E desapareceu pela sala.
O Vítor e a Teresa ficaram a sós, tirando os filhos. Ele olhava para ela com um ar que antes via como cansaço e agora percebia ser outra coisa. Não era raiva, nem irritação. Era desorientação. Não sabia o que fazer.
Teresa, sussurrou ele percebes o que fizeste?
Vim ao aniversário da tua empresa, repetiu ela. Dez anos. Uma meta importante.
Pegou num copo do tabuleiro mais próximo. Era espumante bolhinhas a subir.
Podias ter ficado em casa, disse ele mais baixo. Como pedi.
Podia, concordou Teresa. Mas não fiquei.
Olhou para ele e nesse instante tudo encaixou. Não raiva, não vitória. Só clareza. Olhava para este homem de fato caro, botões de punho de prata, gravata de luxo o homem a quem cozinhou, lavou camisas, criou filhos e confiou, e só pensava: tanto tempo perdido.
Vou brindar à tua empresa, disse. E depois vou-me embora. Os miúdos estão cansados.
Virou-se para eles.
Vamos, disse baixinho.
Saíram para a porta, sentindo os olhares nas costas. Olhares de tudo: curiosos, críticos, piedosos. Tanto faz. Ou, melhor, já não magoava mais do que o que doía.
À porta, o João deu-lhe o braço.
És incrível, mãe.
Só vim, respondeu ela.
Só vieste, concordou ele. Isso é que tem valor.
Em casa, Teresa tirou o vestido devagar, pendurou-o. Lavou o rosto, deitou-se. E, pela primeira vez em semanas, dormiu profundamente. Até às nove da manhã.
O que veio depois foi lento, mas inevitável, como a chegada da primavera. Não no dia seguinte, mas nas semanas seguintes ao jantar. Teresa foi sabendo aos bocadinhos, por palavras da Tânia, pelos recados da Mariana (que apanhava mensagens do pai, quando carregava o telemóvel da cozinha).
O Dr. Jorge Melo recusou assinar o novo contrato do grande projeto. Não de caras, como gente esperta faz: com tempo, através de intermediários. Logo depois do jantar, telefonou, disse que ainda precisava pensar. Para ele, família ainda era coisa séria; o que viu no salão Âmbar matou-lhe o respeito pelo Vítor Santos. Não porque o Vítor tivesse amante toda a gente sabe que há casos. Mas porque teve a ousadia de levar a amante ao evento oficial, no lugar da mulher. Isso era falta de respeito à casa. À ordem. O Jorge nunca perdoou isso.
A seguir, outros parceiros começaram a recuar também. O negócio é feito com reputação. Passaram a chegar perguntas. O conselho de administração da Monolito levantou questões sérias sobre decisões dos últimos meses. Descobriu-se que alguns contratos foram assinados às escondidas. Já era outro campeonato, nada a ver com vestidos nem Leonores, mas já se sabe como basta puxar um fio para vir tudo atrás.
A Leonor desapareceu da Monolito três semanas depois do jantar. Discretamente, saiu de mansinho, pediu rescisão por vontade própria. O Vítor andou dias como quem lhe tiraram o tapete dos pés.
Um dia, chegou a casa, sentou-se à mesa. Teresa pôs-lhe um prato de sopa, foi para outra divisão. Ele ficou muito tempo, ouviu os suspiros.
À noite chamou-a.
Teresa. Temos de conversar.
Temos, concordou ela. Só diz-me uma coisa: queres falar ou só queres que eu te ouça?
Ele não percebeu logo a diferença. Depois percebeu. Baixou o olhar.
Desculpa-me, disse.
Teresa sentou-se de frente. Mãos quietas no colo. Olhava-o a pensar: chegou tarde. Não por zanga, mas porque o perdão já pede algo que se perdeu, secou, tal como o senhora.
Está bem, disse ela. Ouço-te.
Isso não era perdão. Ele percebeu.
A conversa sobre divórcio foi iniciativa dela, um mês depois, com advogada da parte dela (a Tânia conhecia uma boa). Dividiram a casa. Os filhos ficaram com Teresa. O Vítor não contestou isso, a única coisa que não contestou.
Enquanto tratavam dos papéis, Teresa abriu um ateliê. Pequeno, duas salas, num bairro ao lado. Pensou muito. Padaria teria dado menos trabalho, talvez, mas as mãos sabiam de linhas e tecidos, como se fossem extensões do corpo. Dona Emília, a antiga patroa, já reformada, respondeu num instante à chamada: Teresa, devias ter feito isto há dez anos atrás.
Sabe bem ouvir e dói. Dez anos antes não tinha coragem. Agora, sim.
Os primeiros meses foram duros. O dinheiro escasso, poucas clientes, rala até tarde, chegava a casa com as costas partidas e mãos cheias de giz. A Mariana passava lá às vezes depois da escola, fazia os trabalhos no cantinho, petiscava sandes e às vezes perguntava sobre tecidos. Descobrira-se-lhe um jeito inesperado para conjugar cores, ficava imenso tempo a olhar para amostras, dizia coisas certas, surpreendentes para uma miúda de quinze anos. Teresa só reparava e guardava, sem pressa de decidir.
O João atravessava a adolescência do jeito dele. O pai tentou encontrar-se com ele, fez convites, ele ia e vinha calado. Uma noite disse à mãe:
O pai quer que eu o perceba.
E tu?
Não percebo como se envergonha da própria esposa. Mãe, tu és… tu sempre foste normal. Nunca foste vergonha nenhuma.
Obrigada, filho.
Falo a sério.
Eu sei.
Calou-se.
Tenho problemas com a Beatriz, disse de repente. A minha namorada. Diz que depois disto tudo não sabe se serei bom pai, tem medo que repita o mesmo.
Não és o teu pai, João.
Eu sei. Ela é que não vê.
A Teresa ficou sem resposta uns segundos.
Dá-lhe tempo. Deixa-a observar. Palavras não bastam, só o tempo.
Ele assentiu, pouco convicto. Essa novela com a Beatriz arrastou-se, e a Teresa às vezes preocupava-se, mas não entrava. Os filhos também têm direito ao seu espaço e à sua própria forma de resolver.
O ateliê cresceu devagar, mas bem. Passado um ano, tinha clientes de repetição. Ao fim de ano e meio, chegaram os primeiros pedidos para vestidos de noiva os mais difíceis e melhor pagos. Teresa contratou ajuda: a Sara, uma jovem de mãos de ouro, coração genuíno, nada a ver com a outra Leonor. Era fácil trabalhar com ela, percebiam-se em silêncio, só pelos dedos nas agulhas.
A Tânia ia lá muitas vezes. Bebiam chá no meio de panos e linhas, falavam das nossas coisas: saúde, filhos, o que importa. Um dia, a Tânia comentou:
Sabes porquê gosto de ti? Não tens raiva.
Às vezes tenho, admitiu Teresa.
Não tens. Tens é firmeza. A raiva consome, a firmeza passa.
Ela pensou e concordou.
A Mariana, aos dezassete, decidiu mesmo que queria seguir design. Não fez dramas, nem pediu licença um dia apareceu com uma pasta cheia de desenhos, pôs na mesa da mãe. Teresa ficou a ver, muitos minutos. Ali havia vida, ainda meio torta, mas com visão.
É mesmo o teu caminho, filha.
Não te importas?
Não. Sabes melhor que eu o que queres.
A Mariana sorriu, reservada mas quente.
Mãe. Mudaste muito.
Mudaste?
Antes perguntavas: E o que é que o pai vai dizer? E as pessoas? Agora não perguntas.
Teresa ficou a olhá-la.
Aprendi tarde demais, respondeu.
Não é tarde, disse Mariana, arrumando os desenhos. Tu agora estás bem.
Foi o melhor elogio que ouviu nos últimos anos. Bem melhor do que ser bonita ou forte. O simples estás bem de quem olha de frente.
Ao Vítor, cruzava-o pouco. Às vezes vinha buscar os miúdos ou deixava coisas esquecidas. Umas vezes vinha de ar digno, outras mais abatido. Pelo que ouvia, a Monolito mudou de direção e ele estava num cargo médio, tipo gestor de projetos uma queda, claro. Mas ela já não pensava nisso. Tinha o seu caminho.
O verão do terceiro ano após o divórcio foi bom. Longo, quente. O ateliê mudou-se para um espaço maior, contratou três costureiras. À noite, Teresa sentava-se na varanda do novo apartamento, chá na mão, a ver o pôr-do-sol. Nem sempre, porque o trabalho era muito. Mas quando parava assim, só um bocadinho, sentia uma paz suave. Não felicidade de romance. Paz. Tranquila. Um cansaço bom.
Nessa mesma altura, ele apareceu.
Viu-o pela fachada do ateliê, com a chávena de café e o lápis na mão. Vítor hesitou à porta. Notava-se mais velho, não só do tempo, mas verdadeiramente envelhecido, como ficam os homens quando se vai a autoconfiança. Ombros descaídos. Fato bom, mas um pouco passado de moda.
Ela foi ter com ele, sem o surpreender.
Vítor, disse. Entra.
Sentaram-se na salinha das reuniões do ateliê: mesa, duas cadeiras, um arranjo seco em cima. Teresa fez chá, pôs-lhe a chávena à frente.
Estás bem? perguntou ele.
Bem, respondeu. Muito trabalho, as coisas têm corrido.
Ouvi dizer. Olhou para ela. Parabéns.
Ela não respondeu. Só segurou na chávena como sempre.
Teresa Calou-se. Queria dizer-te andei a pensar.
Pensaste, confirmou ela, como quem repete.
Fui injusto. Em muita coisa. Agora vejo.
Vítor.
Espera. Olhou de frente. Foste uma excelente mulher. Deste tudo à casa, criaste os filhos. Eu não reparei. Ou achei que era natural, que era o teu papel. Parou. Enganei-me.
Ela olhou. Aquele homem, já não novo, um pouco pesaroso, em quem reconhecia o Vítor com quem casou, o que lhe chamou senhora, o que ficou fechado em si depois da Leonor. Todos eram o mesmo.
Ouço-te, disse.
Pensei que Parou. Não é que quisesse recomeçar. Mas talvez, sermos amigos. Ver-te. Estou sozinho, Teresa. Muito sozinho.
Silêncio.
Teresa pousou a chávena. Olhou para fora: céu cinzento, folhas caídas, bicicleta presa ao poste. Depois olhou para ele.
Vítor, disse. Não tenho raiva. Já passou. O que lamento são os anos. Não tu. Os anos. Que não foram melhores. É só isso.
Teresa
Deixa terminar. Pediu com doçura, mas firmeza. Não estás sozinho. Tens os filhos. Eles vêm ter contigo. Nunca deixaram de ser teus. Pausa. Mas eu não consigo ser aquilo que tu procuras. Seja conversa, rotina, o que for não consigo.
Porquê?
Pensou, sem usar palavras para magoar, mas para acertar no ponto.
Porque agora finalmente sou só eu. Disse-o sereno, só como constatação. E custou-me imenso chegar aqui. Não vou voltar para trás.
Ele ficou calado. Olhou a chávena, sem sequer beber. Depois assentiu, devagar.
Eu percebo.
Eu sei.
Os filhos
Com os filhos tu hás de ir aonde é preciso, disse ela. Agora é contigo, não comigo. Vai atrás deles. Fala verdade. O João sofreu com isto, mas está aberto, se fores sincero.
O Vítor levantou-se. Endireitou o casaco, aquele gesto clássico que ela conhecia de cor. Anos a fio a ver isso.
Esse vestido fica-te bem, disse de repente.
Ela baixou os olhos. Hoje era outro vestido, azul-escuro, gola simples costurou ela no inverno passado.
Obrigada, respondeu.
Ele saiu. Ela ouviu a porta automática do ateliê a fechar. Ficou em silêncio.
Teresa ainda ficou uns minutos sentada ali. O escritório em silêncio, um pouco frio. Arranjo seco na jarra. Chávenas frias. Rascunhos dela no canto da mesa.
Depois levantou-se, foi lavar a chávena, voltou, pegou no lápis e inclinou-se sobre o novo desenho.
A Sara espreitou à porta.
Dona Teresa, chegou a próxima cliente.
Está bem, disse Teresa. Pede-lhe para esperar um minutinho.
A Sara assentiu, fechou a porta devagar.







