Já lá vão muitos anos desde que o meu irmão me andava a importunar por causa da nossa mãe. Depois do AVC que teve, a mãe nunca mais foi a mesma. Estava alheada de tudo e agora precisava sempre de companhia. Na verdade, só precisava de cuidados constantes. Era como tomar conta de um bebé. Eu tinha o meu trabalho, uma casa, uma família. Como se larga tudo assim? Ainda falei em pô-la num lar, mas o meu irmão ficou ofendido e acusou-me de ser desumana. E, claro, ele também não a quis levar para casa dele. Diz que vive no apartamento da mulher.
Em tempos fomos uma família unida, como tantas outras. Aquele quarteto típico: os pais, dois filhos quase da mesma idade. O meu irmão e eu somos separados por apenas um ano. Os nossos pais tiveram-nos já tarde. Na altura desta história, eu tinha 36 anos e ele 35. A mãe já contava 72 anos. E até ao falecimento do pai, a vida corria normalmente.
Depois o meu irmão foi estudar para Lisboa e acabou por lá ficar, casou-se e fez vida. Eu fiquei pelo Porto, a nossa cidade. Ao início vivi em casa dos pais, mas quando casei, eu e o meu marido optámos por ir para uma casa alugada. Pensávamos comprar a nossa própria casa mais tarde e aumentar a família. Esses eram os sonhos.
Mas, há uns dois anos, o pai morreu e a mãe entrou numa tristeza profunda, cheia de saudades. Envelheceu de repente. A saúde piorou e, há meio ano atrás, sofreu o AVC. Por momentos, pensámos que não aguentava. Só os médicos do Hospital de Santo António a salvaram da morte. No início mal falava, nem os movimentos dos braços e pernas eram certos. Depois melhorou, mas a cabeça nunca mais ficou igual.
Os médicos avisaram que as sequelas eram irreversíveis. E lá fiquei eu com a responsabilidade. Eu e o meu marido mudámo-nos para o apartamento dela. Deixei o emprego, comecei a freelance para poder estar em casa. Era impossível deixá-la sozinha. Mesmo depois de recuperar os movimentos, não foi mais fácil.
Ficava a divagar, perdida, às vezes saía porta fora, outras chorava, dizia estar à espera do meu pai algures. A vida virou um rebuliço. Dormia mal, sempre com medo que ela desaparecesse. O trabalho ficou impossível, já nem conseguia concentrar-me. O meu marido sugeriu o lar de idosos.
Era caro, caríssimo, mas trabalhando a sério conseguíamos pagar. E o meu irmão também devia ajudar, isso é que era justo.
Custou-me admitir, mas não parecia haver alternativa. Quanto tempo mais aguentaria assim? No lar ela teria cuidados médicos permanentes, vigilância. Fui lá saber tudo. Preço alto, mas a paz não tem preço.
Quando contei tudo ao meu irmão, esperei que fosse razoável. Deveria perceber a situação. Em vez disso, fez um escândalo.
Ficaste maluca? Como é que pensas meter a nossa mãe num lar? Aquilo são só estranhos e sabes lá como tratam dela! Não tens coração! gritava ele ao telefone. Ou queres é livrar-te dela?
Tentei explicar, mas ele não quis ouvir. Continuou a martirizar-me. Mas comecei a sentir que eu já não aguentava. Voltei a insistir com ele, mas não mudou de ideias.
Eu nunca faria isso à minha mãe. Ela cuidou de nós, criou-nos. Vivemos todos juntos, nunca nos pôs num orfanato. Nunca se queixou de cansaço por nossa causa.
No fim das contas, parece que a dívida é só minha. Só eu tenho de estar ali para tudo. Disse-lhe: se não gostava da minha solução, podia vir ele buscar a mãe e mostrar toda a sua bondade.
Sabes bem que vivo com a minha mulher na casa dela. Como convenço a minha mulher a cuidar da sogra? respondeu, como se fosse impossível.
Então, o meu marido que tome conta da minha mãe, mas a tua mulher não pode? Só porque vivemos aqui? Pois, agora a responsabilidade cai sobre mim.
Propus então que ele viesse buscar a mãe, mudasse a vida dele. Hesitou: Estou sempre a trabalhar, não posso distrair-me. E ainda disse que era só eu a querer fugir das minhas obrigações.
Passei a viver num pesadelo. Por um lado, sei que o lar era o melhor para todos. Mas também tinha pavor de me sentir uma filha ingrata. O meu marido apoiava, insistia no lar. Diz que vão cuidar bem dela, que temos direito à nossa vida.
Depois pensei: dou mais uma semana. Se o meu irmão não aparece, faço o que tenho de fazer. Afinal, cada um sabe de si. Vou colocá-la no lar. Porque dar conselhos é fácil, aguentar é que custa. Que seja ele depois a explicar aos conhecidos o que quiser eu já estou cansada desses discursos.






