Da reforma ao aroma do café: Dona Dária, a pensão, os sonhos de juventude, o conto das saudades e um…

Da sua reforma, além dos pagamentos obrigatórios e das compras habituais no mercado municipal, Beatriz Almeida permitia-se um pequeno luxo: um saquinho de café em grão. Os grãos já vinham torrados e, ao cortar a pontinha do pacote, soltavam um aroma que parecia transportar a alma. Inspirar fundo só fazia sentido de olhos fechados, desligando-se de tudo à volta, exceto do cheiro, para assim acontecer o milagre. Misturado no perfume vinha-lhe uma onda de força, recordações de sonhos juvenis sobre terras longínquas, o som das ondas do Atlântico, a rebentação das marés nos Açores, o sussurrar das folhas no mato e o chilrear exótico de pássaros invisíveis.

Nunca vira nada daquilo de verdade, mas as histórias do pai, sempre ausente em expedições à Amazónia, enchiam-lhe o imaginário. Quando regressava a casa, gostava de contar à Beatrizinha as aventuras nas selvas brasileiras, saboreando um café forte, cujo aroma ficou desde então para sempre associado à memória dele um homem seco, moreno, enérgico, marcado pelo sol do mundo.

Sabia desde criança que fora adotada. Recordava-se, no início da guerra, de ter sido encontrada em Lisboa por uma mulher bondosa, depois de perder toda a família. Aquela senhora tornou-se sua mãe para sempre. Depois veio a escola, o trabalho, o casamento, o nascimento do filho e, no fim, a solidão. Há vinte anos que o filho, persuadido pela esposa, emigrou e agora vivia com a família no Porto. Veio visitar a mãe uma vez em todo esse tempo. Telefonavam-se, ele mandava-lhe todos os meses uns euros, mas ela pouco gastava, preferindo poupar tudo numa conta especial. Uma verba significativa foi assim crescendo, que um dia retornaria ao filho. Depois

Ultimamente, assaltava-a um pensamento repetido: vivera uma vida boa, cheia de afeto e dedicação mas alheia. Se não tivesse havido guerra, teria tido outros pais, outra infância, um destino diferente. Lembrava-se apenas de lampejos dos verdadeiros pais, mas pensava muitas vezes numa rapariguinha que estava sempre consigo nesses tempos recuados chamava-se Mariana. Até parecia escutar alguém a chamá-las: Mariquinha, Beatrizinha! Quem era ela? Amiga? Irmã?

O toque do telemóvel interrompeu-lhe as memórias. Olhou o écran a reforma já estava na conta! Um alívio. Já podia ir às compras e, quem sabe, trazer mais um pacote de café, pois o último já terminara de manhã. Com a bengala a marcar o ritmo, desviando-se das poças outonais, lá foi até ao supermercado.

Junto à porta, uma gata cinzenta e tigrada encolhia-se, receosa, espreitando os transeuntes e as portas automáticas. Beatriz sentiu compaixão A pobrezinha deve estar cheia de frio e de fome. Levava-te comigo, mas… Quem ficaria contigo quando eu me for? E esse dia não deve demorar… Ainda assim, comprou-lhe um saquinho económico de comida.

Com jeitinho, esvaziou a comida num recipiente de plástico, enquanto a gata aguardava sem pressas, olhando-a com gratidão. De repente, uma mulher corpulenta saiu do supermercado com ar desagradado. Tirou o tabuleiro de uma só passada, espalhando a comida: Já disse que não se deve alimentar estes bichos na porta! Não percebem? resmungou, virando costas e afastando-se.

A gata, nervosa, começou a comer apressadamente os bocadinhos dispersos. Beatriz, indignada, sentiu o início de uma dor de cabeça forte. Rumou à paragem de autocarro, onde havia bancos. Sentou-se aflita e procurou o medicamento nos bolsos, sem sucesso.

A dor não dava tréguas: a cabeça parecia esmagada, os olhos turvavam-se, um soluço escapava-se-lhe do peito. Sentiu uma mão leve no ombro e viu uma rapariga a olhar para ela, preocupada:

Sente-se mal, avó? Precisa de ajuda?

No saco… murmurou Beatriz, apontando há um pacote de café. Abre, por favor.

A jovem abriu-o, e Beatriz inalou profundamente o aroma dos grãos torrados. Não ficou boa, mas acalmou-se.

Obrigada, minha menina.

Chamo-me Filipa sorriu a rapariga mas a melhor parte do agradecimento é para a gata. Ela não se arredou de si e miava tanto que chamou a minha atenção.

Também a ti, minha querida murmurou Beatriz, acariciando a gata que se sentara ao seu lado no banco.

O que lhe aconteceu? perguntou Filipa, sentando-se.

Uma crise de enxaqueca Fiquei nervosa, acontece

Eu levo-a até casa, não devia ir sozinha

Enquanto bebiam um café fraco com leite e bolachas em casa de Beatriz, Filipa partilhava histórias: A minha bisavó, lá no Alentejo, também sofre destas crises. Eu chamo-lhe avó, mas é bisavó de verdade. Vive com a minha avó, os meus pais e eu estudo aqui no Porto, para auxiliar de enfermagem. E sabe? É engraçado como se parece com ela. Já pensou alguma vez procurar família, daqueles do passado?

Oh, querida Filipa, como seria possível? Tenho só um nome, nem me lembro do apelido, nem de onde era Só sei que havia bombardeamentos, tanques Fugi tanto, corri até perder a noção de mim mesma. Depois, aquela senhora acolheu-me e chamou-me filha para sempre, e o marido dela tornou-se o melhor pai do mundo. Da minha família de sangue, só ficou o nome. Quase de certeza, todos morreram E a Mariquinha também.

Ao ouvir isto, Filipa estremeceu e fitou-a com olhos claros e grandes:

D. Beatriz, tem uma pinta no ombro direito, redonda como a folha de uma oliveira?

A dona da casa engasgou-se no café, olhando surpreendida para a jovem, enquanto a gata também a fitava atentamente.

Como sabes isso, querida?

Porque a minha bisavó tem uma igual sussurrou Filipa. Ela chama-se Mariana. Nunca conseguiu falar da irmã gémea sem chorar. Perdeu-a durante a evacuação; quando a estrada ficou cortada pelos soldados, voltaram para casa e sobreviveram à ocupação. Mas a Beatrizinha desapareceu e nunca, nunca desistiram de procurar

Nessa manhã, Beatriz não parava quieta, entre a janela e a entrada. A gata tigrada, a quem chamava Margarida, não se afastava. Não te preocupes, Margarida, está tudo bem. Só o coração é que bate mais rápido.

Por fim, a campainha soou. Beatriz tremeu ao abrir a porta.

Estavam ali duas senhoras de idade. Olharam-se em silêncio, com esperança nos olhos. Pareciam duas faces do mesmo espelho o azul intacto dos olhos, caracóis prateados, as mesmas marcas do tempo.

Ao fim de instantes, uma das visitantes esboçou um sorriso, respirou fundo, avançou e abraçou-a:

Olá, Beatrizinha!

No corredor, familiares limpavam as lágrimas de emoção.

A vida, afinal, tem formas misteriosas de costurar de novo tudo aquilo que a guerra ou a sorte parecia ter rompido. E Beatriz percebeu, com um nó feliz no peito, que enquanto houver memória, nunca estamos realmente sós há sempre um reencontro à espera, numa esquina da existência.

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Filha, dá-me ao menos um quarto de pão, prometo que amanhã devolvo o dinheiro. Sinto-me tonta de tanto jejum…