Sim, os cães são mesmo muito fiéis! Mas são leais àqueles que os amam e não perdoam os que os traem
Lídia corria atrás do carro, sem querer ficar sozinha num lugar desconhecido. Não queria ser abandonada, nem esquecida.
Corria atrás daquele que amava, em quem confiava até ao fim. Não era capaz de trair. Porque não sabia como se faz isso
Madalena, conhece a Lídia! disse Miguel com um grande sorriso, apresentando orgulhoso a sua cadela à jovem de vinte anos que estava à porta e que, com saltos altos de dez centímetros, era ainda mais alta que ele.
Ela é meiga e muito obediente, por isso acho que vocês vão dar-se bem. Aliás, nem acho tenho a certeza!
Lídia rodopiava alegremente aos pés do dono, mas olhava Madalena com desconfiança.
É habitual os cães desconfiarem de estranhos. Mas havia mais qualquer coisa.
Lídia sentia claramente que aquela rapariga cheirava a algo desagradável e repulsivo. Não era só o perfume, tão enjoativo que parecia violar as regras contra armas químicas. É que os cães têm uma habilidade fantástica: sentir pessoas más!
No caso de Lídia, esse instinto era afinado ao extremo. Nunca falhava.
Quando encontrava pessoas assim na rua, Lídia puxava instintivamente o dono para longe, mesmo quando ele não percebia. Porque o amava e queria protegê-lo, cuidando da sua felicidade como podia.
Mas numa casa de dois quartos era impossível evitar a visita. E Miguel tratava Madalena com carinho e doçura.
Abraçava-a, beijava-a
Ao notar o olhar desconfiado de Lídia, Madalena pegou na mão de Miguel e levou-o à cozinha, fechou a porta e sussurrou:
Porque nunca disseste que tens um cão?
Nunca houve ocasião, sussurrou Miguel de volta. Tens algum problema com isso?
Tenho sim! Não gosto de cães, não quero partilhar a casa com essa como é que lhe chamaste?
Lídia
Lídia, pois. E vais pô-la onde? Na rua? Já estamos juntos há quatro, cinco anos, nem sei bem, mas há muito tempo!
Miguel Madalena olhou para ele com um brilho nos olhos, mostrando que estava decidido. Enquanto esse cão viver aqui, não vou morar contigo, e nem pensar em casamento.
Não suporto cães, percebes? Decide: eu ou ela.
A chuva caía forte, parecendo nunca parar. Os limpa pára-brisas lutavam contra as gotas, tão ferozes como o rosto fechado de Miguel, que conduzia pela noite lisboeta, mais sombrio que as nuvens.
Sentia-se como se alguém lhe tivesse despejado um balde de água suja na alma. Era como se algo nojento o tivesse obrigado a agir contra a vontade.
Mas Miguel amava Madalena. Ou pensava que sim agora isso já não importava. O importante era outra coisa: o pai de Madalena prometera resolver todos os problemas da sua pequena construtora, e ele era um homem influente, de palavra. Se disse que ia ajudar, era certo.
Era uma chance real de se reerguer, fazer crescer o negócio e, quem sabe, um dia ser alguém de sucesso. Recusar seria de uma estupidez tremenda.
Depois de sair das ruas de Lisboa, acelerou ainda mais quando a chuva aumentou. As gotas batiam nos vidros, capot e portas como se gritassem Pensa bem!, batendo forte no metal.
Lídia estava deitada no banco de trás, olhando as gotas que escorriam no vidro. O instinto dela não a tinha enganado com a chegada da estranha, o dono mudara. Tornara-se frio como a chuva de outono. Já não lhe falava, nem lhe fazia festas. Era como se tivesse deixado de lhe pertencer.
Miguel encostou o carro, acendeu um cigarro. O fumo espalhou-se pelo habitáculo. Vestiu o capuz e saiu. Lídia, inquieta, ficou à espera.
O resto foi como num guião: as portas de trás abriram-se de repente, o fumo saiu para a noite. Miguel agarrou-a pela coleira e forçou-a a sair. Lídia choramingou.
Ouviram-se dois estalidos: primeiro as portas de trás bateram, depois as da frente.
O carro arrancou, deu uma volta e partiu em direção à cidade, enquanto as gotas continuavam a cair forte.
Lídia ficou sozinha no meio da estrada, sem saber o que fazer. A chuva, implacável, encharcava-lhe o pelo, ensopando-a até à última ponta.
Então decidiu correr. Correu atrás do carro, sem se conformar com o abandono. Corria atrás de quem amava, de quem não conseguia trair.
Mas como é que conseguiria acompanhar um carro a cem à hora? Era só uma cadela, não uma chita…
O pelo, agora encharcado e pesado, dificultava cada passada.
Os farolins vermelhos tinham já desaparecido na noite, mas Lídia continuava a correr, sem conseguir parar.
Por vezes, quando não conseguimos parar, o destino intervém e obriga-nos a fazê-lo. Não por crueldade, mas porque não vale a pena correr atrás do passado.
Houve um guinchar de pneus e um embate surdo. O condutor saiu do carro e parou, chocado, agarrando a cabeça com as duas mãos.
No asfalto molhado, estava caída uma cadela. Ele aproximou-se com cuidado e olhou nos olhos dela.
Olhos que ainda confiavam, mas onde surgia, a cada segundo, uma tristeza profunda.
Graças a Deus, está viva! pensou António.
Com cuidado, abriu a porta, pôs a sua própria gabardina no banco, pegou nela e aconchegou-a sobre a proteção.
Era já tarde, só uma clínica veterinária em Lisboa estava aberta 24 horas. Foi para lá que a levou, olhando de vez em quando para Lídia, que mexia as patas como se ainda quisesse correr.
O veterinário aceitou receber a paciente sem cobrar consulta. António explicou, meio atrapalhado, o que tinha acontecido.
Para alguém com experiência, era óbvio que a tinham abandonado. Infelizmente, não era caso único na cidade.
Felizmente, não havia lesões graves, só umas contusões. O veterinário receitou pomada, recomendou gelo para o inchaço.
António levou a cadela para o apartamento, pôs a sua gabardina no chão e deitou-a por cima.
Isto é só temporário, disse-lhe, com culpa.
Ao décimo dia, Lídia começou a recuperar. Já andava, embora coxeasse um pouco, mas era o mais importante. A coxeadura acabaria por passar.
Atiraram-te para a rua? disse António, sentado junto a ela.
Nunca tinha tido cães, nem amigos com cães. Na verdade, nem amigos tinha já antes se tinha desiludido com todos eles.
Um levou-lhe a namorada, outro tramou-o nos negócios, ao ponto de o obrigar a declarar falência, e um terceiro ainda o meteu numa fraude, trazendo-lhe problemas sérios com a polícia.
Felizmente, conseguiu resolver e foi viver para outra cidade, rompendo com o passado.
Por isso, cada vez que precisava de ajuda canina, consultava o veterinário, que lhe deu um cartão e disse para ligar sempre que precisasse.
Seguindo os conselhos, António deu banho a Lídia, removendo toda a sujidade. Esperava ter de lutar, mas Lídia aceitou bem o banho, sem agressividade.
Depois pediu conselhos sobre alimentação e levou-a a mais duas consultas, para garantir que não havia traumas graves.
O que mais o preocupava era o estado de espírito da Lídia: comia pouco, passava os dias deitada, quase nem reparava nele.
É normal, explicou o veterinário.
Senhor Manuel recomendou passeios regulares para ajudar na recuperação.
Vá passeando, não exija nada. Com o tempo, ela vai habituar-se. Pode ser que até fiquem amigos.
Assim foi. As feridas, também as da alma, foram sarando e, mês e meio depois daquele encontro na estrada, António e Lídia tinham-se tornado, quem sabe, amigos.
Talvez ainda não fossem melhores amigos, mas Lídia confiava nele e até já comia melhor. Agora, porém, já não era Lídia: era Luzia.
Nova vida, novo nome. Ela habituou-se depressa, talvez porque se parecia com o antigo. Ou talvez porque já queria esquecê-lo.
Todos os dias, chovesse ou fizesse sol, passeavam juntos na cidade e sentiam-se bem.
Só quando chovia, os olhos de Luzia ficavam tristes, húmidos. Não da chuva, mas das memórias.
Sim, esquecer o passado custa. Os cães não são gente, mas sentem as emoções humanas. Quem pensa o contrário, nunca teve um cão.
Um dia, durante um passeio no parque, Luzia, entusiasmada, correu atrás de um gato enquanto António comprava café.
Estava frio em novembro, e o café quente dava algum conforto. Quando se virou Luzia já lá não estava.
Largou a chávena e saiu à procura, sem saber para que lado correr, apenas que era urgente.
Luzia, entretanto, ladrava a um gato lá do alto de uma árvore, chamando-o para descer e continuar a brincadeira.
Nisso parou ao lado deles um Jeep preto, de onde saiu Miguel.
Ia em direção ao supermercado quando reparou, subitamente parando no caminho.
Lídia!
A cadela não reagiu de imediato. Mas ao ouvir o nome de novo e reconhecer o tom, virou-se, fitando Miguel.
Lídia, anda cá! disse o ex-dono, ajoelhando-se e sorrindo.
Apeteceu-lhe correr para ele, mas alguma coisa a impediu. O que sentem os cães nesses momentos, ninguém sabe ao certo. Mas sentem.
Ele traiu-a! Abandonou-a Ou não? Talvez tivesse errado, talvez ele a tivesse procurado durante este tempo, até finalmente a encontrar
O rabo dela começou a mexer-se, de emoção ou tensão, ou ambas.
Percebendo a hesitação, Miguel saltou a sebe e aproximou-se, mão estendida.
Lídia! Lídinha! Que bom encontrar-te! Anda cá, vá lá!
Começou a acariciá-la, puxando-a para junto de si. Mas ela não mostrou alegria nem rodopiou, nem abanou o rabo como antes.
Algo a impedia de se alegrar. Algo a travava.
António chegou naquele momento e viu um homem a puxar Luzia pelo pescoço para o carro.
O que está a fazer? Essa cadela é minha!
Agarrou Miguel pelo ombro, obrigando-o a virar-se.
Ouviu, o que faz? Essa cadela é minha!
A sério?
Luzia, anda cá!
Ela tentou dar um passo em direção a António, mas Miguel segurava-a bem.
Que Luzia? É a Lídia! Criei-a desde cachorrinha, depois
Depois quê? perguntou António, começando a perceber.
Não é problema seu! É minha e vou levá-la!
Não vai, não senhor! A cadela fica comigo, não aceito discussão. E nem pense em fazer disparate.
Como assim?!
Os olhos de Miguel encheram-se de raiva, o rosto corou. Ergueu o braço, como para bater, mas a cadela, até ali calma, rosnou ferozmente e, libertando-se, virou-se para Miguel mostrando os dentes.
Miguel ficou paralisado.
Mais de surpresa do que de medo. Nunca Lídia lhe tinha rosnado nem olhado assim, pronta a defender-se.
Baixou a mão e deu dois passos para trás.
Luzia, não vale a pena. Anda! disse António, baixo.
A cadela aproximou-se, encostou-se nele e baixou a cabeça para ele a prender à trela.
Foram-se embora, caminhando pela alameda coberta de folhas, sem nunca olhar para trás. Miguel ficou a vê-los desaparecer, as mãos fechadas de raiva e impotência.
Com Madalena também não resultou, nunca chegou a casar, o sogro não ajudou com o negócio e acabou por vender a empresa para pagar dívidas. Nunca se perdoou pelo que fez naquela noite. Mas não podia voltar atrás.
Sim, os cães são muito leais! Mas só a quem os ama. Os traidores não têm perdão.
No fim, percebemos: quem não sabe ser leal e amoroso, acaba por perder quem mais importa. O amor, verdadeiro, nunca nasce da conveniência ou do egoísmo e a vida, tal como um cão, distingue sempre quem sabe cuidar e quem apenas pensa em si próprio.







