A minha mãe finalmente reformou-se. Já lá vão uns aninhos. Estou exausta, diz ela. A saúde já não é o que era. O trabalho era um stress, o ambiente era tóxico, já não tenho idade para aquelas vidas. Quero agora viver por mim, descansar, fazer o que me apetecer.
Olha, ninguém cá em casa se atreveu a contrariá-la a mãe tem uma presença daquelas que nem te passa pela cabeça bater o pé.
O que é que ela fez? Mudou-se para a casa na Ericeira e foi viver a melhor vida: encheu o jardim de flores e tomates, fuma cigarros na varanda, bebe o seu café às vezes com um cheirinho, outras vezes com um livro nas mãos. Arruma as coisas, descansa do trabalhão todo que levou na vida, lembra-se dele meio arrepiada e agradece aos céus que os netos já são crescidos e que não lhos despejam lá para passar o verão inteiro.
E depois tem sempre uma frase pronta para nos servir, qual conselho filosófico passado de geração em geração:
Só se reformem depois de os netos acabarem a faculdade. Isto é que é. Importante que cresçam, se aguentem sozinhos, para não vos virem calhar em cima quando estão a tentar aproveitar a vida de reformados. Para os bisnetos, já nem vale a pena, que vocês nessa altura são só para ver e rir deixem isso para os filhos ou para os netos.
Aquilo na casa dela, filho, ficou um sonho: tem ali a pastelaria de sempre, Wi-Fi a bombar, roseiral à janela, ar puro, vizinhança sossegada. Um descanso total. Mas passado um tempo, começou a bater-lhe um tédiozinho. E que é que a minha mãe resolve? Mandar betonar uma parte do pátio grande do terreno dela.
Era a zona de estacionamento que ela achava que estava muito pouca vergonha. E diz-me ela: não se pode esperar milagres da natureza, a natureza já nos deu a internet e pronto. Lá foi ao OLX, arranjou uma equipa meia-duvidosa que aceitou tudo por euros, claro.
Chegou então o grande dia: cá vêm os homens da empreitada cinco marmanjos, e o chefe deles, que a mãe só tratava por Zé Bigodes, mesmo ele sendo uma carcaça de quase dois metros. Mal começaram, tudo entusiasmado, mas rapidamente aquilo estava a descambar. Dois camiões de betão lá, motores a roncar, à espera que alguém mandasse avançar. E a minha mãe a mirar tudo.
É então que o tal Zé Bigodes começa logo a fazer de espertinho. Viu uma senhora de idade, sozinha, achou que era canja. Olhe que isto assim não se faz, está tudo torto, isto vai precisar de trabalho extra vai ter que pagar o dobro, se não, pegamos nas coisas e vamos embora para outra obra. Está tudo mal aqui.
A mãe ouviu-o, acenou com a cabeça, até com aquele ar simpático. Cinquenta euros, dizem vocês? E vinte e cinco não serve? Pronto, está bem, eu confio em vocês homens destes, credíveis, claro.
E nisto sai-se com esta:
Então, vamos fazer assim: querem apostar? Uma aposta à séria.
Apostar o quê? já de sorriso feito, o Zé.
Apostamos os tais cinquenta euros. Acha mesmo que consigo pôr a sua equipa a fazer isto bem feito não em um dia, como vocês dizem mas em três horas? Se fizerem, paga-me cinquenta. Se não, pago eu. Fechamos assim?
Se fosse eu, nem entrava no papel. Mas pronto, o Zé nunca foi de grandes escolas, e confiança e ganância tinha de sobra. Lá ficou fechado.
Ficou ele sentado nos degraus com um galão a assistir, todo convencido. Mas a minha mãe, a Dona Glória, calçou as galochas e transformou-se logo. Em cinco minutos tinha os homens postos em fila, cada um no seu posto, ninguém sabia bem como, mas de repente eram uma equipa a sério. Explicou direitinho a cada um, quem levava isto aqui, quem espalhava acolá, como é que era para compactar aquilo, nada de perder tempo, acelerar só no possível, nada de inventar.
Até os tipos dos camiões apanharam lição: como verter direito, como nivelar, tudo com regras nada de largar aquilo à balda. E a mãe ali a puxar por eles, sem um segundo desperdiçado.
Epá, foi mesmo de se ficar parvo a ver. Aquilo que eles queriam arrastar um dia inteiro, ela organizou de tal forma que resolveram tudo em duas horas e picos. Ficou perfeito. Liso, direitinho, nem um erro. Um luxo.
O Zé começou por sorrir a gozar, depois passou ao olhar sério, depois ficou branco que nem cal. Porque se lembrou da aposta, dos cinquenta euros, e da honra. Pronto, paga!
O homem ficou ali sem palavras, com ar de quem percebeu que às vezes as pessoas que parecem frágeis são é brutas de experiência, daquelas que já levaram muito na vida e que não é agora que alguém as vai enganar.
Espere diga-me só uma coisa Mas como?! Como é que isto é possível? Isto não acontece!
Acontece sim, diz ela, toda tranquila, a sacudir o pó das luvas. Quando vinham para cá, passaram naquela rotunda de três pisos, ali na Amadora
Passámos, sim resmungou ele, de olhos esbugalhados.
Pois. Fui eu que coordenei a obra.
Foi aí que, dizem, o Zé percebeu mesmo: às vezes o doce de avó é só uma pessoa que sobreviveu a ambientes onde só os duros aguentam. E que meter-se com ela é estar a brincar com o fogo.







