A Enteada

Quando conheci a Marina e nos apaixonámos, a Leonor tinha seis anos. Criada sem pai, ansiava tanto por carinho que nunca houve dificuldades na nossa adaptação mútua. Vivíamos em harmonia, até que chegou a adolescência!
Tu não és meu pai! gritou a Leonor, do nada.
Como assim, não sou? E quem, desculpem, ouviu horas a fio os teus relatos sobre colegas e te defendeu nas reuniões da escola? Quem escondia o último pastel de nata para te dar quando vinhas triste? Quem soube do teu segredo sobre a boneca que roubaste à birrenta da Rita, do prédio ao lado? E fui eu que, noite dentro, fui devolver a dita boneca aos arbustos do jardim, fazendo parecer que nunca tinhas tido nada a ver com isso! Além disso, se bem me lembro, há anos combinámos sermos responsáveis pelas palavras; se sempre me chamaste de pai, porque é que agora virei não-pai?

Confesso, as palavras da enteada, a quem sempre vi como filha, doeram fundo. Mas não podia mostrar essa dor. Primeiro, porque sou homem; depois, porque ressentimento só agravaria o problema.

Argumento aceite disse-lhe, numa falsa saudação militar. Então, vamos redefinir esta relação? Os direitos e deveres do “não-pai” e da “não-filha”, digamos assim.

Por dentro sangrava, mas sentia que era a abordagem certa. Ela precisava de espaço, dentro dos limites que ela própria determinasse. Mas a Leonor surpreendeu-me de novo: Não quero, murmurou, batendo-me a porta na cara. Nem em criança fazia destas! Sempre disse, com clareza, o que sentia. E, juntos, víamos o que se podia ou não fazer. Se saltar do telhado da arrecadação era impossível, eu explicava detalhadamente há até imagens na net! E aquela vez, na primária, quando decidiu que ia casar com o Afonso e ir viver para casa dele? Respondi que, assim que a lei permitisse, ajudava-a com a mudança. Mas, claro, ao fim de um mês esqueceu o Afonso.

Sempre tivemos conversas abertas e francas; agora, sem mais, um não quero e um não és meu pai. Dantes era capaz de justificar até porque não queria comer papas:

Não gosto!
Porquê?
Pouco açúcar e aquela película nojenta…

Pronto, argumento válido: ou a mãe fazia outra papa ou era melhor dar-lhe já o bolo.

Fiquei um bocado à porta, a admirar o desenho da madeira, à espera de respostas, mas nada. Só me restava esperar.

A Marina lidava com tudo com calma. Dizia que ela, em adolescente, era tão complicada que o pai adoraria tê-la despachado para qualquer lado. Garantia que, assim que as hormonas acalmassem, tudo voltava ao normal. Só que cada um demora o seu tempo a regressar do país do não-quero e não-pai. E eu começava a sentir falta da Leonor. Já nem tinha companhia para ver a bola ou rir das aventuras capilares da Piedade, amiga da Marina.

Passado algum tempo, a Leonor voltava, às vezes, ao antigo eu, mas mantinha-se agressiva no resto. Era impossível prever e só ela sabia porquê. Mas, nos momentos felizes, eu quase dançava de alegria.

Meninas, que tal irmos passar o fim de semana fora? sugeri. Vai estar bom tempo, levamos as canas e montamos a tenda!

Boa, Leonor, vamos? entusiasmou-se a Marina.

Nem morta! Levem vocês as canas, pescadores de meia-tijela! rebateu, porta fechada com estrondo. Um instante antes estava bem-disposta… e de repente, tempestade.

Deve estar farta de pesca também, encolhi os ombros.

Depois, um dia, a Leonor não apareceu em casa. Não atendia o telemóvel. Telefonámos às amigas todas e eu, sem conseguir ficar quieto, saí a procurar.

Primeiro passei pelo Hugo o amigo de sempre, mas que ultimamente andava afastado.

Não sei onde ela está, bufou o Hugo.

Tens mesmo a certeza? Nenhum palpite?

Desde que ela me chamou seca, quase não falamos.

Olha que ela agora diz que não sou pai… e mesmo assim não largo dela. Amizade é destas coisas.

Já me ia embora quando:

Espera aí, chamou o Hugo. Se calhar está com o Diogo.

Quem é esse?

Está na turma ao lado. Só que… pronto, ele não é santo nenhum. Talvez não vás gostar do que vais encontrar.

Tanto melhor! Mostra-me onde mora esse Diogo.

Nem pensar que vou contigo.

Hugo, às vezes temos de ajudar, mesmo quando acham que não precisam. Sempre pensei que eras dos corajosos, dos que não desistem só porque alguém lhes diz que são secos.

Epá, pronto, ok, acedeu, a contragosto.

Chegámos a uns garages, música ao alto. Disse-lhe:

Se tiveres medo, espera no carro.

Medo, eu?

À entrada estavam meia dúzia de miúdos e uma rapariga. A Leonor não era. Aproximámo-nos.

Procuro a Leonor, está convosco? perguntei, a tentar ser ouvido.

És da polícia por acaso? gozou um deles.

Nisto, a Leonor apareceu à porta.

Para que vieste cá?

Vim buscar-te.

Sei bem o caminho para casa!

Sei, mas já é tarde e prefiro buscar-te, do que receber uma chamada da PSP. Anda, o táxi está à porta, princesa.

Bufou e entrou no carro, não sem antes disparar ao Hugo:

Traidor!

A partir daí começou a desaparecer mais vezes. Fui busca-la àquele armazém vezes sem conta, ouvindo bocas sobre ser o seu chofer particular. Uma noite, recusou vir comigo.

Queres o quê? berrou. Deixa-me em paz! Já sou crescida, ando na rua o tempo que quiser!

Queixas-te ao Parlamento brinquei. Consulta a Constituição, direitos e deveres de menores…

Vai-te lixar! virou-me costas.

Olha, eu não saio daqui sem ti, nem que seja para o inferno para onde me mandaste.

Até gostava que nunca tivesses conhecido a minha mãe! disse, já a entrar no carro.

Foi como um soco no estômago. Fui todo o caminho com os olhos húmidos. Pensei até desistir de insistir. Quem era eu, afinal? Um estranho, o marido da mãe! Mas não conseguia deixá-la entregue às voltas do mundo. E se caísse sem ninguém para a levantar? Que me insulte, chame nomes, o que quiser. Não me afasto.

Em pouco tempo, ela e o grupo mudaram de quartel-general. Já não havia música nos garages, e deixei de saber onde encontrá-la. O Hugo, sob pressão, lá me disse mais uns sítios prováveis, mas sem sucesso.

Ela só voltava quando queria, muitas vezes a meio da noite. Via o desgosto da Marina, a tentar não entrar em pânico, apenas para manter a paz. Dormíamos sem dormir, atentos ao fechar da porta, fingindo estar tudo bem.

Uma noite, nessa espera, tocou o meu telemóvel. Atendi com mãos trémulas.

Diogo, és tu? ouvi a voz do Hugo. Recebi chamada da Leonor, está presa num apartamento na Avenida da Liberdade e não consegue sair.

Sabes o número?

Só deu indicações, mas acho que percebi onde é.

Vais comigo.

Disse à Marina para não se preocupar, que tratava de tudo e que preparasse uns crepes, pois se havia coisa pior que noites sem dormir, era fome em noite de aflição. Ela acenou em silêncio, lágrima ao canto do olho.

Com o Hugo ao lado, enfiei-me pelas ruas de Lisboa. Nas avenidas secundárias segui rápido, mas no centro, nem de noite havia calma turistas e táxis por todo o lado. Fiquei à beira de passar dois homens que bebiam na estrada, ainda mandaram um pontapé no carro e uma garrafa, felizmente sem pontaria.

Lá chegados, disse ao Hugo para aguardar. Imagina mais um adolescente a desorientar-se… não, obrigado. Antes de entrar no prédio, observei bem as janelas, tentei adivinhar onde estaria ela.

Quando entrei, uma senhora idosa meteu conversa, aliviada por ter companhia.

Há três apartamentos que só trazem sarilhos aqui, fique sabendo! dizia ela, com ar conspiratório. Drogas, álcool, vejo tudo da minha janela!

Mesmo que exagerasse, aquilo preocupava-me. Agradeci, tomei nota dos números.

Na primeira, um alcoólico e a cadela Frida, toda esperta, olhos vivos. A segunda, silêncio total. Bati, bati, nada. A terceira, cá em cima, assustou-me logo ao subir as escadas. Portei-me como um miúdo a começar uma briga, de nervosíssimo.

Saía pela porta uma rapariga, por instantes igual à minha filha, mas quando me fitou, um arrepio percorreu-me. Olhos de vidro, sorriso de máscara. Entrei num ápice. Tinha medo de encontrar a Leonor naquele estado.

Leonor! gritei, atravessando o corredor à pressa, desviando-me dos corpos e garrafas. Então ouvi:

Pai! Pai! a voz dela vinha da casa de banho fechada. Forcei a porta. Ela estava sozinha, escondida.

Agarrou-se a mim num pranto. Ao sair, já a polícia subia as escadas parece que a nossa vigia avisou logo o posto.

Foi raptada? perguntou um dos agentes.

Não, mas é minha responsabilidade, sou o padrasto.

Ele é o meu pai! gritou ela, com um abraço que pareceu selar tudo o que ficou por dizer.

Já em casa, comíamos crepes com natas, salgados pelas lágrimas resignadas da Marina, mas souberam-me a céu. Falei calmamente, por fim sem resposta torta da Leonor. Disse-lhe que podia expulsar-me da vida dela com vassouras, gritos, o que quisesse não a abandonaria nunca. Porque as amava, a ela e à mãe. E que a vida é complicada e aprender a vivê-la é como fazer malabarismo num circo. E que só quem cai aprende a levantar-se.

O silêncio foi apenas interrompido pelos nossos sorrisos cúmplices, as duas mulheres da minha vida, tão minhas.

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