A minha própria mãe está a tentar expulsar a minha família do seu apartamento. Como é que ela nos pode fazer isto?

Na outra noite, acordei num apartamento estranho, que era ao mesmo tempo meu e não era. Tinha azulejos antigos de Lisboa nas paredes, e o cheiro de sardinhas assadas misturava-se com o perfume da minha mãe. Ela estava ali, de cabelos grisalhos, e parecia um pouco maior que o habitual, quase flutuando sobre o chão.

Discutimos como sempre, sobre quando sairia de casa. Vivo ali há anos, oficialmente inscrita no endereço, e parecia impossível algum dia separar-me desse lugar. Nunca consegui contar as desculpas e argumentos repetidos durante todos estes anos. Por muito que tente preservar a boa relação com a família, há sempre este impasse.

Talvez aches estranhocom trinta anos, continuar a viver com a mãe. Concordo contigo, mas depois de casar com o Francisco, não havia outra alternativa. Os nossos filhos chegaram pouco depois, e entre birras e noites mal dormidas, nunca houve tempo para procurar uma casa nova.

Sonho sempre que não temos dinheiro suficiente para mudar. O meu salário é pequeno, Francisco trabalha de casa, nem sempre consegue encomendas, e há meses em que o dinheiro simplesmente evapora. Mal conseguimos pagar a prestação do carroum Peugeot velho, mas necessário. E a minha mãe não gosta da ideia, nunca gostou.

Por isso ainda vivemos juntos. Entre o supermercado do bairro, o pão fresco às sete da manhã, e a conta da eletricidade, parece mais simples dividir tudo. E os miúdos ficam com a avó quando preciso sair, o que é uma vantagem maravilhosa. Mas nos últimos dois anos, ela não se cala: insinua todos os dias que devíamos comprar a nossa própria casa e sair dali.

Gostava muito de poder, mas de onde viria esse dinheiro? No início, respondia calmamente, explicava que estávamos a juntar aos poucos, com moedas de euro guardadas numa frigideira. Mas agora, tudo se tornou insuportável, as discussões são constantes e felinas.

O Francisco nunca se metenão quer problemas com a sogra. Percebo-o, mas às vezes falta-me aquele abraço e aquele apoio. O melhor seria comprar um apartamento, mas não vai acontecer enquanto não acabarmos de pagar o carro.

Compreendo que a minha mãe queira sossego na velhice, chá de camomila e tardes de fado em silêncio. Mas não é motivo para nos expulsar. Já ouvi mil vezes que um dia vai deixar-me o apartamento, então qual é o sentido de andarmos a saltitar por aí?

De repente, no sonho, tivemos uma discussão colossal. Agora ninguém fala, apenas ecos. A minha tia, Maria do Carmo, morreu e deixou à minha mãe um apartamento minúsculo no Porto, com uma vista surreal para o Douro. Achei que era uma bençãofinalmente poderia mudar-se, encontrar a paz que tanto desejava. Mas não, ela recusou, disse que não sairia dali e também não nos daria o novo apartamento. Que nos desenrascássemos.

Normal será? Como continuar a falar, como encontrar pontes, quando tudo no sonho é tão nebuloso e os sentidos tão distorcidos?

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