«Bom dia, Sofia»: a manhã que mudou tudoQuando Sofia abriu a caixa deixada na porta, descobriu dentro um mapa antigo que revelava o caminho para o tesouro perdido da família.

De manhã, Tiago se aproxima de Lurdes, abraçaa e sussurra ao ouvido:

Bom dia, Lurda.

Ele ronca docemente, sem se retirar do sono. Lurdes desperta, abre os olhos e fica imóvel, temendo moverse. Um frio a percorre por dentro, como se o pânico a tivesse congelado.Como foi que isso aconteceu? Tudo estava bem, ou não?

Tiago boceja, espreguiçase e diz:

Lurdes, que gelo você tem! Até o meu sono sai da cabeça. Está tudo bem? Está quente lá fora, mas você se enrola no cobertor como se fosse inverno. Vou preparar um café.

Tiago, como se nada tivesse mudado, vai para a cozinha a cantar um fado animado. Lurdes permanece deitada um pouco mais, levantase lentamente, vai à casa de banho; os pés parecem chumbo, a cabeça está a zunir. Talvez realmente fosse hora de tomar aquele café.

Tiago pede um pastel de nata. Lurdes lançalhe um olhar sombrio.

Tu me chamaste de Lurda esta manhã.

O quê, querida?

Tiago, não fizesse o papel de tolo. Tu me chamaste de Lurda logo ao acordar.

Deve ter ouvido mal, Lurda. É só um engano matinal. Por isso está tão fria e melancólica? Ah, as mulheres inventamse os problemas. Vou ao trabalho de barriga vazia.

Lurdes vagueia pelos quartos, tenta recomporse, rega as orquídeas, faz alguns pastéis e, vestida a correr, dirigese ao consultório de Tiago. Talvez tenha realmente ouvido errado: Lurda, Lurda. De fato.

Na receção do consultório surge uma nova secretária. Lurdes sente um nó na garganta; as manhãs de medo retornam. A secretária, jovem e atraente, tem cabelos ruivos encaracolados e um sorriso largo.

O Dr. Tiago está ocupado e não recebe hoje. Posso marcar para a próxima semana.

Melhor marcar para ele mesmo, vai ser mais útil explode Lurdes, inesperada.

O que foi, senhora? a secretária arreganha os olhos, ainda maiores. Quem é a senhora?

Sou Lurdes Silva, esposa do Dr. Tiago. Saia da frente. Há bocas a serem alimentadas.

Nesse instante o falante interno do consultório anuncia com voz alegre de Tiago:

Lurdetinha, trazme um café, por favor. Lurdetinha?

Lurdes revira os olhos.

Faça o que quiser. Eu levo.

Tiago, ao ver a esposa com um tabuleiro, exclama:

Lurdetinha? Alguma coisa aconteceu?

Aqui está o teu café. Também trouxe um pastel. Receberás a notificação de divórcio por correio. Bom apetite.

Lurdes, que raio está a acontecer? o marido perde a paciência. Desde cedo pareço uma bruxa com a vassoura.

A tua bruxa está na receção. Por que não tem o cabelo preso? Que dentista respeitável ter uma secretária tão vulgar, parece barato, Tiago.

Lurdes, calate. Não suporto crises. Sabe o que vou fazer? Vou passar uma semana na casa de campo. Espero que te acalmes. Quando estiveres fria, ligame.

Já é tarde, Tiago. Não tolero traições. Digame, por que?

Tiago suspira, bebe o café e faz uma cara feia.

A Varvara saiu. Eu contratei a Lara por recomendação dela.

Há quanto tempo?

Há um mês, responde ele, desviando o olhar.

Por que não me contaste? Sempre partilhas as novidades.

Não esperava que a Lara ficasse tanto tempo. Ela está a fazer um trabalho excelente.

Não duvido.

No trabalho! Tiago fica rubro. Ela faz tudo bem!

E não só isso.

Foi por acidente! Não quis!

Se não quiseres, não mudas nada. Vou arrumar as minhas coisas e mudar de casa.

Para onde? Tiago fica nervoso. Já te disse que fico uma semana no campo. Não quero o divórcio!

Mas vai ser preciso. Não suporto ouvir o meu nome nas tuas palavras. Lurda, Lurda. A tua secretária ruiva vai ficar na minha cabeça. Não destruas a minha sanidade. O trabalho já é stress. Tenho crianças.

Para onde vais? Fica no apartamento.

Por que preciso do teu apartamento? Tenho a minha casa.

Numa zona remota? Casa de madeira?

É a minha casa. Ponto final.

A casa é a herança dos pais, cheia de saudade. Lurdes sente vontade de chorar, inundada de memórias e do cheiro de mofo. A amiga Filomena aparece, also irritada:

Não consegues viver aqui, Lurca. Volta ao apartamento, arranja um empréstimo, vende a casa. Assim…

Não quero olhar para isso, Filomena. Não consigo. E tu, conseguirias?

Não sei como reagiria no teu lugar.

Lurdes abre todas as janelas da casa. Ela comenta:

Aqui dá para viver, a meio caminho entre a vila e a cidade, a quinze minutos de carro. O vilarejo está a crescer, já tem água, eletricidade. Eu nunca estive aqui nos últimos cinco anos.

Mas dá muito trabalho! Preciso de um lugar agora. Podes ficar no quarto da Filomena até ao outono.

O quarto do adolescente está fora de questão, Filomena, és mãe e professora.

Calate corta Filomena.

Cheiras a relva, a campo, à infância.

Sim, a relva está alta, precisa de ser cortada. Lurdes, não vais conseguir.

Vou resolver. Posso chamar uma equipa para capinar o terreno. Tenho algum dinheiro guardado. Vivi nos últimos cinco anos aos custos da clínica do Tiago, que achava o meu salário diversão. Ele sempre dizia para poupar para o lazer.

Um bom marido suspira Filomena.

Eu também pensava assim, mas está pesado no coração.

Imagino.

Nem imaginas. Pensei até em arrancar os dentes da Lara, para que Tiago lhe ponha novos. Mas ela é jovem, saudável

Tu és velha e doente, não? rosna Filomena. Aos quarenta a vida começa.

Como explico isto à Filomena? Não quero que saia correndo. Se nos divorciarmos, ela vai ficar sem estudos, vai voltar a tentar convencerme

É compreensível. Vocês vinte anos juntos. Não dói?

Dói como uma picada de abelha. Sai fora diz Lurdes.

És cruel replica Filomena. Pensei que chorarias.

Não vão conseguir.

Esse é o stress a falar.

Talvez. Tudo bem. Queres apoiarme? Segura o balde, vamos encher a água. Lavo o chão, limpo as janelas, tiro o pó.

Melhor viver num hotel. Mas realmente vais ficar com esta casa?

Por que não? É a casa dos meus pais. Não a demolirei nem a venderei.

Contrata arquitetos, que façam tudo arrumar. É a nossa casa conjunta.

Não quero ficar lá.

Não vais dividir?

Acho que Tiago deixará a casa para a filha, Poliana. Ele tem a sua quinta. Lá será a decisão da Poliana. Na verdade, é a casa dela, não preciso.

Tiago tem uma quinta de luxo, com casa de banho e água. Por que não deixarnos?

Também não gosto de poços. Quero passear, ver a zona.

As colunas que antes estavam na mesma posição desapareceram; no lugar há uma casa nova e bonita, rodeada por um muro alto.

Não me surpreende observa Filomena. Passaramse tantos anos, os vossos terrenos agora ficam lado a lado, vão querer alargar.

De onde tiraste isso?

Dá uma volta à casa. O muro tem três lados, só um está em pé. Talvez ainda não tenham chegado a pôr o último.

Talvez ainda não tenham terminado o muro.

Olha, um carro chega. Os donos ainda não aparecem.

Só contos de fadas, Filomena.

Às vezes a vida supera os contos. Olha aquele homem, parece nada.

Filomena, calate. Estou a lidar com o divórcio e a traição. Não tenho tempo para rapazes.

Então porque estás aqui, parada como estátua?

Pergunto a este homem onde fica a coluna, preciso de água.

O homem, pouco simpático, levantase ao lado do carro, mãos nos bolsos, e fica calado. Filomena também se cala. O homem finalmente tosse.

Precisa de quê? pergunta.

Lenha para cortar responde Lurdes.

Ele balança o pé, quase a ponto de cair.

Posso ajudar. Não é a sua casa, senhora?

Sou eu. Antes havia uma coluna aqui. Preciso de água.

Lamento, não há mais colunas. Pode usar o meu poço.

Não há mais colunas.

Então vou ao meu poço.

Por que não fomos lá primeiro?

Não gosto de poços, ficou claro?

Tens água potável? sussurra Filomena.

Sim, já trouxe. Vai para casa, não te irrites.

De manhã, Lurdes acorda com o som de um porco a chiar, como na infância. Não há cheiro a pastel, ninguém bate à porta. As lágrimas voltam. Por que vim aqui?, pensa, é stress.

De repente, outro som: passos. Lurdes ouve alguém a moverse em cima da relva.

Ei, quem está aí? Chamo a polícia!

Não se assuste, sou o vizinho. Preciso do seu porco, o Guto.

Lurdes, ainda de pijama, sai ao alpendre.

Que Guto? Não me está a enganar!

Guto! grita o homem, adentrando a horta densa.

A relva mexe, um chiado, e aparece um porquinho preto.

Guto, não tenhas medo, vem, vamos para casa, miúdo.

O porco sai da relva, rodeia Lurdes, pequeno e escuro, nunca visto antes.

De raça? pergunta Lurdes.

Não sou especialista em porcos.

Por que quer o porco?

Não é meu. Entrou no meu terreno e ficou no galpão. Tenho percorrido a aldeia, ninguém procura porcos. Pegueilhe afeição, não o procuro mais. Guto é amigo. Talvez o quisessem abater, ele escapou, e eu o trago de volta.

Como chegou a este lugar?

Que? o homem ofendese. Aqui há natureza, ar puro, calma, a cidade perto. Você também não parece do campo.

Como sabe?

Primeiro, nunca a vi antes, segundo, tem a horta cheia de ervas. E ainda é bonita.

Olha, homem explodiu Lurdes , vamos simplificar. Tenho divórcio em uma semana, estou em stress, posso até ficar violenta. Cresci aqui, todos tinham porcos. Pare de olhar para as minhas mãos. Posso cortar uma árvore com um machado de pinho.

Guto, vamos embora, é perigoso aqui. Não fique tão nervosa, por favor. Ainda não consegui colocar o muro, mas Guto gosta da sua relva.

Não machuco animais nem crianças. Adeus.

Na manhã seguinte, o choro de um cão desperta Lurdes. O dia anterior não fez nada; vagueou pelos arredores, foi ao supermercado local, nem pediu alguém para capinar o terreno. O choro repete-se junto à janela. Lurdes sai ao alpendre e vê um cachorrinho.

O vizinho demora a abrir o portão; finalmente o tranca clica e aparece, de pijama, quase como Lurdes, com Guto a grunhir ao lado.

Esse é o seu cão? pergunta Lurdes, impaciente.

Como sabe?

Não tem cerca, os porcos entram, talvez os cães também.

Não quer ficar com um cão? Eu ia ao abrigo de cães esta semana.

Nunca tive cão. Já resolvi o caso do porco.

Então considerarei isto um presente do vizinho. Obrigado. Quer dar-lhe um nome?

Que tal Arco? Bonito.

Não, chamome Arsenio. Não é adequado dar ao cão o mesmo nome.

Então chamao Bico. Já tem Guto.

Bico e Guto? Perfeito! Obrigado! E o seu nome?

Lurdes.

Nome bonito.

Vou embora diz Lurdes, hesitante, permanecendo no lugar.

Não quer ir embora. Há o porco, o cão, e dentro dela a nostalgia. O vizinho tenta acalmara:

Vai, cuidaremos do cão. Vou ensinarlhe a tratar cães. Depois terá o seu cão a vigiar a casa.

Filomena insistia que não se casasse com alguém chamado Gorémico, mas Lurdes achou o sobrenome engraçado. Agora vive numa casa sem água, com a sanita no exterior. Coça a perna, pensa no banho.

O que é isto? Festa de pijama? ouve a voz de Tiago a chamar.

Apresentemse suspira Lurdes. Tiago, este é Arsenio. Arsenio, este é Tiago, meu marido, futuro exmarido. Por que está aqui? E por que ainda não mudou de ideia sobre o divórcio?

Por que está a procurar? A tua porta está aberta, a cerca está caída. Eu só queria saber se ainda vais cancelar o divórcio. Mas vejo que não. Também encenei umas cenas, não foi? Há quanto tempo isso acontece?

Há muito tempo responde Arsenio, sério. Lurdes não queria magoarte. Mas se tudo chegou a isto Que dia é o divórcio? Talvez nos casemos nesse dia, querida?

Lurdes engole em seco, tenta manter a neutralidade.

Entendi diz Tiago. A filha veio hoje, achou que a casa de campo estava vazia. Falou com o namorado. Tu fala com a filha, ela provavelmente está a ligar. E tu, aqui, a exibirte.

Tiago acena e sai pelos portões. Lurdes olhao inquisitivamente.

E então, o que faz?

A sua casa é velha, sem água, sem gás, sanita no exterior. Vai ter de vir a mim constantemente. E os animais das ruas vão acabar aqui. Então, vamos mudarnos para a minha casa. Não consigo livrarme de vocês. Eu e a minha esposa já nos separamos. Um fica entediado. Não preciso de mulheres casuais. Concorda? Não vamos ter filhos. Tenho dois filhos. Assim, viveremos ao prazer. Reconstruirei a sua casa. Deve ser triste para si. Podemos ficar no tu?

Senhor, está são? Não sei se é um psicopata. Afastese de mim. Estou a viver um divórcio, tração. Já aviseilhe.

Um ano depois casamse e adotam um gato.

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«Bom dia, Sofia»: a manhã que mudou tudoQuando Sofia abriu a caixa deixada na porta, descobriu dentro um mapa antigo que revelava o caminho para o tesouro perdido da família.
Dala som lekciu manželovi, svokre aj švagrinej: Keď Danil kričal, kde mám večeru, a jeho mama ma ohovárala kvôli špine na lištách, všetci si mysleli, že budem ticho trpieť. Ukázala som im, že slovenská žena sa nedá ponižovať ani vlastnou rodinou!