Magríssima gata não se afastou de uma loja fechada durante um dia inteiro. Quando abriram a porta – ficaram arrepiados.

**Diário de António — 3 de Novembro**

Hoje fechei a porta do armazém com um suspiro de alívio. Dois dias de folga pela frente. Sem filas, sem pesar mercadorias, sem carregar e descarregar.

— Ó Fátima, amanhã trabalha? — ouviu-se uma voz familiar atrás de mim.

Nem precisei de me virar. Já sabia quem era. O senhor António. Sempre na hora errada.

— Amanhã é domingo, — respondi sem me voltar. — Descanso.

— Ah… Está bem. Na segunda, então.

Virei-me finalmente. O velho estava ali com um saco de rede gasto, um casaco desbotado, e olhava para mim como quem esperava alguma coisa. Como se tivesse esperança.

«Outra vez a contar os cêntimos durante meia hora», pensei.

— Na segunda apareça, — disse eu, e fui para casa.

Ele era sempre assim. Chegava à hora de fechar, escolhia duas ou três coisas baratas, depois à caixa começava a remexer na carteira, a contar as moedas. Fazia fila atrás dele, e as pessoas suspiravam, mas ele parecia não notar. Devagar. Irritava-me.

Na manhã de domingo, ao passar pelo armazém, parei de repente.

À porta estava uma gata. Uma gata de rua, cinzenta, magra e com o pelo baço. Mas o estranho é que não estava sossegada. Corria da porta para a janela, arranhava a soleira, espreitava pelas frestas, miava. Um miado tão triste, tão desesperado.

— Sai daí! — fiz um gesto com a mão.

A gata nem se mexeu. Olhava para a porta.

«Abandonada», pensei, e continuei.

Na segunda-feira, cheguei ao armazém com um peso no coração. A gata não tinha ido embora. Estava enrolada à porta, exausta.

A chave girou. A porta abriu-se.

E ouvi. Um miadinho fraco, quase impercetível. Num canto, por trás das prateleiras.

Entrei, olhei melhor — e o coração caiu-me aos pés.

Um gatinho.

Pequenino, cego, desamparado. Deitado entre caixas de cartão, a choramingar, a mexer as patinhas.

A gata disparou para dentro atrás de mim, saltou para o gatinho, começou a lambê-lo, a ronronar.

— Meu Deus, — murmurei. — Então era por isso que tentavas entrar.

Fiquei ali, de pé, a olhar para a caixa de cartão. A gata aninhou-se ao lado do gatinho, a lambê-lo, a ronronar — pela primeira vez em vinte e quatro horas, sossegada.

E eu só pensava: «Não se pode ter animais no armazém. Onde é que os ponho?»

— Olha, tu tens cá uma sorte, — disse em voz alta. — Como é que entraste? Quando foi?

A gata apertou-se ainda mais contra o gatinho.

Lembrei-me: na sexta à noite, quando estava a fechar, havia clientes à entrada. Azáfama, pressa. Foi quando ela entrou, de certeza. Sem ninguém dar conta. E pariu durante a noite, com o armazém vazio.

E no domingo, andou lá fora a tentar voltar.

— Pronto, — suspirei. — Vamos ver o que se faz.

Dei água à gata num copo de plástico, parti um pedaço de chouriço do meu lanche. Ela bebeu à pressa, como quem tem medo que lhe tirem.

Depois abri o armazém para os clientes.

A primeira a entrar foi a vizinha, dona Graça. Viu a gata e o gatinho e exclamou:

— Ai, António! De onde é que vieram?

— Olhe… — acenei. — Entrou não sei como. Ó Graça, quer levá-los? A sua neta adora bichos.

A dona Graça fez uma careta:

— Já temos um gato em casa. Velho, rabugento. Mata-os todos. Não, não, desculpe.

A seguir veio o senhor Manuel, o canalizador. Também recusou:

— A mulher não deixa. Espirra com o pelo.

Depois apareceu uma mãe nova com o filho. O miúdo até esticou a mão para o gatinho, mas a mãe puxou-o:

— Não toques! Está sujo! Cheio de doenças. Vamos embora.

Fiquei atrás do balcão, a sentir o peito apertar. Cada recusa era uma punhalada.

«Ninguém os quer levar?»

Ao meio-dia já estava desesperado.

Por volta das três, a porta abriu-se e entrou o senhor António.

Como sempre — devagar, cauteloso. O saco de rede na mão. Cumprimentou baixinho, acenou.

Nem respondi — ele parou à entrada, agachou-se junto da caixa.

— Olá, — disse baixinho. — Quem são estes?

A gata levantou a cabeça, olhou-o desconfiada.

O senhor António estendeu a mão devagar, fez-lhe uma festa na cabeça. Ela fechou os olhos, começou a ronronar.

— Ó António, — virei-me para ele. — O que é que vai ser deles?

Suspiro:

— Não sei. Não posso tê-los aqui. E ninguém os quer.

— Percebo.

Ele calou-se, depois voltou a fazer festas à gata. O gatinho guinchou baixinho, remexeu-se.

— Então, — começou o senhor António, hesitante. — Posso levá-los eu?

Fiquei paralisado. Olhei para ele, sem acreditar.

— O quê? — repeti. — A sério?

— Sim. — Sorriu, envergonhado. — Estou sozinho, é aborrecido. Agora tenho companhia. Não sei cuidar deles, mas aprendo. Vejo na internet.

Senti um nó na garganta. Aquele velho paciente, que eu tantas vezes apressara, com quem me irritara.

Ele foi o único que não passou ao lado.

— Senhor António, — consegui dizer. — Muito obrigado. Mesmo.

Ele abanou as mãos:

— Não tem de quê. Até me dá jeito. A casa estava vazia. A mulher morreu há três anos. Não tenho filhos. Venho aqui todos os dias só para falar com alguém.

Fiquei envergonhado. Quis que a terra me engolisse.

Sempre me irritara que ele fosse devagar. Que atrasasse a fila.

E ele estava apenas solitário.

O senhor António pegou na caixa com cuidado. Segurou-a por baixo, para não balançar. A gata olhou-o desconfiada, mas não resistiu. Como se soubesse que aquele homem não lhe faria mal.

— Só não sei como levar isto para casa, — disse pensativo. — A caixa é grande, incómoda. E eles andam à deriva.

— Espere, — atirei-me para o armazém e voltei com uma caixa de cartão mais pequena e resistente. — Esta é melhor. Tem pegas.

Pus a gata e o gatinho lá dentro, forrei o fundo com um pano macio. As mãos tremiam. Não sabia se de nervosismo ou de vergonha, que me roía por dentro.

— Ó António, aconselhe-me lá, — sorriu ele, inseguro. — O que é preciso comprar para eles? Ração? Tigela?

Olhei para ele. Vi-o perdido. Tinha assumido a responsabilidade, mas não fazia ideia do que fazer. E mesmo assim levou-os. Porque não conseguiu ignorá-los.

— Espere aí, — disse com decisão.

Percorri as prateleiras, juntei o necessário: uma lata de paté para gatos, um pacote de ração seca, duas tigelas de plástico, um saco de areia.

— É para si, — estendi-lhe o saco.

— Não, não, eu pago.

— Não precisa. — fui categórico. — É oferta minha.

Ele quis protestar, mas eu olhei-o com tanta firmeza que ele apenas acenou:

— Muito obrigado. Mesmo.

O senhor António pegou na caixa e no saco, dirigiu-se à porta. À entrada, voltou-se:

— Ó António, acha que devo levá-los ao veterinário?

— Deve, — respondi. — Vá amanhã. Para ver se está tudo bem.

— Está bem. Vou.

Ele saiu. A porta fechou-se com um tinido suave.

Fiquei sozinho.

O armazém estava silencioso. Vazio. Apenas no chão, num canto, estava a caixa de cartão velha — aquela onde o gatinho estivera.

Aproximei-me, levantei-a, ia deitá-la fora. E de repente não consegui. Sentei-me no chão, apertei a caixa contra o peito e chorei.

As lágrimas escorriam-me pelo rosto, pingavam no cartão.

Lembrei-me de como me irritava com o senhor António. Como o apressava. Como suspirava quando ele entrava. Como pensava: «Lá vem o velho. Outra vez a contar os cêntimos.»

E ele afinal era assim.

Sem hesitar, levou a gata e o gatinho. Embora mal se aguente — vê-se pela roupa, pela maneira como conta as moedas.

Mas não passou ao lado.

«Meu Deus, — pensei. — Que parvoíce. Que dureza a minha.»

Limpei as lágrimas com a palma da mão, levantei-me. Deitei a caixa no lixo. Voltei para o balcão.

Os clientes começaram a entrar.

Um dia normal de trabalho.

Mas alguma coisa em mim mudou. Olhava para os clientes de outra maneira. Já não via uma fila para despachar. Via pessoas, cada uma com a sua história. E nunca se sabe o que vai na alma de alguém.

Amanhã, vou perguntar ao senhor António como estão os gatos. Se precisam de ajuda.

E nunca mais o vou apressar.

**Dois dias depois**

Estive à espera do senhor António. Olhava para a porta, escutava os passos no corredor. Mas ele não apareceu.

A preocupação crescia. «Se lhe aconteceu alguma coisa? Se está doente? Ou se os gatos estão mal?»

Ao terceiro dia, não aguentei.

Perguntei aos vizinhos a morada. O senhor António mora no prédio ao lado, terceiro andar.

Comprei um saco de maçãs e um pacote de bolachas — para não ir de mãos vazias — e depois do trabalho fui ter com ele.

A porta demorou a abrir. Depois ouvi passos arrastados, e o senhor António apareceu à entrada. Surpreendido, confuso.

— Ó António? É… a mim?

— Sim, — estendi o saco. — Vim fazer uma visita. Como está? Como estão os gatos?

O rosto dele iluminou-se com um sorriso. Tão caloroso, tão sincero, que me senti mais leve.

— Entre, entre! — Afastou-se. — Eles estão muito bem instalados!

O apartamento era pequeno, modesto. Móveis antigos, um tapete gasto. Mas limpo, acolhedor.

Na varanda, sobre uma manta dobrada, a gata dormia sossegada. Ao lado dela, o gatinho — já mais forte, com o pelo fofo.

— Aqui estão, — disse ele com orgulho. — Chamei-lhe Luna, à gata. E ao gatinho, Tico. Porque é muito quieto.

Aproximei-me, fiz uma festa à Luna. Ela abriu um olho, ronronou, e voltou a dormir.

— Que bonitos, — murmurei.

— Pois são. — O senhor António sorria de orelha a orelha. — Sabe, levei-os ao veterinário. Está tudo bem.

Ele falou e falou — como a Luna se escondeu debaixo do sofá na primeira noite, como levou o Tico com ela, como agora o recebe à porta quando ele chega.

Ao sair, parei à entrada:

— Senhor António, apareça no armazém. Vou estar à sua espera.

Ele acenou:

— Apareço.

E acrescentou baixinho:

— Muito obrigado, António. Por tudo.

— Obrigado eu, — respondi. — Você é uma boa pessoa.

**No dia seguinte**

O senhor António voltou ao armazém. Como sempre — devagar, com o saco de rede.

Mas desta vez recebi-o com um sorriso. Trouxe um banco do armazém, coloquei-o ao lado do balcão:

— Sente-se, senhor António. Não tenha pressa. Eu não tenho pressa nenhuma.

Ele agradeceu com um aceno. Sentou-se. Começou a escolher os mantimentos devagar.

E eu, pela primeira vez, não o apressei.

**A lição que levo comigo**

Aprendi que as pessoas não são o que parecem à superfície. Um velho que demora a contar moedas pode ter um coração maior do que toda a pressa do mundo. E que a gentileza, mesmo vinda de quem julgamos incómodo, é o que nos salva da solidão. Hoje, quando me sento à mesa e vejo a Luna e o Tico a brincar, lembro-me: nunca julgues um homem pelo tempo que demora. Julga-o pelo tempo que dá.

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Magríssima gata não se afastou de uma loja fechada durante um dia inteiro. Quando abriram a porta – ficaram arrepiados.
Perdi a carteira. Quem a devolveu foi um homem cujo rosto eu reconhecia das fotos de família — mas ninguém jamais explicou quem ele era