Dona Inês alimentava um pastor alemão abandonado na entrada do prédio há mais de um ano, apesar das queixas dos vizinhos. Mas naquela manhã, o cão mostrou os dentes e impediu-a de chegar ao elevador. Segundos depois, ouviu-se um estrondo horrível: a cabine despenhara-se.
— Rex, Rexinho, anda cá, rapaz!
Dona Inês agachou-se à entrada do prédio, tirando do saco uma lata de carne. O grande cão de rua aproximou-se com cautela, cheirou e só depois começou a comer.
O pastor alemão aparecera no bairro há mais de um ano. Magro, com dentes partidos, claramente marcado por muitas dificuldades. Dona Inês começara logo a alimentá-lo.
— Outra vez a dar de comer a esse monstro?
A vizinha Dona Antónia saía do prédio com cara azeda.
— Inês, perdeu o juízo? Ele é perigoso!
— O Rex é bom, só está assustado — respondeu a reformada com calma, afagando o pelo áspero do cão. — Está a ver como abana a cauda?
Dona Antónia bufou e foi-se embora a resmungar qualquer coisa sobre velhas irresponsáveis. Mas Dona Inês não se incomodou.
Sempre gostara de animais. Em nova, tivera gatos; depois arranjara um papagaio que vivera vinte anos. Quando o marido, o Miguel, morrera há sete anos, a casa ficara vazia. A filha, a Natália, vivia no Porto; os netos vinham nas férias.
A reforma era pequena. Antiga professora do ensino básico, recebia apenas cento e quarenta euros. Mas para a lata de carne do Rex chegava sempre.
— Tu és meu amigo, não és? — dizia ela ao cão, que se tornava cada vez mais confiante. — Nós os dois somos sozinhos.
Aos poucos, o Rex deixou de se assustar com as pessoas. Esperava sempre por Dona Inês à entrada do prédio. De manhã, quando ela saía para comprar pão, e à tarde, quando voltava do passeio no jardim. O cão não deixava aproximar bêbados, ladrava aos adolescentes barulhentos que às vezes fazia arruaça no bairro.
— Então arranjaste um guarda-costas — gracejou o agente Vítor, quando encontrou Dona Inês com o Rex. — Mas olha, se houver queixas sobre o cão, tenho de chamar o serviço de recolha.
— Não vai haver queixas, força, o Rex não faz mal a ninguém.
A propósito, esqueci-me de dizer. Os vizinhos continuavam a olhar de lado para a reformada e o seu animal. Especialmente a Dona Zita do terceiro andar, que tinha medo de todos os cães desde que, em criança, fora mordida por um pastor alemão.
— Isto é uma falta de higiene! — gritava ela na assembleia de condóminos. — Há um cão vadio à entrada do prédio e vocês calam-se! Amanhã morde alguém!
— O Rex está cá há um ano e nunca tocou em ninguém — defendeu Dona Inês. — Na verdade, ajuda. Os arruaceiros deixaram de vir, os carros não são riscados.
Mas Dona Zita apenas franziu os lábios com desprezo e continuou a insistir na chamada do serviço de recolha. A votação terminou empatada. Metade a favor, metade contra.
Naquela manhã, Dona Inês desceu à entrada do prédio com um saco de latas de carne. O Rex já esperava, mas comportava-se de forma estranha. Mexia as patas nervosamente, ganindo, olhando em volta.
— O que se passa, rapaz?
A reformada assustou-se, a abrir a lata.
O cão recusou comer. Em vez disso, correu para a porta da entrada e começou a ganir mais alto. Dona Inês abriu a porta, mas o Rex colocou-se à frente, bloqueando a passagem.
— Rexinho, o que tens? Deixa-me passar, tenho de ir aos correios levantar a reforma.
Tentou desviar-se do cão, mas ele rosnou. Pela primeira vez em mais de um ano, Dona Inês viu os dentes arreganhados.
— O que estás a fazer?
Recuou assustada.
O Rex não cedeu. Quando a reformada tentou passar outra vez, o cão agarrou-lhe a orla do casaco e puxou-a para trás. Dona Inês ficou sem saber o que fazer. O cão nunca mostrara agressividade.
— Estarás doente? — murmurou ela, tentando soltar o casaco.
Nesse momento, ouviu-se lá de dentro do prédio um rangido horrível de metal, e depois um estrondo ensurdecedor. O chão tremeu. Dona Inês sobressaltou-se e deixou cair o saco das latas.
Segundos depois, a vizinha Dona Antónia saiu a correr do prédio, apavorada.
— O elevador! O elevador caiu! — gritava, segurando a cabeça. — O cabo partiu-se! A cabine despenhou-se do nono andar!
Dona Inês sentiu as pernas fraquejarem. Ela ia precisamente subir de elevador ao sétimo andar para buscar a carteira que esquecera, antes de ir aos correios.
— Meu Deus.
Sussurrou, sentando-se no banco da entrada.
— Eu estaria lá dentro agora.
O Rex aproximou-se e pousou o focinho no colo dela. A reformada abraçou o cão e começou a chorar.
— Salvaste-me. Tu sabias.
Em breve chegaram a polícia e a equipa de emergência. Mais tarde descobriu-se que o cabo do elevador estava gasto. O proprietário da empresa de gestão predial poupava na manutenção. Os técnicos confirmaram que, se alguém estivesse na cabine, as consequências teriam sido trágicas.
A história espalhou-se rapidamente pelo prédio e pelo bairro. Os vizinhos que antes criticavam Dona Inês por alimentar um cão vadio agora traziam guloseimas para o Rex.
— Que cão! — admirava-se o Manel, o contínuo, estendendo um bom pedaço de chouriço ao cão. — Que faro!
Até a Dona Zita, a maior opositora do Rex, se aproximou de Dona Inês no dia seguinte, envergonhada.
— Sabe… Eu estava errada. Peço desculpa. E ao seu Rex também.
Dona Inês acenou em silêncio. Compreendia que a mulher assustada apenas tinha medo de cães, e não lhe guardava rancor.
Na assembleia de condóminos seguinte, decidiram por unanimidade construir uma casota para o Rex no pátio e contribuir para a sua alimentação. O agente Vítor prometeu que o serviço de recolha não mexeria naquele cão.
— Agora é o nosso guarda-costas oficial do bairro — gracejou ele.
A filha Natália, ao saber do sucedido, veio logo do Porto.
— Mãe, podias ter morrido! — repetia, abraçando Dona Inês. — Devias ter-me ouvido e vir viver comigo!
— Não vou para lado nenhum — respondeu a reformada calmamente. — Aqui é a minha casa, as minhas memórias. E agora o Rex também está aqui.
Natália suspirou, mas não discutiu. Sabia que a mãe não era pessoa que mudasse facilmente o seu estilo de vida.
Passaram-se semanas. Dona Inês continuava a dar de comer ao Rex todos os dias, mas agora ele tinha uma casota quente, tigelas e até um pequeno stock de ração comprada por todo o prédio.
O cão recebia a reformada como a pessoa mais importante do mundo. Abanava a cauda, oferecia a cabeça para a mão carinhosa.
Certa noite, sentada no banco a acariciar o Rex, Dona Inês disse baixinho:
— Sabes, Rexinho, as pessoas esquecem-se muitas vezes de uma coisa simples. A bondade regressa sempre. Não logo, nem sempre da forma que esperamos. Mas regressa de certeza.
O cão olhou-a com os olhos castanhos inteligentes, como se compreendesse cada palavra.
E Dona Inês sorriu. Pela primeira vez em muitos anos, sentia-se verdadeiramente útil. Não só para as pessoas, mas para aquele cão fiel que outrora não era de ninguém e agora se tornara herói de todo o bairro.
E embora a reforma continuasse pequena, a casa antiga e a solidão ainda pesassem ao fim da tarde, ali estava o Rex. Uma lembrança viva de que mesmo o mais pequeno gesto de bondade pode um dia salvar uma vida.







