Breve felicidade da avóA avó sorriu ao ver o neto a brincar no quintal, sabendo que aquele momento duraria apenas até o jantar.

**25 de Agosto de 2022**

Fiquei atrás da porta da cozinha, a ouvir a conversa dos meus pais. Falavam de mim – ou melhor, de mim e do Pedro.

A conversa sobre o casamento já durava há meses. Namorávamos há três anos, amávamo-nos. A questão não era se casar, mas onde viver depois. As nossas famílias são da classe média, sem grandes luxos, a viver em T2 normais.

Não queríamos ficar com os pais, e eles também achavam que devíamos começar a vida sozinhos. Ainda me falta um ano de faculdade; o Pedro já trabalha, mas se alugarmos casa, metade do ordenado vai para a renda. Os pais ajudariam, claro, mas eu pensava: para quê sacrificar toda a gente se podemos esperar um ano, até eu começar a trabalhar? O Pedro não queria esperar. Preferia alugar já, só para estarmos juntos.

A minha avó Maria tem um apartamento próprio. Tem oitenta e dois anos, mas não se pode chamar-lhe velha. Cuida-se, tem a cabeça no lugar, não precisa de ajuda. Claro que tem os seus achaques: as articulações doem, anda com uma bengala, o coração às vezes falha, vê mal.

Era sobre ela, sobre o apartamento da avó, que os meus pais falavam agora.

— Na minha opinião, a única solução é trazer a minha mãe para nossa casa e dar o apartamento dela à Inês e ao Pedro — insistia a minha mãe.

— Tu disseste que a tua mãe tem feitio difícil. Achas que se vão dar bem? E ela vai querer vir? — o meu pai mostrava dúvidas.

— A minha mãe adora a Inês. Vai aceitar — respondeu a minha mãe, segura.

— É contigo, então — disse o meu pai, pensativo.

— O que há a pensar? Com a idade e as doenças, connosco estará melhor. E se não nos dermos bem, metemo-la num lar. Olha, a minha conhecida pôs a mãe num e está radiante. Condições boas, quarto individual, refeições a horas, médicos ao lado, passeios num jardim lindíssimo — a minha mãe entusiasmava-se.

— Não sei… — o meu pai hesitou. — O que vão dizer de nós? Que nos livrámos da mãe? Talvez seja melhor esperar pelo casamento. Não me parece bem…

Eu não gostava nada daquela conversa. O som do banco a raspar no chão fez-me encolher, e escapei para o meu quarto em bicos dos pés. A ideia da minha mãe sobre o lar não me saía da cabeça. Amava a avó, visitava-a muitas vezes, ficava lá a dormir. E agora eu ia expulsá-la da casa dela? O meu pai tinha razão: não se fazia.

Senti-me uma traidora. Decidi falar outra vez com o Pedro.

— Concordo contigo. Para que complicar? A avó fica no apartamento dela, nós alugamos casa. Damos conta do recado. Mas não vamos adiar o casamento — disse o Pedro, abraçando-me e beijando-me. — Vou pedir ao meu pai um biscate na obra. No próximo ano começas a trabalhar. Não vejo problema.

A questão ficou em aberto.

No dia seguinte fui a casa da avó. Estava uma desarrumação: caixotes por todo o lado, roupas amontoadas no chão.

— Avó, estás a arrumar as tuas coisas? Procuras alguma coisa? — perguntei, surpreendida.

— Estou a desfazer-me do que não serve. Entra. Vieste mesmo a tempo, ajudas-me. Decidi ir para um lar de idosos. Já liguei, disseram-me os documentos que preciso…

— Foi a mãe que te convenceu? — perguntei, indignada.

— Não, fui eu. A tua mãe quer que vá para casa dela, mas não quero. Durmo mal, ando pela casa à noite, ressono. Por isso decidi. Não estou mais nova, e lá dão-me de comer, fazem-me as injeções, se precisar. É uma decisão minha.

— Avó, não. O Pedro vai alugar casa. Não precisas de ir para lado nenhum — insisti.

— Não é por vocês. Decidi sozinha. Estou a ver o que levo e o que deito. Tanta tralha, quase sufoco. Tira antes as caixas do sótão, vê o que lá está. Não consigo sozinha.

Puxei um banco, subi e tirei as caixas. A avó abriu uma e retirou uma caixinha de madeira.

— Olha, andava à procura disto há imenso tempo. É para ti. — Estendeu-mas. Lá dentro estavam as suas jóias modestas: anéis de ouro e prata, colares, broches. Eu folheava-as e experimentei logo uns brincos de prata.

— E isto de quem é? — puxei de dentro um anel de aliança muito fino.

— Meu — disse a avó, fixando o olhar nele.

— O teu está no teu dedo — reparei.

— Também é meu. — A avó tirou-mo da mão.

— Avó, ensinaste-me que mentir é feio. Tens segredos para mim? — fiquei ofendida.

— Não minto, mas há coisas de que é melhor não falar.

— Porquê? Este anel tem algum mistério, não tem? Conta-me — insisti.

— Não há nada para contar — a avó franziu os lábios. — E nas outras caixas?

Abri uma caixa de sapatos. Continha cartas amarelecidas, documentos, fotografias antigas.

— Avó, quem é este? — olhava para uma foto de má qualidade de um rapaz de farda.

A avó pegou na fotografia. Os dedos tremiam-lhe.

— Avó, estás bem? — perguntei, preocupada.

— É o teu avô — disse ela de repente.

— Como? Não se parece nada com o avô.

— É o teu avô verdadeiro — repetiu ela, firme. — Sempre soube que um dia isto ia ser revelado. Os segredos não duram para sempre. Conto-te, mas prometes que não contas a ninguém? Nem ao teu Pedro, muito menos à tua mãe.

— Intrigaste-me. Adoro mistérios. Prometo que não abro a boca. — Juntei os dedos em pinça e passei à frente da boca, como a fechar um fecho. Mas olhou-me repreensiva, e calei-me, séria.

— Nem uma alma — repetiu ela.

Depois de um breve silêncio, começou.

— Em nova era bonita, como tu.

— Ainda és gira — comentei logo.

— Não me interrompas. Pois, era. Vivíamos na aldeia. Éramos três filhos. A irmã mais velha já casada, na aldeia ao lado. Eu era a do meio, e tinha um irmão mais novo.

Tinha dezassete anos, ele onze. Depois da guerra, ficaram muitos estilhaços no chão. Quando os alemães partiram, minaram os campos e as estradas. O meu irmão andava com os rapazes à procura de balas, metralhadoras, troféus de guerra. Um dia pisou uma mina.

Chegaram os militares para desminar. Um deles, muito bonito, foi a nossa casa falar com a minha mãe. Quando o vi, apaixonei-me. Foram-se embora. Pensei que nunca mais o veria. Mas um mês depois voltou. Por mim. A minha mãe não me queria deixar ir com ele, mas convenci-a.

Levou-me para a cidade, para o quartel onde servia. Casámos de imediato. Vivíamos no quarto dele, num alojamento. A cama rangia horrivelmente. Fomos tão felizes… Nunca amei ninguém como amei aquele homem. — O olhar da avó ficou perdido, como se estivesse lá, no passado. Eu esperei, sem a apressar.

— Deram-lhe uma semana de licença, e fomos para o sul, para o Algarve. Ele tinha uma tia que vivia mesmo na praia. Eu podia passar horas a olhar para o mar infinito, a ouvir as ondas. Mas a nossa felicidade durou pouco.

Voltámos ao quartel, e dois dias depois ele partiu outra vez para desminar. Tinha um amigo, o Manuel. Foi o Manuel que me deu a notícia terrível: ele pisou uma mina. Nem houve o que enterrar.

Passei uma semana em febre. Quis voltar para a aldeia, mas descobri que estava grávida. Não podia ficar no quartel. Para onde ir? O Manuel propôs casar comigo. Gostava muito de mim. Disse que assim podia ficar no alojamento, que seria mais fácil, e a criança precisava de um pai. Eu resisti, amava o meu marido. Disse-lhe a verdade: que dificilmente o amaria. Ele não desistiu, disse que o casamento era só formal.

Casei com o Manuel. Para toda a gente éramos marido e mulher, mas ele dormia no quarto dele. Nasci a tua mãe. Ele registou-a como filha dele, amou-a, criou-a como sua. Depois começámos a viver como casal, mas nunca tivemos filhos. Fui-lhe fiel, mas nunca o amei. Acho que o meu primeiro marido não se importa. — A avó calou-se.

— Ainda me lembro do cheiro do mar. Nunca mais voltámos lá. O Manuel dizia que quando se reformasse, iríamos. Morreu um ano depois. — Suspirou.

A história marcou-me.

— Pedro, vamos levar a avó ao sul, à praia — disse ao meu noivo.

— Inês, o dinheiro mal dá. Estamos a poupar para o casamento. Que praia? E está tudo tão caro.

— Não vamos para uma cidade, só para a praia.

— A avó não aguenta a viagem. E o que vamos fazer com ela? Quero estar contigo, só nós os dois — resistiu o Pedro.

— Vou eu sozinha com ela, se não quiseres. Se ela for para o lar, nunca mais vê o mar.

Discutimos. Decidi comprar bilhetes de avião. De comboio era muito tempo, e caro. A avó nunca voara, mas não teve medo, disse que na idade dela já não vale a pena ter medo. Aguentou bem o voo.

Mal nos instalámos na pensão, a avó quis ir para a praia.

— Avó, não queres descansar primeiro da viagem? — preocupei-me.

— Não estou cansada. Só viemos por uma semana; descanso em casa.

A avó ficou na areia, de vestido de chita comprido e chapéu de palha, a olhar o mar. O olhar dela perdeu-se outra vez. Parecia mais direita, mais nova. Não a perturbei; afastei-me. O que ela via, ou se via alguma coisa, ou apenas recordava, não sei.

— Avó, vamos? — toquei-lhe no braço.

Ela voltou do passado e sorriu.

No dia seguinte, depois do pequeno-almoço, fomos outra vez. Eu apanhava sol, nadava; ela ficava à sombra do chapéu a ver o mar. Ao terceiro dia, acordei e não a encontrei no quarto. Perguntei à recepcionista.

— A senhora idosa foi para a praia — respondeu.

Encontrei-a na areia.

— Avó, porque não me esperaste? — perguntei, magoada.

— Sonhei com o António. Há tantos anos que não sonhava… Tenho a sensação de que ele está aqui também. Quis estar com ele sozinha. Obrigada por me trazeres — os olhos dela brilhavam de lágrimas.

— Olá — ouvi uma voz ao lado. Era o Pedro.

— Tu?

— Sou. Decidi vir. Desculpa, tive razão. Não consigo viver sem ti.

Voltámos para a pensão os três.

— A avó não precisa de ir para lar nenhum — disse o Pedro uma noite. — Espero mais um ano.

— Ela não vai mudar de ideias — respondi. Já tinha saudades dele naqueles dias. Também eu não queria adiar o casamento.

— Eu convenço-a — prometeu.

E convenceu. Mas a avó pôs uma condição: que vivêssemos com ela. O Pedro lá a convenceu a desistir.

— Somos novos, barulhentos, vamos incomodá-la. Mas prometemos visitá-la muitas vezes, todos os dias se puder, vai cansar-se de nós.

Casámos no fim de agosto. Visitávamos a avó com frequência. Até alugámos casa perto da dela. Cada vez que íamos, ela cozinhava alguma coisa especial e esperava ansiosa que o Pedro provasse. Ele não poupava elogios, e ela corava de prazer, como uma miúda.

Entre eles criou-se uma cumplicidade. Talvez por causa do nome, talvez por simpatia. Guardei o segredo da avó, não contei a ninguém, nem ao Pedro.

No ano seguinte planeámos ir todos ao Algarve, outra vez.

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Breve felicidade da avóA avó sorriu ao ver o neto a brincar no quintal, sabendo que aquele momento duraria apenas até o jantar.
Кристалинка, Ти Си Моя!