«As esposas vêm e vão», disse a minha sogra à mesa. E eu mostrei-lhe o que vai embora com a esposa.

A Dona Maria do Carmo entrava na minha casa como se aquilo fosse o Palácio da Ajuda e ela a Rainha Dona Maria I, chegada para uma inspeção surpresa a uma província perdida. As visitas dela eram sempre um ritual de grandeza: um aceno de cabeça à porta, um olhar enjoado para os chinelos e um suspiro pesado a mostrar como sofria por ter de descer ao nível dos mortais.

Naquela noite, celebrávamos os quarenta e seis anos do meu marido, o João. Eu, ingénua que sou e ainda a acreditar na diplomacia da panela, passei duas noites ao fogão depois dos turnos no serviço de cardiologia. Na mesa, forrada com uma toalha de linho estaladiça, brilhava um lombo de porco assado com mel, a batata dourada e as saladas enfeitadas com aquela mania de perfeição que denuncia uma dona de casa ligeiramente obcecada.

Para além da sogra, havia também a cunhada, a Margarida — uma mulher de cara sempre amuada e uma capacidade incrível de se queixar da falta de dinheiro enquanto devorava sandes de caviar como uma ceifeira. O João estava à cabeceira, a sorrir, naquela ilusão masculina feliz de que “toda a gente se junta, toda a gente come bem, logo toda a gente se adora”.

— Eu é que te digo, João, a saúde trata-se desde novo — discursava a Dona Maria do Carmo, a encher o prato pela terceira vez de salada russa. — Eu limpo as minhas veias só com bicarbonato e chá de pinhas. Há um académico na Internet que diz que a vossa medicina oficial é uma conspiração das farmácias para nos chupar o dinheiro.

Ela lançou-me um olhar carregado de sentido. Eu, que sou enfermeira-chefe, costumo ignorar estas coisas, mas naquele dia o cansaço falou mais alto.

— Dona Maria do Carmo — disse eu, calma, a encher o copo do meu marido. — A aterosclerose é uma alteração complicada do metabolismo das gorduras. As placas de colesterol crescem com tecido conjuntivo e calcificam dentro da própria parede do vaso. O bicarbonato tira a gordura pegada a uma frigideira de ferro, mas na corrente sanguínea não faz nada. Se não, nós tratávamos os enfartes na UCI com detergente da loiça.

A sogra congelou com o garfo no ar. A cara dela ficou da cor de uma beterraba passada.

— Muito sabichona, não é?! — guinchou ela, sentindo-se insultada. — Tu só limpas penicos aos doentes e ainda tens o descaramento de discutir com pessoas sábias! Compraste o diploma e agora dás-te ares, malcriada!

A Dona Maria do Carmo inflou-se e bufou como um caldeirão a ferver.

O João, como sempre, tentou alisar as arestas:

— Mãe, pá, deixa-te disso, a Beatriz só estava a brincar. Bebe um copo à saúde.

Esta tentativa de paz foi vista pela sogra como fraqueza. Ao sentir que o filho não pegava numa lança para a defender, mudou de tática e resolveu atacar onde achava que doía mais.

A conversa virou para um primo afastado que se tinha divorciado. A Margarida saboreava os pormenores da partilha dos bens, e a Dona Maria do Carmo ouvia de beiço torcido.

— Pois é, Joãozinho — disse de repente a sogra, bem alto, para que cada palavra ecoasse no silêncio da sala. — As mulheres de hoje são interesseiras e não prestam. Tu és um rapozinho bonito, bom rapaz. Mas lembra-te: as esposas vão e vêm. Hoje uma, amanhã outra. A mãe de um filho é só uma.

A Margarida concordou com a cabeça, a mastigar um pedaço de carne. O João engoliu em seco, olhou para mim e soltou a frase de sempre:

— Beatriz, tu conheces a mãe… ela não tem maldade. É uma figura de estilo.

Eu não respondi. Acho que discutir com gente cujo intelecto ficou preso nas manobras de um teatro de revista é inútil. Sorri devagar, levantei-me da cadeira e fui até à mesa.

Com cuidado, sem um movimento brusco, peguei no grande prato do lombo de porco. Depois na saladeira da Caesar.

— Beatriz, onde é que levas a carne? — espantou-se a cunhada, com o garfo a meio caminho.

— Onde é que hei-de levar? — respondi, doce e prática. — Para o frigorífico.

— Para quê? Ainda não acabámos de comer! — indignou-se a Dona Maria do Carmo, a sentir o ritual da ceia a desmoronar-se.

— Olhe, Dona Maria do Carmo — voltei à mesa, tirei o prato dos frios e a taça do caviar. — Eu sou uma mulher coerente. Já que foi dito que a esposa é uma coisa temporária e passageira, resolvi mostrar isso na prática. A esposa vai-se embora, vai-se a comida dela. Para que é que hão-de enfardar a comida de alguém que está aqui de passagem?

Levei os mantimentos para a cozinha. No quarto, caiu um silêncio denso, só cortado pelo tique-taque do relógio de parede. Quando voltei para buscar o cesto do pão, a sogra já tinha recuperado a fala.

— O que é que te passa pela cabeça?! — trovejou ela, a levantar-se da mesa e a assumir a pose de estátua ofendida. — Como te atreves? Tu entraste na nossa família! Tens de respeitar os mais velhos e agradecer por te termos aceitado!

Parei à frente dela. Ver aquela histeria até tinha graça.

— Dona Maria do Carmo, vamos esclarecer a geografia básica e a propriedade — a minha voz saiu tão firme como a de um locutor de telejornal. — Eu não entrei em lado nenhum. Está agora sentada na minha casa, que comprei antes de casar, três anos antes de sequer saber que o seu filho existia. Está a comer comida paga com o meu ordenado, porque o João este mês pagou o crédito do carro. Está sentada numa cadeira que eu própria montei. Portanto, a temporária aqui não sou eu.

A sogra abriu a boca para respirar. Olhou para o filho à procura de socorro, à espera que ele desse um murro na mesa e pusesse a nora no lugar.

O João estava de cabeça baixa. Olhava para a toalha vazia, para as migalhas do pão, para o jarro solitário de sumo. Nos olhos dele, um trabalho complicado de pensamento. A ilusão da “família unida” desfazia-se contra a realidade.

Ele levantou a cabeça devagar. O olhar estava duro.

— Mãe. Margarida. Levantem-se.

— Joãozinho? — piscou os olhos a sogra, sem perceber. — Ouviste o que ela disse? Vais deixar que ela expulse a tua mãe?

— Mãe, passaste o limite — o João levantou-se e afastou a cadeira. — A minha mulher não vai a lado nenhum. E esta casa é dela, e esta casa aguenta-se por causa dela. Vocês é que vão para vossa casa. A festa acabou.

— Ah, sim?! Trocas a mãe por uma saia! — gritou a Dona Maria do Carmo, a caminho do hall. A Margarida atrás, a murmurar maldições contra “cobras calculistas”.

O João, calado, entregou-lhes os casacos. Não se desculpou, não pediu perdão. Abriu a porta e esperou que saíssem para o patamar. A fechadura clicou.

Ele voltou à sala, olhou para mim, ainda com o cesto do pão na mão, e suspirou fundo.

— Tira a carne do frigorífico — disse baixinho, a abraçar-me os ombros. — Acho que acabei de ver a luz. E sabes… estou cheio de fome.

Ficámos os dois na cozinha. O lombo ainda estava morno, e o chá bem forte. Nunca mais falámos de esposas que vão e vêm. Só que, desde aquela noite, a Dona Maria do Carmo nunca mais apareceu no meu palácio, e o estatuto de esposa, na nossa casa, ganhou uma solidez de betão armado.

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«As esposas vêm e vão», disse a minha sogra à mesa. E eu mostrei-lhe o que vai embora com a esposa.
Пътят към нов живот след тежки изпитания и предизвикателства