«Este ano não temos dinheiro para ir à praia», disse o meu marido antes de partir em mais uma viagem de trabalho. No dia seguinte, vi uma fotografia dele na areia abraçado à minha irmã.
Sou Inês. E cada linha deste diário é uma ferida aberta.
Sempre gostei de planear. Controlo os orçamentos, faço contas de cabeça, sei o preço dos tomates no Pingo Doce de cada bairro de Lisboa. Mas há contas que não há matemática que aguente.
Naquela noite, o Rui entrou na cozinha minúscula da nossa casa em Benfica. Falava alto sempre foi dramático e emotivo, de gestos largos. Abria e fechava armários, batia a louça sem cuidado, serviu água num copo só para despejar no lava-loiça logo a seguir. Evitava olhar-me nos olhos, como eu fosse a inspectora das finanças.
Inês, sê realista. Somos dois adultos, ambos sabemos ler números. A prestação do carro são oitocentos euros, a casa mil, a renda do apartamento da tua mãe em Almada mais quatrocentos. E ainda queres pôr telhas novas na aldeia? Com que dinheiro? Praias? Algarve? Esquece.
Eu, calada, olhava o portátil aberto na mesa. A página da EasyJet mostrava uma praia de águas límpidas e areia dourada. Era mais do que um wallpaper; era a promessa, o escape, o único sonho que me fazia aguentar os dias cinzentos.
Mas Rui poupei para isto. Não toquei nos prémios do Natal, levei marmitas para o escritório, fiz IRS para meio bairro à noite enquanto tu ressonavas. Tenho aqui seis mil euros num fundo à parte. Dá para irmos os dois uns dias. A carrinha pode esperar. A aldeia da tua mãe não se desmorona por uma semana e eu já marquei férias na contabilidade desde abril. Precisamos disto, Rui. Há cinco anos que não tiramos férias a sério. Temos estado a definhar, a transformar-nos em colegas de casa com contas partilhadas. Estou à beira do colapso. Não te devia ser indiferente.
O Rui bufou, quase gritou:
Não é só dinheiro! O chefe está em cima de mim, temos prazos, o gerente não ia gostar que o engenheiro principal se baldasse para ir para a praia. E se me despede? Lá se vão as tuas férias, e o teu fundo e ficamos a pão e água!
Mas disseste há dias que a obra já estava pronta
Mudei de ideias! Riscou, vermelho. O cliente pediu alterações. Já te disse, não vamos a lado nenhum este ano. Nas miniférias vamos a Évora, dar um jeito ao quintal da minha mãe, comer umas febras grelhadas, apanhar ar. É também praia, não?
Não é, Rui. Ali trabalho o dobro. Sumo plantas, faço refeições para a família toda, sou criada de campo. Não descanso. Quero só estar quieta, sentir o mar sem obrigações!
Egoísta! Só pensas em ti! Agora tenho uma viagem a tratar, aliás. Porto, duas semanas, reuniões todos os dias. Dá-me parte dos teus fundos. Preciso para as despesas. Vais receber tudo depois, prometo.
Mas a empresa paga essas coisas, não?
Compenso no final. Agora tenho de adiantar, hotel é caro, jantares com parceiros Não vou comer pregos no pão, pois não?
Quanto?
Quatro mil euros.
Rui, isso é quase tudo o que poupei para as férias
Depois devolvo, mas és minha mulher, certo? Não confias?
E baixei a cabeça. Como não confiar? Casados há dez anos. Ele era a muralha da família. Um bocado bruto, pão-duro, mas sempre esteve lá.
Transferi o dinheiro para a conta dele. E ele foi-se, deixando perfume caro no corredor aquele que lhe ofereci com metade do meu subsídio de Natal.
Não chores, Inês, diz ele, rindo-se. Porto é mesmo frio, e a internet é má por lá. Vou ligar quando der.
Ajudei-o com o cachecol, como sempre. Deparei-me com uns calções de banho no saco de viagem.
Rui, e isto?
O hotel tem piscina interior, ora. E sauna. Temos de nos reanimar ao fim do dia.
Fiz que sim, como quem aceita por aceitação.
Quando a porta se fechou, o silêncio pesou tanto Lisboa pareceu-me cinzenta como nunca. Ia e vinha do escritório como autómato. Via séries para me distrair, falava o mínimo possível. Senti-me esvaziada.
Decidi ligar à minha irmã, Beatriz.
A Beatriz não é como eu. Morena, elétrica, sempre a mudar, influenciadora na net, viaja sem rumo nem plano, espontânea até para escolher um carro novo. Não somos chegadas eu sou planificada, ela vive de instante em instante. Mas tenho carinho por ela. Dei-lhe abrigo, estive lá nos piores dias.
Liguei. Voicemail, desligado ou fora da rede.
Fui ao Instagram. Última story: há uma semana. Uma mala cor-de-rosa. «Viagem de sonho à porta! Palpite: leva biquíni! #Viagem #Segredo».
Deve ter ido para… sei lá, Ibiza ou assim.
Passou uma semana.
Rui ligava pouco. Voz leve, demasiado descontraída. Falava sempre depressa, em ligações curtas pouca rede, tenho reunião, estou exausto.
Ao fundo, sons estranhos. Nada de restaurantes de hotel, nada do Porto ou Gaia. Sons que eu conheço de cor: mar a rebentar, música distante kizomba?
Rui, ouve-se música, onde estás?
Rádio do táxi, Inês. Aqui no Porto só dá isto.
E o barulho?
Vento. Aqui é tramado. Menina, tenho de desligar. Beijinhos.
Foi numa noite, sem dormir, que algo me arranhou o peito.
Sozinha na cozinha, chá frio, rebuscava fotos no Facebook pelo telemóvel.
Até que
Notificação: «Beatriz Amaral identificou-lhe numa fotografia.»
Estanquei.
Foto a abrir: céu azul a perder de vista. Depois, o Atlântico, verde-turquesa. Depois, areia branca de cortar o olhar. E eles, em primeiro plano, numa espreguiçadeira dupla: a minha irmã no seu biquíni vermelho, óculos de sol gigantes, cocktail à mão e bronze dourado.
Ao lado, de braço em volta, sorridente, com os calções tropicais que comprei há dois verões nos saldos da Decathlon, o Rui.
O meu marido.
Aquele que estava a trabalhar no Porto.
Beatriz legendou: «A felicidade adora o silêncio… mas tenho de partilhar: O meu amor é um herói! Obrigada por este paraíso! #Algarve #Amor #MinhaPessoa #Férias #IrmãDesculpaMasNãoDesculpa».
E marcou-me. No rosto do Rui.
Foi um murro no estômago. Propositado, cruel. Ela quis mostrar ao mundo e a mim que ganhou. Que é nova, gira, desejada, e sou eu, patética e certinha, quem paga a festa.
Senti náuseas, tremores. Chorei, sozinha, até não haver mais lágrimas.
Tinha-lhes financiado o paraíso. As minhas poupanças, três anos a juntar tostões. Para que eles fossem para o Algarve, juntos, enquanto eu sonhava com os meus luxos em Mirandela.
A cabeça girava. A voz do Rui a dizer «estás a ser egoísta», «só pensas em férias» misturava-se agora com gargalhadas. Ele olhava-nos nos olhos e já estava a pôr protetor solar nas costas da minha irmã.
Fui à casa de banho, lavei a cara com água gelada, mirei-me ao espelho: olhos inchados, cabelos despenteados, tudo em mim cansado. Eu, mulher respeitável de contas e sacrifícios.
Eles, na praia jovens, livres, felizes.
Eu paguei tudo, como sempre.
Fui ao computador, abri a banca online. Vi os débitos: pagamento da agência de viagens, transferências para o hotel. Vi o contrato do carro de família em meu nome. Quinze mil euros de dívida. Os documentos do apartamento. Vi que tudo estava nas minhas costas.
Não dormi.
De manhã, pensei: acabou.
Vesti-me fato de calça, saltos altos, baton escarlate. Apanhei todos os papéis: livrete, contrato do carro, procuração (há um ano o Rui passou-me uma, para poder vender o carro se fosse preciso, dizia ele).
Fui ao stand de automóveis onde trabalha o João, colega de faculdade.
João, preciso vender o Renault hoje.
Agora? Tens poderes?
Plenos.
Faço o depósito à cabeça mas ofereço menos vinte por cento. O stand não é santo.
Assino já.
Em duas horas, saí de lá com doze mil euros em numerário.
Primeiro acto: paguei de imediato todo o empréstimo vincendo do carro.
O resto nove mil euros deposito na conta antiga que só eu movo.
Cheguei a casa, liguei ao senhorio: «venham buscar os pertences do Rui, vai viver para o Barreiro com a mãe». Arrumei tudo o que era dele em caixas roupa, gadgets, revistas de pesca, chávenas favoritas.
Chamei um serviço de mudanças, dei a morada da mãe dele.
Troquei fechaduras.
Fui ao e-mail, entrei na conta que ele nunca mudou (o password era o nosso aniversário ironia).
Fingi que era supervisora de contabilidade da empresa dele, liguei para o hotel em Lagos, onde estavam hospedados.
Boa tarde. Aqui fala Inês Oliveira. Informo que o Sr. Rui Nunes encontra-se em reserva paga com cartão indevidamente usado; informo que o banco bloqueará o valor nas próximas horas. Recomendo contacto imediato com ele.
Pude ver, passado pouco, tentativas de débito recusadas na aplicação online recebi todas as notificações.
Passado uma hora, chamada do Rui. Não atendi.
Outra, da Beatriz. Ignorei.
Mensagens chegaram: «O que fizeste?! Estamos sem dinheiro, desalojaram-nos!», «Atende, queima!», «Beatriz chora!», «Precisamos de dinheiro até para apanhar o comboio de volta!».
Abri só uma vez enviei a foto da espreguiçadeira.
Legendei: «A felicidade gosta do silêncio. Desfrutem da paz. Façam boa viagem até ao Porto a pé o carro foi vendido para pagar as “despesas de família”. O resto é vosso para resolverem. Fim.»
O Rui regressou pálido e queimado dias depois. Bateu à porta. Não abri.
Isto é uma vergonha, Inês! Traíste-me!
Não, Rui. Apenas ajustei contas. Agora vais ter uma vida nova mas sem o meu nome a pagar a festa.
Divórcio seguiu, penoso. O juiz validou a procuração de venda do carro, a dívida paga, o dinheiro restante na minha posse.
Da Beatriz, nem palavra. Passou a posar em selfies com outro, muito mais velho, em Palma de Maiorca.
Dos meus pais ouvi só súplicas: «Inês, ela é tua irmã, abafa o caso!», «Elas hão-de dar-se». Não. Não tenho irmã. Só alguém que deixou de existir para mim. E, em parte, eu própria renasci.
Peguei nos seis mil as verdadeiras economias.
Vai daí Um mês depois estou em Lagos, no mesmo hotel. Fico no quarto ao lado do que foi deles. Com piscina privativa.
Sozinha.
Estou aqui sentada, a beber uma caipirinha. Vejo o mar azul, respiro fundo. Estou viva. Livre. Com nove mil euros de lado. Ninguém me volta a dizer se mereço ou não descanso.
Mereço tudo.
E amanhã, quem sabe, talvez o dinheiro baste para começar tudo de novo mas só comigo mesma.






