Meu marido trocou-me por uma mais nova e mandou a mãe dele vigiar-me para eu não levar nada do apartamento dele. Mas deixei-o sem nada.

Querido diário,

Afonso estava parado no meio da sala, todo banhado por aquela luz suave que ele julgava tornar tudo mais cinematográfico, e olhava para mim com um ar de quem tinha acabado de ganhar o Euromilhões. Aos cinquenta anos, sentia-se no pico da forma, e as mudanças que andava a planear para a vida pessoal só lhe aumentavam a pose de vencedor.

— Vamos lá evitar dramas, Leonor — disse ele, com aquela voz aveludada e ligeiramente paternalista, enquanto abotoava o casaco. — Somos adultos. Conheci outra mulher. Talvez já tivesses desconfiado, não sei. Tem trinta anos, e o que há entre nós é verdadeiro. Não quero levar uma vida dupla, por isso sou directo: vamos divorciar-nos e, a partir de hoje, deixamos de viver juntos.

Eu, aos quarenta e cinco, estava sentada na poltrona de couro. Bem vestida, tranquila, não me pus a torcer as mãos, não fui à procura de valeriana, não fiz cenas. Bebi um gole de café da chávena de porcelana e esperei que ele continuasse. A minha calma parecia incomodá-lo, mas ele depressa recuperou a compostura.

— O apartamento, como sabes, é meu. Foi comprado antes do casamento — frisou, como quem martela um prego. — Não sou um animal para te pôr na rua a meio da noite. Dou-te dois dias para fazeres as malas. O fim-de-semana é todo teu. Eu vou para o campo com a Inês, para não atrapalhares. Na segunda de manhã entro aqui com ela. Ela não precisa de ver as tuas lágrimas nem os teus ataques de nervos. Também não quero energias que não são dela dentro de casa. Acho que consegues libertar o terreno, não consegues?

— Até segunda? — perguntei, com voz serena. — Perfeitamente. Dois dias chegam-me.

Afonso assentiu, satisfeito. Gostou de ver o divórcio a correr de forma civilizada. Sempre se achou um homem magnânimo.

A magnanimidade do Afonso, porém, acabava exactamente onde começava a carteira dele. Durante os quinze anos de casamento, nunca perdeu uma ocasião para me lembrar de que eu tinha entrado em «território dele».

Só que, quinze anos antes, a tal «território» era uma caixa de betão, um T3 sem graça, sem móveis, sem conforto, sem sombra de aconchego. Na altura, Afonso gabava-se: o que importa são os metros quadrados, dormir também se pode num colchão no chão. Era avarento, isso sim. Guardava todo o dinheiro para carros caros, que, muito prudentemente, registava em nome da mãe, D. Amélia.

Eu, mulher com um bom ordenado e óptimo gosto, não estava disposta a viver nas condições espartanas que ele impunha. Queria conforto. Nos primeiros meses de casamento, recheei a casa inteira do princípio ao fim com o meu dinheiro. Fui eu que escolhi os móveis, o roupeiro, uma cozinha italiana de estilo clássico que nunca passa de moda. Fui eu que paguei os electrodomésticos de qualidade, o parquet caro, os candeeiros, e mandei fazer as cortinas pesadas, todas a rigor.

Depois, comecei a minha paixão por antiguidades. Durante anos, fui comprando pequenas peças elegantes. Afonso sacudia as mãos com ar superior: «O teu dinheiro, os teus pó. Brinca à vontade. Esses artefactos de museu não me dizem nada.»

Ainda assim, pediu à mãe que viesse no fim-de-semana, enquanto eu fazia as malas.

— Mãe, estamos a divorciar-nos. Tudo vai ser civilizado. Mas, por tudo, fica de olho na Leonor, para que ela não leve o que não é meu.

— Claro, Afonso, sempre estou do teu lado — garantiu D. Amélia.

O destino, porém, gosta de gozar com os planos. No sábado de manhã, quando D. Amélia se preparava para vir cá a casa, a tensão arterial subiu-lhe de repente. Teve de vir o INEM, e os médicos ordenaram repouso absoluto. A inspectora ficou fora do jogo.

Entretanto, Afonso fazia as malas num saco de cabedal e dava-me as últimas instruções:

— Olha, Leonor, levas a tua roupa, os cosméticos, as tuas florinhas. Mas nada de vandalismo.

Encostei-me ao caixilho da porta, cruzei os braços.

— O que é que entendes por vandalismo?

— Os electrodomésticos não se tocam. Estão montados para esta cozinha, fazem agora parte do meu apartamento. O forno, a máquina de lavar loiça, tudo fica no lugar, estou habituado. E a cómoda antiga do quarto também fica.

— A cómoda? — ergui a sobrancelha. — Tu chamavas-lhe cepos.

— A Inês vai gostar dela — cortou ele. — Anda radiante com a decoração. Diz que tenho um excelente gosto. Não me estragues o ambiente.

Inês estava, de facto, radiante. Aos trinta anos, trabalhadora de um salão de beleza, acreditava ter saído a sorte grande. Via o Afonso como um homem rico e fino. Nas fotografias que ele publicava nas redes sociais, aparecia de braço dado com o sofá de couro, diante de quadros caros, encostado àquela cómoda de madeira talhada. Inês jurava que se ia mudar para um palacete.

— Como quiseres, Afonso — deixei escapar um sorriso frio. — Levo apenas o que é meu.

— Boa rapariga. Sem dramas. Sempre soube que eras inteligente e não lutarias contra mim. As chaves não precisas de me dar; na segunda-feira mando trocar a fechadura.

Saiu com a mala, cheio de si, a sonhar com o regresso triunfante ao lado da nova mulher.

Quando já estava instalado com Inês numa estalagem termal no interior, recebeu a mensagem da mãe:

— Afonso, não te consigo apanhar. Tive um pico de tensão, veio o INEM, não posso ir para aí controlar a Leonor.

Afonso praguejou baixinho. Não queria cancelar o passeio com a nova namorada. «A Leonor não vai levar nada, não é dessas», pensou. Respondeu à mãe a desejar-lhe melhoras.

Entretanto, eu, mal ele saiu, peguei no telefone e liguei para o número que tinha apontado na véspera.

— Bom dia, é a Leonor, já lhes telefonei ontem. Sim, é a mesma morada. Preciso da maior viatura que tiverem no parque. Sim, com ferramentas. Vai ser preciso desmontar muita coisa.

A seguir, confirmei a reserva de um espaço de arrumos. Em dois dias era impossível encontrar uma casa vazia para arrendamento; por isso, ficaria um tempo na casa da minha mãe, enquanto procurava outra solução.

Ao meio-dia, entraram seis homens fortes, em macacões de trabalho, acompanhados por um electricista e por um especialista em montar e desmontar móveis.

— Por onde começamos, senhora Leonor? — perguntou o chefe da equipa, avaliando a dimensão do serviço.

— Começamos por tudo — respondi com calma. — Tiram-se os frontais da cozinha. Fora a placa, o forno, o exaustor, o micro-ondas e a máquina de lavar loiça. Depois, a mobília de estar, o quarto todo. As antiguidades embalam-se em plástico bolha triplo; vou verificar cada canto.

O trabalho começou. A casa encheu-se do zumbido das rebarbadoras e do cheiro a fita-cola. Não fui uma mulher ofendida a atirar coisas para dentro de sacos: aquilo foi uma operação logística fria, estudada, executada com a precisão de um estratega.

As cortinas de veludo desceram das janelas. Os quadros saíram das paredes. O electricista desmontou os candeeiros e os arandelas, deixando lâmpadas nuas a espreitar do tecto. O parquet italianado rangeu sob as botas dos homens que carregavam o sofá de couro, os roupeiros, a cómoda talhada e os electrodomésticos. A sala foi perdendo o brilho, até voltar a ser a caixa de betão de quinze anos antes.

Ao sábado à noite, a carrinha de caixa aberta estava cheia até ao limite. O chefe da equipa subiu as escadas, a limpar o suor da testa:

— Dona Leonor, não cabe mais nem uma caixa de fósforos. Vai tudo até ao tecto, as portas quase não fecham. Ficaram cá a mesa da cozinha e um banco. Quer que peça uma segunda viatura?

Olhei para a mesa de madeira maciça, com o seu banco solitário ao lado.

— Não, não é preciso — sorri. — Deixem ficar. É uma prenda de despedida para os recém-casados. Afinal, eles precisam de onde se sentar para construírem o futuro.

Percorri com o olhar as paredes nuas, os fios à vista, o silêncio vazio da casa, e saí, fechando a porta atrás de mim.

A manhã de segunda-feira estava cheia de sol. Afonso estacionou o carro, abriu a porta a Inês com toda a solenidade e ajudou-a a tirar as malas. Ela vinha preparada para pisar o chão de uma casa senhorial, como nova senhora do lar.

— Chegámos a casa, meu amor — anunciou ele, com ar cerimonioso, ao rodar a chave na fechadura.

Abriu a porta e fez um gesto largo para Inês entrar.

Ela deu dois passos no corredor. Pique, pique. Os saltos ecoaram, secos, por uma casa vazia.

Inês parou. Afonso, que vinha logo atrás, esbarrou-lhe nas costas. Ergueu os olhos, indignado, e ficou com a palavra presa na garganta.

Diante deles, estendia-se um apartamento completamente despido. Na sala, nem um sofá, nem a televisão, nem os quadros, nem as cortinas. No lugar da luxuosa lâmpada de cristal, pendia uma lâmpada triste, presa por um fio. O quarto estava vazio: sem cama, sem a cómoda antiga que tanto encantara Inês.

Afonso correu para a cozinha, em choque. Onde tinha estado o italiano, com os seus electrodomésticos encastrados, agora viam-se tubos da canalização e tomadas escuras.

No meio de tanto vazio, estava uma mesa e um banco. Em cima da mesa, brilhando sem pressa, as minhas chaves.

— Afonso… — a voz de Inês reduziu-se a um fio. Virou-se devagar, e o rosto desfez-se numa mistura de perplexidade e fúria. — O que é isto? Onde está tudo? Onde estão os móveis? E os electrodomésticos?

— A Leonor… — foi tudo o que o homem conseguiu balbuciar.

— Tu disseste-me que o apartamento estava mobilado! Disseste que íamos viver com conforto! Estamos a dormir em cima deste banco? Então trata de comprar mobília nova, já!

Afonso engoliu em seco. Sabia perfeitamente que não tinha dinheiro para mobilar a casa de novo, muito menos com aquele nível. As economias estavam todas no carro registado em nome da mãe, e o ordenado só chegava daí a duas semanas. Para rechear um T3, mesmo com móveis baratos, teria de pedir um empréstimo enorme. E naquela noite, ou dormiam no chão daquelas paredes vazias, ou iam para o estúdio alugado da Inês.

Encostado à parede, Afonso lembrou-se das minhas palavras na nossa última conversa: «Levo apenas o que é meu.» E eu cumpri. Não lhe toquei nas paredes. Levei o que paguei, o que era legítimo meu.

Sempre me fez imensa confusão aquela palhaçada de heroína de novela que sai com uma malinha, de cabeça erguida, enquanto o ex-marido fica com tudo. Porque havia eu de patrocinar a felicidade de quem me trocou? Orgulho não é sair de mãos vazias para não parecer interesseira. Orgulho é levarem o que é nosso e deixar ao outro exactamente aquilo que ele merece. Afonso gostava tanto da «sua» área? Ficou com ela, na mesma caixa de betão que sempre foi. A mesa e o banco ofereci de coração. Bem-vindos à vossa nova vida.

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