NORA
Maria Rosa colocou, com cuidado, o prato principal um pato assado dourado no centro da mesa, perfeita para receber a família. Daqui a pouco, chegariam os filhos com as noras e ela mal podia conter o suspiro: desde o último casamento, uma cerimónia discreta feita pelo filho mais novo, notou o quanto os tempos mudaram. A juventude agora valoriza a simplicidade, nada de grandes festas. Maria Rosa teria festejado em grande! Afinal, ela própria tinha-se casado com António apenas pelo civil em Lisboa, num relance, e só ao fim de um ano conseguiram comprar duas alianças fininhas de ouro. O que desejava era proporcionar um verdadeiro dia especial aos filhos, mas cedeu aos desejos dos jovens.
“Ela só tem um defeito: é demasiado vaidosa,” confidenciou Maria Rosa a uma amiga. No entanto, estava determinada a criar laços com a nova nora.
No geral, Leonor era uma rapariga simpática e de boas maneiras, que fizera muito bem ao filho mais novo, Diogo. Graças a ela, arranjou um excelente emprego e estava agora a progredir na carreira, depois de quase trinta anos vivendo sem ambições. Maria Rosa chegou a temer pelo futuro do rapaz, mas, por sorte, tudo se organizou.
Só havia aquele tal defeito Leonor gostava muito de cuidar de si. Ia a salões de beleza, fazia cortes de cabelo modernos, massagem, manicura. Dinheiro voava em tudo isso e Maria Rosa acreditava que uma mulher casada, com família, deveria pôr as necessidades do lar em primeiro lugar.
Quando viessem filhos, será que ela iria ao spa em vez de comprar sapatos para Diogo? Maria Rosa nunca compreendeu bem mulheres que pensam primeiro em si próprias. Ela sempre deixou-se para último, sobretudo quando ficou viúva e os rapazes, mesmo adultos, ainda precisavam do apoio dela.
Foi o som da campainha a interromper-lhe os pensamentos: chegara a juventude. Leonor entrou pela sala, como uma estrela. O cabelo brilhava numa nova escovagem, as mãos impecáveis, mal se notava maquilhagem, fruto de bom tratamento de pele.
Leonor, filha, estás mesmo bonita! exclamou Maria Rosa, do fundo do coração, mas sem conseguir ocultar um tom de desaprovação. O conjunto é novo, não?
Comprei ontem, sim respondeu a nora, sorrindo. No trabalho deram-me um prémio extra.
Esses prémios deviam ser guardados revelou a experiência de Maria Rosa. Sempre poupei qualquer extra: subsídio de férias, prémio, décimo terceiro. Faz sempre falta para um imprevisto, acredita!
Leonor ficou calada, respeitosa. Gostava da sogra, mulher simples, que se dedicou inteiramente à família, mas, lá no fundo, sentia que desgraças só caíam em cima de quem está constantemente à espera delas.
O serão foi agradável; ainda assim, Maria Rosa tentou, com algum tacto, iniciar conversas sobre excessos nos gastos. Leonor entendeu bem que a sogra se referia a si.
Há quanto tempo não vai à manicura, dona Maria Rosa? não conseguiu conter-se.
Eu? engasgou-se a mãe de Diogo. Eu nunca fui. Faço o melhor que posso em casa, para ter as mãos apresentáveis. Não preciso de mais nada.
Ninguém na sala reparou neste pequeno diálogo, mas Leonor, como mulher, sentiu um travo amargo por Maria Rosa. Ter criado dois filhos, vê-los hoje com bom rendimento, e nunca gastar um tostãozinho consigo!
Diogo, a tua mãe faz alguma coisa para ela própria? perguntou Leonor, enquanto regressavam a casa.
Bem, cozinha, e prepara jantares destes. Vê televisão, vai à vizinha beber café, e pouco mais Porquê?
Parece-me que ela nunca aproveitou nada de bom Deviam levá-la ao cinema, ao teatro, a jantar fora!
Achas? Ela nem quer, Leonor. Não te preocupes.
Leonor calou-se. Lembrou da própria mãe, a Dona Graça, que mesmo em tempos apertados nunca dispensava o cabeleireiro, um vestido bonito, e todos os anos comprava o passe do teatro municipal, só pelo prazer.
Ficou decidido: Maria Rosa tinha de experimentar viver um pouco para si, e não ficar eternamente sentada a ver televisão, à espera dos netos.
Passados poucos dias, Leonor telefonou à sogra, convidou-a para um passeio pelo centro de Lisboa, um café no Chiado, e sugeriu também uma visitinha rápida ao salão de estética Leonor ia à limpeza de pele, e convidava a sogra para o que quisesse.
Ó filha, não, vai tu. Eu espero lá fora, ou tomo ar na praça.
Para quê ficar à espera? Meia-hora passa num instante, e pode fazer uma massagem às mãos, ou manicura. Experimente
Maria Rosa acedeu a custo. Leonor ainda avisou o salão, onde era cliente de longa data, e explicou tudo.
Queridas, a minha sogra vem experimentar pela primeira vez. Façam-lhe tudo com rigor, e proponham qualquer coisa: máscara facial, pedicura. Se perguntar preços, digam-lhe que está tudo pago. Só tem de aproveitar!
No dia combinado levou Maria Rosa ao salão, entregou-a às mãos dos profissionais, disse-lhe que voltava em meia hora.
Só meia horinha, Leonor? E quanto é que isto vai custar? preocupava-se.
Quando a funcionária a encaminhou, Leonor ficou no átrio a responder a alguns emails do trabalho, já que não planeou tratamentos para si naquele dia.
Só duas horas depois saiu Maria Rosa, rejuvenescida, calma como há anos não se sentia.
Leonor, nem sei explicar! Fizeram-me de tudo, chá de ervas incluído Isto deve ser caríssimo.
Hoje está tudo incluído numa promoção intrometeu-se a recepcionista, sorridente. Se nos trouxer uma amiga, ela não paga. Está tudo resolvido!
De seguida, foram tomar um cappuccino numa pastelaria histórica ali perto. Maria Rosa, rendida, saboreou o momento.
E que tal se começássemos a fazer destes programas juntas? sugeriu Leonor. E há sempre descontos especiais para clientes habituais!
Gostei tanto, nem fazia ideia de que era tão agradável confessou a sogra.
Era tempo de experimentar! Tantos anos a cuidar dos outros, a pensar nos filhos, no marido Agora é a sua vez.
Pois mas antes não havia oportunidade, e o António sempre foi muito rigoroso com os gastos. Depois ficou sem sentido.
E agora tem motivo! Assim faz-me companhia.
Vá, de vez em quando, talvez.
E assim ficou: Maria Rosa passou a ir com Leonor, a tratar de si, a experimentar pequenas coisas novas. Leonor ainda, com géneros de diplomacia, foi melhorando o guarda-roupa da sogra, mas subtraindo sempre uns bons euros ao valor real das peças.
Conseguiu convencer Diogo a levar a mãe ao restaurante, depois a família foi ao cinema, e, pelo Natal, Leonor ofereceu-lhe um passe para a temporada de teatro do bairro.
Estás outra! elogiavam as vizinhas de Maria Rosa.
A juventude é que nos puxa! sorria, envergonhada, mas feliz.
Na verdade, agora que estava reformada, sentia, finalmente, que a juventude dela, mãe de dois homens feitos, estava prestes a começar.





