AH, EXAGEREI UM POUCO… — Mas quem é que ainda te quer, velha rabugenta? Só dás trabalho a toda a…

QUALQUER COISA, SÓ SE EXALTARAM

Mas quem é que precisa de ti, velha rabugenta? Só dás trabalho a toda a gente. Andas por aqui a cheirar mal. Se fosse por mim, já tinhas ido embora há muito tempo Mas tenho de te aturar. Odeio-te!

Carolina quase se engasgou com o chá. Tinha acabado de falar com a avó, Maria Fernanda, por videochamada. Ela levantou-se da poltrona com algum esforço e saiu para o corredor.

Espera só um bocadinho, querida, já volto disse ela, levantando-se devagarinho.

O telemóvel ficou em cima da mesa, com a câmara e o microfone ligados. Carolina focou-se no ecrã do computador. Depois Aquilo aconteceu. Uma voz a vir do corredor.

Carolina pensou que era impressão dela. Mas olhou para o telemóvel a tempo de perceber tudo. Pelo som da porta, alguém entrou no quarto. No ecrã apareceram primeiro umas mãos estranhas, depois uma parte do tronco e, finalmente, o rosto.

Andreia. A mulher do irmão. Pois claro, a voz era dela também.

A Andreia foi até à cama da avó e levantou a almofada, depois o colchão, remexendo com a mão por baixo.

Está aqui sentada a beber chá… Já podia era morrer de uma vez por todas, honestamente. Sempre a arrastar, só faz peso… Não serves para nada, só gastas o ar que respiramos resmungava a cunhada.

Carolina ficou imobilizada. Durante alguns segundos esqueceu-se de respirar.

Passados breves instantes, Andreia saiu, sem nunca perceber que estava a ser filmada. E Maria Fernanda voltou, como se nada se passasse, com um sorriso que não lhe chegava aos olhos.

Pronto, já cá estou. Por acaso, como vai o trabalho, querida? Tudo bem? perguntou ela, com toda a naturalidade.

Carolina acenou com a cabeça de forma seca. Ainda tentava processar todo aquele horror, enquanto sentia vontade de ir logo a correr pôr a Andreia porta fora.

Maria Fernanda sempre fora uma senhora firme, com aquela autoridade de professora de liceu. Nunca precisou de gritar. A disciplina dela vinha de muitos anos de profissão. Ensinou Literatura Portuguesa durante quarenta anos. Os alunos adoravam participar nas aulas, porque a Maria Fernanda conseguia tornar a leitura dos clássicos numa aventura.

Quando o avô faleceu, ela não se desfez, mas a postura perfeita deu lugar a uma ligeira curvatura das costas. Começou a sair menos de casa, adoecia mais frequentemente e o sorriso perdeu algum brilho. Mas, mesmo assim, nunca deixou de ser animada. Achava que todas as idades tinham o seu encanto, e mesmo agora procurava aproveitar os dias.

Carolina sempre adorou a avó porque com ela se sentia segura. A avó resolvia tudo. Quando o irmão de Carolina, Miguel, após o casamento se queixou das rendas absurdas de Lisboa, a avó ofereceu-lhes logo um quarto. A casa é grande, há espaço, e pelo menos há companhia, nunca se sabe se me dá uma quebra de tensão ou se o açúcar sobe, dizia ela sempre animada.

O Miguel tratava de olhar pela avó e Carolina ajudava nas compras, nos medicamentos e até nas contas da luz e da água. O salário dava para isso, e a consciência não lhe permitia fazer de outra forma. Às vezes dava à avó algum dinheiro em mãos, outras transferia para a conta. Sabendo como a avó era poupada, Carolina preferia, muitas vezes, levar ela mesma os mantimentos: peixe fresco, carne, leite, fruta. Tudo para a avó comer bem e tratar da saúde.

Tens de te cuidar, especialmente com esse diabetes lembrava Carolina.

A avó agradecia sempre, mas desviava o olhar, como se tivesse vergonha de estar a incomodar.

Desde o início, Andreia pareceu a Carolina uma pessoa falsa. Sorria muito, era educadinha, mas os olhos eram frios, avaliadores, sem um pingo de respeito. Carolina nunca se intrometeu, aqueles problemas não lhe diziam respeito. Apenas perguntava à avó se estava tudo bem.

Está sim, querida respondia Maria Fernanda. A Andreia cozinha bem e mantém tudo limpo. Ainda é jovem, há de aprender.

Agora Carolina sabia que era mentira. À frente dos outros Andreia era um cordeirinho. À porta fechada

Avó, ouvi tudo O que foi aquilo que ela disse?

A avó ficou parada por um segundo, baixou o olhar.

Não foi nada, Carolina suspirou Maria Fernanda. A Andreia só está cansada. Eles estão a passar uma fase difícil, o Miguel tem passado muito tempo fora. Ela fica nervosa.

Carolina olhou demoradamente para a avó, sentindo que já lhe via novas rugas e uma expressão de cansaço e medo.

Nervosa? Avó, ouviste o que ela disse? Isso não é estar nervosa. Isso é

Carolina interrompeu a avó com tranquilidade. Deixa lá, filha. Não me custa ser paciente. Ela é nova, ainda se exalta. Eu sou velha, não preciso de muito.

Não me faças de otário, avó. Ou me contas já tudo, ou pego no carro e vou aí agora mesmo. Decide.

A avó hesitou, depois deixou pender os ombros, endireitou os óculos. A fachada desabou. Agora era uma idosa vencida que olhava para Carolina.

Não queria dizer nada. Tens tanto trabalho, tantas preocupações. Para quê meter-te nestas novelas? Pensei que isto passava

A história da Andreia era afinal muito pior do que Carolina imaginava.

Os recém-casados apareceram em casa da avó, com grandes malas e ideias grandiosas de comprar casa em meio ano. Maria Fernanda até achou piada, porque a casa ficou cheia de movimento. Ouvia passos de manhã, alguém sempre a mexer qualquer coisa na cozinha, algumas conversas e risos, mesmo que um pouco forçados. No início, Andreia esforçou-se: fazia bolos, servia chá à avó, até a levou algumas vezes ao centro de saúde.

Mas, assim que o Miguel foi em trabalho para o estrangeiro, tudo mudou.

Primeiro começou a ficar irritada contou Maria Fernanda. Pensei que era saudades do Miguel. Depois começou a esvaziar a dispensa. Dizia que tu trazias sempre de mais, que ela precisava mais, ia ter um filho, era jovem. E eu? Eu nem preciso de tanto, até podia perder peso.

A Andreia também acabou por pedir dinheiro emprestado à avó. Maria Fernanda deu do pouco que Carolina lhe dava para medicamentos. Com esse dinheiro, Andreia comprou um frigorífico só para o quarto e pôs lá um cadeado. Tudo o que Carolina trazia de bom ia parar ali.

O dinheiro nunca mais apareceu. Pelo contrário, Andreia começou a procurar pelas escondidas e a apoderar-se do pouco que a avó guardava.

Levou-me a televisão. Disse que fazia mal à vista a avó suspirou, limpando as lágrimas com os dedos. Também desliga a internet às vezes. E eu eu falo contigo, gosto de ler as notícias, ir vendo receitas Sinto-me numa prisão cá em casa.

E nunca disseste nada ao Miguel? perguntou Carolina.

A avó abanou a cabeça.

Ela disse-me que se eu contasse, ia dizer a toda a gente que perdeu o bebé por minha causa. Que a stressava. E eu nem sei se esteve grávida, mas ela disse que todos iam tomar o partido dela e eu é que ia ser odiada.

Carolina mal aguentava o ódio. Queria gritar, expulsar Andreia. Mas disse apenas:

Ninguém pode tratar-te assim, avó. Ninguém. Nem novos, nem velhos, nem amigos, nem família.

A avó desatou a chorar. Carolina consolou-a e já sabia: ia haver confusão. E desta vez não ia calar-se.

Meia hora depois, Carolina e o marido, Tiago, já iam a caminho da casa da avó. No carro explicou-lhe tudo. Tiago primeiro não queria acreditar, mas não tinha razões para desconfiar da mulher.

A avó abriu-lhes a porta logo. Estava nervosa, mexia num pano com as mãos e evitava o olhar.

Vieram sem avisar Se soubesse punha o chá ao lume

Não vimos pelo chá, avó. Viemos pôr isto no lugar. Onde está a Andreia?

Saiu. Agora também me pergunta pouco… Mas entrem, já que aqui estão.

Maria Fernanda recuou para deixá-los entrar. Carolina dirigiu-se logo à cozinha. O frigorífico estava praticamente vazio: dois pacotes de leite fora de prazo, ovos, uns pepinos em conserva completamente mofados. No congelador só gelo.

Carolina olhou para Tiago, que acenou. Agiram rápido. O quarto da Andreia estava trancado. Cadeado barato, nada que resistisse a um bom puxão e a uma chave de parafusos. Tiago abriu.

A Andreia tinha de facto um frigorífico no quarto. Lá dentro estavam aquele iogurte grego que Carolina tinha trazido dias antes. Também queijo, chouriço caseiro, até tomates e alface.

Carolina estava furiosa, mas tentou controlar-se. Com o marido, foi esperar à sala da avó.

Andreia chegou a casa meia hora depois.

Quem mexeu na minha porta?! gritou, com ar ameaçador.

Nesse instante, Carolina apareceu no corredor.

Fui eu.

Andreia ficou sem palavras, olhos esbugalhados. Por alguns segundos esteve calada, depois tentou ainda voltar ao tom agressivo.

E tu és quem para entrar no meu quarto?

A Carolina acercou-se dela, olhando-a de cima para baixo era bem mais alta.

Eu sou neta da dona desta casa. E tu quem és? inquiriu. Tens dez minutos para arrumar as tuas coisas. Senão, meto-as pela janela. Percebido?

Vou queixar-me ao Miguel!

Queixa-te a quem quiseres! O Miguel não está cá. Se for preciso, ponho-te na rua ao colo.

Andreia bufou, mas meteu-se logo no quarto e começou a atirar as roupas para dentro de um saco. Ia resmungando, provocando Carolina, mas esta só a observava de semblante rígido.

A avó estava no hall, a chorar. Carolina foi até ela, abraçou-a.

Não é escândalo, avó. Estamos só a deitar o lixo fora.

Essa noite ficaram com a avó. No dia seguinte encheram o frigorífico de tudo o que era bom, e a farmácia dos medicamentos necessários. Quando saíram, a avó chorava. Carolina só esperava que fosse mais de alívio do que de medo ou solidão. E proibiu-a de deixar a Andreia voltar para casa.

No mesmo dia, Miguel ligou a Carolina. Gritava tanto que parecia que o telemóvel ia rebentar.

Estás maluca? A Andreia está desfeita em lágrimas! Onde é que ela vai viver agora? Achas que podes tudo só porque tens dinheiro?

Carolina desligou na hora. Horas depois, mandou-lhe uma mensagem de voz:

O melhor era informares-te primeiro. A tua Andreia fez da avó escrava e passou-lhe fome. Lembra-te do que a avó fez por ti. Se voltares lá com essa cobra, não te admito mais nada.

O Miguel nunca respondeu. Também não fazia falta.

Andreia acabou a ficar em casa de uma amiga. Nas redes sociais, punha frases de família tóxica e gente falsa. O Miguel lá ia pondo gosto. Nunca mais chegaram notícias deles.

A casa da Maria Fernanda ficou finalmente acolhedora, apesar do silêncio. Semanas depois, pediu a Carolina que lhe ensinasse a ver séries no telemóvel. Começou com Os Maias e depois passou para comédias. Às vezes viam juntas.

Há tanto tempo que não ria assim confidenciou a avó um dia. Até me doem as bochechas!

Carolina sorriu. Finalmente sentia paz no peito. A avó sempre a tinha protegido, agora era ela que protegia a avó.

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AH, EXAGEREI UM POUCO… — Mas quem é que ainda te quer, velha rabugenta? Só dás trabalho a toda a…
— Eu sei das tuas andanças, — disse a mulher. Victor gelou por dentro. Não, ele não estremeceu. Nem ficou pálido — apesar de sentir tudo apertar-se no peito, como uma folha amassada prestes a ser atirada ao lixo. Apenas ficou imóvel. A Larissa estava à volta dos tachos, mexendo algo na panela. Um gesto tão habitual — costas voltadas para o marido, avental às bolinhas, cheiro a cebola dourada. Um quadro caseiro. Aconchegante. Só a voz, essa parecia saída de um noticiário. Victor até pensou: será que ouviu mal? Talvez ela estivesse a falar dos pepinos — tipo “sei onde encontrar bons no mercado”? Ou do vizinho do terceiro andar, aquele que anda a vender o carro? Mas não. — Sei de todas as tuas andanças — repetiu Larissa, sem se virar. E aí sim, Victor sentiu o sangue gelar a sério. Porque no tom dela não havia histeria, nem indignação. Não havia o que sempre receara: lágrimas, lamúrias, pratos partidos. Apenas uma certeza fria, um facto consumado. Como quem diz que acabou o leite. Há cinquenta e dois anos Victor andava por este mundo. Vinte e oito deles com aquela mulher. Conhecia-lhe cada pinta: o sinal no ombro esquerdo, o jeito de franzir o nariz quando provava a sopa, o suspiro das manhãs. Mas nunca lhe ouvira aquela voz. — Lara… — começou ele, mas engasgou-se. Tossiu. Tentou de novo. — Larissa, do que é que estás a falar? Ela virou-se. Olhou-o — durante muito tempo, serena, como quem observa uma fotografia antiga onde já nada se distingue. — Da Marina, por exemplo — disse ela. — Aquela da Contabilidade. Dois mil e dezoito, se não me engano. Victor sentiu o chão fugir-lhe dos pés. Não era força de expressão — sentiu-se mesmo suspenso no ar, sem terra firme. Meu Deus. Marina?! Mal se lembrava do rosto dela. Houve qualquer coisa — no jantar da empresa, talvez? Ou depois? História curta, sem importância. Jurara a si mesmo: nunca mais. — E da Sílvia — continuou Larissa, imperturbável — aquela que te abordou no ginásio. Foi há dois anos. Ele abriu a boca. Fechou-a logo. Como é que ela sabia da Sílvia?! Larissa desligou o fogão. Tirou o avental, cuidadosamente, dobrando-o em dois. Sentou-se à mesa. — Queres saber como descobri? — perguntou. — Ou preferes saber porque é que calei? Victor ficou calado. Não porque não quisesse falar — simplesmente não conseguia. — A primeira vez — começou Larissa — desconfiei há uns dez anos. Começaste a chegar tarde ao trabalho. Sobretudo à sexta-feira. Vias-te mais alegre, olhar vivo, cheiro a perfume feminino. Ela esboçou um sorriso — amargo, sem alegria. — Na altura pensei: devo estar a imaginar coisas? Talvez alguma colega tua tenha mudado de perfume. Convenci-me disso durante um mês. Até encontrar, no bolso do teu casaco, um talão de restaurante. Jantar para dois. Vinho. Sobremesa. Nós nunca lá fomos. Victor quis dizer qualquer coisa — justificar-se, inventar, como sempre. Mas as palavras ficaram atravessadas. — E sabes o que fiz? — Larissa olhou-o nos olhos. — Chorei fechada na casa de banho. Depois lavei o rosto, preparei o jantar. Recebi-te com um sorriso. À nossa filha não contei nada — tinha quinze anos, era época de exames, o primeiro namorado. Para quê saber que o pai… Ela calou-se. Passou a mão na mesa, como quem varre pó invisível. — Pensei: isto passa. Todos os homens têm destas fases — crise da meia-idade, tolices, hormonas. O importante é a família ficar inteira. — Lar… — murmurou ele. — Deixa-me acabar — cortou ela. Ele aquietou-se. — Depois veio a segunda. A terceira. A quarta. Perdi a conta. O teu telemóvel… Nunca usaste código. Achavas que não via? Li mensagens. Aqueles SMS ridículos: “Que saudades, princesa”, “És o melhor”. Vi fotografias — tu com elas abraçado, a sorrir. — A voz vacilou, pela primeira vez. Mas logo se recompôs, inspirando fundo. — E sempre me perguntei: para quê isto? Porque viver com quem já não me ama? — Eu amo-te! — explodiu Victor. — Larissa, eu… — Não amas, — ripostou ela, seca. — Amas a facilidade. A casa limpa. O jantar quente. Camisas passadas a ferro. Uma mulher que nunca faz perguntas. Levantou-se. Foi até à janela. Ficou ali, a olhar para o escuro. — Sabes quando decidi? — disse, sem se virar. — Há um mês. A nossa filha veio cá passar o fim de semana. Conversávamos na cozinha. Ela saiu-se com isto: “Mamã, andas tão diferente. Calada. Parece que nem és tu”. E eu pensei: meu Deus, ela tem razão. Já não sou eu. Já há anos que não sou. Victor olhava-lhe as costas — direitas, tensas — e percebeu: estava a perdê-la. Não “podia perder” — estava mesmo a perder. — Eu não quero divorciar-me — suplicou. — Por favor, Larissa. — Mas eu quero. Já dei entrada dos papéis. O julgamento é daqui a um mês. — Mas porquê agora?! Larissa virou-se. Olhou-o demoradamente. E sorriu. Tristemente. — Porque percebi: tu nunca me traíste, Victor. Só se trai quem é importante. Para ti, eu fui sempre apenas uma certeza. Como o ar. E era a verdade. Ele ficou sentado no sofá — encolhido, de repente dez anos mais velho. Larissa perto da porta. Entre eles, vinte e oito anos de casamento, uma filha, um apartamento onde cada canto os conhecia. E um abismo. Intransponível. — Sabes — disse ele baixo — que sem ti não sei viver. — Vais saber. De algum modo — cortou ela. — Não! — Ele levantou-se num salto. — Larissa, eu juro! Mudo, prometo! Nunca mais… — Victor, — ela levantou a mão, travando-o. — Não é por causa delas. Nunca foi. — Então porquê?! Ela demorou-se. Procurava as palavras que nunca dissera, há anos presa entre o medo, a insegurança. Ou o hábito de não pedir espaço nem querer ser ouvida. — Sabes como me sentia? Cada vez que voltavas de mais uma dessas, eu deitava-me ao teu lado e sentia-me um zero. Tu já nem disfarçavas — o telemóvel à vista, camisas com batom para lavar. Achavas-me tola. Cega. Victor estremeceu, como se levasse um murro. — Não quis… — Não quiseste? — Aproximou-se dele de frente. Os olhos brilhavam — mas não de lágrimas. De raiva, acumulada, contida, finalmente à solta. — Nunca pensaste em mim. O que te passava na cabeça ao beijar outra? “A mulher nunca vai saber”? Ou “Que importa”? Ele calou-se. Porque a verdade era pior. Ele nunca pensava nela. Nunca. Larissa existia como uma certeza. Ele acreditava: não iria a lado nenhum. Estaria sempre lá. — Vinhas para casa depois dessas tuas e ficavas bem. Porque para ti nada mudava. Esposa no lugar, família certinha. Ela desviou o rosto. — Nessa imagem tua… eu não existia. Victor deu um passo. Estendeu a mão — querendo segurar-lhe o ombro, abraçá-la, impedir-lhe a partida. Larissa afastou-se. — Não vale a pena — disse, vencida pelo cansaço. — Agora é tarde. Ele agarrou-lhe as mãos. — Larissa, suplico! Dá-me uma chance! Eu mudo! Viro outro homem! Ela olhou para os dedos entrelaçados. Para a cara dele — desfeita, assustada. E, subitamente, percebeu: ele estava mesmo com medo. Mas não de perdê-la. Tinha medo de ficar sozinho. — Sabes — murmurou, soltando-se — eu também tive medo. Medo de ficar só, sem ti, sem família. Mas sabes o que descobri? Pegou na mala da mesa. Nas chaves. — Já estou sozinha. Há muito. Mesmo contigo aqui. E saiu. Passaram três semanas. Victor ficou num apartamento vazio — Larissa foi viver com a filha mal acabou o diálogo — e andava a vasculhar o telemóvel. Marina da contabilidade. Sílvia do ginásio. Mais dois ou três nomes nos contactos, que já tinham significado. Ligou à Sílvia. Rejeitou. Escreveu à Marina. Leu, não respondeu. As outras nem abriram a mensagem. Estranho: quando era um homem casado, todas queriam vê-lo. Agora, “livre”… Ninguém queria saber. Sentou-se no sofá, naquela casa de repente enorme e estranha — e, pela primeira vez em cinquenta e dois anos, sentiu-se verdadeiramente sozinho. Voltando ao telemóvel, encontrou “Larissa”. Olhou tempo infinito para o ecrã. Os dedos tremiam. Escreveu uma mensagem. Apagou. Tentou outra vez. Apagou. Depois escreveu só: “Posso ver-te?” A resposta chegou uma hora depois: “Para quê?” Victor pensou. O que dizer? “Desculpa”? Tarde. “Volta”? Ridículo. “Mudei”? Mentira. Escreveu a verdade: “Quero recomeçar tudo. Podemos tentar?” Três pontinhos acenderam-se. Desapareceram. Voltaram. E lá veio a resposta: “Vem sábado. A casa da filha. Duas da tarde. Falamos.” Victor respirou fundo. Não sabia o que ia acontecer. Se ela perdoava. Se voltava. Se ainda tinha direito a uma última hipótese. Olhou para a aliança no dedo. E, pela primeira vez em muitos anos, sentiu-se preparado para recomeçar tudo de novo. Se ela deixasse. Valerá a pena para Larissa ter tapado os olhos às traições do marido? Teria sido melhor fazer logo um escândalo e pôr tudo em pratos limpos na primeira traição? O que acha?