Só tinha 16 anos quando a trouxe para casa… A rapariga que já andava por aí há muito tempo e provavelmente grávida, um ano mais velha.

Eu tinha apenas 16 anos quando a trouxe para casa. A rapariga, já visivelmente grávida há algum tempo, era um ano mais velha do que eu.

Inês frequentava a mesma escola técnica que eu, mas num ano diferente. Durante vários dias, notei como a desconhecida se refugiava num canto e chorava em silêncio. Não passei despercebido o ventre que se arredondava, as roupas iguais vestidas por duas semanas e o olhar vazio, desprovido de esperança.

Como se soube, quase toda a gente conhecia a sua história. O neto de um empresário famoso em Lisboa andava com ela, e depois desapareceu simplesmente, partiu em assunto urgente para o Porto. Os pais dele não quiseram saber dela. Disseram-lho de forma direta.

Os seus próprios pais, como se vivessem na Idade Média, com receio da vergonha, puseram-na fora de casa e foram para a quinta. Uns compadeciam-se de Inês, outros zombavam dela pelas costas.

Foi culpa dela. Devia ter pensado com a cabeça!

Eu já não conseguia olhar mais para aquilo. Pensei bem e aproximei-me.

Não vai ser fácil, deixa de chorar. Proponho que venhas viver comigo, podemos até casar. Mas digo já não sei mentir e não vou fingir que está tudo bem. Vou apenas estar ao teu lado e prometo que vamos conseguir.

Inês enxugou as lágrimas e olhou para mim. O que dizer… Um rapaz comum, sem qualquer brilho. E ela sonhava com um marido completamente diferente! Mas na sua situação não havia escolha e Inês veio comigo.

Os meus pais ficaram chocados, a minha mãe implorou-me para voltar a mim, mas eu mantive-me decidido.

Mãe, não dramatizes, vai correr tudo bem. Tenho duas bolsas de estudo, a normal e a social. Vou trabalhar a mais, vamos conseguir!

Mas tu querias ir para a universidade!

E então? Vivemos como podemos. O pai trabalha a vida toda na fábrica, tu na loja. As pessoas sem estudos também vivem. Mãe, não é o fim do mundo!

Inês mudou-se para o meu quarto. Dei-lhe a minha cama, enquanto eu me mudei para o sofá-cama desconfortável. Durante alguns dias esteve muito calada. Como uma sombra, seguia-me de mão dada até à escola e de volta a casa, até que por fim explodiu.

Chega! Porque é que os teus pais me olham de lado? Não gostam de mim! E porque não passas tempo comigo? Estás sempre com os livros ou desapareces?!

Eu fiquei surpreendido.

Tu não achas que é normal? Não gostam de ti, mas aceitaram-te e não te incomodam. Olham de lado? Os teus pais nem te querem ver. E os pais do pai do teu filho? Onde estão eles? Estou com os livros porque estudo e não quero ser expulso logo no primeiro ano. E a bolsa também me é útil. Desapareço? Porque trabalho a mais e não tenho vontade de ver séries tristes contigo.

Inês chorou.

Para que falas assim?

Como? Eu disse que não sei mentir. E no geral, quando vamos ao cartório?

Não posso ir assim, compra-me um vestido bonito, com cintura alta para não se notar a barriga.

O que é que queres? Levamos o atestado de gravidez, que vestido? Ainda tenho de poupar para o carrinho e o berço…

A minha mãe recorreu à valeriana, mas aos poucos habituou-se à situação e olhava cada vez mais para as roupas de bebé. Afinal nada de grave estava a acontecer… Que vivam, que se casem, e nós com o pai ajudamos o que pudermos. Só que esta rapariga era ingrata, sempre insatisfeita comigo, connosco, com o apartamento apertado. Talvez quando der à luz mude.

Mas Inês não queria mudar. Quando eu voltei sujo e cansado da lavagem de carros, trazendo uma gata magra para o quarto, ela ficou furiosa.

Seu idiota! Para que nos serve esta gata esfarrapada? Tira-a! Expulsa-a do apartamento!

Mas eu sorri apenas.

Não, ela está grávida. Fica, nem comeces. Melhor cala-te e aquece-me o jantar.

Assim?! Inês quase gritou. Escolhe! Ou ela ou eu! Esta besta também me olha de lado!

Para quê? Olhei para ela sem acreditar. Esta é a minha casa e não tenho de escolher. Esta é a minha gata e se te incomoda podes sair. Até a minha mãe nunca me fez tais condições. Talvez seja tempo de deixar de olhar para todos de cima?

Inês histerizou, chorou, teve ciúmes desta gata magra e abandonada. Onde é que eu tinha visto barriga nela? Mas a barriga apareceu a gata estava grávida de facto.

Eu estava cansado, mas quando o remorso começava a vir, afastava esses pensamentos. De alguma forma íamos conseguir. Inês daria à luz, acalmaria, e antes a gata distrair-nos-ia. Os gatinhos fofos melhorariam o humor de todos.

Mas tudo aconteceu de maneira diferente. O avô, um empresário conhecido em Lisboa, regressou de uma longa viagem de negócios e soube de tudo. Encontrou o neto, ralhou com ele e anunciou que o cortaria do dinheiro se o bisneto fosse criado numa família estranha. E o rapaz temia muito perder essa fonte de rendimento.

Inês partiu com ele ainda nesse dia, sem se despedir de mim. Por sorte tinha os documentos consigo, pois ia ao médico depois das aulas. Das suas coisas não fez caso vão comprar-lhe coisas novas! E não voltaria mais a essa escola técnica barata!

Eu fiquei arrasado. Como assim? Nem se despediu, não ligou, não disse nada. Atirei fora todas as suas coisas e fiquei longo tempo sozinho no escuro, abraçado à minha gata.

A gata compreendia tudo. Aproximava-se em silêncio, sentindo-se necessária. Compreendia, ronronava, consolava.

Eu sozinho assisti ao seu parto, não deixando aproximar-se a mãe nervosa e o pai confuso. Sentei-me ao pé dela, falei-lhe com suavidade, acalmei-a. Vigiei para ver se tudo corria bem e mantive o telemóvel pronto para chamar o veterinário se necessário.

Tudo correu bem, a gata deu à luz quatro filhotes. Eu troquei o forro, trouxe água fresca e comida. Certifiquei-me mais uma vez de que estava tudo bem, e exausto fechei os olhos, sentindo o filhote mais pequeno aninhar-se na minha mão, e pensei que por vezes os animais mostram mais gratidão do que as pessoas. Esta experiência ensinou-me que a verdadeira lealdade e gratidão podem vir de fontes inesperadas, como os animais que nos acompanham sem julgar, e que devemos valorizar aqueles que realmente nos apoiam nos momentos mais difíceis.Eu tinha apenas 16 anos quando a trouxe para casa. A rapariga, já visivelmente grávida há algum tempo, era um ano mais velha do que eu.

Inês frequentava a mesma escola técnica que eu, mas num ano diferente. Durante vários dias, notei como a desconhecida se refugiava num canto e chorava em silêncio. Não passei despercebido o ventre que se arredondava, as roupas iguais vestidas por duas semanas e o olhar vazio, desprovido de esperança.

Como se soube, quase toda a gente conhecia a sua história. O neto de um empresário famoso em Lisboa andava com ela, e depois desapareceu simplesmente, partiu em assunto urgente para o Porto. Os pais dele não quiseram saber dela. Disseram-lho de forma direta.

Os seus próprios pais, como se vivessem na Idade Média, com receio da vergonha, puseram-na fora de casa e foram para a quinta. Uns compadeciam-se de Inês, outros zombavam dela pelas costas.

Foi culpa dela. Devia ter pensado com a cabeça!

Eu já não conseguia olhar mais para aquilo. Pensei bem e aproximei-me.

Não vai ser fácil, deixa de chorar. Proponho que venhas viver comigo, podemos até casar. Mas digo já não sei mentir e não vou fingir que está tudo bem. Vou apenas estar ao teu lado e prometo que vamos conseguir.

Inês enxugou as lágrimas e olhou para mim. O que dizer… Um rapaz comum, sem qualquer brilho. E ela sonhava com um marido completamente diferente! Mas na sua situação não havia escolha e Inês veio comigo.

Os meus pais ficaram chocados, a minha mãe implorou-me para voltar a mim, mas eu mantive-me decidido.

Mãe, não dramatizes, vai correr tudo bem. Tenho duas bolsas de estudo, a normal e a social. Vou trabalhar a mais, vamos conseguir!

Mas tu querias ir para a universidade!

E então? Vivemos como podemos. O pai trabalha a vida toda na fábrica, tu na loja. As pessoas sem estudos também vivem. Mãe, não é o fim do mundo!

Inês mudou-se para o meu quarto. Dei-lhe a minha cama, enquanto eu me mudei para o sofá-cama desconfortável. Durante alguns dias esteve muito calada. Como uma sombra, seguia-me de mão dada até à escola e de volta a casa, até que por fim explodiu.

Chega! Porque é que os teus pais me olham de lado? Não gostam de mim! E porque não passas tempo comigo? Estás sempre com os livros ou desapareces?!

Eu fiquei surpreendido.

Tu não achas que é normal? Não gostam de ti, mas aceitaram-te e não te incomodam. Olham de lado? Os teus pais nem te querem ver. E os pais do pai do teu filho? Onde estão eles? Estou com os livros porque estudo e não quero ser expulso logo no primeiro ano. E a bolsa também me é útil. Desapareço? Porque trabalho a mais e não tenho vontade de ver séries tristes contigo.

Inês chorou.

Para que falas assim?

Como? Eu disse que não sei mentir. E no geral, quando vamos ao cartório?

Não posso ir assim, compra-me um vestido bonito, com cintura alta para não se notar a barriga.

O que é que queres? Levamos o atestado de gravidez, que vestido? Ainda tenho de poupar para o carrinho e o berço…

A minha mãe recorreu à valeriana, mas aos poucos habituou-se à situação e olhava cada vez mais para as roupas de bebé. Afinal nada de grave estava a acontecer… Que vivam, que se casem, e nós com o pai ajudamos o que pudermos. Só que esta rapariga era ingrata, sempre insatisfeita comigo, connosco, com o apartamento apertado. Talvez quando der à luz mude.

Mas Inês não queria mudar. Quando eu voltei sujo e cansado da lavagem de carros, trazendo uma gata magra para o quarto, ela ficou furiosa.

Seu idiota! Para que nos serve esta gata esfarrapada? Tira-a! Expulsa-a do apartamento!

Mas eu sorri apenas.

Não, ela está grávida. Fica, nem comeces. Melhor cala-te e aquece-me o jantar.

Assim?! Inês quase gritou. Escolhe! Ou ela ou eu! Esta besta também me olha de lado!

Para quê? Olhei para ela sem acreditar. Esta é a minha casa e não tenho de escolher. Esta é a minha gata e se te incomoda podes sair. Até a minha mãe nunca me fez tais condições. Talvez seja tempo de deixar de olhar para todos de cima?

Inês histerizou, chorou, teve ciúmes desta gata magra e abandonada. Onde é que eu tinha visto barriga nela? Mas a barriga apareceu a gata estava grávida de facto.

Eu estava cansado, mas quando o remorso começava a vir, afastava esses pensamentos. De alguma forma íamos conseguir. Inês daria à luz, acalmaria, e antes a gata distrair-nos-ia. Os gatinhos fofos melhorariam o humor de todos.

Mas tudo aconteceu de maneira diferente. O avô, um empresário conhecido em Lisboa, regressou de uma longa viagem de negócios e soube de tudo. Encontrou o neto, ralhou com ele e anunciou que o cortaria do dinheiro se o bisneto fosse criado numa família estranha. E o rapaz temia muito perder essa fonte de rendimento.

Inês partiu com ele ainda nesse dia, sem se despedir de mim. Por sorte tinha os documentos consigo, pois ia ao médico depois das aulas. Das suas coisas não fez caso vão comprar-lhe coisas novas! E não voltaria mais a essa escola técnica barata!

Eu fiquei arrasado. Como assim? Nem se despediu, não ligou, não disse nada. Atirei fora todas as suas coisas e fiquei longo tempo sozinho no escuro, abraçado à minha gata.

A gata compreendia tudo. Aproximava-se em silêncio, sentindo-se necessária. Compreendia, ronronava, consolava.

Eu sozinho assisti ao seu parto, não deixando aproximar-se a mãe nervosa e o pai confuso. Sentei-me ao pé dela, falei-lhe com suavidade, acalmei-a. Vigiei para ver se tudo corria bem e mantive o telemóvel pronto para chamar o veterinário se necessário.

Tudo correu bem, a gata deu à luz quatro filhotes. Eu troquei o forro, trouxe água fresca e comida. Certifiquei-me mais uma vez de que estava tudo bem, e exausto fechei os olhos, sentindo o filhote mais pequeno aninhar-se na minha mão, e pensei que por vezes os animais mostram mais gratidão do que as pessoas. Esta experiência ensinou-me que a verdadeira lealdade e gratidão podem vir de fontes inesperadas, como os animais que nos acompanham sem julgar, e que devemos valorizar aqueles que realmente nos apoiam nos momentos mais difíceis.

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