Depois que eu me for, vais ter de sair, eu vou deixar o apartamento para o meu filho
Desculpa, Matilde, mas depois da minha partida este apartamento terás mesmo de o deixar disse o marido Artur. Vai ficar para o meu filho. Já tratei dos papéis todos. Espero que não me leves a mal. Tens os teus filhos, são eles que vão cuidar de ti.
A vida não foi meiga para Matilde. Cresceu num lar de acolhimento em Sintra, sem nunca saber quem eram os pais. Casou cedo, apaixonada, mas a felicidade fugiu-lhe cedo das mãos. Há trinta e cinco anos, nova ainda, mãe de dois filhos pequenos, ficou viúva o marido, Manuel, perdeu-se tragicamente num final de tarde enevoado. Cinco anos viveu sozinha, sempre a trabalhar, sem descanso, para nunca faltarem sapatos ou leite à filha e ao filho. E depois apareceu Artur. Felizmente, Matilde tinha a casa própria herdara de Manuel aquele T2 na Penha de França.
Artur era treze anos mais velho, dono de um T3 no bairro de Campo de Ourique em Lisboa, e ganhava bem, trabalhava com seguros. A relação avançou depressa, e Matilde aceitou logo o convite de se juntarem sob o mesmo teto. Artur deu-se bem com os filhos dela. Joana, a filha mais velha, desconfiou dele no início, mas Artur conquistou o seu respeito. Já o pequeno Duarte começou a chamar-lhe pai quase logo. Artur nunca fez distinção criou-os como sendo seus, nunca faltou carinho, energia ou dinheiro para os miúdos. Os dois, Joana e Duarte, cresceram a sabê-lo.
***
Hoje, Joana e Duarte viviam as suas vidas. Joana casou cedo, saiu de casa ainda antes dos vinte e três, de malas e um chapéu de chuva amarelo, prometendo voltar nos domingos de bife. Duarte, que sempre sonhara ser militar, também não tinha ficado muito por perto ao longo dos anos. Foi há dez anos que Matilde lhes pediu para virem a casa tinha uma decisão pesada.
Penso vender o nosso T2 anunciou Matilde, com a voz a tremer. Aqui há coisas que estão a precisar de obras a canalização da casa de banho, toda a eletricidade, móveis velhos. O T2 está vazio há um tempão, só lá vai o pó. Queria pedir-vos permissão. Vendemos, e dividimos o dinheiro?
Joana encolheu os ombros:
Por mim não há problema. Não faço questão de ficar com aquela casa. Mas, mãe, se não te importares, eu precisava de uns trocos. O Arturito anda de novo de muletas e precisamos de fazer-lhe tratamentos.
O filho de Joana nascera com uma doença que lhe roubava a força nas pernas. Havia consultas, fisioterapias e idas ao hospital Santa Maria todas custavam um dinheirão. Duarte apoiou logo a irmã:
Faz sentido, mãe. A minha parte dá-a à Joana, para levar o Arturito ao Porto, à especialidade. A minha vida está encaminhada, vou pagando a prestação da minha casa, devagarinho. E a saúde do puto vale mais que tudo.
O T2 foi vendido, metade do dinheiro caiu nas mãos de Joana, com o resto Matilde renovou de ponta a ponta a casa de Artur: mudou tudo instalação elétrica, canalização, móveis, eletrodomésticos. Tudo pago do bolso dela. Mal sabia Matilde que punha alma e suor numa casa que não seria sua. Nunca pensou que, trinta anos depois, Artur lhe desse uma facada nas costas.
Os problemas de saúde de Artur começaram a aumentar há quatro anos. Queixava-se das articulações dos joelhos havia manhãs em que nem conseguir sair da cama conseguia, só com a ajuda de Matilde é que se punha de pé. Matilde insistia:
Ó Artur, deixa de ser teimoso, vai ao hospital, fazes uns exames e logo vês como melhoras! Se quiseres, vou contigo. Vá lá, não resmungues, tens de cuidar de ti.
Artur gemia:
Qual quê, Matilde! Vão só receitar-me remédios caros que não fazem nada! Isto doer, sempre doeu. Agora é pior, mas é da idade, já estou velho.
Joana, sempre preocupada, participou. Entre mãe e filha, empurraram Artur ao médico. Matilde acompanhou o marido. O médico abanou a cabeça:
Isto está grave, precisa de tratamento já. Há quanto tempo tem dores?
Bah Uns vinte e cinco anos, fácil resmungou Artur. Antes só doía quando andava muito. Agora até quando chove.
Tem de perder peso. Se continuar assim, a pressão nos joelhos vai destruí-los de vez. Tem de fazer dieta, quanto antes.
Matilde empenhou-se: consultou a nutricionista e desenhou um plano alimentar. Só servia legumes, peixe e arroz integral, nada de enlatados ou doces. Os bombons foram trocados por tâmaras. Artur recusava-se a cumprir:
Isto é uma parvoíce! Não vou ficar a viver de cenouras e couves nem que me paguem! Olha bem para mim, peso normalíssimo! As dores são é da idade, não de outra coisa.
Matilde resistia. Entre persuasão, promessas vazias e até chantagem emocional, lá convenceu Artur a seguir as recomendações. Os medicamentos não faziam grande coisa: o alívio era de pouca dura. Artur andava pela casa a cambalear, Matilde conduzia-o pela mão à casa de banho, como se guiássemos alguém pela Rua Augusta num sonho abafado de nevoeiro. Vieram também os problemas no coração, a tensão subiu, e Artur deslaçava-se, acelerando para o limite dos seus setenta anos. Joana e Duarte, preocupados, faziam visitas quase diárias.
***
Durante anos, Artur lutou entre melhoras e recaídas. Matilde nunca vacilou, sempre do lado dele, sem pensar em abandonar o marido doente. Meio ano antes, durante uma crise pior, Artur foi internado em Santa Maria. Matilde vivia entre casa e hospital. Um dia, preparava tupperwares para levar, quando tocaram à porta. Do outro lado, um jovem estranho, o rosto curioso, qualquer coisa de familiar.
Bom dia. O senhor Artur Ferreira está?
Bom dia Matilde, limpando as mãos ao avental. Não está. Quem é?
Chamo-me Miguel. Sou filho dele.
Matilde ficou petrificada agora percebia: o rapaz era igualzinho ao marido, muitos anos atrás. Miguel, percebendo o embaraço, perguntou:
Sabe dizer-me quando ele volta? Gostava de falar com ele, não o vejo há uma eternidade.
Entre, Miguel, não fique à porta. Sente-se. Eu explico tudo.
Miguel ouviu, e com tristeza disse:
O pai sempre foi complicado. Dói ver como o tempo muda as pessoas. Lembro-me dele forte, animado. Posso ir consigo ao hospital? Quero vê-lo.
Claro sorriu Matilde. O Artur vai gostar de o ver.
Matilde não fazia ideia que Miguel existia. Artur nunca contara que tivera outro casamento antes dela. Nem uma palavra sobre filhos sempre dissera que nunca conseguira ser pai. Artur não reconheceu Miguel de imediato. O reencontro foi breve, Miguel saiu depressa. Nesse dia, Artur revelou a Matilde partes do passado:
Com a mãe do Miguel só vivi quatro anos. Saí quando ele tinha três. Era doida por ela, mas apanhou-me a ser traído com o meu próprio primo! Ela depois casou com ele, recusou-se a que eu visse o miúdo. Tentei vê-lo, à porta da escola, junto ao prédio. Mas acabei por desistir. Pensei: a vida se encarrega. E agora, quase trinta anos depois, aparece-me o rapaz à frente. Não sei o que fazer é meu filho, mas, no fundo, um estranho. Não o conheço, nunca o eduquei!
Artur, é teu sangue disse Matilde suavemente. Não te afastes. Ele não tem culpa do que a tua mulher fez. Deixa-o chegar-se, pode ser que um dia te arrependas se te fores embora sem experimentar uma ligação.
Artur acatou o conselho. Começou a falar mais com Miguel. Ele passou a aparecer aos domingos, a conversar longamente com o pai atrás da porta do quarto. Matilde nunca tentou ouvir.
Havia poupanças: uma almofada feita de anos, quase sempre alimentada por Matilde. Depois da venda do T2, colocou o dinheiro num depósito a prazo e foi acrescendo com pequenos depósitos mensais. Trabalhava ainda como contabilista por conta própria para empresas pequenas não vivia só da pensão. Só Matilde tinha acesso àquele dinheiro, mas um dia reparou numa mensagem do banco no telemóvel, como se no mundo dos sonhos o dinheiro escorresse para as mãos erradas.
Fui eu que levantei dinheiro? Mas o Artur nem saiu de casa! Quem tirou vinte mil euros? Onde está o cartão?
Correu para ele:
Artur, cadê o cartão do banco? Alguém levantou vinte mil euros. Não vi a mensagem, foste tu? Precisamos da polícia!
Artur respondeu calmamente, como se falasse de um peixe voador:
Fui eu que o dei ao Miguel. Ele precisava, ajudei o meu filho, só isso.
Matilde sentou-se pesadamente no sofá:
Porque não me disseste? Achas justo? Que problemas tem o teu filho assim tão urgentes?
Isso já não é da tua conta foi ríspido ele. O meu filho pediu-me ajuda, eu ajudei. Não gostas, tens pena?
Irritava-se cada vez mais. Matilde respirou fundo:
E o cartão?
Está com ele. Já disse! Porque perguntas tanto?
Liga e pede para o devolver! O dinheiro é nosso, não me sinto segura com o cartão fora de casa!
Ele é filho meu. Deixas de controlar tudo, Matilde! Eu é que decido, ele fica com o cartão.
Matilde, normalmente calma, perdeu a cabeça:
O teu filho não tem nada de usar o meu dinheiro! Nem um euro puseste tu naquele depósito. Há quanto tempo não vês salário? Sou eu que poupo mês após mês. Peço-te que tragas o cartão, não quero cortar relações.
Artur gritou-lhe; ela telefonou ao banco e bloqueou o cartão. Miguel apareceu nessa noite.
Pai, o cartão agora não funciona! Não consigo levantar dinheiro!
É normal, fui eu que bloqueei respondeu Matilde, com firmeza. Ajudámos-te, sim, mas não podes gastar o que quiseres. O cartão não serve mais para nada.
Porquê, Matilde? O pai disse que podia usar o que fosse preciso! Preciso para pagar mobília, tenho gente à minha espera!
Vais pagar a tua mobília com o meu dinheiro?! Olha, os meus euros são só meus. Tudo passa agora por mim, entendes? O teu pai não pode gastar assim sem critério a reforma dele basta para contas e pouco mais.
Miguel, de cara fechada, saiu, o pai voltou a repreendê-la. Pela primeira vez em décadas, Matilde sentiu-se cansada daquele casamento, da ingratidão.
***
Passaram uns dias. Miguel não voltou. Artur, amuado, ignorava a mulher. Matilde, sufocada, fez as malas e rumou à casa da filha.
Que o Artur pense na vida, um pouco. Talvez precisemos de distância, os ânimos há muito que não estão bem.
Saiu de manhã, voltou já a noite se espreguiçava. O marido, inesperadamente animado. Matilde ficou com esperança: talvez o tempo refrescasse o coração.
Como correu o teu dia? perguntou ela.
Normal. Miguel veio cá, fizemos umas coisas, fomos de um lado para o outro. Cheguei quase ao mesmo tempo que tu.
Matilde nada disse, mas Artur, após breve silêncio, atirou sem olhar:
Espero que não fiques zangada comigo.
E porquê? estranhou ela.
Fui hoje ao notário. Deixei o apartamento ao Miguel.
Matilde semicerrrou os olhos:
À custa de quê?
O Miguel é o meu filho, único herdeiro, não tenho mais ninguém. Depois de mim, tudo será dele. Aliás, Matilde, aconselho-te a pensares no teu futuro. Vais para casa da Joana ou do Duarte?
De repente, pareceu-lhe injusto. Pela lei, talvez não tivesse direito a nada, mas no fundo do coração, metade daquele lar pertencia-lhe. Das cortinas aos livros, tudo era dela. Tinham sido as suas escolhas, as suas mãos, que ali estavam. E agora? Tudo para um estranho.
Obrigada, Artur sussurrou Matilde. Tens razão. Vou tratar do meu futuro. Liga ao teu filho, precisa de companhia. E tu também, já não gostas de estar sozinho.
Mas que é isto? Para onde vais?
Não gosto de explicar duas vezes, Artur suspirou Matilde, vou deixar-te. Vou viver com os meus filhos. Agora deixa-me arrumar as minhas coisas.
Mudou-se para a casa de Duarte, que vivia sozinho num T3 espaçoso na Parede. Joana também lhe abriu portas, mas Matilde não quis incomodar. Artur apareceu no tribunal, não queria dar o divórcio, quase como se tentasse acordar de um sonho desfeito. Mas Matilde insistiu, e assim terminou: divorciada, homem e filho passaram a vê-la como uma oportunista de mão pesada.
E, em noites altas, Matilde lembrava tudo como se tivera sonhado com Lisboa inundada por rios de azeite e comboios que só andavam para trás. Só então sentiu paz.







