Leonor, filha, já cheguei a casa! Vem receber-me!
Armando?! Mas tu aqui tão cedo? Não eras suposto voltares só daqui a três dias…
Leonor, uma mulher perto dos trinta anos, surgiu apressada no corredor, enrolando-se no seu roupão de seda e olhando confusa para o marido, que aparecera do nada à porta.
Quis fazer-te uma surpresa, Leonor. E parece que consegui! Não estás contente por me veres? Armando, alto e de ombros largos, sorria de orelha a orelha, satisfeito com o seu feito.
Muito contente, claro! Vai até à cozinha, vou já aquecer algo para comeres.
Armando, cheio de si, acenou à mulher e seguiu para a cozinha. Ali deparou-se com uma mesa pronta: morangos, chocolate, jantar acabado de sair do forno… Parecia um banquete feito especialmente para ele.
Ó Leonor, isto está um luxo! Como soubeste que regressava hoje? Tens um sexto sentido, mulher!
Serviu-se com generosidade e começou a apreciar o jantar. Estranhou que a mulher não aparecesse, mas pensou para si que, provavelmente, se demorava a escolher um vestido bonito para o receber.
Armando, eu… Nós…
Olha que o teu assado está uma maravilha! E a salada? E as filhoses? Uma delícia… Miguel?!
Virando-se de repente, Armando viu Leonor de braço dado com Miguel, seu irmão. Leonor baixava os olhos, visivelmente envergonhada. Miguel, de calções e t-shirt, coçava o rosto, evidenciando que tinha sido acordado há pouco.
Armando, sim, sou eu, olá mano…
Boa tarde… Agora expliquem-me lá o que se passa aqui? Ou será escusado…
Armando, eu… Há muito tempo que queria dizer-te. Eu amo o teu irmão, o Miguel, quero ficar com ele. Desculpa. Leonor disparou as palavras, quase sem fôlego, sem conseguir encarar o marido.
Ao ouvir isto, Armando deixou cair o prato. A loiça, com restos de comida, espalhou-se pelo chão com estrondo.
E vocês… Se bem percebo… Agora mesmo…
Sim. Agora mesmo estávamos juntos.
Que bonito, Leonor, que bonito. E tu, Miguel, também és um artista! Que belo casal! Agora já percebo este banquete… E para quem era!
Leonor não conseguia levantar os olhos. Sentia que, se o fizesse, a pouca coragem que tinha iria abandonar-lhe o corpo.
E a Matilde? O que vamos fazer com a nossa filha? Ela sabe?
Não. Ela… Ela não sabe.
Onde está agora?
Está com a vizinha, a ver desenhos animados.
Costumas deixá-la com a vizinha muitas vezes?
Já vai para meio ano…
As perguntas de Armando chegaram ao fim. E as emoções, também. O cansaço da viagem pesava-lhe, e não via sentido em fazer ali um escândalo. Tinha um feitio calmo, não era de guardar rancor.
Mas, quando alguém abusava, não havia volta a dar como se diz, quem pode, que fuja. Saltava só em último caso.
Aquela situação, com dois dos seus o irmão e a mulher , deixou Armando atónito. Desconcertou-se, mas só por um instante.
Quero-te fora daqui em dez minutos. O tempo começa agora. Disse Armando, pegando na caneca de chá, ignorando o irmão.
O que será que a Leonor viu no Miguel? São iguais, quase nem se distinguem! Ele nunca foi de trabalhar, cabeça não é com ele… Ela só vai perder com isto Mas, é o que ela escolheu! pensou Armando, entre goles de chá.
Não saio daqui sem a tua autorização afirmou Miguel, levantando-se de repente.
E o que vens tu pedir-me agora?
O divórcio… Deixa a Leonor ser feliz, ela não te ama!
Já percebi bem de quem ela gosta… sorriu Armando. O divórcio, querem? Pois vão tê-lo, mas só em tribunal! Quero ver-vos gastar todo o vosso dinheiro em advogados.
Armando… Leonor pôs a mão no pulso do marido. Armando, por favor, sejamos civilizados. Eu sei que tu és uma boa pessoa…
Armando abanou a cabeça.
Muito bem. Mas deixo-te já avisado, Miguel, não és mais meu irmão!
Nós… Temos mais um pedido.
Então, diz lá…
Deixa-me ficar com o apartamento, Armando! pediu Leonor, lançando-lhe um dos seus sorrisos.
A Matilde está tão habituada aqui, tem os amigos da escola… Se tivermos de vender, não temos dinheiro para outra casa, teremos de voltar à aldeia…
Armando apoiou o queixo nas mãos cerradas e ficou pensativo. Leonor, percebendo a hesitação, investiu com doçura:
Armando, faz isso pela tua filha. Tu consegues voltar a comprar outra casa, ganhas bem! Pensa na Matilde… Ela é a tua única filha. Faz-lhe esse favor…
Leonor, tem calma atalhou Armando. Tenho uma ideia melhor.
E qual é? sorriu ela, já imaginando o carro: Vais deixar-nos também o carro? A Matilde ia ficar tão feliz…
A Matilde vai ficar comigo.
O quê?! exclamou Leonor, incrédula. Só podes estar louco! Nunca soubeste lidar com crianças, sempre a viajar… Ela nem deve lembrar-se do teu nome!
Vamos ver disse Armando, dirigindo-se à porta.
Poucos minutos depois, Armando voltou, de mão dada com a filha uma menina de dez anos, a poucos dias de avançar para o quarto ano. A Matilde apertava-lhe a mão, sorrindo cheia de alegria pela atenção do pai.
Que disparate é este, Armando?! Trazer a rapariga para o meio do nosso conflito?
Ele não respondeu. Sentou-se à mesma mesa e pôs Matilde ao colo.
Matilde, filha, posso fazer-te umas perguntas?
Claro, pai! sorriu ela.
Prometes responder com sinceridade? Vou falar contigo como com uma pessoa crescida.
Assim como falas com os homens do trabalho?
Tal e qual.
Matilde assentiu, feliz por ser levada a sério.
Matilde, a mãe tem-te tratado mal? Alguma vez te bateu na última semana?
A miúda encolheu-se, desviando o olhar para o lado e mexendo nervosamente no vestido.
Deixa de inventar, Armando! gritou Leonor. Deixa a menina fora disto!
Silêncio, Leonor. Estou a falar com a nossa filha retrucou ele, passando carinhosamente a mão pelo cabelo da menina. Vá, Matilde, lembra-te do que prometeste.
Ela assentiu de novo, com lágrimas nos olhos, abraçando-se ao pai e murmurando-lhe baixinho ao peito:
Sim, ela bateu-me três vezes… Por uma nota má, por ter entornado leite, e porque gritei com o tio Miguel. Eles andavam aos beijos enquanto tu estavas fora, pai.
Pronto, pronta, não chores… afagou Armando a cabeleira da filha. Estou aqui, estou contigo. Agora, ninguém te vai fazer mal.
Ela está a mentir! protestou Leonor. Nunca lhe toquei…
Então a casa e o carro são mesmo pela Matilde? perguntou com ironia Armando. Filha, responde-me só mais a uma coisa.
Diz, pai…
Se pudesses escolher, querias viver comigo ou com a mãe?
A menina ficou em silêncio. Alternava o olhar entre os dois. Leonor abriu-lhe os braços, tentando resgatá-la para o seu lado.
Mas prometes que já não vais ter de viajar tanto?
Prometo! disse Armando, sem hesitar.
Então quero viver contigo, pai.
Sua ingrata! gritou Leonor, levantando a mão, mas Armando protegeu imediatamente a filha, abraçando-a com firmeza. Miguel permaneceu quieto, distante.
Pronto, Leonor, ficou tudo dito. Já não vais vê-la mais comunicou Armando, levando a filha com ele para o quarto.
Pouco depois, Armando ajudava a menina a fazer a mala. O seu saco de viagem já estava preparado. Pai e filha partiram para uma pensão na outra ponta de Lisboa, onde Armando se hospedava frequentemente por conta do trabalho.
…Uns meses depois, no tribunal, a decisão foi clara: sem rendimentos estáveis nem casa própria, Leonor e Miguel não tinham meios para cuidar da filha. Matilde ficou legalmente com Armando, seu pai, tal como desejara.
Armando dividiu o apartamento, vendeu a sua parte, e, com esse dinheiro, comprou um novo lar para os dois. À mãe, ficou reservado o direito de ver a Matilde nos fins-de-semana, mas o dia-a-dia passou a ser com ele.
Armando reorganizou completamente a vida: eliminou as longas viagens, passou a estar sempre presente ao lado da filha. E Matilde, aos poucos, voltou a sorrir o que, aos olhos do pai, valia mais do que todo o dinheiro do mundo ou que qualquer carreira.
E assim se passou. Digam, nos comentários, o que pensam desta história? Coloquem o vosso gosto se acham que o Armando mereceu.







