Vasquinho

Gaspar

Ó Maria do Céu, estás maluca!? A dona Amélia vai-te pôr fora de casa por causa disso!

Ó Teresa, onde querias que o deixasse? Na rua? É uma vida! Tem sentimentos.

Ele lá que tem vida, agora tu é que corres perigo se ficares com ele aqui.

Teresinha, não sejas assim, por favor! Não é um tigre, é só um gatito. Deixa-o ficar mais uns dias, sim?

Não me tentes convencer! Teresa soltou uma gargalhada e passou a mão na cabecita do inesperado hóspede ruivo. Achas que eu não tenho pena também? Onde o foste desencantar? Magrelo, meu Deus, parece doente, não levanta nem a cabeça. Um tesouro!

Estava a sair do turno, hoje, a atravessar o jardim, e encontro-o estendido no caminho. Se calhar saiu dos arbustos, ou foi alguém que o largou ali mesmo. Já a neve o cobria quase todo. Só reparei porque é ruivo. Peguei-lhe e estava frio, parecia morto. Mas afinal ainda respirava. Fugi dali e vim a correr para o lar de estudantes explicou Maria do Céu, enquanto completava um copo de leite esmaltado para aquecer. A dona Amélia olhou-me de lado quando entrei, até ficou de boca aberta.

Então prepara-te para a visita dela, ó Maria do Céu! Lembras-te como ralhou com a Lúcia quando ela trouxe a gata? Quase que foi posta fora. Animais não são permitidos!

Teresinha, prometer, prometo respondeu Maria do Céu, ansiosa na ombreira. Se ela vier sem eu cá estar, esconde-o, por favor. Só vou aquecer-lhe o leite e volto num instante.

Vai lá. Teresa enrolou o cachecol com o gatinho e esvaziou do cesto de crochet o que lá estava. Não vi nada, não sei nada e não digo nada! cantarolou, piscando o olho à amiga. Vai descansada, ninguém vai notar.

Maria do Céu saiu, e Teresa espreitou para o cesto, abanando a cabeça.

Que bela sorte, valha-me Deus! Ruivo impudente Respira, coitadinho! A Maria do Céu é boa rapariga, se te acontece alguma coisa vai chorar até secar. Quem me manda a mim embarcar nestas?

O gatinho ficou calado, respirando fraquinho, quase imóvel, não reagindo às palavras ternurentas. A noite caía depressa e o quarto entregava-se à penumbra, que Teresa tanto apreciava. Gostava dessa transição para o escuro; era ali que o sereno da noite lhe dava tempo para sonhar e conversar. Lembrou-se de perguntar a Maria do Céu das novidades com o Miguel. Suspirou. Que sorte tinha a amiga! Namorado, convite de casamento. Ela, Teresa, nem namorado tinha. Alta como era Quem se queria negar àquela que metia medo aos rapazes da cidade? A avó chamava-lhe rapariga forte quando ela endireitava os irmãos mais novos. Agora até o mais velho já casou, boa rapariga trouxe. Teresa tinha ido à boda na aldeia. E ela? Continuava ali, só, sem nada à vista. Talvez tivesse razão a avó em chamá-la para casa, mas o que faria ali? Nem rapazes, nem trabalho, só a vida do campo. Para quê estudara então? Ali na fábrica sabia ser respeitada, até lhe davam prémios. Espantou as mágoas com um sorriso: Tempo ao tempo, Teresa; não tarda cá aparece alguém!

Maria do Céu voltou, procurando uma seringa para alimentar o bichinho. O pobre nem de pires conseguia beber, tentava lamber, mas faltava-lhe forças. Teresa, ao vê-la quase chorar, tirou-lhe das mãos o ruivo magricela:

Dá cá!

Com destreza, colocou leite na seringa, segurou a cabecita do animal e forçou-lhe a boca aberta.

Então? Não foi para aqui vires morrer de fome! Vamos lá a comer.

O gatito tossiu, engasgou-se, mas acabou engolindo um pouco de leite.

Passaram a chamar-lhe Gasparinho. Dona Amélia só soube dele quase um ano depois, quando viu uma silhueta ruiva saltar da rua pela janela da janela do rés-do-chão.

Que raio é aquilo?!

O grito pôs a residência em alvoroço.

Dona Amélia, por favor! Nem sabia que tínhamos gato! É tão jeitoso! Até caça ratos! Maria do Céu tentou justificar-se.

Que ratos? Aqui não há ratos! Isto é um lar modelo!

Pois, mas os ratos também têm as suas regras. Gordinhos, limpinhos, até fazem fila ao pé da minha cama por causa do Gaspar! gracejou Teresa, tapando o novelo de pelo atrás das pernas. Criamos fama pelas proezas do gato? Até podíamos convidar o diretor da fábrica!

Teresa! a dona Amélia decidiu levar a conversa para a mãe. Maria do Céu, se te casares, o que fazes do bicho? Levas contigo?

Não sei Ele gosta de mim, mas acha que a dona é a Teresa. Vai sentir a falta dela.

Pfff, Maria do Céu! Falas do gato como de um homem! Dona Amélia riu-se, olhando a Maria do Céu de lado. Onde lhe dão pão, fica-se.

Não diga! Ele nem liga ao que eu lhe faço, vai sempre para a Teresa. Maria do Céu entregou o gato à amiga e afagou a ombreira da dona Amélia. Podemos ficar com ele? Por favor?

São bem espertas! Dona Amélia cedeu, franzindo o sobrolho. Não quero ver nem ouvir este bicho! Ou eu e vocês vamos embora.

O casamento de Maria do Céu foi celebrado como manda a tradição, e Teresa ficou com Gaspar, sentindo os dias arrastar-se mais vagarosos e um pouco mais tristes. Dona Amélia ainda não lhe arranjara nova colega, os quartos estavam esgotados e a esperança descansava no novo lar por acabar de construir. Aos domingos ajudava nas obras, percorria os corredores sonhando como seria tudo quando aquilo estivesse terminado. Foi num desses dias de azáfama que encontrou o que achou ser o seu destino.

O António era de fora, como ela; ficou com os pais até ao fim e, ao ficar sozinho, veio tentar sorte à cidade. Ali não tinha nada, mas era feliz. Raparigas para escolher não lhe faltavam, mas António queria uma mulher de posses, que tivesse casa ou lhe desse algum apoio. Teresa não era o que buscava, mas não resistiu à rapariga alta que o olhou de cima e passou imponente no corredor.

Os galanteios desajeitados do António faziam Teresa rir.

Ó Nossa Senhora, ele é tão baixinho que ainda o afago na cabeça! contava, a rir, a Maria do Céu que passava por lá.

Teresa, isso do tamanho não interessa nada. O que importa é o coração do homem.

Não sei respondia ela, de olhos baixos.

Maria do Céu preparava-se para ir, ajeitando a barriga já bem visível enquanto acariciava Gaspar, espreguiçado ao sol.

Custa-te muito? perguntava Teresa, tirando um frasco de mel enviado pelos irmãos.

Não. Mas é estranho Sinto-me como se esperasse um comboio para sair de uma estação onde a vida vai melhorar. Quero que chegue logo o próximo capítulo. Maria do Céu agradecia o mel, beijava a amiga e acenava ao gato. Cuida dela, Gaspar!

Teresa também achou que o avançar da gravidez da amiga, e a solidão, deram força para António se tornar visitante frequente. Gaspar, desde o primeiro momento, odiou-o: arqueava o dorso e bufava, pronto a saltar-lhe à garupa. Teresa, com pena, punha-o na rua, mas à noite ele voltava, ressentido, não deixando que ninguém o afagasse nem aceitando comida. Teresa não percebia aquele ciúme.

Ciúmes, será? perguntava a Dona Amélia, que por sua vez passou a receber Gaspar quando António, o pretendente, ia visitar Teresa.

Pode ser. Ou talvez ele pressinta alguma coisa. Usa juízo, Teresa. Se ele te abandona?

Não vai ser assim, Dona Amélia. Acredito nele.

Ó rapariga vê lá!

Tinham as duas razão.

Os enjôos matinais começaram, Teresa nem lhes deu importância, culpava o iogurte azedo ou os cogumelos, mas passado pouco tempo já só queria dormir e comer. Ao encontrar Maria do Céu, que empurrava o carro de bebé, e desabafar, percebeu o que se passava.

Teresa, onde já vai isso? E já lhe disseste?

Atordoada pela novidade, Teresa sentiu a voz distante de dona Amélia: Ó rapariga vê lá. Aquilo recolocou-a no presente. Apurou o passo, precisava de falar com António. Tinha de pensar no futuro.

Mas o futuro apresentou-se solitário.

Desculpa, Teresa. Não pode ser. Quem me garante que é meu? Assim não quero. António afasta Gaspar com um pontapé quando o gato lhe salta às pernas. Sai do caminho!

Gaspar, ágil, ainda conseguiu morder-lhe a perna, levando António a dar um grito que fez Teresa sorrir, mesmo sem querer:

Larga-o, Gaspar! Vai-te envenenar! Não precisamos de quem não nos quer. Que siga o seu caminho.

Ficou muito tempo sentada à mesa, olhando a porta que António fechara atrás de si. Gaspar enroscou-se-lhe nos pés e, algo inabitual, saltou para o colo dela, onde se deitou a ronronar até Teresa o afastar.

Já chega de tristeza. Quero um chá quente.

O filho foi registado apenas com o nome dela. Teresa confrontou a jovem do registo:

Não tem pai. Nunca teve. Tem mãe, chega?

Maria do Céu preparou um enxovalzinho para o bebé, Dona Amélia arranjou um carrinho usado e pressionou o diretor da fábrica por um quarto maior. Mas as obras estavam paradas e ele só encolhia os ombros.

O quarto era gelado, por muitas mantas que Teresa usasse. Aceitou de bom grado que Gaspar se enroscasse ao filho: o gato tomava conta do pequenito e este, sentindo o calor do ruivo, acalmava. Teresa ria-se da dedicação felina, oferecendo-lhe o que podia, mesmo sendo pouco. Só com a ajuda dos irmãos conseguia manter-se. António desapareceu da cidade, o que foi um alívio. Teresa apagou-o da memória, guardando só o melhor: o filho.

Os familiares surgiram em peso quando Teresa saiu da maternidade.

Que bochechas! Parece um pequeno São Jorge! Bem parecido contigo!

Teresa quase chorava de felicidade, coisa rara nela. Ninguém a censurou, pelo contrário: a cunhada do irmão mais velho abraçou-a, e murmurou-lhe:

Fizeste bem, Teresa. Agora nunca vais estar só. Vais ver que um homem bom ainda aparece, não percas a esperança. E pelo teu filho, todos ajudamos. Ele irá crescer bem, não te preocupes.

E assim foi. Cada quinze dias, um dos irmãos ia à cidade, trazendo de comer e de mimo para Teresa e o pequenito. Teresa chorava de alegria sabendo que não estava sozinha. Importante era saber que alguém se preocupa, que nunca deixarão um filho entregue ao destino.

A creche revelou-se dura. O menino adoecia, e Teresa andava entre o trabalho e o lar. Sem a interajuda de Dona Amélia e Maria do Céu, teria voltado à aldeia. Mas partilhar a casa com o irmão e cunhada parecia-lhe pior. Ao embalar o filho febril, pensava na desilusão amorosa e sonhava encontrar, um dia, alguém que fosse verdadeiro. Desejava quem lhe fizesse um chá, lha mandasse ir descansar, prometesse levar o filho ao Jardim Zoológico ao domingo e lho oferecesse um balão, quem elogiasse a sua sopa, arranjasse a prateleira e, sobretudo, ficasse. Só isso era família.

O sono vencia Teresa, caindo de cabeça na mesa ao lado do berço do filho.

Foi numa dessas noites que a vida mudou e finalmente pontuou o complicado capítulo que teimava em não terminar bem.

O menino estava doente havia dias, a febre não baixava, Teresa não tinha forças para mais. A médica da vizinhança vinha todos os dias, examinava o suarento e balançava a cabeça:

Faz tudo certo. Temos de esperar que ele vença isto sozinho.

Teresa, corcunda de cansaço, aconchegava o bebé nos braços. Dona Amélia trouxe canja quente, acariciou o neto e encostou a face na testa do pequeno:

Ainda está tão quente!

Não consigo baixar a febre.

Talvez seja bom sinal. É o corpo a lutar. Tem de ser.

Eu sei. Mas custa vê-lo assim. Sofre tanto, tão pequenino.

Vai passar. Agora, se não cuidares de ti, nem a ele irás servir. Comam e durmam. O amanhã traz conselho.

Teresa anuiu, preparando um cataplasma, quando dona Amélia foi embora.

Gaspar enroscava-se perto do menino na cama, fugindo ao toque. Quando o garoto adormeceu, Teresa foi aquecer a canja, mas ouviu vidro a partir-se e o choro do filho. Correu para o quarto e gelou: um rato enorme lutava com Gaspar, que já estava ferido, uma orelha aos bocados e o lado do corpo arranhado. De novo levantou uma banqueta, mas Gaspar saltou, cravou os dentes na garganta do bicho, e só largou quando a Teresa o conseguiu afastar.

Meu herói, Gaspar! Já está! Salvou-nos!

O gato miou como um bebé e foi mancar para junto do menino, que chorava e agarrava-se à mãe. Na cama, ao lado do filho, estava outro rato ainda. Teresa pegou no filho e, aos gritos, pediu ajuda.

Em pouco tempo, estava na casa de dona Amélia, esta entregou-lhe as chaves do seu próprio apartamento para que ficassem lá e prometeu cuidar do gato.

Uma vergonha! Ratos aqui! Mal tínhamos mandado dedetizar e logo isto! Dona Amélia limpava, tratava das feridas do Gaspar sem queixume.

És herói, Gaspar! Não foi em vão que ficaste cá. És um gato de ouro!

Gaspar recusou comida, não se lambia, respirava com dificuldade. De imediato, na manhã seguinte, Teresa deixou o filho com dona Amélia e partiu para a clínica veterinária.

Façam alguma coisa, implorava ela à jovem da receção. Preciso do melhor veterinário, já!

A rapariga, surpreendida com a urgência, chamou um colega. Um gigante entrou na sala, abaixando-se para não bater com a cabeça na ombreira.

O que se passa por aqui? perguntou num bass profundo que deixou Teresa boquiaberta.

Balbuciando, entregou-lhe Gaspar.

Foi um rato. Este gato salvou o meu filho.

Um herói, então. Vai ficar bem, deixem connosco!

Ele sorriu, apresentou-se: Sou Manuel. E a senhora?

Teresa. respondeu ela, tímida.

Se há coisa que aprecio é tranquilidade, Teresa. Agora cuide de si, eu vejo do seu salvador.

E cuidou. Anos mais tarde, o grande rafeiro ruivo entrava devagar no quarto das crianças, dava a volta a cada recanto, subia à cama junto na qual dormia o pequeno João. A Alzira, já grandinha, virava-se e enterrachava os dedos no pelo denso. Gaspar ronronava histórias misteriosas e a menina dormia, sem ouvir quando os pais, Teresa e Manuel, entravam para ajeitar mantas, a meias da filha, encostavam-se um ao outro.

Que babá este gato, Manuel!

É único. Vale ouro respondia Manuel, coçando atrás da cicatriz da orelha. Não te arrependerás de me teres ralhado na clínica, nem eu me arrependi de três dias sobre ele. Gatos assim são tesouros.

Já é de ouro, vês como brilha?

Gaspar encosta o focinho na mão da Teresa, adormece à beira da Alzira, protegendo-a. Teresa apaga a luz do candeeiro, chama o marido e fecha devagar a porta do quarto. Os meninos nunca temeram a escuridão: com Gaspar por perto, nada de mau poderia acontecer. E com ele, dormiam em paz.

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