A Muralha a Seu Favor

A parede do meu lado

Beatriz, porque é que te estás a meter nesta conversa? O Rui nem sequer olhou para mim. Estava junto à janela com um copo de vinho na mão, largo de ombros, seguro de si como sempre foi e falava baixinho, quase meigo, o que ainda piorava tudo. O António perguntou-me a mim, percebes? A mim. Não o aborreças com as tuas ideias.

O António Martins, nosso convidado, parceiro do Rui num novo projeto de logística, olhava para o prato como se procurasse respostas ali. Via-se o desconforto no modo como se mexeu na cadeira e pegou no garfo mesmo sem intenção de comer.

Só disse que no centro da cidade há espaços enormes ao abandono respondi com calma.

Beatriz. O Rui deu-se ao trabalho de me encarar então, com aquele olhar que aprendi a decifrar ao fim de vinte e sete anos. Não era zanga. Era pior. Era condescendência. Os convidados foram bem recebidos, a mesa está ótima, está tudo maravilhoso. Porque não vais buscar a sobremesa, sim?

À mesa estavam mais quatro pessoas. A Teresa, mulher do António, olhou-me de relance, num gesto onde podia ter relido um erro de solidariedade. Ou era imaginação minha. Levantei-me, recolhi alguns pratos e segui para a cozinha.

Lá dentro fiquei uns minutos quieta, virada para a janela escura por onde se viam as luzes distorcidas da chuva miúda no outono. No fundo do corredor ainda se ouvia a conversa, o riso do Rui, o tilintar dos copos. Tinha cinquenta e dois anos. Abri o frigorífico calmamente. Peguei no bolo que preparara de manhã e regressei à sala.

Era assim que se vivia.

A nossa casa ficava numa boa zona de Lisboa, onde moramos a vida toda. O Rui construiu-a quando o negócio pegou de vez, uns quinze anos antes. Ampla, dois andares, garagem e jardim que fui desenhando sozinha porque ele nunca tinha tempo e o jardineiro contratado não punha nada onde devia. Era bonita, a casa. Os convidados diziam sempre: que bom gosto, dona Beatriz, que sítio tão acolhedor. Eu sorria e agradecia porque era mesmo tudo feito por mim: desde as cortinas ao vaso de hortênsias na entrada, da prateleira à sebe de groselhas ao fundo.

Só que a casa estava no nome do Rui.

Eu nunca trabalhei no sentido que ele trabalhava. Conhecemo-nos na faculdade, dei aulas de desenho técnico e geometria alguns anos no secundário, depois nasceu o Miguel, e com o negócio do Rui a crescer chegaram as viagens, os jantares, as pessoas em casa, os eventos. Deixei de trabalhar fora. O Rui dizia sempre: Para que é que precisas desse ordenado insignificante? Eu trato de tudo. Tratava, sim. Bem, nunca me faltou nada, mas sempre que precisava de dinheiro para mim, ou pedia ou ia guardando uns trocos na rotina da casa.

Os colares e pulseiras começaram por acaso, há uns dez anos. Fiquei sozinha na casa da aldeia num fim de semana chuvoso, descobri numa caixa uns velhos berlindes de vidro esquecidos. Fiz um fio. Ficou surpreendente. Depois outro depois outro ainda. As amigas começaram por pedir para ficar com um, depois a dizer que pagavam. Comprei material de qualidade, tornei-me numa pequena artesã. Aquilo era meu, mesmo meu. Um recanto só meu.

O Rui via aquilo como vê o tomateiro que plantei no quintal. Ao menos ocupas-te, dizia ele, mas não penses a sério que vais vender alguma coisa. Para quê? Feira da Ladra?

Eu não respondia. Não havia muito a dizer.

O Miguel acabou por ir para o Porto, casou-se lá, ficou por lá. Encontrávamo-nos nos aniversários e por telefone ao domingo. Gostávamo-nos vivíamos, cada um, a sua vida.

A verdade é que eu não tinha vida.

Havia a casa e tudo nela, o marido, os amigos duas vezes por semana, os almoços solidários onde o Rui fazia contactos e eu era o rosto certo no vestido certo, sempre a sorrir no lugar certo. Era o trunfo humano do Rui. Um homem importante, família modelo, mulher elegante, anfitriã perfeita. Também é trabalho, entendo. Só não se agradece. Não se paga.

A carta veio em fevereiro. Um envelope banal, de um notário da Av. da Liberdade, nome desconhecido. Abri à mesa da cozinha enquanto o Rui dormia.

A prima da minha mãe, a Dona Laurinda Fonseca, vi-a três vezes na vida, a última há vinte anos num funeral, tinha falecido em dezembro. Sem filhos, deixou-me um prédio antigo. Não era apartamento, nem loja: era um antigo armazém industrial no centro de Lisboa, anos cinquenta, dois pisos, trezentos e quarenta metros quadrados. Abandonado há décadas.

Li a carta três vezes.

Depois telefonei ao notário.

Sim, Dona Beatriz, está tudo em ordem. A Laurinda escreveu-a como herdeira única. E também o lote do prédio é seu. Ela legalizou tudo nos anos noventa. Está limpinho.

Terreno em Lisboa? perguntei.

Sim, centro mesmo. Pequeno, mas localização invejável.

Agradeci, desliguei, sentei-me de novo com a carta nas mãos durante muito tempo.

Não falei nada ao Rui. Não sei bem porquê. Ou melhor, sei: imaginei a cena ele ia lá, via aquilo, dizia que era para demolir, vender, que conhecia o empreiteiro certo, movia contactos e voltava a sorrir, sempre dono do tempo dos outros. E eu a olhar, a sorrir de novo.

Primeira vez fui sozinha, disse que ia à Lourdes.

O edifício ficava numa travessa velha, atrás do Teatro Nacional. Um bairro onde as vivendas do século XIX se misturavam com prédios do Estado Novo e negócios modernos. Quase sem trânsito, empedrado. As árvores vinham já a prometer folhas.

O armazém impressionava: reboco podre, janelas do rés-do-chão tapadas a cimento, portão ferrugento. Mas as paredes estavam firmes. Dei duas voltas ao prédio, toquei nos tijolos, olhei para cima. Telhado segurava-se. Entrei por uma porta lateral esquecida.

Tectos altos. Grandes janelas com restos de vidros. O soalho de madeira do segundo andar apodrecido em pontos, mas seguro. No chão, mosaicos velhos sob camadas de poeira. Cheiro a madeira húmida e antiga.

Ali fiquei de pé, a olhar pelo buraco do telhado de onde se via o céu.

Senti uma coisa estranha. Não era medo, nem tristeza. Era algo parecido ao chegar a um sítio e perceber: este espaço é meu.

O notário revelou-se atencioso, quarenta e poucos anos. Tratou tudo em duas semanas. Fui eu a levantar os papéis, guardei-os numa pasta escondida no armário do meu ateliê de colares. O Rui nunca entrou ali.

A Lourdes, amiga de liceu que agora é agente imobiliária, liguei a contar-lhe tudo.

Tu estás a falar sério? perguntou ela, depois de um silêncio.

Estou.

Beatriz, isso vale ouro. No centro de Lisboa, prédio e lote, imaginas sequer?

Mas não quero vender.

Então o que queres?

Fiquei calada. Depois respondi:

Lembras-te das nossas idas às exposições no antigo Clube dos Artistas?

Claro, lembro.

Queria criar algo assim. Um espaço de encontro. Para arte, para ideias, para oficinas. Um centro, como se diz agora.

Ela ficou em silêncio novamente.

Isso é um mundo de dinheiro, Beatriz. Obras, canalizações, tudo

Sei disso.

E tens dinheiro?

Ainda não. Mas hei-de ter.

Não me fez mais perguntas. Gosto da Lourdes por saber ouvir e calar.

Decidi arranjar dinheiro pelo que sabia. Os colares. Ao longo dos anos fui guardando as melhores peças: pedras semi-preciosas do Gerês, pendentes artesanais, conjuntos no qual gastara semanas. Lourdes sabia de uma amiga com loja de peças exclusivas na Baixa. Ficámos assim: ela levava as peças e contava que era de uma artista que preferia discrição, o negócio levava uma percentagem modesta. A primeira remessa vendeu-se em três semanas.

Beatriz, nem imaginas contou a Lourdes perguntam quando chegam mais. Lembras-te daquele anel com labradorite? Vendi em duas horas.

Por quanto?

Ela disse a quantia.

Fui ao terraço respirar fundo. Naquele mês vendi tanto como nunca imaginei. Fui guardando tudo numa conta criada só por mim, num banco ao pé do notário. O Rui nada sabia desta conta.

Ao mesmo tempo encontrei quem reconstruísse. Não pedi favores ao Rui. Procurei por mim, vi perfis online, reuniões em cafés às horas em que o Rui estava no escritório. O empreiteiro escolhido era o Manuel, homem dos seus cinquenta, reservado, que olhou para as paredes como quem as entendia.

Paredes boas disse, batendo nos tijolos. O telhado precisa novo, chão do rés-do-chão também. Janelas todas, electricidade de raiz. Quatro meses de obra, se não paramos.

Não paramos.

Olhou-me, sério mas sem julgamento.

Muito bem.

Em casa tudo seguia igual. Cozinhava, recebia gente, ia a eventos com o Rui, ouvia-lhe conversas sobre investimentos e rotas. Às vezes ele dizia qualquer coisa e eu acenava mas pensava nas janelas novas. Que havia de pôr prateleiras altas para guardar telas. Que luz precisava o atelier.

O Rui não notava. Eu era fundo, e o fundo nunca perturba.

Uma vez quase falhei: encontrou na minha mala um talão da loja de tintas amostras de cor.

Isto é o quê? à mesa do jantar.

Comprei para casa.

Está aqui uma base para cimento

Quis renovar as paredes da cave, está húmido.

Encolheu os ombros e voltou ao telemóvel. Durou meio minuto.

O Manuel revelou-se bom mestre. Fazia devagar onde se devia, despachava onde era urgente. Falávamos pouco. Às vezes ia lá só para estar, a sentir o cheiro do pó misturado com esperança. Fisicamente bem. Respirava diferente lá.

Em junho a Lourdes foi ver o avanço: paredes lisas, janelas já postas.

Meu Deus, Beatriz, isto vai ficar lindo disse, a rodar sobre si.

Vai, sim.

Já sabes o que vais aqui fazer? Programação, essas coisas?

Sim. Exposições de artistas locais, há muitos sem espaço. Oficinas. Arrendar os ateliers. Pequeno café em baixo. Cantinho de livros.

Pensaste em tudo!

Penso nisto há três anos sorri. Não sabia era que podia ser real.

Em setembro conheci a Joana. Vendia bonecas artesanais numa feira, atrás de uma bancada pequena, a ler um livro. As bonecas eram especiais. Fiquei a olhar, peguei numa.

É a Joana que faz?

Sim, há sete anos respondeu-me. Gosta?

Muito. Beatriz, muito prazer. Vou abrir um espaço criativo aqui. Procuro gente para expor ou trabalhar.

A Joana largou o livro. Assim começou a reunir-se o grupo. Ela conhecia dois pintores locais, que trouxeram um escultor, que trouxe a dona de um curso de cerâmica desesperada por espaço. Em outubro já havia lista de doze à espera.

O dinheiro começou a faltar. Restavam-me poucas peças boas para vender. Ao Manuel era preciso pagar o final da obra, comprar luzes e a placa do espaço.

Vendi a última peça que queria guardar um conjunto de prata e ametista, trabalho de dois anos. A Lourdes ligou logo.

Beatriz, foi vendido em horas. Quem comprou ficou deslumbrada e pediu mais.

Não há mais sorri.

Custa-te?

Não respondi. E era verdade.

O edifício abriu em novembro. Não fiz festa. Só escrevi num grupo local que abria um centro de arte, aberto a quem quisesse. Na primeira noite apareceram uns sessenta.

O Rui estava em viagem. Disse-lhe que ia dormir à Lourdes. Está bem, aquecer janto eu respondeu ele.

Vi gente a olhar para as obras, conversas nas esquinas, mãozinhas curiosas nas bonecas da Joana. As minhas mãos tremiam; não era nervosismo. Era da espera longa e do finalmente.

O Manuel foi também. Encostou-se a uma parede.

Ficou bem resumiu.

Obrigada.

Obrigado eu.

Começou tudo a acelerar depois. Os ateliers alugaram-se, as oficinas de cerâmica enchiam. O café a cargo da Sofia (uma jovem empreendedora) abriu em dezembro e encheu-se logo, atraindo gente do bairro. O jornal do bairro escreveu umas linhas depois outro jornal.

Num desses dias cruzei o senhor Manuel, vizinho da rua da frente.

Foi a senhora que abriu? apontou.

Fui.

Vivo aqui há trinta anos e nunca vi nada neste beco. Fez bem.

Agradeci, caminhei até ao carro com sorriso imenso.

O Rui soube em janeiro. Por terceiros: um sócio leu a notícia num site e viu a foto da inauguração com o meu nome. À noite, já a sós:

Beatriz, tens algo para me contar?

Arrumei loiça, sem pressa.

Tenho, sim. Senta-te, faço chá.

Contei tudo: herança, obra, colares. Ouviu calado. A cara de negócios aquela onde não se lê nada.

Quando acabei fez pausa e disse:

Escondeste tudo isto.

Escondi.

Porquê?

Olhei para ele queria mesmo saber, ou pensava que queria?

Porque, se soubesses, tomavas logo a dianteira. Era o teu projeto. Eu ficava de fora.

Não é justo.

Não é, tens razão. E também não é justo nunca me teres perguntado, nestes vinte e sete anos, se eu queria alguma coisa. De verdade.

Levantou, encostou-se à janela com o chá.

Queres que te diga que estou orgulhoso?

Não respondi. Nem preciso que digas nada.

E não disse.

Morámos mais uns meses juntos, mas qualquer coisa mudou. Não barulhento, mas subtil, silencioso como o degelo.

Até ao baile.

O Baile de Beneficência da Câmara é um evento grande em Lisboa, todos os fevereiros. O Rui ia sempre. Este ano chegou convite em meu nome separado do dele. Uma senhora do comité ligou: ia atribuir-se um prémio de Novo Espaço Urbano e o meu Ateliê Laurinda, batizado em honra da tia, era finalista.

Sra. Beatriz, poderá estar presente?

Com certeza.

Contei logo ao Rui. Olhou-me de lado, como quem descobre um estranho.

Parabéns disse, seco.

Obrigada.

O vestido comprei eu. Azul-escuro, corte simples. Usei peças feitas por mim: anel de labradorite e brincos pequenos de granada.

Sentaram-nos em mesas diferentes. Ele, como membro do comité, perto do palco. Eu, entre outros nomeados em setor distinto. Cruzei olhares com ele. Ele acenou. Eu, de volta.

O salão era antigo, com estuque nas paredes e luz de candelabros. Imensa gente bem vestida, música, cheiro a flores frescas. Sentei-me direita, pensando que nem há um ano estaria na cozinha a ouvir a festa de outros do lado de lá da parede.

Chamaram a nossa categoria. Fui ao palco, devagar, tentando não tropeçar mas sem pressas notórias.

Lá, o presidente do comité, homem elegante, começou o discurso sobre a importância dos espaços culturais. Depois leu o meu nome, entregou-me uma pequena escultura em vidro e um envelope.

Quer dizer umas palavras? perguntou.

Recebi o microfone. Sala em silêncio. Vi de longe a Lourdes, sorridente ao fundo. Encontrei o Rui. O rosto dele mostrava qualquer coisa que não consegui ler bem: nem orgulho, nem mágoa, mas uma zona cinzenta entre ambos.

Quero agradecer a quem acreditou neste espaço antes dele existir disse. Aos artistas e mestres que vieram e ficaram. E à minha tia Laurinda, que nem imaginou o quanto me deixou.

Falei uns três minutos, não mais. Aplaudiram muito. Voltei ao meu lugar com a estatueta nas mãos.

A Lourdes veio logo abraçar-me.

Beatriz, viste-lhe a cara?

Vi.

E então?

Nada de especial.

O Rui veio falar comigo no final, já entre danças e risos.

Bonito discurso resumiu.

Obrigada.

Estás muito bem hoje.

Rui, não é preciso.

Ficou em silêncio.

Precisamos mesmo de conversar. A sério.

Precisamos disse. Em casa, sim.

Foi uma conversa longa. Não de gritos. Estamos ambos cansados deles, e na verdade nunca gritaríamos muito. Há outro cansaço: conviver ao lado de alguém sem de facto estar com esse alguém.

Disse-lhe que queria o divórcio.

Ficou calado muito tempo. Depois:

Há outro homem?

Não. Só quero a minha vida.

Mas tu agora já tens a tua vida.

Agora, sim. Quero mantê-la. Sozinha.

Levantou-se, deu umas voltas.

A casa?

Está no teu nome. Mas o lote onde a casa está é meu.

Parou.

Como?

Expliquei-lhe: quando tratei dos papéis da herança, descobri que o terreno foi passado para o nome da Laurinda há muitos anos foi ela que lho vendeu, e ficou em meu nome agora. O notário confirmou, pedi a um advogado para rever tudo. Tudo legal.

Ele olhou-me como nunca tinha olhado.

Sabias disto?

Soube aquando da herança.

E calaste-te.

Sim. Como tantas vezes também te calaste.

Sentou-se. Falámos ainda bastante sem gritos, sem lágrimas. Dois adultos cansados a verem-se de frente, talvez pela primeira vez em muito tempo.

Os advogados demoraram três meses. O processo foi discreto, sem dramas. Deixei-lhe a casa, mas nas condições do meu advogado. Com a compensação, ampliei o Laurinda, o café cresceu, abriu nova galeria em cima.

Mudei-me para um apartamento modesto, mas no mesmo bairro do ateliê. Quarto andar, janela sobre telhados antigos e uma tília torta que perfuma toda a rua na primavera.

Na primeira noite ali, acordei às três. Deitada na escuridão, escutei o silêncio nenhum barulho, nem respiração de ninguém, só carros distantes e chuva miudinha.

Cinquenta e três anos. Sozinha, mas sem medo. Só isso já era muito.

Um ano passou.

O Laurinda, ao segundo dezembro, estava a todo o vapor. Três ateliês sempre cheios, oficina de cerâmica três vezes por semana, listas de espera. A Sofia transformou o café num recanto de madeira e fotografias antigas de Lisboa, jazz ao vivo às sextas.

A Joana vendeu todas as bonecas e tinha encomendas, tornámo-nos amigas verdadeiras dessas que aparecem quando é tempo.

A Lourdes, rindo espontânea:

Beatriz, pareces dez anos mais nova.

Dormir faz milagres rio-lhe de volta.

Continuo a criar bijuteria não por dinheiro, por prazer. À noite, já tudo calmo, acendo o candeeiro da secretária, espalho pedras e prata, pego nas ferramentas e deixo-me ficar. Ninguém me pede nada. Só meu.

Encontrei o Rui por acaso uma manhã de dezembro. Eu a sair de um café perto do ateliê, ele a subir a rua. Reparamos um no outro ao mesmo tempo.

Parecia algo mais velho esse ano. Ou eu nunca o tinha reparadoou podia ser só hábito.

Beatriz cumprimentou.

Rui. Bom dia.

Ficámos parados um instante, a pausa habitual de quem se conhece há anos mas já não tem grandes temas.

Tudo bem? perguntou.

Muito bem, obrigada. E tu?

Na mesma respondeu. Ouvi dizer que abriram a segunda galeria lá no Laurinda.

Sim, em novembro.

Parabéns disse ele. Sincero, desta vez. Sem paternalismos. Só isso.

Obrigada.

Mais uma pausa, mexeu-se de pé para pé.

Olha queria perguntar: estou à procura de quem reabilite uns espaços no centro. Não sabes de ninguém de confiança?

Olhei-o. Senti ressurgir o velho instinto vinte e sete anos a ajudar, ser útil, resolver. Estava entranhado.

Sorri.

Não sei, Rui. Procura na Junta de Freguesia respondi, tranquila.

Sorriu, surpreendido mas sem mágoa.

Está bem. Boa sorte.

Para ti também.

Seguimos em sentido oposto. No fim da rua parei, ergui a gola do casaco, o frio era seco e bom. O ar cheirava a pinho e inverno.

Lembrei: à noite haveria jazz no Laurinda, ia passar por lá. A Joana ia inaugurar a nova série de bonecas, viria gente, a Sofia ia fazer bolo. As luzes estariam acesas, vozes, calor de dentro.

E segui caminho, finalmente, só minha.

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A Muralha a Seu Favor
Vítor, por favor, não fiques magoado. Mas queria mesmo que fosse o meu pai a levar-me ao altar. Ele é o meu pai de sangue, afinal de contas. Pai é pai. Tu… Bem, tu entendes, és o marido da minha mãe. Nas fotos vai ficar mais bonito se for com o meu pai, ainda por cima ele fica todo elegante de fato. Vítor congelou com a chávena de chá na mão. Tinha 55 anos. Mãos calejadas de camionista, costas já debilitadas. À frente, sentada, estava a Aline, a noiva. Linda, 22 anos. Vítor lembrava-se dela pequenina, com 5 aninhos, quando entrou naquela casa pela primeira vez. Escondeu-se atrás do sofá a gritar: “Vai-te embora, és um estranho!” Mas Vítor ficou. Ensinou-a a andar de bicicleta. Passou noites ao lado da cama dela quando teve varicela e a mãe, Vera, já quase não aguentava de cansaço. Pagou-lhe os aparelhos dos dentes (vendeu a motorizada para isso). Pagou-lhe a universidade (a trabalhar em dois turnos, destruindo a saúde). E o “pai verdadeiro”, o Igor, aparecia de três em três meses. Trazia um urso de peluche, levava-a ao Santini, contava histórias das conquistas no mundo dos negócios e desaparecia. Nem um euro de pensão. — Claro, Alininha — disse Vítor baixinho, pousando a chávena. — Pai é pai. Compreendo. — És o maior! — disse Aline, beijando-lhe a face áspera. — Por falar nisso, ainda falta dar o sinal do restaurante. O pai disse que transferia, mas os bancos bloquearam-lhe a conta por causa das Finanças. Podes avançar com cem mil? Depois devolvo-te… do dinheiro dos presentes. Vítor levantou-se, foi ao móvel velho, tirou um envelope do meio dos lençóis. Era o dinheiro do arranjo da sua velha Toyota. O motor já batia, precisava de ser reparado. — Leva. Não precisas devolver. É a minha prenda. O casamento foi de sonho. Num clube de campo, arco de flores naturais, animador caro. Vítor e Vera sentados à mesa dos pais, no seu único fato, já apertado nos ombros. Aline brilhava. Foi o Igor que a levou ao altar. Impecável, alto, bronzeado (acabado de chegar do Algarve), smoking alugado. Orgulhoso, sorrindo para as câmaras, a limpar uma falsa lágrima. Sussurravam: “Que classe! É toda do pai!” Ninguém sabia do smoking alugado — pago às escondidas pela própria Aline. No copo-d’água, Igor pegou no microfone: — Filhota! Lembro-me quando te peguei nos braços pela primeira vez. Eras uma princesa minúscula. Sempre soube que merecias o melhor. Que o teu marido te trate como eu tratei! Palmas gerais. Mulheres de lágrima no olho. Vítor, de cabeça baixa. Não se lembrava do Igor pegar nela ao colo. Lembrava-se que nem sequer foi buscá-la à maternidade. A meio da festa, Vítor saiu para fumar. O coração a queixar-se — música alta, ambiente abafado. Foi até à sombra do alpendre. Ouviu vozes. Era o Igor, ao telefone com um amigo: — Está tudo bem, pá! Casamento da filha, uma festa. Os papalvos pagam, a gente diverte-se. A filha cresceu, ficou jeitosa. Já fiz negócio com o noivo — o pai dele está na Câmara. Pisquei-lhe o olho, disse que o genro podia ajudar o sogro com o negócio. Parece que pegou. Vou carregar mais um bocadinho, sacar-lhe uns trocos, depois logo se vê. E a miúda? É apaixonada, adora o paizinho. Basta dois elogios, fica logo derretida. A mãe dela, a Vera, sentadinha com o cromo do camionista. Está acabada, credo. Ainda bem que me pus a andar a tempo. Vítor ficou sem palavras. Mãos fechadas com força. Queria avançar e dar um murro naquele pavão. Mas não. Porque reparou que, na outra ponta do alpendre, na sombra da hera, estava Aline. Tinha ido apanhar ar fresco. E ouviu tudo. Aline ficou imóvel, mão na boca. A maquilhagem perfeita já a escorrer. Olhou para o “verdadeiro pai”, que ria perversamente, a chamá-la de “recurso” e de “pateta”. Igor desligou o telefone, ajeitou a gravata, foi radiante para o salão. Aline deixou-se cair de cócoras, o vestido encostando na tijoleira suja. Vítor aproximou-se suavemente. Não disse “Eu bem te disse”. Não se vingou. Apenas tirou o casaco e colocou-lhe nos ombros. — Levanta-te, filha. Ainda apanhas uma gripe, isto está frio. Aline olhou para ele com pânico, vergonha. Daquela que dá vontade de desaparecer. — Tio Vítor… — murmurou. — Pai… O Igor… — Eu sei — respondeu Vítor, serenamente. — Chega. Já passou. Tens o teu casamento, os convidados estão à espera. — Não consigo voltar! — chorou, a borrar a maquilhagem com as lágrimas. — Eu traí-te! Escolhi-o a ele, pus-te num canto! Como fui tão burra! — Não foste. Só querias um conto de fadas — Vítor deu-lhe a mão forte, quente, calejada. — Às vezes, os contos são escritos por aldrabões. Bora. Lava a cara, ajeita a maquilhagem, vai dançar. Não lhe deixes perceber que te magoou. O dia é teu, não é espetáculo dele. Aline voltou ao salão. Pálida, mas de cabeça erguida. O animador: — Agora… a valsa da noiva com o pai! Igor, todo sorrisos, abriu os braços no meio da pista. Silêncio. Aline pegou no microfone. Tremia, mas a voz era firme. — Quero mudar a tradição — disse. — O pai biológico deu-me a vida. Obrigada por isso. Mas a valsa dança-se não com quem dá a vida, mas com quem nos protege. Com quem curou joelhos esfolados. Com quem me ensinou a não desistir. Com quem deu tudo para eu estar aqui hoje. Virou-se para a mesa dos pais. — Pai Vítor. Danças comigo? Igor ficou parado, sorriso idiota a meio. Correu um murmúrio na sala. Vítor levantou-se devagar. Corado de vergonha. Foi ter com ela. Desajeitado, de ombros caídos no fato apertado. Aline abraçou-o pelo pescoço, encostou-se ao seu ombro. — Desculpa, pai — murmurava a dançar. — Desculpa, por favor. — Está tudo bem, pequenina. Está tudo bem — Vítor afagou-lhe as costas com a mão pesada. Igor ainda ficou um bocado, percebeu que o espetáculo acabou, fugiu para o bar e saiu da festa. Passaram três anos. Vítor está no hospital. O coração não aguentou tudo. Enfarte. Debilitado, deitado, soro no braço. A porta abriu-se. Entrou Aline pela mão de um menino de dois anos. — Avô! — correu o miúdo para a cama. Aline sentou-se, pegou na mão de Vítor e beijou todos os calos. — Pai, trouxemos-te laranjas. E caldo de galinha. O médico disse que o prognóstico é bom. Não stresses. Vais ficar bem. Já te comprei estadia na estância termal. Vítor olha para a filha e sorri. Não tem milhões. Tem um carro velho e costas lixadas. Mas é o homem mais rico do mundo. Porque é PAI. Sem “padrasto”. A vida põe tudo no seu lugar. Pena é, às vezes, o preço da lição ser a humilhação e o remorso. Mas mais vale tarde do que nunca perceber: pai não é o nome no registo, é quem te segura, quando cais. Moral: Não se deixem levar pela embalagem bonita. Muitas vezes está vazia por dentro. Valorizem quem está convosco nos dias simples, quem vos ampara e não pede nada em troca. No fim da festa, só fica quem vos ama de verdade, não quem gosta de brilhar à vossa custa. Já tiveram um padrasto que foi mais pai do que o próprio? Ou acham que o sangue fala mais alto? 👇👨‍👧