A Dona do Seu Próprio Lar: Como Ser a Rainha da Sua Casa em Portugal

Dona do seu lar.

Mariana, tu voltaste a deixar a manteiga destapada suspirou D. Emília, arrastando ruidosamente a cadeira para junto da mesa. Agora absorveu todos os cheiros do frigorífico durante a noite. Tiago, filho, põe antes um pouco de requeijão no pão, que comprei fresquinho ontem.

Mariana sentiu os dedos apertarem-se no cabo da faca. Continuou a cortar o pão em silêncio, tentando fazer fatias direitinhas, apesar de as mãos lhe tremerem ligeiramente. Lá fora chovia miudinho de outubro, gotas a deslizarem tortas no vidro, e a cozinha parecia-lhe pequena demais para três adultos.

Mãe, a manteiga está boa Tiago não levantou os olhos do telemóvel, mastigando distraidamente a sandes.

Pois, pois. Eu só digo isto porque me preocupo, não sabem vocês novos como as coisas estragam mal guardadas. Depois ficam com dores de barriga e quem vos vai tratar?

Mariana pousou o prato com o pão na mesa e sentou-se na sua cadeira. Sentia a cabeça a andar à roda desde manhã, um travo estranho na boca. Serviu-se de chá da marca Bom Dia, tentando convencer-se de que um gole quente lhe ia sossegar o enjoo.

Mariana, tu não comes nada insistiu a sogra, fitando-a por cima dos óculos. Estás magricela, filha. Tiaguito, como é que vais querer filhos de uma mulher assim? Filho precisa de mãe de saúde.

Qualquer coisa contraiu-se dentro dela. Mariana bebeu um gole de chá, quase a queimar, e forçou um sorriso.

Dona Emília, eu nunca tenho apetite de manhã, é costume.

Sempre, sempre No meu tempo íamos trabalhar com febre e ninguém se queixava. Agora a juventude falta ao trabalho por cada espirro. Eu já em tua idade tomava conta do Tiago sozinha, trabalhava e ainda tinha a casa em ordem.

Tiago levantou finalmente a cabeça.

Oh mãe, não é bem assim. A Mariana ontem ficou no escritório até às oito, estavam a entregar relatórios.

Pronto, pronto. Eu só me preocupo. Ainda são uma família jovem, já deviam pensar nos filhos e depois, com essa saúde fraca Enfim.

Mariana levantou-se, levando a chávena ainda cheia para o lava-loiça. No reflexo da janela viu D. Emília a pôr mais requeijão no prato do filho e a dar-lhe uma palmadinha carinhosa no ombro, sempre a falar para Tiago num tom doce.

Não te esqueças, filho, tens aquela reunião importante hoje. Passei-te a camisa azulinha a ferro, está na cadeira do quarto.

Junto do lava-loiça, Mariana apertava a chávena com as mãos frias, sentindo dentro dela crescer qualquer coisa escura e densa. Parecido a um cansaço, mas pior. Quase uma mágoa, mas mais fundo.

É engraçado, pensava ela, há três meses ficou realmente contente ao saber que a sogra vinha passar uns dias lá a casa.

***

D. Emília apareceu no fim de julho. Ligou tarde, voz quase a chorar tinha tido um azar tremendo, os vizinhos de baixo inundaram o apartamento dela em Leiria, estragaram-lhe o soalho, metade dos móveis, precisava de obra séria. Disseram-lhe que demorava só uma semana, no máximo dez dias.

Tiago, posso ficar convosco só uma semaninha? O hotel é caro e eu lá sozinha morria de tristeza pediu ela. Tiago nem hesitou.

Na altura, Mariana até achou boa ideia. A sogra morava longe, via-a nos natais e aniversários, davam-se bem, D. Emília era despachada, um pouco palradora, mas simpática. Desde que o marido morrera, cinco anos antes, tinha-se dedicado aos violetas na janela e ao arquivo onde trabalhava.

Em uma semana passa num instante disse Mariana ao marido, já a pensar como reorganizar a casa para receber a sogra. Há quanto tempo não conversamos mais a fundo com ela?

Tiago abraçou-a, beijou-lhe o cabelo.

És mesmo um anjo. Eu fico mais descansado assim, odeio a ideia da minha mãe sozinha naquela confusão.

D. Emília chegou com duas malas gigantes e uma caixa de cartão amarrada a corda. Mariana e Tiago foram buscá-la à estação, ajudam-lhe com tudo. A sogra parecia exausta, olhos avermelhados e boca fechada.

Obrigada, Mariane, por acolheres esta velha disse ela à porta. Juro que é só mesmo uns dias. Assim que arranjarem lá tudo, disparo para casa. Não vos quero incomodar.

Ao início, a presença da sogra era quase um descanso. D. Emília fazia almoços bons, limpava a casa, preparava o jantar para quando eles chegavam do trabalho. À noite, juntavam-se para um chá e bolachas Maria, que trancou trazer de Leiria, trocavam novidades, Tiago parecia outro: ria, conversava imenso, bastava vê-lo para saber que estava contente por ter a mãe perto.

Mas, ao fim de duas semanas, algo começou a mudar.

Primeiro vinham as pequenas coisas a sogra mexeu nos frascos do sal e das especiarias porque assim rende mais espaço, depois dobrou a roupa da Mariana no armário ao seu jeito. Mariana encontrava tudo noutro sítio, hesitava em comentar. Achava parvo, é claro.

Ah, Mariana, vi que tens pó nos cortinados dizia a sogra casualmente, servindo sopa. Isso faz mal, já te limpei hoje, ajuda na saúde.

Obrigada, D. Emília murmurava Mariana, envergonhada, com as bochechas rosadas. Dificilmente limpava os cortinados todas as semanas, com tanto trabalho queria só ler no sofá ao fim do dia.

Olha que não é crítica, filha, só a ajudar-te. Fica tudo mais leve assim.

Ao fim de três semanas, do empreiteiro chegaram más notícias afinal, o estrago era maior, tinham de mexer na eletricidade era mais uma semana, pelo menos.

Não vos incomodo, pois não, Tiaguito? É só mais um bocadinho dizia a sogra.

Oh mãe, claro que não. Tiago abraçava-a.

Mariana olhava para eles sem dizer nada. Um certo desconforto teimava em apertá-la no peito, mas empurrava-o para longe. Ora, mais uma semana, nada de mais.

Só que passou-se um mês. E depois um mês e meio. A sogra acomodou-se na sua casa de dois quartos e sala. Ficou logo com a divisão que era gabinete da Mariana, onde havia um sofá-cama e mesa de computador. Mariana agora trabalhava na cozinha ou no quarto, o que era um desconforto mas nunca pediu a sala de volta.

Tudo ao jantar passava a ser preparado pela sogra. A comida era excelente, mas sempre aquilo de que Tiago gostava: bacalhau, arroz de pato, bifes de cebolada. Mariana preferia peixe ou comida leve, mas parecia-lhe mesquinho reclamar.

Mariana, tu não comes nada outra vez a sogra abanava a cabeça. Tiago, olha para a tua mulher, está um fio de gente. Devia ir ao médico, alguma coisa não bate certo.

Mariana, de facto tu comes menos Tiago olhava-a preocupado.

Não tenho mesmo apetite, insistia Mariana, que era verdade, pois de manhã já andava enjoada, à tarde dava-lhe uma fraqueza estranha. Mas evitar ir ao médico era mais fácil que ouvir que era do stress. E como se dissesse em voz alta aquilo que sentia com a sogra ali? Impossível.

***

Em setembro, o trabalho apertou a sério. O contabilista da empresa onde Mariana trabalhava exigiu relatórios corrigidos com urgência, eram só três no escritório e o patrão não aligeirava. Ela chegava a casa às nove, muitas vezes quase às dez, exausta, com dor de cabeça.

A casa recebia-a sempre com o cheiro do jantar e o tom cantarolado da sogra.

Mariana, finalmente. Já jantámos, deixei-te sopa na panela, não mexas nas coisas na bancada que organizei ao meu jeito.

A Mariana assentia, aquecia qualquer coisa e mal conseguia engolir. Tiago aparecia, dava-lhe um beijo, falava do trabalho, a sogra sentava-se por perto, a tricotar ou folhear uma revista cheia de presença, como se o ar da casa tivesse ficado mais denso.

Tiago, achas que a tua mãe vai mesmo embora? perguntou-lhe Mariana certa noite, já na cama, no escuro.

O arranjo ainda não acabou murmurava ele, quase a dormir. Aguenta mais um bocadinho, coitada.

Mas já lá vai dois meses

É a minha mãe, está sozinha, custa-lhe. Não podes entender?

Qualquer coisa doía cá dentro. Mariana virou-se para o outro lado. Tiago caiu no sono, ela ficou a ouvir a sogra mexer-se, vá-se lá saber a fazer o quê, do lado de lá da parede fina.

No dia seguinte, a sogra logo a abordou:

Mariana, vamos limpar a fundo no sábado? Assim a casa fica mais arejada.

Queria recusar, mas D. Emília já tinha trazido o balde, a esfregona, o pano. Acabaram juntas a esfregar chão, limpar pó, com comentários constantes:

Olha aqui atrás do radiador, uma sujeira As cortinas estão a pedir uma lavagem. E frigorífico tens feito? De 15 em 15 dias, pelo menos, senão aparecem bactérias.

Mariana acenava, lá fazia, mas cada palavra era mais uma picadinha, um cansaço a aumentar. Não podia ser desagradável, afinal tudo era para ajudar.

E foi assim, quando setembro acabou, a Mariana percebeu: em casa dela, era visita. Já não era dona; a sogra tomava conta da cozinha, da lavandaria, da roupa. Passara a lavar e engomar as camisas do filho com amido.

O Tiago sempre gostou de sentir a camisa estalada dizia a sorrir. Habituou-se desde miúdo.

Mariana aproveitava os poucos intervalos em que a máquina estava livre para lavar as próprias roupas, a sentir-se quase uma intrusa, pé ante pé pela própria casa para não incomodar.

As noites começaram a ser estranhas. Sonhava que andava perdida em corredores infindos, à procura do seu quarto, com todas as portas fechadas à chave ou tentava cozinhar e todos os tachos e pratos desapareciam-lhe das mãos.

Acordava suada, o coração aos pulos. Muitas vezes, queria acordar Tiago, desabafar o sufoco, mas as palavras ficavam sempre presas na garganta. Como explicar que se sentia apagada por causa da sogra?

***

No início de outubro, as coisas ficaram realmente estranhas.

Uma manhã, acordou com um enjoo tão forte que mal chegou à casa de banho. Encostada ao lavatório, trémula, ouviu a voz preocupada da sogra do outro lado da porta.

Mariana, precisas de ir ao médico?

Não, Dona Emília, foi só qualquer coisa que comi.

Alguma coisa? Pois, fiz os panadinhos de frango ontem, estavam frescos, Tiago também comeu… só tu é que ficas assim.

O meu estômago é sensível, só isso.

Ao longo do dia a indisposição não dava tréguas. No emprego, a colega Bárbara notou.

Mariana, pareces um fantasma. Vai-te embora, aproveita e vai ao médico.

Mas ela não foi. Chegando a casa, viu a sogra com ar quase de mágoa:

Ficas o dia todo fora, Tiago estava aqui sozinho, ao menos dei-lhe um jantar como deve ser.

Foi para o quarto, fechou a porta e atirou-se para a cama, dor de cabeça a martelar. De ouvidos atentos, ouvia a voz da sogra, depois a resposta do Tiago, um tom brando para acalmar. Mariana fechou os olhos a desejar soltar um grito, um grito longo mas, como sempre, guardou o silêncio para si.

No dia seguinte, ao vestir-se, viu que a blusa preferida uma de seda branca tinha na gola uma estranha mancha amarelada. De véspera estava impecável.

Dona Emília, sabe o que aconteceu com a minha blusa branca? perguntou ela ao entrar na cozinha.

Que blusa?

Aquela branca. Estava limpa e agora…

Oh Mariana, não mexi na tua roupa. Deves ter entornado qualquer coisa.

Mariana olhou para ela e percebeu, de um modo cruelmente nítido, que estavam a mentir-lhe. A sogra sabia. Fê-lo de propósito.

Mas sem provas, só lhe restava vestir outra camisa e sair de casa com o peso a apertar-lhe o peito.

As esquisitices propagaram-se: desapareceu a sua caneca favorita, prenda do Tiago, sumiu e nunca mais a viram, e a sogra só se encolhia de ombros.

Se calhar caiu e partiu-se, deitaste fora?

Depois acabou-se o seu champô na casa de banho: uma embalagem quase cheia, vazia de um dia para o outro.

Pois, isso das tampas por vezes deixa sair tudo, acontece

Mariana desistiu de fazer perguntas. Limitava-se a tomar conta das obrigações, cada vez mais em piloto automático evitava entrar na sala, agora ocupada pela sogra. Tiago andava cada vez mais calado, dizia-se saturado. Discutiram duas ou três vezes.

Mariana, porque andas tão estranha? Porquê essa distância?

A vontade era de dizer a verdade: não aguentava a sogra sempre ali, sentia-se a mais, sem ar, uma estrangeira. Mas as palavras morriam na boca.

Só cansaço. Desculpa.

Ele puxou-a para si, num abraço.

Aguenta só mais um pouco. Falei com ela, o arranjo está quase pronto.

Mas os empreiteiros nunca acabavam. Cada semana era só mais um pouco, papel de parede, rodapés e a coisa ia-se arrastando.

***

No final de outubro, Mariana já não conseguia dormir. Dormia, mas era um sono inquieto, levantava-se pior do que se deitava, olheiras fundas, mãos a tremer.

Uma noite acordou com sons estranhos um roçar leve, um rumor do quarto da sogra. Ergueu-se no cotovelo. O ruído repetiu-se, depois silêncio total.

Perguntou no dia seguinte:

Dona Emília, ouvi barulhos ontem. Não acordou?

Não filha, durmo que nem uma pedra. É dos nervos, devias ir ao médico.

Poucos dias depois, sentiu um cheiro esquisito na casa, adocicado e quente, tipo cera de vela. Procurou o foco e era mais intenso à porta do quarto da sogra.

Acende velas, D. Emília?

Velas? Nem por isso… talvez vá cheiro dos vizinhos.

Mas o cheiro voltava todas as noites, mesmo fraquinho mas nítido. Mariana começou a acordar a meio da noite, apavorada, com a garganta apertada.

Um dia, falhando a rotina da sogra, foi lá ao quarto dela. Tudo parecia normal sofá feito, revistas, os violetas a enfeitar o parapeito. Abriu o roupeiro: vestidos todos alinhados. Em baixo, as malas e a famosa caixa atada a cordel. Mariana agachou-se, pronta a ver o que era, mas ouviu a porta de entrada. Saltou, saiu do quarto num ápice. D. Emília chegou com as sacolas do Minipreço.

Em casa, Mariana? Pensava que ainda estavas no escritório.

Senti-me mal, vim mais cedo.

Coitadinha. Descansa, eu faço-te um chá.

Nessa noite, voltou a sentir o cheiro da cera. E logo a seguir, no corredor, viu de soslaio uma foto dos dois num porta-retrato sempre guardada na cómoda do quarto agora na prateleira do hall. Pegou nela: o vidro intacto, mas o rosto da Mariana estava cheio de riscos finos, quase invisíveis, mas lá estavam, feitos a alfinete.

O coração engasgou-se-lhe no peito, as mãos a tremer ao segurar a fotografia assim arranhada.

Mariana, estás aí parada porquê? Tiago saiu do quarto, ainda a bocejar.

Olha… vê isto.

Ele analisou a foto, franziu-se.

Que é isto?

Não sei. Mas estava aqui assim.

Se calhar já vinha assim da loja, nunca reparamos?

Não Olha bem! Foram riscos, alguém fez isto com uma agulha!

Quem havia de fazer?

Mariana calou-se. Ambos sabiam bem quem era, mas dizer alto pareceu-lhe doido.

Esquece, devo estar a imaginar coisas.

Nessa noite não dormiu. Ficou a olhar para o tecto, a ouvir o marido a respirar, a temer qualquer ruído vindo do outro lado da parede.

***

Novembro entrou e o frio invadiu a casa. Mariana encolhia-se sob um casaquinho, sentia-se gelada por dentro. Os enjoos tinham piorado, raramente comia, sobrevivia a chá e torradas escondidas da sogra.

Mariana, tu não ficas saudável assim dizia D. Emília, cara franzida de preocupação, mas nos olhos brilhava um contentamento perverso.

A chefe reparou na mudança.

Mariana, tens cometido erros nos relatórios, as datas trocadas, as somas erradas não é de ti

Desculpe, D. Judite. Prometo mais atenção.

Se calhar devias tirar uns dias

Medo. Só de pensar em estar em casa, dias a fio, com D. Emília por perto preferia mil vezes trabalhar.

Estou bem, obrigada.

Bem não estava. Ia-se sentindo cada vez mais embotada. Cumpria o horário, voltava, sentava-se à mesa da cozinha Tiago tentava conversar mas ela respondia monosilábica. Ele aborrecia-se, começava a zangar-se.

Mariana, não sei o que se passa. Sinto-te a afastar-me, pareces um fantasma.

É só cansaço.

A minha mãe diz que nem comes.

A minha mãe. Mariana fitou-o:

A tua mãe diz muita coisa.

O quê?

Nada. Esquece.

Saiu para o quarto, ele não foi atrás.

Poucos dias depois, a coisa virou.

Mariana chegou a casa mais cedo do trabalho, seis e pouco. Normalmente apanhava a sogra na cozinha ou ao telefone. Mas o apartamento estava calado, era um silêncio estranho.

Foi higienizar-se e ouviu então um murmúrio. Voz monótona e baixa, vinha do quarto da sogra.

Ficou parva, escutou melhor. A voz continuava, a cadência de quem reza… ou entoa qualquer esconjuro.

Mariana aproximou-se de mansinho. A porta entreaberta deixava ver o tampo da mesa. Duas velas, grossas, acesas, faziam sombra nas fotografias à frente.

O coração saltou-lhe para a boca. Abriu a porta num ímpeto.

D. Emília estava de costas, inclinada sobre as fotos: uma do Tiago, outra da Mariana, esta última com o rosto riscado a marcador. Na mão, uma agulha reluzente. Fez menção de repisar a foto da nora com a ponta.

Dona Emília! saiu-lhe a voz rouca, quase desconhecida.

A sogra virou-se, lívida.

Mariana não esperava por ti

O que está a fazer?

Ela baixou logo a mão, enfiando a agulha para dentro.

Nada que te interesse.

Velas. Fotografias. O que é isto?

Já disse, não te diz respeito! Vai-te embora do meu quarto!

Qualquer coisa estalou dentro de Mariana. Todos aqueles meses de sufoco, mágoa, medo, transpuseram-se de uma vez só.

Do seu quarto? avançou, mãos a tremer. Isto é a MINHA casa! O MEU quarto, onde mora há três meses! Três!

Mariana, não grites…

Vou gritar! Chega de velinhas, de riscar fotos, de desaparecerem as minhas coisas! Basta de me envenenar a vida!

Eu não fiz nada! agora a sogra tinha um olhar frio como gelo. Tu é que acabas com a felicidade do Tiago! Com outra mulher já tinha netos, família a sério, tu és só trabalho! Tu não és mulher para ele, és um fardo!

As palavras bateram-lhe como bofetões. Mariana estava a arfar, os olhos cheios de lágrimas.

Como se atreve

Atrevo-me porque sou mãe dele! Dei-lhe tudo, criei-o sozinha! E tu? Vies-te roubar o meu filho!

Roubar? Nós amamo-nos, somos família!

Família? zombou ela. Que família? Nem um filho sabes dar-lhe. Olha bem para ti, seca, doente. Não chegas para ele.

E a última amarra partiu. Mariana empurrou as velas para o chão, rasgou a foto riscada e fixou-a firme:

Saia da minha casa. Agora.

O quê? Tu não tens esse direito!

Tenho sim! Sou a dona desta casa. A partir de agora, arrume as suas coisas. Saia daqui agora mesmo.

O Tiago nunca te perdoa!

Isso resolvo eu com ele. A senhora não dorme cá mais nenhuma noite.

Nisto ouviram a chave, Tiago entrou a correr, alarmado pelos gritos.

O que se passa aqui?

A mãe caiu-lhe em cima, pegando-lhe no braço.

Tiago ela está a expulsar-me, tua mulher insulta-me, manda-me embora!

Tiago olhou da mãe para a mulher, viu a foto rasgada, as velas no chão, a agulha. Demorou-lhe o olhar: da confusão, passou à percepção, depois ao susto.

Mãe… o que é isto?

Nada, filho… Estava a rezar…

A rezar? Com agulhas e fotos riscadas? Está a gozar comigo?

Só queria ajudar! Ela não serve para ti!

Chega! berrou Tiago, assustando a mãe e a Mariana. Basta.

Pegou na mala, ela começou a arrumar em silêncio.

Vai para a estação de comboios agora. Eu levo-a.

Tiago

Agora!

***

Uma hora depois, D. Emília saía. Arrumou tudo sem uma palavra. Tiago foi ajudá-la, calado. Mariana ficou no corredor, esvaziada das forças.

À porta, a sogra fitou-a com os olhos cravados.

Vais-te arrepender.

Nada respondeu. Tiago levou as malas, ela saiu. A porta fechou-se.

Ficou só.

O silêncio caiu pesado e denso. Foi ao antigo gabinete, olhou à volta: velas derrubadas, cera no tampo, fotos, resto de cenários sombrios. Arrumou tudo numa caixa, levou para a varanda, despejou no caixote.

Quando abriu as janelas de par em par para deixar entrar o frio húmido de novembro, sentiu enfim os pulmões a encherem-se de ar, como se respirasse finalmente.

Tiago voltou tarde, ainda com ar devastado. Entrou, atirou-se para cima da cama.

Deixei-a na estação, já vai a caminho.

Mariana sentou-se junto dele, agarrou-lhe a mão.

Desculpa.

Porquê?

Por tudo. Por chegar a isto

A culpa é minha, Mariana. Fui cego. Achei que era só cansaço teu, nem quis ver. Mas o que ela fez nunca imaginei.

Ela está sozinha, tem medo. Perdeu o teu pai, tu és tudo

Não é desculpa. Não para aquilo.

Ficaram ali. Tiago abraçou-a com força, e ela sentiu-o tremer.

Tive medo de te perder. Ultimamente eras tão distante, pensei que já não gostavas de mim.

Não. Estava a sufocar.

Não sufocas mais. Prometo.

Na manhã seguinte, acordou com o sol a entrar pelas cortinas. Ouvia-se apenas o tilintar de chávenas, não havia panelas nem voz de sogra.

Foi até ao quarto que recuperou. Só o sofá, a secretária, prateleiras livres. Seu gabinete, seu canto.

Na cozinha, Tiago preparava café.

Bom dia.

Bom dia.

Tomaram o pequeno-almoço juntos. Mariana comeu pão com manteiga e pela primeira vez em semanas não sentiu vontade de vomitar.

Mariana, tens de ir ao médico, sim? Tenho medo que não estejas bem.

Está combinado.

Ele marcou consulta. Mariana foi à contabilidade, e pela primeira vez em muito tempo, sentiu-se mais leve. Dir-se-ia que alguém tirou um peso de cima dela.

À noite, Tiago envolveu-a no sofá.

Estive a pensar na minha mãe. Ainda não ligou, desde que saiu.

Achas que está magoada?

Deve estar, mas… Mariana, não consigo cortar completamente. É minha mãe. Mas nunca mais te vou deixar assim. Prometo.

Talvez depois acalme, se vier visitar… Mas só como visita. Nunca mais a dormir cá, está bem?

Assim será.

E nunca a deixo sozinha com o nosso filho, enquanto não confio. Estou a ser má?

Não. Eu percebo. Concordo.

***

No dia seguinte a médica ouviu as queixas de Mariana, enjoos, fraqueza, falta de apetite.

E a última menstruação, já reparou?

Ela pensou. Há tanto tempo que não reparava.

Já não lembro, foi há mais de um mês.

Ora, vamos fazer um teste…

Positivo.

Parabéns, Mariana. Grávida de umas seis semanas. O mal-estar é normal nesta fase, vamos encaminhar para o centro de saúde.

Mariana saiu meio atordoada. Grávida.

Sentou-se no banco cá fora e chorou baixinho, de alívio, de felicidade, de medo, de tudo.

À noite contou a Tiago. Primeiro não acreditou, depois abraçou-a, rodopiou-a, beijou-a em êxtase.

A sério? A sério?

Seis semanas.

Não sei o que dizer. Isto é maravilhoso!

Jantaram finalmente felizes, de mãos dadas, e Tiago prometia-lhe um mundo seguro e ela acreditou.

***

Foram-se passando as semanas. D. Emília não ligou. Tiago tentou, não atendeu. Mandou só uma mensagem: Estou bem, não te preocupes. Mais nada.

O enjoo da Mariana suavizou, ela voltou a cozinhar pratos do seu gosto, os serões retomaram a alegria de antes.

Um dia ela há de querer visitar disse Tiago, no sofá, à lareira.

Sim, como visita. Dormir aqui, nunca mais.

Aceito. E não a deixamos sozinha com o bebé, pelo menos nos primeiros tempos.

Só assim.

Prometo-te paredes e regras, Mariana. Ela aceita ou não, mas paz aqui dentro não se negocia.

Encostou-se nele. Ouvia a chuva a bater na janela, a casa quente, tranquila.

Achas que vai correr bem? Filhos, casa, tudo?

Sim. Porque estamos juntos. Agora sei o que não quero nunca mais.

E pela primeira vez em muito tempo, Mariana sentiu-se forte, dona do seu lar, dona de si.

Tiago, promete-me: se alguma vez eu te disser não aguento, tu vais ouvir?

Prometo. Ouço sempre. Sempre.

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